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Saudades do Portugal x RD Congo? | Chéquia 1-1 África do Sul


Além da divisão continental, com uma seleção europeia e uma africana, há muito pouco que une a Chéquia a Portugal, tal como também é muito pouco aquilo que aproxima a África do Sul à RD Congo. Ainda assim, a forma como o roteiro dos dois jogos se construiu tem uma semelhança base que influenciou todo o jogo: um golo aos seis minutos.
A relação da Chéquia com golos a partir de lançamentos laterais é uma das histórias deste Mundial 2026. Desta vez, bem diferente, mas ainda assim com a mesma origem. A fragilidade defensiva da África do Sul, despreocupada com um fora de jogo que não existe quando a bola vem dos dedos da mão, foi chave e Michal Sadílek aproveitou. Foi uma das novidades no onze de Miroslav Koubek e correspondeu desde início.
O golo era, e vejam lá se a história não se repete, tendencialmente benéfico para a Chéquia. De resto, tudo diferente, mas a base do golo precoce que levou a um relaxar em demasia também se verificou. Para os checos, marcar cedo significava baixar linhas, oferecer a bola à África do Sul e esperar que perdas de bola e lances de transição aproximassem a equipa novamente da baliza.


E foi isso que aconteceu. O 5-3-2 da Chéquia – de resto, o 5-3-2 tem sido uma das tendências táticas deste Mundial – fechou espaços por dentro e a África do Sul não conseguiu, durante largos períodos arranjar uma estratégia para chegar perto da baliza de Matej Kovar. É notório o impacto da má estreia e dos erros em construção na confiança dos Bafana Bafana, que voltaram a acumular erros e imprecisões técnicas no terreno. Quando a bola ia longa, direta ao fim do campo, a capacidade física checa impôs-se e, para lá de um ou dois lances em que Iqraam Rayners conseguiu jogar em apoio.
Ainda assim, quando Hugo Broos se deixou seduzir pela criatividade e libertou Relebohile Mofokeng do cativeiro do banco de suplentes, o jogo mudou. O médio criativo nem fez uma exibição por aí além, mas a sua presença nas costas dos médios checos ajudou a libertar Oswin Appollis, o mais irreverente dos extremos, e Teboho Mokoena, o melhor jogador da África do Sul e baixa para a última jornada.


Não foi um jogo de grande sequência técnica da África do Sul, que chegava ao Mundial 2026 com uma ideia de jogo bem definida, mas sem certezas quanto à sua concretização quando o nível subisse. A resposta está dada, mas o penálti, aparecido como um milagre para a seleção africana, mudou o paradigma e permitiu um empate. Nem tudo é mau.
Para a Chéquia, e retomando o Portugal x RD Congo, o golo muito cedo acabou por fazer a equipa cair num adormecimento coletivo, confiando que o desacerto dos Bafana Bafana seria eterno. Não só defensivamente a equipa foi descurando posicionamentos, abrindo espaços e permitindo um perigo crescente, como praticamente desistiu de tentar ameaçar com um segundo golo que resolvesse o jogo. O empate seria um Azar do Krejci, não tivesse sido um puro exercício de desinteresse com o jogo. E Krejci até foi o melhor checo em campo.
O dia em que Murat Yakin se tornou no Tambor | Suíça 4-1 Bósnia e Herzegovina


Entre todas as personagens secundárias do universo da Disney, há poucas tão fofinhas como Tambor, o coelho amigo de Bambi conhecido por um movimento incessante: o bater constante da pata no chão. No filme, um dos mais conhecidos neste mundo encantado, Tambor é uma espécie de abre-olhos e de abertura para o pequeno veado, tímido e muito reservado por razões que todos sabemos e que escusam de ser relembradas, não vá tal memória dar uma tónica triste à melhor altura do ano. Tambor é também o melhor amigo do Bambi.
Não haverá no mundo homem tão feliz no mundo com Johan Manzambi como Murat Yakin, o Tambor desta história. Afinal, também ele é o protagonista da vitória helvética, a primeira dos suíços deste Mundial. O próximo jogo determinará se Murat Yakin se tornou mesmo ou não no Tambor, fielmente escudado no Bambi, encarnado na figura de Manzambi. Se tal não acontecer, então o futebol é mesmo uma ciência muito complexa.
É impressionante a forma como, partindo do banco, Manzambi não tem medo de chamar sobre si a pressão. Aos 20 anos, entra leve, levezinho, como quem não tem noção se joga num Mundial ou num parque infantil, com os amigos ao final do dia. Tem condições físicas e técnicas determinantes para se impor a este nível e um potencial desmedido para ser um dos melhores talentos helvéticos do século.


