A Bola de Ouro vai para Cabo Verde – Diário do Mundial 2026 #16

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Ousmane Dembélé, o Bola de Ouro | Noruega 1-4 França e Senegal 5-0 Iraque

Ousmane Dembélé França
Fonte: FIFA

Assim que a Noruega venceu Senegal, Erling Haaland tratou-se de acalmar os egos mais inflamados. «Eles provavelmente vão vencer-nos e provavelmente vão vencer o Mundial 2026», destacou o avançado norueguês quando perspetivou o duelo diante da França, na última jornada, a valer “apenas” a liderança do Grupo I. Da futurologia de Erling Haaland, que ficou no banco, metade está cumprida. Dia 19 de julho, poder-se-á confirmar a outra metade. 

Ao contrário da Noruega, a França não tirou o pé do acelerador. No ataque perfeito dos franceses, o protagonismo já havia chegado a Michael Olise, como assistente de luxo na primeira jornada, e a Kylian Mbappé, na segunda jornada, a alavancar os números que já havia conseguido na primeira ronda. Desta vez, o foco ficou em Ousmane Dembélé, o terceiro dos mosqueteiros. Só D’Artagnan vai mudando de jogo para jogo. Teve três golos de grande recorte técnico e feitos a papel químico, de fora para dentro a puxar para o pé esquerdo. É o Bola de Ouro por alguma razão. Nos dois primeiros, Kylian Mbappé apareceu como lançador, uma faceta que vamos vendo pouco, mas que continua a ter no seu jogo. Na calha para a próxima jornada, fica Manu Koné. Foi titular nos últimos dois jogos e é o mais dinâmico dos três médios de Didier Deschamps. 

Stale Solbakken acabou por gerir o plantel, poupar os titulares e dar minutos a todos os jogadores de campo que ainda não tinham entrado em campo. A Noruega está no Mundial 2026 com uma leveza assinalável, empurrada pelo remar dos pontos vermelhos na bancada, e é essa a sensação que este jogo, apesar da derrota, deixa. Entre todas as novidades, houve Thelo Aasgaard a chegar à área, Andreas Schjelderup e Oscar Bobb a desequilibrar nos corredores e Egil Selvik na baliza. Se a derrota não teve proporções maiores, foi porque o guarda-redes norueguês não quis.

Ismaila Sarr Senegal
Fonte: Federação Senegalesa de Futebol

A luta pelos terceiros lugares é uma das atrações da última jornada, por mais que venha atrelada numa sensação de injustiça desportiva. Os quatro pontos darão quase de certeza, mas os três pontos poderão ser suficientes. Nessa senda, Senegal entrava em campo para anular uma diferença de golos negativa, sabendo que três golos de diferença eram confortáveis (saldo 0) e que com quatro, assumiria a dianteira do grupo dos terceiros com três pontos. Foi isso que aconteceu.

Até é curioso pensar que, num cenário perfeito para a seleção africana, só depois dos 50 minutos se viu o pé no acelerador. Com um golo aos quatro minutos e em vantagem numérica desde os 12, depois da expulsão de Rebin Sulaka, ficou tudo à mercê dos homens de Pape Thiaw que só despertaram verdadeiramente para o jogo na segunda parte. Novamente, o Iraque foi penalizado por erros individuais, quer a expulsão, quer a perda de bola de Zidane Iqbal em terrenos proibidos. Num grupo mais acessível, teria outra palavra a dizer.

Depois do adormecimento, o Senegal marcou, marcou, marcou e marcou como tinha de fazer. Dos grupos, ficam duas certezas. A primeira está na profundidade do meio-campo, mas também na importância de Pape Gueye na equipa. Funciona como principal lançador e passador da equipa, mas desta vez teve mais abrangência. Nunca, na história dos Mundiais, um jogador tinha bisado e assistido após vir do banco. A segunda certeza é Ismaila Sarr. Por dentro, continua a fazer estragos. Pelo nível de Ibrahim Mbaye e Iliman Ndiaye, com pouca utilização, a solução para o ataque pode passar por aqui. 

Eis a classificação final do Grupo I:

  1. França, 9 pontos
  2. Noruega, 6 pontos
  3. Senegal, 3 pontos
  4. Iraque, 0 pontos

A história de amor cabo-verdiana na estreia em Mundiais | Cabo Verde 0-0 Arábia Saudita e Uruguai 0-1 Espanha

Diney Borges Dailon Livramento Cabo Verde
Fonte: FIFA

Cabo Verde está nos 16 avos de final do Mundial 2026. Por muito que a competitividade dos Tubarões Azuis seja reconhecida e evidente e que a probabilidade deste resultado não fosse assim tão mínima como muitos quisessem apontar, não deixa de ser um marco de relevo histórico. Na estreia nesta competição, Cabo Verde está nos 16 avos de final. No Mundial 2026, Cabo Verde está na fase a eliminar. A repetição surge como uma espécie de beliscar num sonho: sim, é mesmo realidade.

O embate diante da Arábia Saudita era, desde o início, encarado como potencialmente decisivo, pensando numa possibilidade do terceiro lugar ser suficiente. Nem foi preciso ir tão longe. Cabo Verde foi segundo lugar de um grupo onde foi, sem margem para dúvidas, a segunda melhor seleção. Não perdeu qualquer jogo e defrontou dois campeões do mundo. Diante dos sauditas, a haver um vencedor seriam sempre os Tubarões Azuis, bem mais resilientes defensivamente que eficazes lá à frente.

