O Benfica entrou em campo com o Hexacampeonato já garantido. Não haverá, no final da época, assim tantas exibições memoráveis em que uma equipa com o título no bolso decida não puxar o ‘travão de mão’ e jogar com tanta fome de vencer. Nesta consistência mental, explica-se a principal força das águias. A exibição na Luz, na vitória categórica (3-1) no dérbi diante do Sporting, é mais um dos vários triunfos que pode ser usado para explicar a superioridade encarnada nesta época, reinando com mão de ferro no futebol feminino nacional.
Contra o Sporting há, acima de tudo, uma primeira parte dominante e repleta de méritos táticos. Estrategicamente, as águias asfixiaram desde cedo com uma dinâmica de corredor direito muito bem oleada. Mais coletiva foi a forma como o Benfica conseguiu criar perigo pelas características individuais das suas jogadoras: Nycole Raysla aparecia colada à linha para dar largura e esticar a defesa leonina, o que permitiu a Lund, a partir da posição de lateral, assumir um jogo muito mais interior para criar superioridade. A atuar a ponta de lança, Diana Silva foi essencial neste processo: procurou incessantemente a profundidade, mas deu-se muito ao jogo associativo e apoiado das encarnadas, servindo de farol ofensivo. A partir daí, não foi preciso muito para surgir o primeiro momento de êxtase, com Lund a assinar um remate fortíssimo de fora da área que não deu hipóteses e inaugurou o marcador.


Em primeiro lugar, importa destacar a inteligência encarnada no miolo ainda na etapa inicial. Pauleta foi a peça-chave logo na primeira parte. Assinou uma exibição magistral e, com ou sem bola, foi o metrónomo da equipa. Dotada de uma classe invulgar, facilitou sempre o jogo às companheiras, descobrindo as melhores linhas de passe e variando o centro de jogo para retirar oxigénio à resistência leonina.
É certo que o Sporting procurou reagir e revelou-se de uma eficácia tremenda. A figura a causar mais dano do lado leonino foi Telma Encarnação. As encarnadas sabiam bem que, dali, podia sair um golo a qualquer momento devido ao seu enorme poderio físico e invulgar faro de golo. No entanto, o embate esbarrou na solidez de uma muralha: as defesas centrais do Benfica estiveram impecáveis a conter a esmagadora maioria das investidas. Foi apenas numa toada pragmática que as visitantes conseguiram gelar momentaneamente as bancadas da Luz, chegando ao 1-1 por intermédio de Mackenzie Cherry.


Ainda assim, importa também destacar a forma como a resposta das campeãs foi cirúrgica. Em cima do descanso, a inevitável Carole Costa não tremeu da marca de grande penalidade e devolveu a vantagem. Por muito que sejam assinaláveis todas as mais-valias de uma defesa central, Carole Costa cimentou aqui o seu estatuto quase surreal: mantém-se como a melhor marcadora da equipa e do campeonato, um registo raríssimo para quem atua no coração da defesa.
Na segunda parte, o Sporting subiu as linhas, atreveu-se mais e melhorou. Contudo, a maturidade tática superior do Benfica soube gerir as incidências, continuando a ferir com a velocidade de Nycole e Lúcia Alves nos corredores. O golpe de misericórdia surgiu já aos 89 minutos. Chandra Davidson aproveitou uma descoordenação na retaguarda do Sporting para fixar o 3-1 final. Só foram precisos mais uns minutos antes de se confirmar a festa completa na Luz, provando que esta equipa recusa a inibição e abraça o jogo como verdadeiras ‘Inspiradoras’.


BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Vimos o Benfica explorar muito os corredores, principalmente através de Nycole, encostada mais à linha, e Lund, num jogo mais interior. Eu pergunto o que é que pretendia com estas combinações.
Ivan Baptista: Acima de tudo, como eu referi na antevisão, o Sporting tem dinâmicas diferentes daquelas que encontramos na primeira vez que jogamos contra elas. Têm sido uma equipa, essencialmente, em 4-4-2. A verdade é que hoje apresentaram, aqui de início, uma cara ligeiramente diferente desse 4-4-2 que têm habitualmente apresentado e nesse 4-4-2 losangulo, clássico, muitas vezes sabíamos que os espaços estavam por fora e foi muito por aí, nós encaramos isto a tentar interpretar os espaços conforme aquilo que o jogo nos dizia, mas na preparação para este jogo tentamos prepará-las para que os espaços estivessem fora. Naturalmente com a qualidade que temos pelas nossas laterais, pelas nossas aulas em desequilíbrio, em capacidade até de idade física de preencher todo o corredor. Sabíamos que podíamos criar muitos muitos problemas por aí. Verdade que o Sporting entra no 4-2-3-1 e pareceu depois com algumas dinâmicas que faziam com que as jogadoras não estivessem muito estáticas e isso sim tivemos que fazer um ajuste ao intervalo que nos permitisse ter um bocadinho mais de estabilidade à frente da linha defensiva e, mas acima de tudo, o plano seria esse. A verdade é que depois as jogadores acabaram por encontrar espaços por dentro, espaços por fora e mérito total daquilo que foi a capacidade de leitura de jogo delas.
Bola na rede: O Sporting teve algumas dificuldades na saída de bola, principalmente na primeira parte. Pergunto-lhe: o que é que se alterou na segunda parte para ter havido melhorias, principalmente a sair a jogar?
Micael Sequeira: Sim, acima de tudo passou aquela fase de nervosismo de que falei. É natural para uma equipa jovem, com jogadoras que, em alguns casos, jogaram pela primeira vez neste ambiente com a camisola do Sporting. Isso pesou muito e notou-se bastante nos primeiros 20 minutos, em que tivemos pouca estabilidade com bola. Havia jogadoras com dificuldade em assumir o jogo, o que se fez sentir. Ao intervalo, procurei tranquilizar a equipa e libertar as jogadoras, pedindo-lhes que desfrutassem do momento de jogar neste ambiente. Importava aproveitar este palco para jogar com alegria e motivação, permitindo-lhes crescer a nível individual e coletivo. E acho que foi isso que aconteceu. A equipa estabilizou na segunda parte, as jogadoras libertaram-se, começaram a ter mais bola e deixaram de a perder com tanta facilidade, conseguindo articular melhor o jogo. Naturalmente, faltou-nos qualidade nos últimos 10 a 15 metros; não conseguíamos lá chegar para decidir com critério e criar situações de golo. Mas fica, acima de tudo, a boa imagem que as jogadoras deixaram. Deram tudo, tiveram atitude e sinto-me orgulhoso, porque elas queriam muito ganhar. Sabíamos que hoje seria muito difícil, porque do outro lado estava uma equipa super motivada que já conquistou o título. Portanto, foi um ambiente complicado, mas as jogadoras entregaram-se e procuraram disputar o jogo.

