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Santo António e Katy Perry nas estreias em casa – Diário do Mundial 2026 #2

Diogo Ribeiro · 6 min

Folarin Balogun Chris Richards EUA
Foto: Federação Norte-Americana de Futebol

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No segundo dia do Mundial 2026, o Canadá e a Bósnia e Herzegovina empataram por 1-1 e os EUA golearam o Paraguai. Jogos serviram como estreias nos dois países anfitriões.

Lê também os outros capítulos do Diário do Mundial 2026. 

Dia de Santos pouco Populares | Canadá 1-1 Bósnia e Herzegovina

Bósnia Canadá Mundial 2026
Fonte: Federação Bósnia de Futebol

O dia, em Portugal, é de Santos Populares, mas no Canadá, bem longe – espacialmente e culturalmente – foi espaço para outros nomes brilharem. No primeiro jogo do Grupo B, nem Alphonso Davies, nome maior do futebol canadiano, nem Edin Dzeko, referência histórica bósnia, jogaram. Ambos com problemas físicos, viram do banco um empate que recompensa méritos distintos. Num grupo tão equilibrado, não dá para desperdiçar pontos.

Os espelhos de dois 4-4-2 deixaram espaços cobertos de forma idêntica e levaram o jogo para o plano da estratégia e das mais-valias. Aí, a Bósnia e Herzegovina, sem ter tanta bola, conseguiu superiorizar-se, mas o Canadá mudou algumas peças e foi atrás de um resultado que traduziu de forma mais real o que se passou dentro de campo.

Não é uma novidade nas seleções europeias no Mundial 2026 a fisicalidade e importância das bolas paradas. Aliás, até então, nos dois jogos com equipas do Velho Continente, só houve golos de cabeça e marcados com a bola parada. Alargando a visão para seleções como a Áustria, há um padrão bem claro sobre as principais armas de algumas seleções da terceira prateleira do futebol europeu.

Esmir Bajraktarevic Bósnia e Herzegovina Richie Laryea Canadá
Fonte: Federação Bósnia de Futebol

Sem Edin Dzeko, ainda a recuperar de lesão, o abençoado padroeiro do golo dá pelo nome de Jovo Lukic. Aos 27 anos, fez apenas a quarta internacionalização pela seleção principal depois de uma época onde foi melhor marcador na Roménia. Com todo o peso de render a maior lenda do futebol do seu país, surgiu em frente da baliza para ser feliz. As duas referências físicas na frente são mais-valia clara para Sergej Barbarez. 

De resto, em vantagem, a Bósnia e Herzegovina pôs o jogo a seu favor. Se até começou por pressionar mais alto, baixou linhas, encurtou espaços e procurou a transição. Somou exibições valiosas atrás, do veterano Sead Kolasinac, imbatível nos duelos, e Tarik Muharemovic, pela eficácia na área e capacidade no passe, souberam marcar lugar e, à frente, houve duas exibições fora do radar a permitir chegar à frente. Esmir Bajraktarevic é um dos nomes que mais entusiasma no panorama local e conseguiu iniciar ataques, limpando transições e abrindo o campo. Com mais peso no passe, Ivan Basic, referência criativa no meio-campo, também se mostrou.

Cyle Larin Canadá
Fonte: Federação Canadiana de Futebol

A Bósnia e Herzegovina nunca perdeu o perigo em transição, mas viu o Canadá mudar as condições de um jogo que, até pelo golo relativamente cedo, nunca esteve a seu favor. A seleção de Jesse Marsch precisa de implementar a pressão para somar recuperações alto e criar lances de perigo. Sem o estímulo da pressão, a seleção canadiana viu-se com mais bola, mas com menos sequência nas ações. Tani Oluwaseyi esforçou-se, mas o jogo do Canadá ficou preso nas ações dos extremos, pouco consequentes. As lesões lá atrás limitam a performance de uma linha defensiva tão exposta em campo. 

O selecionador foi ao banco, mudou todos os quatro jogadores da frente do ataque, e o jogo teve outra cara. Com os extremos a pé natural e dois homens de área, aumentou a ameaça e a recompensa chegou pelos pés de Cyle Larin. Foi muito contestado depois dos particulares pré-Mundial, foi relegado para o banco, mas em dois toques da bola voltou a marcar pontos por um lugar no onze. A popularidade não é imposta, mas conquista-se. Só uma nota antes do fim. Não há nenhuma zona do campo tão desenvolvida como a dupla de médios. Ismael Koné vai dar o salto no verão (ele que é colega de Muharemovic, também ele com futebol para palcos maiores). Exibição dominante no meio-campo, conduzindo a bola e definindo perto da baliza. Quando conseguiu maior ligação com Stephen Eustáquio, mais passador, o Canadá cresceu. Ficou conhecido o caminho para um sonhado apuramento.