Foi a partir da organização coletiva e da solidez defensiva que Cabo Verde se apurou. A forma como Bubista conseguiu preparar e organizar a equipa para esconder as limitações dentro de uma ideia de jogo de grupo é assinalável. Há torneios de destaque das figuras defensivas – do novo fenómeno Vozinha, aos centrais Pico Lopes e Diney Borges e a Kevin Pina, o mais destacável da equipa – e exibições de relevo em todos os jogos. Na última jornada, Willy Semedo acelerou com a bola no pé e agitou e os laterais, quer João Paulo à esquerda, quer Wagner Pina à direita, souberam envolver-se no trabalho ofensivo. Tudo bem feito, tudo perfeito. Para quem já se bateu diante de dois campeões do mundo, a Espanha e o Uruguai, a Argentina é só mais uma etapa. Tudo o que vier a mais será um bónus merecido.

Lamine Yamal Alex Baena Espanha Jogadores
Fonte: Federação Espanhola de Futebol

O outro herói do apuramento de Cabo Verde é Alex Baena. É demonstrativo do estado mórbido do Uruguai que tenha sido num daqueles momentos temidos, em que um jogador está fora do relvado a ser assistido, que surgiu o golo. O detalhe nesta história é que era Mikel Oyarzabal, o avançado espanhol, que estava fora. Alex Baena saiu da esquerda para dentro e marcou o golo. Todas as histórias bonitas têm o seu lado desolador. Para Cabo Verde sorrir, o Uruguai chorou.

Não havia, antes do Mundial, qualquer expectativa para o torneio do Uruguai. Ainda assim, ainda foi capaz de desiludir. Entre 48 seleções, há, pelo menos, 32 melhores que a celeste. A Itália sorri e já não está sozinha na mesa das desgraças à escala mundial. O trabalho de Marcelo Bielsa já tinha atingido um ponto de rutura sem marcha atrás, com conflitos com o plantel, desacordos com os líderes do grupo e uma ausência qualquer de noção de trabalho de coletivo. Confiar em Fernando Muslera já era delicado em qualquer momento da história, fazê-lo em 2026 é uma alucinação. A forma como ficou no banco aos 45 e como Federico Valverde a ele se juntou pouco depois diz tudo sobre o balneário uruguaio. Apenas Maxi Araújo, cujas lágrimas são dolorosas, tentou remar para o outro lado.

A exibição da Espanha na estreia diante de Cabo Verde não foi um caso isolado. Apurando-se em primeiro, deixa poucas garantias quanto ao futuro. O trabalho coletivo continua a prevalecer, mas há muito poucos jogadores num bom momento individual. O grande diferencial, comparando à estreia, é Lamine Yamal. Pensa diferente, executa diferente e obriga o adversário a reagir de forma diferente. Há também Alex Baena, mais agressivo a partir da esquerda para funcionar como terceiro médio, mas também a atacar a última linha. O nível coletivo continuará sempre a ser diferencial, mas a falta do diferencial individual é algo que não sorri à Roja

Eis a classificação final do Grupo H:

  1. Espanha, 7 pontos
  2. Cabo Verde, 3 pontos
  3. Uruguai, 2 pontos
  4. Arábia Saudita, 2 pontos

Navegar ao sabor do vento | Nova Zelândia 1-4 Bélgica e Egito 1-1 Irão

Kevin De Bruyne Bélgica
Fonte: Federação Belga de Futebol

A Bélgica sabia que, se em Seattle o Egito e o Irão estivessem empatados, teria de vencer por três golos de diferença para garantir um primeiro lugar que, antes do torneio, era quase certo e, depois da fase de grupos, é uma salvação quase divina e caída do céu. Tudo esteve em risco, mas os velhos trunfos dos Diabos Vermelhos voltaram a aparecer. A geração de ouro é uma miragem distante, mas há pepitas que continuam a valer como tal.

Antes delas, apareceu Leandro Trossard. É quem mais beneficia, de forma indireta, da presença de Jérémy Doku em campo para andar mais solto no ataque em busca do espaço para rematar. Nos Diabos Vermelhos, é um tubarão, à procura do sangue vermelho para morder. Numa seleção com problemas criativos, a espontaneidade no remate ajuda. Depois, apareceram Kevin De Bruyne e Romelu Lukaku. Nesta fase da carreira, estão longe da perfeição, mas continuam a valer. Impressionante a batida na bola do Tintin belga, num jogo até de pouca precisão técnica, e a atração do potente avançado pelo golo. Assim se camuflam debilidades das mais grossas.

Na Nova Zelândia, se não houver mais nada a realçar, que se destaque o Mundial 2026 de Elijah Just. Fundamental a aproveitar tudo o que são espaços para rematar. Desta feita, até com uma presença mais central e muitos movimentos de rutura até à direita, continuou a ser fonte de desequilíbrios. Serão poucos o que o lembrarão como memória de 2026, mas todos os que o lembrarem terão um quentinho no coração. O Mundial também é destas histórias.

Egito Jogadores
Fonte: FIFA

Por falar em história, a outrora maior civilização da história apurou-se de forma inédita para a fase a eliminar de um Mundial. Há lá maior símbolo de empoderamento que um lugar no mata-mata. Tanta areia movida, uma escrita inovadora, monumentos magnânimos e tudo isso sem uma singela presença no lugar onde todos os países querem estar. Não deixa também de ser uma recompensa bonita ao legado de Mohamed Salah, já longe da melhor fase da carreira, ter alcançado este feito. Em 2018 estava no auge e viu uma lesão condicionar o sonho que alcança agora, oito anos depois.

A maior certeza deste Mundial do Egito é a da passagem do tempo. