Conference League 2025/26, Final: 27 de Maio, Quarta-feira, 20h, RedBull Arena, Leipzig
A ANTEVISÃO: OLIVER GLASNER VS. IÑIGO PÉREZ, OS DOIS MELHORES DA COMPETIÇÃO
Dia de final entre Rayo Vallecano e Crystal Palace na Conference League. Quando Liam Rosenior trocou o Estrasburgo pelo Chelsea, no princípio do ano civil, acabava de deixar os franceses no topo da fase de liga. O Rayo também se qualificava directo para os Oitavos, com o 5º lugar. O Palace, que perdera dois e empatara outro das seis jornadas, era obrigado a disputar uma eliminatória a mais. Por essa altura, Glasner enfrentava o seu pior período enquanto treinador dos londrinos: depois de conseguir o primeiro troféu de sempre para o Palace, com a FA Cup 2024/25 conquistada frente ao City, vencera também a Community Shield, ao superiorizar-se ao Liverpool; Mais do que isso, a equipa só perdeu pela primeira vez a 10 de Outubro, ao décimo segundo jogo. Substituíra-se habilmente Eberiche Eze por Yéremy Pino e as coisas pareciam estabilizadas.
Mesmo que as divergências burocráticas com a UEFA tenham provocado a descida da Liga Europa para a Conferência, por ser proibida a coexistência entre clubes do mesmo dono. Por Textor ser ainda o legítimo dono tanto de Palace como do Lyon, foram os ingleses os sacrificados. Pouco mudava, no entanto: a grande preocupação do planeamento de Oliver Glasner tinha sido na profundidade do plantel e na capacidade de se conjugarem vários cenários competitivos. Foram-se aguentando os impactos do desgaste físico até 14 de Dezembro, quando o Palace deixou de saber ganhar.
A 16 de Janeiro, com a venda do capitão Marc Guéhi ao City, o pipo rebentou a Glasner. Revelou publicamente a intenção em não renovar para lá do Verão e acusou Steve Parish, o presidente, de abandonar a equipa, cortando-lhe as vazas ao não o apoiar no mercado. A 24, uma semana depois, dizia que as pazes já tinham sido feitas; A equipa, porém, só voltaria a ganhar a 8 de Fevereiro. A 20, ainda cambaleante, o Palace empatava em Mostar, frente ao Zrinjski, e já nem os adeptos conseguiam conter a impaciência: «You’re getting sacked in the morning!». O treinador austríaco resignava-se, admitindo que, «se calhar», não era «bom o suficiente» para dar a volta à situação. O Palace ia com uma vitória em 15 jogos…
Pela mesma altura, no pico invernal, a situação não era melhor em Vallecas. O pictoresco estádio, tão icónico como disfuncional, fora alvo de vídeos satíricos feitos por adeptos do Lech Poznan, em Novembro; Em Dezembro, a caixa de segurança destinada a receber os adeptos do Bétis era feita com… uma rede de voleibol. As intempéries agudizaram os problemas estruturais. A 11 de Janeiro, era o próprio treinador quem se manifestava contra as más condições: que o clube tinha «um terreno indigno de primeira divisão» e isso lhe dava «vergonha». A 25 de Janeiro, depois de receber o Osasuna, ninguém das duas equipas pôde tomar banho de água quente – uma caldeira tinha avariado na véspera e pagara-se 2400€ a um técnico para resolver o assunto à pressa.