Já diante do Catar, num jogo que terminou da pior maneira para a Suíça, tinha entrado com vontade e determinação para mudar o jogo. Foi um dos isentos do resultado mau a abrir. Desta feita, não só voltou a agitar o jogo, como o assumiu como seu e, se a Suíça venceu, deve-o quase exclusivamente a Johan Manzambi. Sem grandes rodriguinhos, marcou o primeiro e o terceiro golos, fez um passe do outro mundo que levou Tarik Muharemovic a ser expulso (com 1-0 no marcador) e fez a pré assistência para o segundo golo helvético. Absolutamente dominante.
A Suíça está num estágio meio indefinido neste Mundial 2026. Consegue ser uma seleção dominadora e tem variabilidade tática para surpreender adversários. Desta vez, partiu para um 4-4-2 com Aebischer de fora para dentro sobre a direita, com Widmer a chegar à linha de fundo, e tentou juntar gente à esquerda com Rieder a tentar gerar superioridades. Entre tudo isto, apenas dois jogadores se destacaram. Granit Xhaka é eterno. Tem-se desenvolvido como um passador de elite. Dan Ndoye, para o bem e para o mal, com uma definição ao nível do desastre, tentou algo para ir contra a monotonia helvética. Que bem faz Joham Manzambi à Suíça. Murat Yakin tem de se tornar amigo dele como Tambor.


A Bósnia e Herzegovina acabou goleada, mas a imagem de solidez e segurança continua visível. De resto, poucos jogos tinham mostrado uma influência tão grande da pausa de hidratação como este. A meio da primeira parte, para evitar que Widmer chegasse tantas vezes sozinho à linha de fundo, Sergej Barbarez chamou Amar Memic para fechar a cinco no lado esquerdo e equilibrou o conjunto bósnio num 5-3-2 que metia Alajbegovic por dentro. Curiosamente, sempre que a Bósnia ganhou a bola, beneficiou desta dinâmica à esquerda, com o jovem talento a juntar-se a Memic, para construir superioridades.
Depois, a seleção europeia tem sempre argumentos para defender a área e chegar à frente. Até à expulsão, que o tira do jogo diante do Catar, Tarik Muharemovic estava a ser o melhor jogador em campo da Bósnia e Herzegovina precisamente pela capacidade de defender a área, ganhar duelos e impedir situações de golo. Sofreu muito Breel Embolo. Na frente, Edin Dzeko recuperou e continua a ser uma espécie de guia para a sua seleção, mas é Ermedin Demirovic, pela capacidade de conciliar a estampa física com as soluções de ligação, quem mais se destaca. Serão muito necessários na última jornada, tentando uma vitória que leve a Bósnia em frente.
O esgar de dor de Ismael Koné que transformou a festa num momento protocolar | Canadá 6-0 Catar


Se alguém dissesse a qualquer jogador do Canadá que a primeira vitória do país na história dos Mundiais chegaria, em casa, com uma goleada por 6-0, era difícil imaginar que alguém recusasse a assinatura. No entanto, depois do jogo, o momento era quase protocolar, onde cada sorriso era calculado e contido. A lesão grave de Ismael Koné assim obriga.
Mais do que o futuro do Canadá no Mundial, cuja proposta de jogo era muito dependente da capacidade do médio jogar uma ou duas rotações acima, funcionando de trás para a frente e aproximando a equipa da área adversária, a preocupação com o estado físico do colega era evidente. O pé de Ismael Koné fugiu à bota num lance horripilante com Assim Madibo, também ele profundamente afetado com a lesão que, involuntariamente, provocou. O momento em que o médio do Sassuolo olhou para a perna e esboçou um esgar de dor ao ver a lesão é marcante e simbólico. Desta vez, quando os jogadores se reuniram e cercaram o colega de equipa, os corações não ficaram em suspenso como naquele dia em Copenhaga, ainda tão presente na memória. Ficaram apreensivos, receosos e com uma sensação de surpresa perante a gravidade de uma lesão que vai travar o médio de continuar a jogar futebol, pelo menos neste Mundial 2026. E, assim, havia muito pouco a celebrar. A homenagem fez-se, primeiro quando Ismael Koné acenou aos adeptos em Vancouver e foi recebido por um coro de aplausos e depois quando Nathan-Dylan Saliba, o seu substituto, marcou de livre e ergueu a camisola estampada com o número 8 nas costas. O futuro do Canadá no Mundial joga-se sem Ismael Koné.
O jogo, esse, já estava altamente condicionado e ainda mais ficou. O resultado dilatado espelha uma diferença entre as duas seleções estabelecida ainda 11×11 e tornada arrebatadora por um 11×9. Antes de Assim Madibo, já Homam Al-Amin havia sido expulso. Pequenos pormenores sem grande influência num jogo que mostrou que o Catar é, de facto, uma das seleções com mais fragilidades no Mundial 2026. O empate na estreia é que parece ter sido acidente de percurso.


A seleção do Canadá fez-se valer da pressão alta e da capacidade para sufocar adversários e impedir saídas limpas, mas curiosamente, no primeiro momento do Catar com bola, deixou os centrais ter segundos para pensar, impediu a bola de entrar nos médios e, só quando se começou a sentir o nervosismo de quem tinha a bola, mas não tinha qualquer sítio onde a colocar, apertou. Também nestes pormenores se vê o sucesso das pressões. Ainda assim, o contexto do jogo teve desafios bem diferentes para os canadianos.
Foi, no fundo, um exercício de ataque organizado contra uma defesa cada vez mais baixa e cada vez com menos gente, como um daqueles treinos que vai perdendo elementos para ter uma conversa com os treinadores, à parte do grupo. A única diferença é que a conversa, desta vez, foi daquelas feita sozinha, no banho. Neste contexto, não há muito valor coletivo que se possa extrair do jogo, para lá do fantasma da seleção que cria muito e marca pouco, como se viu na estreia. Desta vez, a seleção criou muito, mas também marcou muito.


