5 pontos sobre a goleada do Sporting com 5 golos

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Diz o ditado que não há fome que não dê em fartura e que, a esta fome, não há nada como a vontade de comer. Depois de cinco jogos consecutivos sem vencer, com o peso acentuado pelos surpreendentes empates diante do AVS SAD e, em circunstâncias quase paranormais, contra o Tondela, o Sporting voltou a sorrir. E, depois de cinco desaires, nada como cinco golos para afastar o mau olhado que se abateu sobre a turma de Alvalade.

O Sporting foi superior ao Vitória SC no jogo mais importante da equipa até ao final da época. Por um lado, os leões voltaram a apanhar o Benfica na tabela, embora continuem a ter de esperar por um tropeço das águias. Por outro, um mau resultado acentuaria uma espécie de crise de fim de temporada que se fazia sentir. Pela diferença no marcador e, principalmente, pelo volume ofensivo, há um leão com uma nova cara para os dois jogos finais. O 5-1 sobre o conjunto de Guimarães permitiu ao Sporting recuperar a sua melhor versão e há explicações naturais. Eis os cinco pontos que explicam uma vantagem de cinco golos.

Primeiramente, e antes de qualquer estratégia pensada ou implementada, de qualquer questão tática ou referente à qualidade individual ou coletiva das duas equipas, os acontecimentos foram navegando a favor do Sporting. O ambiente em Alvalade, dentro e fora de campo, estava afetado pelos acontecimentos recentes, com um nervosismo que há uns tempos não se fazia sentir e uma sensação de desconforto sem grande explicação.

Thiago Balieiro Vitória SC Francisco Trincão Sporting
Fonte: Rui Pereira / Bola na Rede

Os primeiros minutos do Vitória SC, conseguindo associações no corredor direito e procurando chegar perto da área, foram a melhor fase vimaranense e a pior leonina no jogo. No entanto, numa das primeiras aproximações à área adversária, o regressado Gonçalo Inácio concluiu um livre bem estudado à área dos leões. Na segunda, a catadupa de jogadores que o Sporting mete por dentro foi jogando à altinha como se estivesse na praia antes de isolar Daniel Bragança que, com um chapéu perfeito, colocou o resultado em 2-0.

Nunca mais o jogo foi o mesmo e, mesmo que a vantagem traga recordações infelizes, nunca esteve sequer em causa. Antes do intervalo, o VAR viria a descobrir que Maxi Araújo estava em posição legal e o 3-0 para os balneários praticamente confirmou uma vitória bem mais simples do que muitos imaginavam. Se há dias em que nada corre bem, há outros em que os astros parecem estar alinhados. Numa época em que tanto se falou do leão ir à bruxa para ver se ajudava na onda de lesões, não é de descartar que também haja uma espécie de misticismo a atormentar a sorte verde e branca.

Se a tarefa fantasista de descobrir a alquimia pode parecer ter relevo em certos momentos, para explicar o inexplicável, a verdade é que o campo continua a ser soberano para se criarem e gerarem superioridades e vantagens. Diante do Vitória SC, os centrais leoninos foram fundamentais não pelo acerto defensivo, mas pela forma como permitiram iniciar lances de perigo e aproveitar o imenso espaço deixado pelo conjunto de Guimarães.

Zeno Debast Sporting
Fonte: Rui Pereira / Bola na Rede

Foi um jogo de profundo desnorte defensivo dos vimaranenses. Os erros começavam lá à frente, com marcações desajustadas, atrações fáceis que despovoavam o meio-campo e um demasiado à-vontade permitido aos centrais do Sporting. Se o espaço dado aos primeiros construtores leoninos já era excessivo, ainda mais o era quando se via Zeno Debast e Gonçalo Inácio com a bola no pé e tempo e espaço para calibrar o passe. Não há, no campeonato, uma dupla com tantos argumentos na saída de bola como o 6 e o 25 do Sporting. E, com espaço, foi um desfile de bolas na profundidade e a quebrar linhas como poucos se veem.

Houve outro ponto na estratégia do Sporting que ajudou a aumentar as crateras por dentro. Sem Morten Hjulmand, uma referência mais posicional, Daniel Bragança e Hidemasa Morita foram-se dividindo nas funções. Tendencialmente, foi o médio português o mais posicional à frente da defesa para ajudar na construção, mas também se viu o nipónico a baixar para permitir a Bragança subir metros. Em certos momentos, os dois conseguiram projetar-se de trás para frente e sobrepovoar o terreno central, como no lance do segundo golo.

