A festa de amarelo do Brasil de Vinícius Júnior e dos Bafana Bafana – Diário do Mundial 2026 #14

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Lê também os outros capítulos do Diário do Mundial 2026. 

A festa estragada dos anfitriões e a juventude que dá provas | Suíça 2-1 Canadá e Bósnia e Herzegovina 3-1 Catar

Johan Manzambi Suíça
Fonte: FIFA

O Canadá liderava o Grupo B e preparava uma festa de arromba como anfitrião, mas viu os planos frustrados. A Suíça, depois de dormir na primeira jornada, não mais adormeceu e venceu os canadianos na última e derradeira jornada. Desta vez, a Murat Yakin não bastou ser neutral como os helvéticos tanto gostam de ser. Aliás, o que salvou o clube da bandeira cruzada foi o surgimento de um nome capaz de resistir à tendência para o adormecimento.

Johan Manzambi era um dos grandes candidatos a jogador revelação do torneio e tem cumprido com esse propósito. Mesmo no primeiro jogo, quando a Suíça empata, entra para contrariar a tendência de relaxamento que resultou no empate. No segundo jogo, salta do banco para bisar, assistir e ganhar uma expulsão, na exibição mais impactante de um suplente neste Mundial 2026. Diante do Canadá, foi titular e mostrou o porquê. No arranque da segunda parte, esqueceu a monotonia e, como 10, resolveu o jogo, com dois movimentos de rutura sobre a linha defensiva. Num marcou golo, no outro assistiu Ruben Vargas. Absolutamente dominante. 

A festa preparada pelo Canadá só se concretizou em metade. O primeiro lugar era a garantia de jogar a próxima fase em Vancouver, ainda em casa. Logisticamente e para os adeptos locais, a deslocação a Los Angeles trará desafios ainda não vividos. Diante da Suíça, abrem-se duas incógnitas para os canadianos. A primeira é o meio-campo. Sem Ismael Koné, lesionado, Jesse Marsch abdicou ainda de Stephen Eustáquio e apostou em Mathieu Choinière e Nathan-Dylan Saliba em simultâneo, com menos estruturação de pensamento. A segunda chama-se Promise David. Volta a saltar do banco para mudar o jogo canadiano, como presença física na área. Desta vez, não só contribuiu como marcou.

Kerim Alajbegovic Bósnia e Herzegovina Jogadores
Fonte: Federação Bósnia de Futebol

A calculadora é um recurso do fingimento para a Bósnia e Herzegovina. Só a matemática encontrará um cenário no qual uma seleção com quatro pontos não se apurará para a próxima fase. A Itália não ficou fora em vão. Sergej Barbarez guiou os bósnios, numa fase de transição entre gerações, à próxima fase. Tudo o resto que vier, será por acréscimo.

Falando na transição de gerações, nenhum elemento foi tão desconcertante diante do Catar como Kerim Alajbegovic. É o mais promissor da nova geração bósnia pela irreverência, pela forma como joga sem medo ou receio de qualquer adversário ou cenário de jogo. Tem um dos golos deste Mundial, quando recebe em zona frontal e começa a procurar o espaço certo para rematar de pé direito, e um dos pormenores mais deliciosos no que inicia o segundo golo. Num jogo em que a solidez defensiva, sem Tarik Muharemovic, ficou comprometida, tudo foi relativizado por um menino de 18 anos. 

Ao Catar, é difícil fazer a avalição de um Mundial 2026 que já terminou. O ponto conquistado na primeira jornada é valioso e histórico, o primeiro de sempre dos cataris na prova, mas surgiu de forma quase aleatória e mais por demérito helvético que por mérito dos asiáticos. Por mais que seja valioso, não esconde mais um Mundial sem qualquer competitividade. A goleada sofrida diante do Canadá deixou marcas e, diante de uma Bósnia que em alguns momentos não procurou sequer jogar, são exibições demasiado sofríveis e esquecíveis. No último jogo, ainda se viu  um pouco de Akram Afif, mas foi sempre tudo demasiado curto para Julen Lopetegui e companhia.