Para isso, há duas exibições exemplares, antes das trocas e do jogo ter ficado de sentido único. A primeira é a de Tajon Buchanan. Tinha estado apagado e errático na primeira jornada, mas desta vez foi capaz de acrescentar muita energia ao jogo a partir da direita. A segunda é a de Jonathan David. Marcou o segundo hat-trick do Mundial numa exibição completamente dominadora. Não só contribuiu em apoio, baixando em campo para ligar jogo, como também soube ser um homem de área. Vive um momento de alguma crise de confiança, mas contra o Catar mostrou um à vontade imenso para trabalhar a bola na área e virar-se para a baliza e na reação. Com Alphonso Davies ainda a recuperar os melhores índices físicos, assumiu-se como protagonista. E, por falar, em indíces físicos, num jogo tão influenciado por uma lesão, é de saudar o regresso de Moise Bombito. Será fundamental no futuro canadiano.
Quanto ao Catar, o jogo é esquecível. Nem Mahmud Abunada, que garantiu um ponto na primeira jornada, fica isento de culpas. A partir da primeira expulsão, a seleção catari quis apenas atenuar os números da derrota e, para a segunda parte, ainda com 10 em campo, a estratégia foi ainda mais conservadora, num 5-4-0 de base que, em muitos momentos, se transformava num 7-2-0. E não, esse conjunto de resultados não ganhava o Mundial.
O 1.º apuramento | México 1-0 Coreia do Sul


O México é a primeira seleção a garantir a classificação para os 16 avos de final e, mais do que isso, já sabe que terminou o Grupo A em primeiro lugar e, por isso, jogará a próxima fase e, potencialmente, a seguinte, no Estádio Azteca, um local que apenas os mexicanos e Diego Armando Maradona podem chamar de casa. Aí está o prémio pelas duas vitórias no Mundial 2026.
A Coreia do Sul foi um desafio bem mais complicado de ultrapassar que aquele com que o México se deparou na estreia, diante da homónima de apelido. Até por isso, a estratégia e a disposição das peças mexicanas mudou. Por opção técnica, Javier Aguirre lançou Jorge Sánchez para o lugar de Israel Reyes, no lado direito da defesa, e foi a partir da dinâmica do antigo lateral do FC Porto com Roberto Alvarado que o conjunto da casa, no primeiro jogo da sua história em Guadalajara, criou superioridades.
Jorge Sánchez começava baixo, mas rapidamente procurava soltar-se e atacar a linha de fundo, quer por dentro, quer por fora. Mais alto ou mais baixo, por vezes até mais recuado que o companheiro, Roberto Alvarado – importante também defensivamente, a fechar a linha de 5 – abria completamente o campo e permitia que, em muitos momentos, o México atacasse a última linha coreana com até seis jogadores. Taticamente, foi uma das vantagens que a equipa da CONCACAF identificou e conseguiu explorar.


A outra vantagem que o México procurou voltar a ter, tal como no jogo de abertura, passou por Julián Quiñones. O avançado parte da esquerda para o meio, tentando gerar vantagens por dentro. Foi sempre controlado por Lee Han-beom, um dos principais destaques do jogo da Coreia do Sul que, depois da pausa, saiu reforçado. Não é de hoje, mas foi mais um dia que mostrou que, no Mundial 2026, não há duas, mas quatro partes distintas nos jogos.
Depois da primeira pausa, a Coreia do Sul cresceu no jogo, muito por influência de Lee Kang-in. Já na primeira partida dos sul-coreanos no Mundial tinha sido destaque pela capacidade técnica e pelas vantagens que conseguia identificar não só sobre a meia-direita, mas também baixando em campo para atrair marcações e abrir espaços. Aí, os alas coreanos e Son Heung-min conseguiram criar oportunidades.
A verdade é que, por mais interessante que tenha sido a batalha estratégica em campo, o jogo nasceu de um erro de Kim Seung-gyu, guarda-redes da Coreia do Sul. Na tentativa de afastar a bola, atrapalhou-se com um próprio colega de equipa e colocou-a nos pés de Luis Romo, o médio responsável por influenciar a construção sobre a esquerda. O golo surgiu do nada e, depois deste, o México deu uma demonstração de solidez defensiva. Ainda não sofreu um golo neste Mundial 2026. Edson Álvarez entrou na defesa e fez um jogo muito exuberante e, simultaneamente, sóbrio. Do banco, Javier Aguirre fechou-se e Obed Vargas entrou com tudo para fechar o meio. No fim, Raúl Rangel fez o impossível e defendeu o golo de vantagem. O México faz um bom Mundial até então e pode ir descansado para a última jornada.

