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Kylian Mbappé e o amor correspondido com Mundiais | França 3-1 Senegal


A relação de Kylian Mbappé com o Mundial é uma lição para todas as grandes histórias de amor que buscam a perfeição. Esta é uma miragem distante, uma impossibilidade nefasta e a sua procura incessante acaba por, não só não permitir lá chegar, como tornar a relação ainda mais imperfeita.
Foi esta a história da estreia de Kylian Mbappé no seu terceiro Mundial. Chegou a duas finais, ganhou uma delas e agora é a maior figura de uma França repleta de figuras maiores. A temporada no Real Madrid foi complicada, para lá dos muitos golos, com críticas relativas a um ego maior que o permitido no clube que mais egos permite no mundo e a um período de férias paradisíacas, com uma lesão já na reta final da temporada, enquanto o inferno se abatia sobre o Santiago Bernabéu. Chegou à seleção e voltou a ver mais críticas do que elogios.
Ser um dos melhores jogadores do mundo não chega para Kylian Mbappé escapar a um mar de críticas, tão grande como a sua qualidade. No meio de tudo, o Mundial é uma espécie de porto de abrigo para o avançado. Já o foi em 2018, já o foi em 2022, quer como protagonista, quer como um dos protagonistas. Em 2026, a história de amor começou com uma profunda discussão, rapidamente sanada com dois golos. No seu terceiro Mundial, a tartaruga ninja também vai ser protagonista.


Os primeiros 60 minutos de Kylian Mbappé, para um qualquer ET aterrado por acaso no Planeta Terra, seriam de um jogador banal. Falhou quase todas as ações, não foi capaz de funcionar como avançado central, a atacar o espaço sem uma referência fixa, não deu sequência aos lances e, das receções aos passes, não esteve bem em campo. Aos 66 minutos, e já depois de um lance relativamente semelhante, com os mesmos protagonistas, recebeu um passe magistral de Olise e marcou. Aos 90+6, depois de um golaço de Ibrahim Mbaye, que poderia instabilizar os últimos minutos do jogo francês, pegou na bola ainda bem longe da baliza e marcou um dos golos deste Mundial. Há histórias de amor assim.
A França foi muito melhor na segunda parte que na primeira e há uma razão que o explica: o espaço. Na primeira metade, Senegal fechou os espaços e não deu qualquer possibilidade dos franceses chegarem à profundidade. Na segunda, abriram-se brechas no sistema defensivo e os gauleses tiveram o jogo no seu cenário ideal. Contra blocos baixos, será sempre mais complicado. Não há um médio organizador nem um jogador capaz de gerir ritmos na construção. Com espaço, já há muita gente capaz de meter a bola perfeitinha.
Foi o que fez Michael Olise – não sendo médio, tem uma precisão no lançamento que o torna fundamental -, do onze inicial o jogador com o pé mais calibrado e com maior precisão na batida na bola, e foi o que fez Adrien Rabiot, um dos jogadores que vive uma nova juventude cada vez que joga com o galo ao peito. Fora disso, a França foi competente e nem precisou das melhores versões de Desiré Doué ou de Ousmane Dembélé. Didier Deschamps montou a equipa para privilegiar os desequilibradores da frente contando que, lá atrás, a solidez imperasse. Foi isso que Dayot Upamecano, William Saliba e Aurélien Tchouaméni permitiram. Também por aí se vê a qualidade e a profundidade do plantel. A falta de um organizador pode, por agora, ser desvalorizada.


