O Mundial de 2026 arrancou envolto em dúvidas. O alargamento para 48 seleções gerou críticas durante vários anos e muitos receavam uma competição excessivamente longa, desequilibrada e com demasiados jogos sem interesse competitivo. A primeira jornada respondeu da melhor forma possível.
Num torneio que se disputa pela primeira vez em três países (Estados Unidos, México e Canadá), e que servirá de modelo para o Mundial de 2030, onde Portugal também será anfitrião, não faltaram histórias capazes de justificar o fascínio que esta competição continua a exercer sobre milhões de adeptos.
E poucas foram tão bonitas quanto a de Cabo Verde. Integrada no Grupo H, a seleção africana realizou o primeiro jogo da sua história em Campeonatos do Mundo e saiu do relvado com um empate a zero diante da poderosa Espanha, uma das principais candidatas à conquista do troféu. Mas mais do que o resultado, ficará para a memória a exibição monumental de Vozinha.
Aos 40 anos, o guarda-redes cabo-verdiano transformou-se no rosto da primeira grande história deste Mundial. Defendeu tudo o que havia para defender e mais alguma coisa, frustrando sucessivamente os avançados espanhóis. O futebol moderno adora histórias improváveis e Vozinha tornou-se uma delas. Em poucos dias passou de figura respeitada em Cabo Verde para fenómeno global nas redes sociais (à data desta publicação, já tinha mais de 14 milhões de seguidores), numa demonstração clara do impacto que um Mundial continua a ter.
Se Cabo Verde foi a surpresa positiva da jornada, Portugal foi seguramente uma das maiores desilusões. Inserida no Grupo K, a seleção nacional tropeçou logo na estreia diante da República Democrática do Congo. O empate não seria dramático se tivesse surgido acompanhado de uma exibição convincente. Não foi o caso.
Portugal continua a apresentar exatamente os mesmos problemas que tem revelado nos últimos anos. A discussão pública concentra-se quase sempre em Cristiano Ronaldo, mas reduzir a questão ao capitão é simplificar demasiado o problema. O verdadeiro desafio da equipa de Roberto Martínez continua a ser coletivo.
Há talento para formar uma das melhores seleções do planeta. Há jogadores de topo em praticamente todos os setores. O que continua a faltar é uma identidade clara. Uma ideia de jogo reconhecível. Um modelo capaz de potenciar todo esse talento. Contra uma seleção congolesa que regressava aos Mundiais 52 anos depois da participação histórica como Zaire em 1974, Portugal voltou a deixar a sensação de que ainda está muito longe daquilo que pode ser.
É imperativa uma resposta cabal no próximo jogo frente ao Uzbequistão, até porque a Colômbia fez o seu papel, derrotando os asiáticos por 3-1, assumindo assim a liderança do grupo, com Luis Díaz em grande nível (um golo e uma assistência).
No Grupo L, Inglaterra e Croácia protagonizaram um dos jogos mais interessantes da ronda inaugural. E talvez tenha sido também uma das maiores vitórias pessoais de Thomas Tuchel.
O selecionador inglês foi amplamente criticado pelas opções tomadas antes do torneio, deixando de fora alguns dos jogadores mais mediáticos (Phil Foden, Cole Palmer, Trent Alexander-Arnold, entre outros) do futebol inglês. A resposta surgiu dentro do campo. A Inglaterra apresentou-se organizada, solidária e competitiva, com Harry Kane a assumir o papel de líder e a demonstrar porque continua a ser um dos avançados mais completos do futebol mundial.
Também no Grupo F houve motivos para entusiasmo. Holanda e Japão ofereceram um espetáculo de grande qualidade, num encontro que confirmou duas das seleções mais agradáveis de seguir nesta fase inicial da competição, com a equipa nipónica a resgatar um justíssimo empate já nos minutos finais do encontro. Num Mundial cada vez mais equilibrado, os japoneses continuam a provar que já não podem ser vistos como simples outsiders.
