FRIBURGO NA BRISGÓVIA- No futebol contemporâneo a mudança de treinador transformou-se em algo comum, com várias razões para que a mesma suceda. A mais comum é a falta de resultados, com as direções cada vez mais impacientes, exigindo o máximo de vitórias possível, mesmo quando um projeto está no começo, ou existe um processo de revolução. Há cada vez menos tempo para um técnico mostrar o que vale, moldar um elenco, impor a sua ideia. Em casos extremos, como no Brasil, chegamos a ver equipas a mudarem de líder três ou quatro vezes por temporada. Na Europa, o fenómeno não é tão recorrente. Ainda assim, em Portugal existem algumas equipas que mudaram de técnico pelo menos duas vezes: Tondela e Estrela da Amadora são dois exemplos, mas há mais.
Na Alemanha há mais paciência, mas o chicote também funciona. Contudo, na Floresta Negra existe um fenómeno especial, quase digno de outros tempos, quando os treinadores conseguiam estar quase uma década na liderança de um projeto. Nisto, o Friburgo ficou ‘atrás no tempo’. Desde 1991, a equipa germânica contou apenas com cinco treinadores:
- Volker Finke (1991 a 2007)
- Robin Dutt (2007 a 2011)
- Marcus Sorg (2011)
- Christian Streich (2011 a 2024)
- Julian Schuster (2024 à atualidade)
A paciência e a gratidão são virtudes que cada vez menos no desporto-rei, muito menos quando se trata de homens que estão no banco de suplentes, não aparecem em demasia durante as partidas.


Ao ver o histórico apresentado, podemos pensar que o Friburgo conseguiu somente sucessos, que justificariam a manutenção dos treinadores por muito tempo. Nada mais longe. Ainda que os fuchs tenham uma trajetória positiva nas últimas temporadas, afirmando-se como uma instituição de Bundesliga, também passou por desilusões. Volker Finke criou os Breisgau-Brasilianer (Brasileiros da Brisgóvia), mas também somou três despromoções, não conseguindo levar de volta a equipa ao escalão principal (Robin Dutt concluiu esse objetivo em 2009).
Christian Streich, outro ídolo do Europa Park Stadion, também desceu de divisão uma ocasião. A estrutura do Friburgo não viu razões para demitir estes dois técnicos, apesar dos números negativos em certas épocas. O único nome que não funcionou foi o de Marcus Sorg, que acabou por sair poucos meses depois da sua promoção, substituído pelo seu adjunto, precisamente Christian Streich.
Além dos poucos treinadores, o Friburgo aposta numa linha de continuidade, lançando para a ribalta técnicos que conhecem bem a casa. Marcus Sorg, hoje adjunto de Hansi Flick no Barcelona, trabalhou nas camadas jovens. Julian Schuster, que hoje em dia usa a braçadeira de treinador, foi jogador (e capitão), onde chegou em 2008, ainda em início de carreira, abraçando o desafio de ser assistente logo depois da sua retirada, em 2018. Bebeu ensinamentos de Christian Streich até 2024, altura para assumir o desafio de ser treinador principal. Os resultados estão à vista.


Hoje em dia, Julian Schuster é um dos treinadores da moda, não seguindo a regra da escola alemã, baseada na pressão alta, adotando um modelo próprio, mais cauteloso, mas feroz nos contra-ataques. O antigo defesa está bem no Europa Park Stadion e recomenda-se. Não é previsível que exista uma saída. Não é o tempo contratual que traz a segurança desta afirmação, mas sim as atitudes que têm sido tomadas no Friburgo nos últimos 30 anos.
O Friburgo não é apenas uma escola de jogadores, mas também de treinadores, o que torna esta instituição ainda mais especial. Fica complicado para os jornais realizarem manchetes com o futuro de Julian Schuster no cargo. Quanto muito, podem especular em relação a possíveis sucessores, ainda que não se faça sequer ideia de quando o treinador possa deixar o seu posto atual. A probabilidade de o próximo técnico já fazer parte da equipa é elevada, mas tendo em conta que o ex-defesa chegou ao banco em 2024, é válido pensar que o seu sucessor possa estar no plantel, seguindo os passos do timoneiro. Matthias Ginter, Christian Gunter, Vincenzo Grifo ou Nicolas Hofler são candidatos ao posto, nesta lógica de pensamento, sendo que todos conhecem o clube como a palma das suas mãos. Apenas Ginter e Grifo saíram da Floresta Negra para experimentarem outros projetos, mas voltaram a casa ainda a tempo de fazer a diferença.
O futuro é incerto, mas a ideia é para manter. E não é preciso que tudo corra bem, até pode existir um ano negativo, onde seja necessário afinar a máquina, sem demitir o maquinista.


O Friburgo é assim um exemplo para o resto do mundo. Numa era em que fazemos regularmente o exercício de entender que jogadores vão dar treinadores, podemos estender o desafio. Que nomes podem seguir os passos de Julian Schuster ou Christian Streich (cresceu somente na equipa técnica)? Em Portugal, muito poucos, já que cada vez são menos os atletas que ficam toda a carreira num só clube, optando por vários desafios. Uma decisão que se entende, principalmente com a globalização do desporto.
Christian Streich, outrora associado ao posto de selecionador da Alemanha, fechou a porta aos rumores e disse numa só frase o que os treinadores sentem, quando passam pelo Friburgo: «Eu sou o treinador do Friburgo e mais nada. Isso é desafiante o suficiente para mim».
O que mais se pode dizer? Este é o espírito da Brisgóvia, que cada vez mais treinadores e jogadores tendem em seguir. Onde está o encanto? Em muitos lugares, desde a Catedral, passando pelo Seepark, cruzando a Ponte Wiwilíbrücke, admirando-se os Bachle (canais que são uma marca do centro histórico, de origem medieval, que tinham como missão o apoio a incêndios e o fornecimento de água potável). Para Finke, Streich ou Schuster todas as ruas que levam ao norte de Friburgo são de alegria, caminhos a seguir, de maneira a se chegar ao Europa Park Stadion.