Senegal fez um jogo competente, mas precisava de ser perfeito. Quando começou a deixar espaços, deixou de conseguir controlar tão bem o adversário mais temível do mundo, o que não apaga os sinais positivos deixados. Kalidou Koulibaly está longe dos grandes centros do futebol mundial, mas apareceu em grande nível. É um dos melhores centrais da geração, por muito que a sua carreira não tenha atingido esse estatuto e é um dos nomes que permite estabilizar a equipa. Para a frente há qualidade de sobre.
Com lançamentos de El Haji Malick Diouf e Pape Gueye, Nicolas Jackson conseguiu aparecer várias frentes em situações de exploração de espaço. Desta vez, apareceu na sua versão mais completa, deixando para trás as desconfianças que resistem pela apatia ocasional à arte do golo. À direita, Krépin Diatta foi-se metendo por dentro e criando desequilíbrios, com Lamine Camara a compensar e Ismaila Sarr a movimentar-se a toda a largura e a ameaçar no espaço. Tivesse tido outro acerto no lance que antecipou a chegada do intervalo e o jogo poderia ter sido bem diferente. Quando a baliza mexeu, foi por Ibrahim Mbaye. Tem 18 anos, optou por representar Senegal em detrimento da França e tem um mundo pela frente onde será protagonista. Que bela carta de apresentação deixou a quem não o conhecia.
O barco norueguês viciado em mandar outros ao fundo | Iraque 1-4 Noruega


Há milhares de anos que não chegavam às Américas de barco europeus tão perigoso ao ecossistema local como estes vikings noruegueses. De resto, já têm garantida a celebração mais icónica do Mundial 2026, num movimento de comunhão que simula um trabalho braçal na arte do remo. A palavra certa para o caracterizar deve ser aura.
«Rema, rema, rema o barco num dia risonho. Rio acima, rio abaixo, a vida é um sonho», entoa a música do cancioneiro popular que remete à infância. Para a Noruega, o dia de estreia no Mundial, o primeiro neste século, não poderia ter sido mais risonho. Com vitórias assim, o sonho é real.
O que mais assusta na Noruega é a facilidade com que se constroem resultados volumosos com superioridades nem assim tão evidentes. Não há muitos segredos no jogo norueguês. David Moller Wolfe vai ficar mais baixo, à esquerda, embora até tenha sido numa altura em que projetou que ajudou a Noruega a construir o primeiro golo. Um posicionamento que quer dar o corredor ao veloz Antonio Nusa. À direita, Julian Ryerson procura subir bem alto, ocupar o corredor e permitir quer a Martin Odegaard, no meio, quer a Alexander Sorloth, que parte da direita para dentro, jogar mais perto da baliza. No meio, há Sander Berge a facilitar saídas e a limpar e Fredrik Aursnes, na sua versão faz tudo. Este cocktail de bons jogadores é liderado por Erling Haaland.


Há no cyborg norueguês um caráter místico que continua bem presente com o passar dos anos. Mostrou-se ao mundo pela primeira vez como o jovem avançado que, em 2019, marcou nove dos 12 golos com que a Noruega dizimou as Honduras no Mundial Sub-20. Sete anos depois estreou-se no Mundial 2026 com um bis aparentemente simples. Um golo à boca da baliza e um movimento de pressão que encontrou uma bola mal batida pelo guarda-redes. Ainda bem que, para Erling Haaland, a tarefa do golo é diária, uma daquelas que aparece algures entre a limpeza do pó e o passeio do cão. Seria estranho se assim não fosse.
O Iraque foi um adversário bem mais complicado do que se poderia perspetivar. A capacidade competitiva iraquiana é uma realidade conhecida, exponenciada por Graham Arnold um dos bons treinadores do panorama asiático de seleções. Ainda assim, era impensável pensar que detalhes decidiriam um jogo diante da Noruega, unanimemente uma das seleções candidatas a ser uma surpresa na América do Norte. A goleada é uma mentira de diferenças futebolísticas que não existiram de forma tão expressiva.


