O futebol tem destas ironias deliciosas: há empates sem história e há empates que ficam gravados para sempre na memória de uma cidade. O nulo entre Académico de Viseu FC e o Sporting CP B pertence claramente à segunda categoria. Porque o resultado dizia 0-0, mas o jogo contou muito mais do que isso.
O Académico entrou nervoso, sim — seria impossível não entrar. A subida à Primeira Divisão estava ali, a noventa minutos de distância, perante um Fontelo carregado de ansiedade e esperança. Mas, à medida que o encontro avançava, percebeu-se quem estava verdadeiramente mais perto de transformar aquele empate em vitória.
Foi o Académico quem teve mais intenção. Mais presença ofensiva. Mais vontade de resolver sem depender do relógio. A equipa viseense jogou quase sempre com o coração encostado à baliza leonina, empurrada por uma bancada que sentia cada lance como decisivo. Faltou talvez a serenidade do último toque, aquela calma que só aparece quando o medo de falhar desaparece. E numa tarde como aquela, ninguém estava verdadeiramente tranquilo.
O Sporting B teve qualidade na circulação, como quase sempre têm as equipas jovens do Sporting, mas viveu muito mais de transições do que de domínio. Ainda assim, o futebol gosta de provocar sustos até ao fim. E os leões quase congelaram o Fontelo perto do minuto noventa, em duas oportunidades que fizeram parar corações nas bancadas. Durante segundos, Viseu viu o sonho vacilar.
Contudo, talvez uma subida tivesse mesmo de ser assim: sofrida até ao último instante. Porque as conquistas que ficam são quase sempre aquelas que obrigam uma cidade inteira a prender a respiração.
Quando o árbitro apitou para o fim, percebeu-se que o Académico tinha feito mais do que segurar um resultado. Fez valer uma época inteira de consistência, resistência e ambição. O empate acabou por premiar a equipa que mais procurou vencer, mesmo sem conseguir marcar.
E há algo simbolicamente bonito nisso. O Académico subiu sem euforia artificial, sem espetáculo exagerado, mas com a maturidade de quem percebeu exatamente o que era preciso fazer para regressar ao lugar onde acredita pertencer. A Primeira Divisão deixou de ser uma memória distante contada pelos mais velhos. Voltou a ser realidade.
O 0-0 pode parecer pouco para quem olha apenas para o marcador. Para Viseu, significou tudo.
BNR NA CONFERÊNCIA DE IMPRENSA
Bola na Rede: Só isso, disse que a primeira parte foi tão bem conseguida. O que tentou transmitir à equipa ao intervalo? E como é que se sentiu a equipa perante também este resultado algo perigoso perante a vantagem do Torreense frente ao Vizela?
Sérgio Fonseca: Sim, nós, ao intervalo, corrigimos ali algumas situações no meio defensivo. Não estávamos a acertar. Estávamos a precipitar, a saltar na pressão quando íamos fazer e estávamos a fazer alguma intranquilidade. O que nós pretendemos foi corrigir esses momentos e depois, como disse, o Jogo vai desenrolando sem aquela incerteza. Um marcador traz alguma ansiedade, algum nervosismo? Acho que depois acabamos por fazer bem as coisas até ao final de jogo.
Nenhum responsável do Sporting B prestou declarações na sala de imprensa.

