Olhar tático ao AVS x Sporting: a lenta variação de flanco dos leões, os ajustes de Rui Borges ao intervalo e a importância de Pedro Lima nas transições

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O Sporting comprometeu as suas aspirações aos lugares de Champions League depois de empatar (1-1) na deslocação à Vila das Aves, frente ao AVS, na 31.ª jornada da Primeira Liga. Rui Borges procedeu a várias alterações no onze inicial, comparativamente ao jogo a meio da semana com o FC Porto para a Taça de Portugal, fazendo descansar várias peças que estavam no limite físico, a que se juntaram ainda algumas ausências por lesão.

Gonçalo Inácio e Morten Hjulmand não puderam dar o seu contributo devido às lesões contraídas no Estádio do Dragão, enquanto Luis Suárez, Maxi Araújo, Eduardo Quaresma e Geny Catamo foram relegados para o banco de suplentes. Assim, Georgios Vagiannidis, Ricardo Mangas, Georgi Kochorashvili, Pedro Gonçalves e Rafael Nel surgiram como titulares nos leões, com o objetivo de trazer também outro dinamismo físico à equipa.

Do lado do AVS SAD, que viu confirmada a despromoção à Segunda Liga na última jornada, João Henriques não pôde contar com o ponta-de-lança Tomané, castigado, e chamou para o seu lugar o paraguaio Diego Duarte. Face ao último onze diante do Rio Ave, Guilherme Neiva entrou para o lugar de Óscar Perea.

No plano tático, percebeu-se desde cedo a estratégia do AVS SAD para condicionar ao máximo o jogo ofensivo do Sporting. Através de um 4-3-3 muito compacto e em bloco baixo, a equipa de João Henriques foi fechando o corredor central, com linhas muito juntas e vários elementos nessa zona para dificultar o jogo interior do Sporting, incluindo os três médios e a ajuda dos extremos, que fechavam por dentro.

AVS SAD x Sporting
Fonte: João Freitas / Bola na Rede

Para contrariar essa disposição, Rui Borges colocou um dos médios – maioritariamente Kochorashvili – mais baixo, enquanto Hidemasa Morita, Trincão, Rafael Nel e Pedro Gonçalves ocupavam a zona central, procurando fixar vários jogadores do AVS. Assim, o objetivo passava por facilitar a entrada de bola nos corredores laterais, onde existia espaço para explorar. Com os laterais do Sporting, Georgios Vagiannidis e Ricardo Mangas, sempre muito projetados, os leões foram recorrendo aos corredores, sobretudo a Geovany Quenda no lado direito, com o intuito de, a partir daí, cercar o último terço e ferir a baliza do AVS. Com o corredor central congestionado, Pedro Gonçalves e Rafael Nel procuraram sobretudo diagonais curtas para receber a bola já dentro da área adversária, permitindo ao Sporting visar a baliza de Adriel em vários momentos.

Ainda assim, e perante um AVS em bloco baixo e muito compacto por dentro, era importante que o Sporting rodasse a bola em largura e tivesse uma variação de flanco fluída e rápida, para tentar apanhar em contrapé o lado contrário do bloco, teoricamente menos povoado. Com a equipa do AVS a bascular para um lado, seria extremamente importante que o médio mais recuado – por vezes Kochorashvili (Daniel Bragança teria sido importantíssimo nesse sentido) – ou até mesmo Debast, rodasse rapidamente a bola para os corredores. A partir daí, o extremo ou o lateral do Sporting procurava encontrar espaço e timing para que a bola chegasse a zonas interiores via passe, ou para provocar o cruzamento, aproveitando a presença de vários jogadores leoninos na grande área do AVS.

Apesar de um jogo ativo de Geovany Quenda, foi faltando sempre maior agressividade no ataque ao último terço por parte dos verdes e brancos. A meio da primeira parte, Rui Borges alterou as peças na frente de ataque, colocando Francisco Trincão a partir da direita, Pedro Gonçalves no corredor central e Geovany Quenda na esquerda. A partir dessa posição, o Sporting foi explorando a relação entre extremo e lateral, com Quenda a servir Ricardo Mangas nos overlaps e underlaps, procurando entrar na área ou ganhar a linha de fundo para o cruzamento. No entanto, faltou alguma definição, quer no cruzamento, quer no último passe.