Desde logo, há uma palavra de reconhecimento para a estratégia do Iraque. Diante de uma equipa com uma média de alturas a roçar o 1,90m, a seleção asiática resistiu à norma de se defender em bloco baixo, procurou encaixar nos noruegueses e enfrentou mesmo situações de 1×1 na última linha contra Erling Haaland e Alexander Sorloth, sempre que Ali Jasim foi buscar Martin Odegaard e moveu as peças no tabuleiro norueguês. Mesmo quando baixou ligeiramente o bloco, primou a organização e o sentido coletivo nos movimentos.
Com bola, houve também capacidade para chegar com perigo, principalmente no bom lado esquerdo do Iraque. Ali Jasim está, contratualmente, ligado ao Como 1907 e percebe-se o porquê. Além da qualidade técnica, tem um sentido de envolvimento coletivo importante. Relacionou-se facilmente com Doski, Al-Ammari e Al-Hamadi para conseguir criar condições de chegar à linha de fundo ou de encontrar o espaço interior. Num dos lances de envolvimento coletivo, tudo resultou num cruzamento para Aymen Hussein, a grande referência do Iraque. Além da história de superação pessoal, há uma história de envolvimento com o público iraquiano que tem a maior recompensa no maior palco do mundo. Nem sete horas detido para um interrogatório com base numa mão cheia de nada resultaram para retirar ao futebol a sua magia mais pura.
Lionel. Andrés. Messi | Argentina 3-0 Argélia


Não será totalmente certo dizer que a Argentina venceu a Argélia por 3-0. O Polígrafo não deixará mentir: foi Lionel Messi quem venceu a Argélia por 3-0. Não que a Argentina não tenha sido superior e merecido ganhar à seleção africana, num duelo com um verdadeiro viveiro de talentos, mas a diferença real entre as duas seleções não foi assim tão grande. Apenas a diferença de ter ou não Lionel Messi.
Mal o apito inicial soou, o 10 argentino passou a vestir por 200 vezes a camisola albiceleste e tornou-se, por algumas horas apenas, no único jogador do mundo a jogar o Mundial por seis ocasiões diferentes. Com o passar dos minutos e com os três golos, atingiu um registo ainda mais especial. Dos 13, passaram a ser 16 os golos de Lionel Messi na maior prova do mundo das seleções, precisamente os mesmos de Miroslav Klose, até então destacado na liderança do registo. Kylian Mbappé tem 14 e está na luta, mas a primeira aproximação ao alemão foi de Lionel Messi.
Há um mundo de possibilidades para a Argentina enquadrar o seu principal astro. Quando enquadrado naquela zona específica, à entrada da área em zona frontal e de frente para a baliza, não há ainda no mundo nenhum jogador com tantas ferramentas, quer no passe, quer no remate. Mostrou-o novamente ao mundo.


Como um cômputo geral, a Argentina é o terreno mais fértil para enquadrar Lionel Messi e os jogadores argentinos. Do ponto de vista cultural, não há nenhum futebol no mundo, nem mesmo o dos triângulos espanhóis, que represente tão bem uma nação quanto as combinações e tabelas que os argentinos vão somando ao longo do campo. Nesta fase, são cinco jogadores por dentro a combinar, com Lautaro Martínez importante a fixar a linha defensiva e os laterais, por mais que as limitações sejam reconhecidas, a procurar garantir largura. Há Enzo Fernández perto da bola, há tabelas por todo o lado e há um futebol identificado pelos jogadores. Nem mesmo as limitações defensivas, ainda assim evidentes, causaram estragos.
Foi um resultado profundamente inglório para a Argélia, apenas sem condições para lidar com o tal nome maior que todos os outros. Estilisticamente, há uma aproximação, até, com o futebol argentino. É este o estado atual do panorama do Norte de Áfrico, um autêntico viveiro de talentos tecnicistas, com capacidade no drible e invenção no passe.
Contra a Argentina, Vladimir Petkovic deixou no banco Riyad Mahrez, Mohamed Amoura, Houssem Aouar ou Ramiz Zerrouki, mas houve outro nome em destaque. Ibrahim Maza é um talento em bruto, daqueles com um teto tão alto que só aos outros será preciso um escadote para lá chegar. Para o médio do Leverkusen, o céu é um limite ao alcance. Esconde o passe até ao fim, tem capacidade técnica no drible curto e criatividade na forma como descobre os colegas através de linhas invisíveis ao olho humano. Não foi um jogo de grande sequência, apesar da competitividade e da capacidade de manter a posse de bola, mas foi uma exibição de mão cheia do mais novo dos muitos talentos argelinos.
Mais um ponto para a história dos estreantes | Áustria 2-1 Jordânia