Quase como o 4th of July | EUA 4-1 Paraguai

EUA Jogadores
Fonte: Federação Norte-Americana de Futebol

Não só de Santos Populares se fez o dia de Mundial 2026. Na estreia em solo norte-americano, Katy Perry deu o mote para um dia quase tão bom como o 4 de julho para os EUA. A cantora não entoou a letra de Fireworks, mas a seleção norte-americana foi protagonista da noite e roubou-a para si mesmo… quase tão bem como o 4 de julho.

Nunca, num passado recente, a equipa de Mauricio Pochettino tinha apresentado este nível, nem sequer algo próximo. Ainda mais meritório quando o Paraguai é olhado para lá do descalabro de uma noite: em 18 jogos nas competitivas eliminatórias sul-americanas, a equipa de Gustavo Alfaro sofreu 10 golos. Num jogo no Mundial 2026, foram quatro, quase metade. Só faltou o fogo de artifício, não é Katy?

Para lá dos muitos méritos dos EUA, há um preâmbulo a fazer: o que o Paraguai fez não só foi o anticompetitivo, como roça o inexplicável. Que uma equipa regida pela organização se tenha tentado agigantar de uma maneira tão descoordenada, com uma pressão bem mais alta que o costume, mesmo que por breves instantes, é de uma estranheza tal que não parece haver explicação simples. Sem a sua grande arma, a equipa de Gustavo Alfaro caiu e com um estrondo.

Folarin Balogun Tim Ream EUA
Fonte: Federação Norte-Americana de Futebol

Diz-se que nos EUA tudo tem outra dimensão, uma grandeza que tem tanto de estimulante como de desnecessária. Não foi isso que se verificou em campo. Mauricio Pochettino, que na Europa sempre passou a ideia gastronómica de um pão insosso, chegou às Américas com pompa e circunstância como se a sua seleção fosse um buffet de luxo, uma espécie de manjar de qualidade e quantidade em excesso. Quem só viu estes 90 minutos, achará que o argentino que chegou à terra do Uncle Sam a dizer maravilhas de Donald Trump e que, por várias vezes, colocou o foco na vitória no Mundial 2026 – não há qualquer tipo de exagero nestas palavras – afinal é um vidente dotado de toda a razão do mundo. 

Por mais que o Paraguai tenha sido subjugado como que por feitiço, ou por um decreto alfandegário repleto de tarifas, o que os EUA fizeram é relevante e aguça uma nova curiosidade. Terá sido uma ação isolada no tempo ou o princípio de uma caminhada que, se mantiver o nível, será no mínimo histórica. Os próximos jogos, num grupo sem favoritos claros, ajudarão a responder.

O 3-4-2-1 é a mais simples forma de bater um 4-4-2 e, partindo destas superioridades matemáticas, o engenho norte-americano desmontou por completo o espírito guerreiro dos sul-americanos. Com Tim Ream como primeiro destaque, livre de pressão e com tempo para dosear o passe, os ataques estavam lançados, principalmente sobre a esquerda, lado forte norte-americano. Antonee Robinson, um poço de energia perfeitamente endiabrado, jogou por todo o lado, e começou a enfeitiçar e hipnotizar Juan Cáceres para Christian Pulisic o atormentar como que por magia. O cognominado LeBron James do Soccer, grande esperança norte-americana, flutuou sobre a meia-esquerda, fechando um quadrado que superou em toda a linha qualquer posicionamento paraguaio e apresentou-se soltinho como ainda não se tinha visto esta época. Um autêntico super-herói no drible, nas combinações e na definição na área.

EUA Jogadores
Fonte: Federação Norte-Americana de Futebol

Aí, Folarin Balogun superiorizou-se em todos os aspetos aos centrais do Paraguai. Que o avançado tenha normalizado defesas com o nível de Omar Alderete e Gustavo Gómez, dois mauzões habituados aos cenários mais desconfortáveis, diz muito sobre o que os EUA foram capazes de fazer. Ainda assim, a exibição mais desconcertante é a de Weston McKennie. Para lá de Robinson, também Dest abria completamente, espaçando a defesa paraguaia e criando espaços vazios que rapidamente o deixavam de estar. Exibição de manual na projeção e infiltração no espaço entre defesas. De trás para a frente, o único jogador em prova a quem basta mostrar o cabelo para se comprovar a identidade, foi absolutamente dominante. Chegou vezes e vezes sem conta à área para definir com o passe ou com o remate. Do ponto de vista estratégico, o mais deslumbrante dos deslumbramentos. Nem Enciso, com um ou dois pormenores de craque, foi capaz de dar boas notícias ao Paraguai. Aliás, o bom estado físico do criativo é a única nota não negativa do dia para Gustavo Alfaro e companhia. O cozinhado foi ao forno, mas daí só saiu Pão Quentinho. Lido com uma pronúncia em específico, faz sentido. 

Diogo Ribeiro

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