A evolução tática do FC Porto rumo ao título e os pontos de crescimento identificados para a próxima época

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A conquista do título nacional por parte do FC Porto na temporada 2025/26 não pode ser analisada apenas pelos números ou pela regularidade exibicional. A equipa de Francesco Farioli construiu o seu sucesso a partir de um modelo de jogo extremamente detalhado, sustentado em princípios claros, mas também na capacidade de adaptação ao longo da época.

Num campeonato marcado por diferentes desafios táticos, desde blocos baixos e compactos até equipas com pressão alta e comportamentos homem a homem, os dragões foram encontrando soluções, ajustando dinâmicas e refinando mecanismos que acabaram por se tornar determinantes na caminhada para o título.

Mais do que uma ideia rígida que muitos defendem, este FC Porto revelou-se uma equipa em constante evolução. Ao longo da temporada, foram várias as alterações introduzidas por Francesco Farioli, quer na forma de construir, quer na ocupação dos espaços, quer na forma de pressionar, quer ainda nas distâncias entre jogadores. Essas nuances, muitas vezes subtis, acabaram por elevar o nível coletivo da equipa.

Neste sentido, importa olhar para três dimensões fundamentais: os mecanismos que sustentaram o sucesso, as alterações que potenciaram o rendimento ao longo da época e, por fim, os aspetos que ainda podem ser melhorados tendo em vista a próxima temporada.

Jogadores FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Dinâmicas estruturais do modelo de jogo do FC Porto

A mobilidade dos médios interiores foi uma constante, através de contramovimentos que alternavam entre apoio no espaço e no pé, ou a simulação de apoio curto para depois explorar a profundidade nos half-spaces. Esta variabilidade foi essencial para criar dúvidas nas marcações adversárias.

Os laterais, frequentemente posicionados por dentro, tiveram um papel fundamental na ativação da dinâmica do terceiro homem e na reação à perda. Esta ocupação interior permitia ao FC Porto manter o controlo estrutural e garantir superioridade imediata após a perda da bola. Além disso, estes movimentos interiores dos laterais criavam também linhas de passe diretas do defesa central para o extremo do lado da bola.

A criação de triângulos foi outro dos princípios estruturais do modelo, visível em diferentes zonas do campo: entre centrais e médio mais recuado na construção ou central, médio interior e lateral, nos corredores laterais com lateral, médio interior e extremo, ou ainda em zonas mais adiantadas com o ponta de lança e os médios interiores. Estas ligações constantes permitiam dar continuidade ao jogo e garantir soluções próximas ao portador.

Nesse sentido, o médio mais defensivo assumiu-se como um elemento importante na ligação entre setores, funcionando como um pêndulo na circulação. Foi frequentemente utilizado para receber diretamente dos defesas centrais ou, de forma indireta, após ligação dos laterais quando estes surgiam por dentro. Além disso, os recuos dos médios interiores também foram determinantes para facilitar a ligação no ‘6’, permitindo dar continuidade e fluidez à fase de construção.

Sem bola, destacou-se a importância do médio mais recuado baixar para a linha defensiva, formando uma estrutura de um 5-4-1. Este comportamento permitia maior controlo dos corredores laterais, cobertura do espaço entrelinhas e equilíbrio defensivo.

Na pressão, o FC Porto utilizou frequentemente uma primeira linha composta pelo avançado e por um extremo, com o objetivo de direcionar o jogo adversário para um dos lados. Na maioria das situações, os dragões orientavam essa pressão para o lado esquerdo, deixando do lado contrário um jogador como Alberto Costa com a função de gerir o espaço entre o extremo e o lateral, ajustando os timings dos saltos à pressão sobre o lateral adversário.

A importância de Diogo Costa na construção foi igualmente evidente, sobretudo como elemento-chave para gerar superioridade perante equipas que pressionam homem a homem. Para além do seu papel na primeira fase de construção, o guarda-redes revelou-se também fundamental na gestão do ritmo, ao variar entre a saída curta e o jogo direto. Em vários momentos, ao atrair a pressão adversária através da construção apoiada, o FC Porto conseguiu depois explorar a bola longa para o avançado, abrindo espaço entre setores e aproveitando o aumento do espaço entre linhas provocado pela subida do bloco adversário.

Outro fator determinante foi a bola parada, com destaque para a qualidade de execução de Gabri Veiga e para a capacidade dos jogadores portistas no jogo aéreo. Para além das dinâmicas táticas, destacou-se também um fator essencial: a maturidade competitiva. Ao longo da época, o FC Porto demonstrou capacidade para reagir a adversidades, gerir vantagens e manter o foco em momentos decisivos.