Já no Grupo C, Marrocos voltou a demonstrar porque foi uma das grandes revelações do último Mundial do Catar. Durante largos períodos da partida, a seleção norte-africana foi superior ao Brasil e expôs várias fragilidades da equipa sul-americana.
O nome da noite foi Ayyoub Bouaddi. O médio do Lille, com apenas 18 anos, dominou o centro do terreno com uma naturalidade impressionante. Num torneio recheado de estrelas consagradas, foi um dos jovens que mais impressionou na jornada inaugural. Do lado brasileiro, permanecem dúvidas legítimas sobre a real capacidade da equipa para lutar pelo tão desejado hexacampeonato.
No Grupo D, uma das anfitriãs deixou excelente impressão. Os Estados Unidos venceram de forma categórica o Paraguai e mostraram argumentos muito interessantes. Os paraguaios chegavam ao torneio embalados por uma excelente campanha de qualificação, mas encontraram uma seleção norte-americana intensa, organizada e extremamente eficaz.
Ainda no grupo D, surgiu uma das primeiras surpresas da competição. A Austrália derrotou a Turquia e castigou uma seleção europeia que entrou em campo com excesso de confiança. Os australianos foram mais pragmáticos, mais competitivos e acabaram justamente recompensados.
Nesta primeira jornada, nem todas as histórias tiveram um final feliz.
No Grupo E, o Equador viu terminar uma impressionante série de resultados positivos (19 jogos invicto) da forma mais cruel possível. Um golo sofrido nos instantes finais diante da Costa do Marfim roubou pontos importantes a uma das seleções mais consistentes dos últimos anos.
A Alemanha, por sua vez, não teve qualquer piedade da estreante Curaçau. O expressivo 7-1 aplicado à seleção caribenha constituiu a maior goleada da primeira jornada e confirmou os germânicos como uma das equipas que melhor entrou na competição.
Outro momento histórico teve assinatura portuguesa. A vitória do Gana no grupo L permitiu a Carlos Queiroz tornar-se, aos 73 anos, o treinador mais velho de sempre a vencer um encontro de um Campeonato do Mundo. Um feito que reforça ainda mais o legado de um dos técnicos mais marcantes da história do futebol português.
No grupo I, Kylian Mbappé brilhou (com um registo absurdo de 14 golos em 15 jogos em fases finais de Mundiais com apenas 27 anos). Haaland marcou dois golos na sua estreia num Mundial. Ambos confirmaram o estatuto de estrelas maiores deste Mundial.
Mas se houve uma figura que se destacou acima de todas as outras, essa figura foi Lionel Messi. No seu sexto (!) Mundial, o argentino voltou a fazer aquilo que parecia impossível: desafiar a máquina do tempo..
O hat-trick apontado na estreia da campeã em título Argentina frente à Argélia foi muito mais do que uma grande exibição individual. Foi mais um capítulo numa carreira absolutamente irrepetível. Aos 38 anos, prestes a completar 39, Messi continua a decidir jogos ao mais alto nível e a acumular recordes.
E tudo isso, obtido num momento bastante vulnerável a nível pessoal, uma vez que o seu pai está a enfrentar um grave problema de saúde, despertando inclusive a emoção de La Pulga quando marcou o primeiro golo. A imagem de Messi com as lágrimas a correr pelo seu rosto, foi sem dúvida uma das mais marcantes desta primeira ronda de jogos do Mundial 2026.
Com os três golos apontados, Leo Messi igualou Miroslav Klose como melhor marcador da história dos Campeonatos do Mundo, com 16 golos apontados. E ao ultrapassar Pelé no número total de contribuições para golo em fases finais (16 golos e 8 assistências), reforçou ainda mais uma discussão que provavelmente nunca terá consenso universal. Mas para quem o considera o melhor jogador de todos os tempos, noites como esta apenas reforçam essa convicção.
O Mundial ainda agora começou. Mas a primeira jornada já deixou claro que este torneio terá espaço para tudo aquilo que torna o futebol tão apaixonante: entre heróis improváveis, favoritos em apuros e um Messi eterno, o maior Mundial de sempre começou a desafiar todas as previsões.