Nada feito. Mais: na mesma semana, o treino da equipa principal é suspenso por alagamento do relvado e más condições das infraestruturas. A 7 de Fevereiro, a La Liga é obrigada a adiar a recepção do Rayo ao Oviedo e a mudar o jogo para Leganés. As responsabilidades da negligência atribuem-se, de forma consensual, a Raul Martin Presa, o presidente. Persona non grata em Vallecas, dizem os adeptos que a falta de investimento é gesto premeditado para arranjar motivos à construção dum novo estádio, afastado do bairro. Lutas políticas contra o mesmo Ayuntamiento de Madrid que já deu o aval à remodelação do recinto…
Mas o sonho comanda a vida. É mesmo verdade. E a perseguição do sonho consegue geralmente esconder certos problemas, relegando-os a incómodos futuros. Glasner soube reunir sobre si toda a pressão e expectativas e, com a bagagem da Liga Europa conquistada ao serviço do Eintracht, lá endireitou o Palace, confirmando o natural favoritismo dos ingleses num caminho contra Zrinjski, AEK Larnaca, Fiorentina e Shakhtar; Iñigo Pérez, que como jogador disputou a final da Liga Europa pelo Athletic Bilbao, foi adjunto de Iraola e só não foi com ele para Bournemouth por não lhe darem um visto de trabalho; As bases táticas operadas são as mesmas, com a reacção rápida à perda e a transição como pressupostos prioritários. É o primeiro treinador de sempre em Vallecas a colocar o Rayo no top10 em épocas consecutivas. À glória interna, nenhum rayista conseguia imaginar a junção do sucesso europeu, sendo para isso só preciso eliminar Samsunspor, AEK de Atenas e o mesmo Estrasburgo, já sem Rosenior mas não menos acessível – e o Rayo despachou os franceses de forma imaculada, com dois 1-0. Que feito foi, dum clube que só tinha participado nas provas europeias por uma vez, em 2000-01!
É difícil imaginar a euforia que se vive por estes dias tanto no bairro madrileno como no sul de Londres. A real diferenciação entre uma sempre possível conquista interna e uma incomparável glória internacional, episódio geracional ou inédito, prende-se com o impacto revitalizador, tanto no plano social como desportivo. A vitória em Leipzig dá troféu, dá sete milhões de euros de prémio e dá uma qualificação directa para a fase regular da Liga Europa, além de todo o combustível moral e cultural inerente.
E, por tudo isso, é evidente a importância da Liga Conferência como a verdadeira liga europeia de clubes pelo seu carácter democrático – dá oportunidade a todas as associações do continente, atribuindo as vagas no sentido ascendente do ranking – que possibilita o tão merecido glamour ao chamado futebol raíz. Por isso, outras curiosidades sobre últimos dias, sobretudo do lado espanhol:
Enquanto que de Londres se esperam entre 20 a 25 mil adeptos, de Vallecas viajam aproximadamente 11 mil – aos restantes azarados sem bilhete, Raul Martin Presa diz que podem pagar 5€ para verem num ecrã gigante montado no interior do estádio. Só que, dada a falta de investimento, não há métodos de bilheteira online.
Alguns jogadores Rayistas organizaram um crowdfunding para ajudar algumas dezenas de adeptos, vítimas dum esquema de viagens de autocarro ‘fantasma’, a chegar a Leipzig.
Todas as estações de metro das redondezas de Vallecas foram decoradas com mensagens de apoio.
10 DADOS RÁPIDOS
- Quando tudo começou, eram 164 equipas de 54 associações das 55 registadas na UEFA (Na Liga Europa, 77 clubes de 41 e na Champions, 82 de 53). Só mesmo a Rússia não teve representante nesta Liga Conferência
- Curiosidade à boleia do sucesso do Torreense: 2 dessas 164 equipas a disputar a Liga Conferência não o fizeram enquanto integrantes da primeira divisão do seu país. Foram elas o Vaduz (Liechenstein mas a competir nas divisões suíças) e o Spaeri (segunda divisão da Geórgia)
- Melhor marcador de sempre da prova, incluindo rondas de qualificação? Arthur Cabral, com 21 golos em 28 jogos! Outro nome familiar, Pavlidis, surge em terceiro lugar com 16 em 31
- Diferença significativa no valor dos plantéis, segundo o Transfermarkt: 542 milhões do Crystal Palace contra os 107 do Rayo
- O que na realidade não se traduziu em diferenças significativas de rendimento: aliás, ambas registam o mesmo número de vitórias até à final (8), os mesmos golos sofridos (12) e o mesmo número de clean sheets (5)
- O Palace foi a equipa mais concretizadora da prova: 25 golos gerados duma expectativa de 31,3
- E se falamos em xG, serve para elogiar a eficácia do Rayo – que concretizou 22 duma expectativa de 20,1 (resultado de 204 remates, 70 deles à baliza)
- São 10 os jogadores do Palace com mais de 3000 minutos nas pernas (e quatro contam mais de quatro mil); Do lado espanhol… só dois.
- Clubes espanhóis jogaram 28 finais europeias desde 2002, ganhando… 27. A única derrota foi a época passada, frente a um adversário inglês (Chelsea 4-1 Bétis)
- Caso seja o Palace a levantar o troféu, Inglaterra terá 9 representantes nas provas de clubes da UEFA em 2026-27. Recorde absoluto.
JOGADORES A TER EM CONTA


Adam Wharton – Foi uma das grandes ausências na convocatória de Tuchel para o Mundial, mas a desilusão não apaga mais uma época superlativa do jovem de 21 anos. Definitiva época de afirmação, com 52 jogos cumpridos em 60, concretiza-a enquanto máximo assistente do conjunto, com sete, notável registo dada a natureza do seu futebol e sobretudo do seu posicionamento. Marcou o seu primeiro golo ao serviço do Palace na penúltima jornada do campeonato – levando ao fantástico momento das bancadas com a mãe do jogador – e, na última, frente ao Arsenal, teve um susto físico, sendo obrigado a abandonar o relvado. Em princípio não passou disso mesmo, que Adam já participou em pleno no treino desta Terça-feira.


Sergio Camello – Foi um dos jogadores que organizaram o crowdfunding – contribuindo com 2000€ do seu bolso… – mas o destaque aqui dado a Sérgio Camello prende-se, obviamente e também, por razões desportivas: não sendo sequer indiscutível (Lejeune é quem tem mais minutos, com 3230’, e Camello conta… 823) nem preponderante nas contribuições para golo (De Frutos é que mais marca, com 10, e Álvaro García é quem mais assiste, com 5), Camello tem-se revelado neste final de época como importantíssimo joker. O Rayo não perdeu nenhum dos últimos nove jogos muito graças a Camello, que conta nesse período 5 golos – no qual registou, em média, 40 minutos por jogo. Formado no vizinho Atlético, Camello parece perfeitamente identificado com a causa Rayista e será bombeiro de serviço assim que (e se…) Iñigo Pérez comece a ver o caso mal parado.
XI´s PROVÁVEIS
Rayo Vallecano: Batalla; Ratiu, Lejeune, Pathis Ciss e Chavarría; Unai López, Óscar Valentín e Isi Palazón; De Frutos, Akhomach e Alemão
Treinador: Iñigo Pérez
«O mais importante é o trabalho prévio a nível emocional e mental: controlar as emoções e gerir a responsabilidade. Responsabilidade em excesso não ajuda. E depois é um jogo em que a nossa essência e a nossa identidade têm de brilhar acima de tudo. Porque se nos aproximarmos do que fizemos em Estrasburgo e do que já fizemos contra grandes rivais e em grandes ocasiões, vamos sentir-nos confortáveis e toda essa ansiedade desaparecerá».
Crystal Palace: Dean Henderson; Múnõz, Chris Richards, Lacroix, Canvot e Tyrick Mitchell; Daichi Kamada e Wharton; Sarr, Mateta e Yeremy Pino
Treinador: Oliver Glasner
«Estamos a disputar esta competição pela primeira vez. Muitos dos nossos jogadores nunca jogaram futebol europeu antes e precisávamos de todos estes jogos, de todas estas experiências para progredir e evoluir. Agora, estamos todos ansiosos pela final e também por jogar – será o 17º jogo da Conference League e o nosso 60º jogo nesta temporada. É algo enorme».
PREVISÃO DE RESULTADO: Rayo Vallecano 1-2 Crystal Palace