Jan Bednarek Francesco Farioli FC Porto
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

As alterações táticas no decorrer da época que elevaram o modelo de jogo do FC Porto

A descida de Victor Froholdt na primeira fase de construção foi uma das alterações mais relevantes ao longo da época. A presença do médio dinamarquês em zonas mais recuadas permitiu ao FC Porto ter dois elementos no meio-campo (Froholdt + médio defensivo) em zonas baixas, capazes de fixar as primeiras linhas de pressão adversárias, garantindo maior controlo na saída e mais soluções de passe. Este comportamento provocava um maior distanciamento entre a linha defensiva do adversário face à linha média/ofensiva, o que, por sua vez, abria espaço entre linhas para explorar na progressão. Nesse contexto, o outro médio, frequentemente Gabri Veiga, juntava-se ao ponta de lança e aos extremos em zonas mais adiantadas (4×4), ajudando a criar ligações e a fixar referências adversárias.

Com o avançar da temporada, Victor Froholdt passou também a aproximar-se mais da baliza adversária, destacando-se pela sua capacidade de chegada à área em movimentos de trás para a frente, sobretudo em contextos de cruzamento.

Outra dinâmica que foi sendo consolidada foi a lateralização dos médios interiores. Este comportamento permitiu retirar referências do corredor central, criar situações de dupla e tripla largura e beneficiar o jogo nos corredores, seja através de passes no pé ou na profundidade. Simultaneamente, libertava o médio mais recuado para receber livre e variar o jogo para explorar lado contrário. Em vários momentos, quando a bola entrava em Jan Bednarek (central do lado esquerdo) e se percebia a intenção de variar o centro de jogo, era visível o timing de Froholdt a procurar o corredor lateral, enquanto o lateral ocupava zonas interiores, com o intuito de criar dúvida nas referências adversárias.

No plano ofensivo, a segunda metade da época ficou também marcada pela importância de um extremo verdadeiramente desequilibrador. A contratação de Oskar Pietuszewski revelou-se decisiva nesse sentido, pela sua capacidade no 1×1 e pela forma como conseguiu desbloquear jogos em que o FC Porto encontrava dificuldades em criar vantagens pelo corredor central.

Outro aspeto que evoluiu ao longo da época foi a melhoria dos apoios frontais do ponta de lança, sobretudo de Samu Aghehowa. O FC Porto passou a procurar com maior frequência ligações diretas, seja através do médio mais recuado ou dos centrais, com o objetivo de encontrar o avançado e, através dos apoios frontais, colocar os médios de frente para o jogo. Esta dinâmica torna-se ainda mais relevante quando comparada com o papel que Brian Brobbey teve no Ajax de Farioli na temporada anterior.

Durante grande parte da temporada, destacou-se também o comportamento dos laterais a procurar zonas interiores e a posicionarem-se muitas vezes junto da última linha, tornando-se opção em momentos de finalização. Por fim, importa destacar o papel de Pablo Rosário. Para além da sua polivalência, foi determinante pela confiança no passe vertical e pela capacidade de encontrar espaço entrelinhas, oferecendo maior fluidez e imprevisibilidade ao jogo do FC Porto.

Pablo Rosário FC Porto Arouca
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Pontos de evolução para a temporada 2026/2027

Se numa fase inicial da construção os laterais surgem por dentro e os extremos dão largura, garantindo presença nas várias linhas do campo, a realidade é que, a partir daí, com as progressões pelo lado direito, por exemplo de Alberto Costa no corredor — Pepê tende a posicionar-se por zonas interiores. Ainda assim, considero que o FC Porto pode explorar mais o extremo a partir do corredor central, aumentando a variabilidade do jogo ofensivo.

Nesse sentido, o FC Porto pode também potenciar mais a troca posicional entre o médio interior e o extremo, mesmo numa fase inicial da construção: o médio a aparecer no espaço do corredor lateral e o extremo a surgir por dentro. Com timings e gatilhos bem trabalhados, este comportamento confunde as marcações adversárias e permite explorar tanto o espaço nas costas através do médio interior como o espaço entre linhas através do extremo. Importa referir que esta dinâmica já surgiu ao longo da época, mas acredito que, mais trabalhada, possa ganhar maior fluidez e consistência. Em particular, a relação no corredor direito com um jogador como Pepê, capaz de jogar tanto no corredor como por dentro, pode ser decisiva, deixando o lado esquerdo mais fixo para um extremo como Oskar Pietuszewski, onde este tem maior capacidade de desequilíbrio em largura.

Outro ponto passa pelo papel do “6”. Não sendo um perfil como Pablo Rosario e perante equipas que procuram cada vez mais fechar em 4-4-2, torna-se importante que o médio mais recuado tenha maior mobilidade, ainda que pontual: lateralizar e, em determinados momentos, colocar-se ao lado de um central para criar dúvidas nos gatilhos e nas referências da pressão adversária. Desta forma, o ‘6’ pode arrastar um dos avançados, receber com mais tempo e de frente para o jogo, enquanto o lateral pode envolver-se por dentro e subir no terreno. O objetivo passa por criar uma variabilidade que oferece outro tipo de soluções à equipa na construção.