Do lado do AVS SAD, o objetivo de João Henriques foi claro. Nas saídas de bola, a equipa optou quase sempre por soluções longas para evitar a pressão do Sporting. Com bola, o plano passava por explorar as transições, tirando partido do bloco baixo do AVS e, consequentemente, do bloco mais projetado dos leões. Nessas transições, Pedro Lima assumiu o papel principal na ligação entre setores, conduzindo a bola em progressão e procurando acelerar para os extremos Tunde Akinsola e Guilherme Neiva, conseguindo, em alguns momentos da primeira parte, dar sequência perigosa às saídas do AVS SAD.

AVS SAD x Sporting
Fonte: João Freitas / Bola na Rede

Na segunda parte, e perante a lentidão na circulação, Rui Borges ajustou, sobretudo atrás, para melhorar a variação de flanco. Georgi Kochorashvili passou a lateralizar mais vezes à esquerda para criar superioridades no corredor, tendo em conta as fragilidades defensivas de Tunde Akinsola, como explicou Rui Borges em resposta ao Bola na Rede. Com este posicionamento, o georgiano passou a estar mais enquadrado para variar o jogo através do passe longo e saltar etapas na construção, fazendo a bola chegar mais rapidamente ao corredor.

Além disso, o treinador português centralizou mais Debast, valorizando a sua excelente qualidade de passe e reduzindo o envolvimento de Diomandé na primeira fase de construção. Ao estar centralizado, tornava-se mais fácil rodar o jogo para qualquer um dos flancos e ganhar segundos, evitando que a bola tivesse de passar por vários jogadores e obrigando o AVS SAD a uma basculação mais rápida.

A equipa do Sporting melhorou e chegou ao golo logo aos 47 minutos, na sequência de uma insistência pelo corredor direito de Vagiannidis, que cruzou para o segundo poste, onde Rafael Nel apareceu para finalizar. Dez minutos depois, e tendo em conta a melhoria do Sporting sobretudo pelo corredor direito com as incursões de Vagiannidis, Rui Borges refrescou esse lado, lançando Geny Catamo para o lugar de Geovany Quenda, aproveitando o momento e a frescura física do extremo moçambicano.

AVS SAD x Sporting
Fonte: João Freitas / Bola na Rede

Ainda assim, com o Sporting mais estabilizado no jogo, o AVS SAD chegou ao empate na sequência de uma grande penalidade convertida por Pedro Lima, aos 66 minutos, após infração de Hidemasa Morita. A partir daí, a equipa do Sporting projetou-se mais no ataque e, fruto de alguma ansiedade, foi permitindo ao AVS SAD sair em contra-ataques perigosos, muitas vezes em igualdade ou até superioridade numérica perante a defesa leonina.

Para condicionar o jogo interior e exterior do Sporting, o médio defensivo do AVS SAD, Roni, recuou para a linha defensiva de quatro sempre que a equipa não tinha bola, criando superioridade na última linha e fechando o corredor central. Além disso, o objetivo passava também por dar mais segurança ao lateral do lado da bola nos duelos, permitindo-lhe sair ao portador com o apoio do central na cobertura.

A equipa de Rui Borges teve também as suas oportunidades para marcar, mas encontrou um Adriel inspirado, que foi travando, de todas as formas e feitios, os remates leoninos. Até ao final do encontro, o resultado não se alterou e o Sporting sofreu um duro golpe na luta pelos lugares da Champions League, tão importantes para os clubes portugueses não só pelo prestígio, mas também pela receita que a competição proporciona. Resta agora à equipa de Rui Borges vencer os quatro jogos que faltam na Primeira Liga e esperar por um deslize do Benfica, que ainda defronta Famalicão, Braga e Estoril Praia até ao final do campeonato. Já o AVS SAD, apesar da descida, apresentou uma boa réplica, numa fase em que já nada tem a perder.