Sem a referência do dinamarquês, a solução não está na réplica, mas na adaptação e no ajuste. Com dois médios capazes de funcionar a três alturas, dividir funções e posicionamentos dificultará marcações e obrigará a ajustes constantes que, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde terão falhas ou encurtamentos demasiado lentos, abrindo espaços. Nestes espaços, foi-se movimentando Francisco Trincão, quer como terceiro médio para criar superioridades e rodar, quer a toda a largura. Quer acionando o terceiro homem, quer colocando-se ele próprio de frente para o jogo, o Sporting foi crescendo.

Daniel Bragança Sporting
Fonte: Rui Pereira / Bola na Rede

Por fim, no que concerne ao plano estratégico, há um mérito grande aos jogadores dos corredores e a Luis Suárez na capacidade de chegar por fora ou de romper por dentro. Diante de um Vitória SC que procurava subir linhas, o Sporting criou um vendaval ofensivo e aumentou o espaço que tinha em campo.

As linhas subidas têm como principal objetivo o inverso, ou seja, encurtar o espaço disponível para se jogar. No entanto, com os jogadores do Sporting em situações legais, antes do fora de jogo, foram verdadeiros viveiros para lances de 1X1 com Charles Silva. Nos três últimos golos, não houve grande ciência senão a de esperar pelo momento certo de colocar a bola e pelo momento certo para começar a correr.

Nem foi preciso o jogo de maior acerto técnico das ações de Luis Suárez para o colombiano somar um golo e duas assistências. Neste momento da época, claramente sobrecarregado, teve terreno fértil para combinar com os colegas e atacar espaços. Também à esquerda, Maxi Araújo fez um jogo de forte impacto. Começou com alguns percalços defensivos, fruto da entrada forte do corredor direito do Vitória SC em jogo, mas cresceu a defender mais alto, nos momentos de pressão, e pela capacidade de romper. Sempre que o Sporting não chegou da forma mais direta, com uma bola no espaço livre, conseguiu criar espaço para receber por dentro e acelerar por fora. Aí, o uruguaio, que já vai na época mais concretizadora da carreira, soube destacar-se.

Luis Suárez Sporting
Fonte: Rui Pereira / Bola na Rede

Por fim, há um quinto fator que ajudou o Sporting, embora num jogo com estas características, nem fosse profundamente relevante. Houve banco para Rui Borges mexer com o jogo e, pelo menos, gerir os jogadores. Quando Hidemasa Morita, Geny Catamo e Gonçalo Inácio rebentaram, saltaram do banco Luís Guilherme (baixando Pote), Nuno Santos e Ousmane Diomande. Poucas vezes na segunda volta os leões tiveram um banco tão composto, algo permitido pelas recuperações recentes, principalmente de Luís Guilherme.

Enquanto esteve fora, foi algo desvalorizada a importância do brasileiro que, ao entrar para qualquer uma das posições da frente – embora seja à direita que mais rende – permitia uma rotação maior no ataque dos leões. No jogo com maior minutagem desde o regresso, voltou a mostrar que tem argumentos para, na próxima temporada, ser um nome importante nos leões. Não é assim tão comum ver por aí jogadores com capacidade para criar perante blocos baixos (pela capacidade do pé esquerdo provocar desequilíbrios), mas também em campo aberto, como o golo comprova.

Houve banco e dia santo para um Sporting a precisar de paz e tranquilidade. Os leões continuam a depender de terceiros para não ficar em terceiro, mas depois de um mês turbulento, há espaço para limpar a cabeça. É nas semanas limpas e no regresso aos triunfos que os leões assentam a preparação dos últimos três jogos numa época que só terminará no Jamor.

Luís Guilherme Sporting
Fonte: Rui Pereira / Bola na Rede

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: Do ponto de vista defensivo, o Vitória SC acabou por deixar muito espaço entrelinhas e também nas costas da linha defensiva. O que correu mal neste momento de jogo?

Gil Lameiras: Faltou, principalmente, pressão na linha da frente e depois, os jogadores que estavam a dar coberturas , terem mais que uma função, ou seja, não serem totalmente atraídos ao homem. Terem a referência do homem, mas também fecharem os espaços por dentro, e não foi isso que aconteceu. Fomos muitas vezes atraídos ao homem, não fechámos os espaços por dentro, o que levou muitas vezes a haver esse espaço entrelinhas que nem sempre foi encurtado pela linha defensiva. Tudo o que viemos a trabalhar até agora, a consistência defensiva, o rigor defensivo, não o tivemos e o Sporting, sempre que esticou um bocadinho mais o jogo, criou-nos muitas dificuldades. Como falei, faltou-nos essa dupla função da malta da frente, de pressionar mais um bocadinho e depois a linha defensiva controlar referências em apoio e rutura. Sinceramente, hoje não estivemos nada bem.

Infelizmente, não nos foi concedida a possibilidade de colocar uma questão a Rui Borges, treinador do Sporting.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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