Sabemos que Francesco Farioli privilegia o controlo do jogo, mas considero que, sobretudo frente a equipas de menor nível e perante blocos que fecham o corredor central, o FC Porto deve arriscar mais nas conduções dos defesas centrais, em particular de Jakub Kiwior, para criar superioridade e acelerar a progressão. É muitas vezes nesse comportamento que a equipa encontra espaço quando o “6” está fortemente vigiado. Em jogos como frente ao Santa Clara, por exemplo, era visível que uma das principais vias de progressão passava precisamente pela condução do central, permitir, numa fase mais adiantada, ligar entre linhas ou diretamente para o corredor lateral e acelerar o ritmo ofensivo.

Percebe-se a opção de Francesco Farioli por garantir maior controlo através de uma base mais estabilizada com os dois centrais mais baixos, mas as conduções do central podem ser asseguradas através de compensações que dão segurança às suas subidas em condução. Ou seja, quando o central progride, pode existir sempre um mecanismo de cobertura, com o médio mais recuado ou o lateral a ajustar a sua posição e a baixar para garantir o equilíbrio defensivo e evitar que a equipa se fragilize em caso de perda. Acredito que o FC Porto pode desbloquear vários jogos a partir desta solução.

Tendo em conta a participação na Champions League, será igualmente importante que Farioli consiga adaptar as alturas de pressão. Naturalmente, frente a adversários de maior poderio, o FC Porto não poderá pressionar alto de forma constante nem expor-se em cenários de 2×2 na linha defensiva. Nesse sentido, será essencial ajustar o bloco conforme o contexto do jogo, sem abdicar da identidade de pressão homem a homem, mas com maior leitura de risco. O próprio treinador já foi introduzindo esses ajustes ao longo da época, sendo o jogo frente ao Estugarda, em casa, um bom exemplo dessa necessidade de adaptação da altura do bloco.

Além disso, o FC Porto deve procurar tornar a variação e a troca de bola mais rápidas frente a equipas que, através dos extremos ou dos médios, conseguem rapidamente fechar o corredor central e, em simultâneo, pressionar os laterais do FC Porto. Jogos como os do Alverca e do Famalicão são exemplos de como a coordenação dos extremos adversários e o trabalho defensivo para fechar primeiro o corredor central e depois o corredor lateral dificultaram a criação de vantagens e superioridades, tanto por dentro como por fora. Nesse sentido, torna-se importante acelerar a variação do jogo e dar continuidade às trocas posicionais nos corredores laterais.

Por último, o papel do ponta de lança. Não é ainda claro em que condições regressará Samu nem se dará continuidade à evolução que vinha a demonstrar no jogo associativo. Com a saída de Luuk de Jong e com Deniz Gul e Terem Moffi a apresentarem perfis ainda pouco consolidados para esse papel mais associativo, fica a sensação de que o FC Porto precisa de um avançado com capacidade para ligar jogo, explorar profundidade e responder também ao momento defensivo em termos de pressão. Trata-se de um perfil difícil de encontrar, mas absolutamente determinante para garantir fluidez e variabilidade ofensiva. Importa ainda recordar que Farioli perdeu soluções importantes muito cedo na época, com as lesões de Samu e Luuk de Jong, o que teve impacto direto no modelo e na sua execução em determinados momentos.

FC Porto Festa
Fonte: FC Porto

Identidade consolidada, margem para crescer

O FC Porto de Francesco Farioli afirmou-se ao longo da época como uma equipa construída sobre princípios bem definidos, mas suficientemente flexível para se ajustar aos diferentes contextos competitivos. A riqueza dos seus mecanismos não se explica apenas pela repetição de dinâmicas, mas sobretudo pela forma como estas foram evoluindo em função dos problemas colocados pelos adversários e pelas necessidades internas da equipa.

Mais do que um modelo fechado, este FC Porto revelou-se um processo contínuo de adaptação, onde pequenos ajustes tiveram impacto direto na eficácia coletiva. A capacidade de gerir diferentes ritmos de jogo, de controlar sem abdicar da agressividade e de encontrar soluções em zonas-chave do campo acabou por ser determinante na consolidação da sua identidade competitiva.

Ainda assim, a evolução não é um ponto final. As melhorias identificadas ao longo da época mostram que existe espaço para aprofundar relações posicionais, acelerar decisões em determinados contextos e aumentar a variabilidade ofensiva perante blocos mais organizados ou jogos de maior exigência.

É precisamente nessa fronteira entre o que já foi consolidado e o que ainda pode ser refinado que se define a próxima etapa deste projeto. Um FC Porto que já demonstrou capacidade para vencer e controlar, mas que, na sua ambição de crescimento, deve continuar a procurar novas soluções para sustentar o seu nível em todas as frentes competitivas.

Rodrigo Lima

FC Porto jogadores
Fonte: FC Porto
Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

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