Rodrigo Lima

Rui Borges Sporting
Fonte: João Freitas / Bola na Rede

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: O Sporting procurou muito os corredores laterais ao longo do jogo para explorar a relação entre extremo e lateral. Pergunto-lhe de que forma tentou condicionar o jogo exterior do Sporting? E qual foi o plano estratégico da equipa no processo ofensivo?

João Henriques: Sim, nós sabíamos que o Sporting era muito forte naquilo que conseguiu, na segunda parte, fazer com mais frequência por dentro. Para condicionar isso, tentámos colocar mais gente por dentro. Nos corredores, o Sporting coloca muito mais gente no corredor direito do que no corredor esquerdo, com a dupla abertura de lateral e ala, envolvendo ainda Trincão, mais um médio desse lado e o central que conduz, e nós tínhamos isso bem preparado. Era com a entrada do Rony na linha de quatro para ficarmos protegidos por dentro e por fora e impedir que houvesse essas situações. No golo do Sporting, infelizmente, por um ressalto, conseguiram conquistar esse espaço e conseguiram-no mais algumas vezes pela qualidade dos jogadores do Sporting. Tem dinâmicas muito interessantes. Do lado esquerdo, com menos gente, mas sempre com o Pedro Gonçalves por dentro e o lateral na largura, com o médio a encaixar entre o lateral e o central para fazerem três, e nós igualávamos com 3×3 nessa situação. Fomos tentando impedir que entrassem por esses espaços. Obviamente que o Sporting depois foi por cima, com mais passes longos, a rematar de fora da área, tentou de todas as maneiras e, na maioria das vezes, fomos muito competentes. Quando não o fomos, tivemos o Adriel nas boas defesas que fez. Obviamente que queríamos as transições. Sabíamos que a exposição do lateral esquerdo abriria espaço por trás dele. Sabíamos também que o Pedro Lima estaria entrelinhas, muitas vezes com capacidade de condução para depois libertar nos alas. Nós estávamos muito condicionados no banco. Tínhamos dois guarda-redes, um deles júnior, e depois cinco jogadores disponíveis, foram os cinco jogadores que entraram. As questões da fadiga e dos jogadores indisponíveis do lado do Sporting estavam um bocado equivalentes às nossas. Tínhamos o Tomané de fora, sem alternativa, por castigo, e todas as outras ausências por lesão. Tivemos de alterar um pouco o modelo de jogo face ao que tínhamos no banco, para terminarmos num 5-4-1, para tentar impedir que o Sporting conseguisse fazer o segundo golo e tentar as transições. E por pouco não conseguimos fazer o golo.

Bola na Rede: O AFS foi fechando o corredor central ao longo do encontro e o Sporting procurou explorar os corredores laterais, em especial o direito. Ainda assim, pergunto-lhe se faltou alguma velocidade na variação de flanco, sobretudo na primeira parte, e que papel tiveram o Zeno Debast e Kochorashvili, no início da segunda parte, para tornar essa variação mais eficaz?

Rui Borges: Sim, disseste bem, analisaste bem. Na primeira parte, a nossa variação foi muito lenta. O AVS estava com um bloco muito baixo, até entrámos muito bem no jogo, mas o ritmo foi baixando e nós entrámos nesse jogo de bola muito lenta, quando a bola tinha de andar mais rápido. Na segunda parte, quisemos centralizar um pouco mais o Debast e puxar o Kochorashvili mais para a esquerda, porque o AVS tinha algumas dificuldades e o Tunde não marcava muito pelas costas, mas sim pela frente do nosso lateral e criar superioridades à esquerda. Foi isso que aconteceu na segunda parte. À direita, com a nossa dinâmica, tentámos depois acelerar mais com a entrada do Geny, dar mais frescura e aceleração. Conseguimos, criámos situações de golo, mas não finalizamos. É muito por aí.

Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

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