Apenas o Uzbequistão ainda não entrou em campo entre os estreantes no Mundial 2026. Depois da história de Curaçau, que celebrou com a vida o golo de um empate contra a Alemanha, ainda que passageiro antes de uma goleada que equipara a modesta seleção das Caraíbas ao Brasil, e da epopeia de Cabo Verde, capaz de travar a poderosa Espanha e de garantir um empate tão saboroso como uma vitória, foi a vez da Jordânia mostrar que, se há problemas na ampliação do Mundial 2026, a competitividade não é um deles. Que o diga a Áustria.
A Jordânia terá sempre capacidade de complicar a vida aos adversários. É uma seleção cheia de energia no processo defensivo, com muita vontade de jogar na antecipação e de dificultar a vida aos adversários. Não é uma equipa com um processo defensivo típico pela organização das linhas baixas, mas que vive numa espécie de caos intencional, onde a vontade é mais importante que qualquer outro compromisso.
Nesse sentido, há um nome acima dos demais: Yazan Al-Arab. Fica ligado ao autogolo que acaba por dar a vitória à Áustria, sem grandes culpas no cartório, mas é a referência inequívoca de um setor defensivo marcado pela imposição nos duelos e pelo risco nas ações. Também ofensivamente, tem a tendência mais ou menos saudável, dependendo dos cenários e de quão apertado esteja o coração, de incorporar transições e avançar em campo.


Nessas transições, a sua presença é, ainda assim, de um coadjuvante silencioso. É o trio da frente quem mais importa nesse sentido e aí há uma boa notícia para o conjunto jordanio. Sem Al-Naimat, um avançado muito importante como falso 9, baixando para permitir aos extremos que ataquem esse espaço – ele que foi lembrado por Ali Olwan no golo – Odeh Fakhoury foi lançado como avançado pela direita e Ali Olwan, habitualmente por dentro, deslocado para a esquerda. Mousa Al-Tamari, estrela maior da equipa, ficou por dentro, protegido de tantas obrigações defensivas e com o GPS ligado para a transição. Foram várias as vezes que a sensação de perigo se sobrepôs à de tranquilidade para a Áustria. Ainda dizem que as estreias são só para inglês e austríaco ver.
Se Al Naimat é baixa de peso na Jordânia, Christoph Baumgartner deixa saudades na Áustria. Sem o seu 10 de chegada, Ralf Rangnick aproveitou tudo o que Konrad Laimer pode oferecer por todo e colocou-o, depois de lateral em qualquer lado e médio centro, como médio mais ofensivo, nas costas de Sasa Kalajdzic. É um dínamo de movimento constante e, nessa energia, simboliza tudo o que a Áustria quer ter.
Romano Schmid é uma espécie de contratempo ao acumular de médios por todo o lado que os europeus metem em campo. Também joga pelas mesmas bandas, mas pensa como um avançado e foi assim que meteu a bola na baliza. Depois, até foi a Jordânia quem aproveitou as debilidades extremas da Áustria em transição para se superar e voltar a obrigar os austríacos a correr mais e mais. Do banco chegou, mais do que a energia, a capacidade de meter a equipa a correr melhor. Paul Wanner e Carney Chukwuemeka deram mais pensamento e estrutura e Marko Arnautovic outra capacidade de envolvimento na área. Sorriu a Áustria, até com um resultado maior do que o futebol ditou.