Eis a classificação final do Grupo B:

  1. Suíça, 7 pontos
  2. Canadá, 4 pontos
  3. Bósnia e Herzegovina, 4 pontos
  4. Catar, 1 ponto

Protagonistas, regressos e mudanças | Escócia 0-3 Brasil e Marrocos 4-2 Haiti

Matheus Cunha Brasil
Fonte: FIFA

O Brasil foi de menos a mais na fase de grupos. Começou com desconfianças, depois de um empate dececionante contra Marrocos, que começou bem por cima da canarinha, mas termina com as expectativas no máximo. Foram duas vitórias consecutivas por 3-0 com demonstrações de maturidade dentro de campo e uma evolução coletiva. Carlo Ancelotti já fez alguns ajustes nos posicionamentos, deu protagonismo a novas caras e, acima de tudo, enquadrou de forma perfeita a maior estrela da equipa.

O protagonismo que Vinícius Júnior tem conseguido assumir na seleção brasileira é uma coisa de doidos. Passou de ser algo questionado, por não replicar o nível do futebol de clubes no futebol das seleções, para ser inequivocamente o grande destaque da equipa. Marcou e acrescentou em todos os jogos. Do ponto de vista coletivo, ninguém encaixa tão bem ao seu lado como Matheus Cunha. Abre espaços, vem em apoio e consegue também chegar à área para finalizar. Também no meio-campo, sem mudarem os nomes, mudaram algumas dinâmicas. Casemiro fixou-se como elemento mais recuado, suportado por Bruno Guimarães e Lucas Paquetá. Têm forte abrangência no passe, numa equipa criada para aproveitar todos os espaços.

Até por isso, o Brasil consegue hibridizar a pressão. Não se incomoda demasiado em esperar um bocadinho mais recuado, mas também não tem travão no momento de subir linhas, cada vez que o adversário cometer um erro. Nesse sentido, quer Matheus Cunha, quer Rayan, que parece ter ganho o lugar na vaga libertada pela lesão de Raphinha, são máquinas de pressão à disposição de Carlo Ancelotti. A Escócia sonhava com pontuar para selar as contas da qualificação, mas cometeu demasiados erros na saída de bola para ser, sequer, competitiva. Está sentada à espera de um milagre com base numa vitória por 1-0 contra Haiti. Não são animadores os sinais.

Marrocos Jogadores
Fonte: Federação Marroquina de Futebol

Marrocos sabia que, ao que o Brasil fizesse, tinha de somar mais dois golos. Até por isso, é estranha a forma como entrou em campo, quase como se tudo estivesse resolvido. É certo que, no fim, a vitória chegou, até por números superiores à margem mínima, mas a seleção marroquina esteve durante longos períodos empatada com o Haiti e chegou a estar em desvantagem por duas vezes.

É certo que houve mudanças em todos os setores do campo, reduzindo as sinergias da equipa, mas a própria atitude de relaxamento competitivo deixou Marrocos numa posição delicada, com dificuldades em impor o seu jogo. De positivo, ficaram as exibições de Achraf Hakimi (desta vez Brahim Díaz não acompanhou o nível), a atacar a linha de fundo e a própria área, e de Ismael Saibari, como 10, mas mantendo a capacidade de procurar a baliza. Numa exibição apagada e desligada da corrente, não é de estranhar que Soufiane Rahimi tenha conseguido impactar o jogo a partir do banco. Tem sangue na guelra e um espírito de competitividade imenso.

Sem vencer qualquer jogo, o Haiti deixa uma boa imagem na hora da despedida. Tentou sempre competir sem abdicar da sua ideia de jogo, com uma linha defensiva relativamente subida e procurando criar situações para atacar. Esteve perto de marcar diante da Escócia – e de pontuar – e diante do Brasil, num jogo em que a linha defensiva foi problemática. Contra Marrocos, deixou a competição com um sorriso e dois golos. Wilson Isidor já não se livra de ir para as compilações de melhores golos. 

Eis a classificação final do Grupo C:

  1. Brasil, 7 pontos
  2. Marrocos, 7 pontos
  3. Escócia, 3 pontos
  4. Haiti, 0 pontos

Como começar e como acabar | África do Sul 1-0 Coreia do Sul e Chéquia 0-3 México

Thapelo Maseko África do Sul Jogadores
Fonte: Federação Sul-Africana de Futebol

Sem uma pesquisa muito prolongada, não deve ter havido tantos jogos de abertura de um Mundial tão desequilibrados como o que México e África do Sul protagonizaram há duas semanas (como o tempo passa…). Mais por demérito dos sul-africanos. Não deixa, por isso, de ser uma surpresa que, no fim do grupo, os Bafana Bafana sigam em frente no segundo lugar, deixando para trás, com esperanças de agarrar um dos lugares destinados aos terceiros, uma Coreia do Sul a quem eram depositadas esperanças bem superiores.

O torneio da África do Sul foi feito em crescendo. Na primeira jornada, por opção própria, Hugo Broos abdicou da identidade dos sul-africanos e sofreu na pele as consequências por uma decisão tão conservadora. Na segunda ronda, o começo por baixo da Chéquia levou a uma reação que chegou já com uma versão mais própria na segunda parte e que permitiu resgatar um empate. Na derradeira jornada, com uma vitória como objetivo, surgiu a África do Sul no seu esplendor, num 4-2-3-1 bem definido, com intenção de atrair o adversário para explorar o espaço nas costas. Só por Relebohile Mofokeng estar em campo, já é uma ajuda à capacidade de ligação de jogo. Diante dos sul-coreanos, o maior destaque até esteve nos dois avançados de quem menos se esperava. Thapelo Maseko teve duas oportunidades que lhe fugiram para o pé direito. Na primeira que conseguiu enquadrar o pé esquerdo, marcou. Depois de Lyle Foster e de Iqraam Rayners, Evidence Makgopa foi testado na frente e correspondeu. Funciona bem como a referência para o jogo direto, enquadrando quem vem atrás. Uma das seleções mais carismáticas da competição descobriu-se a tempo. 

No ponto de vida inverso, a Coreia do Sul faz um torneio com sentido descendente. Começou capaz de reverter uma desvantagem para vencer, passou por dificuldades contra o México, 100% vitorioso, e agora foi inferior a uma seleção que, apesar das melhorias, andava pelas ruas da amargura. Desta vez, nem Lee Kang-in nem Hwang In-beom foram capazes de resolver e a equipa sentiu-se. Do banco, não chegaram boas notícias também. Son Heung-min, por exemplo, parece um fantasma do avançado entusiasmante que apaixonou o mundo. Por agora, resta aos coreanos esperar que apareçam mais três como a Escócia. Até lá, o futuro estará em dúvida.

México Jogadores
Fonte: Federação Mexicana de Futebol

De todas as seleções em prova, poucos esperariam que o México fosse a primeira a garantir um apuramento perfeito, quer a nível pontual, quer no registo defensivo. A jogar em casa, os mexicanos sabem que, continuando a seguir em frente, só nos quartos de final terão de se afastar do carinho dos adeptos. A segunda parte, onde se construiu uma goleada por 3-0 diante da Chéquia, foi galvanizadora e um bom presságio.

Da fase de grupos fica a sensação de uma superioridade clara e inequívoca diante de adversários de uma prateleira abaixo. Ainda assim, o registo do México é sólido e pragmático, como já se esperava. Do último jogo, marcado por uma rotação, surgem algumas certezas e novidades. Tal como diante da Coreia do Sul, uma exibição positiva da dupla do corredor direito, com Jorge Sánchez a incorporar ataques por dentro e Roberto Alvarado a abrir, mas também o jogo de Luis Romo. Não tem a fineza técnica de Álvaro Fidalgo, mas dá óleo ao meio-campo. De destaques, entre os com menos minutos, Mateo Chávez, também ele capaz de oferecer projeção sobre a esquerda, e Gilberto Mora. Com todo o cuidado pelas palavras, é um craque da cabeça aos pés. Impressionante a leitura de jogo e a capacidade no passe.

Que se diga, também, que a Chéquia é uma das seleções mais frágeis do Mundial 2026 e, provavelmente, a mais fraca na relação qualidade individual – qualidade coletiva. A proposta de jogo nunca seria muito atrativa, mas esperava-se que conseguisse ser, pelo menos, eficaz. Defensivamente, esteve sempre demasiado dependente de exibições individuais – Ladislav Krejci não merecia este desfecho – e, lá à frente, não houve nada para lá de lançamentos laterais. De jogo para jogo, Miroslav Koubek mudou demasiado para estar minimamente satisfeito com a prestação da equipa. Levou um Chéquia-mate demasiado cedo.

Eis a classificação final do Grupo A:

  1. México, 9 pontos
  2. África do Sul, 4 pontos
  3. Coreia do Sul, 3 pontos
  4. Chéquia, 1 ponto
Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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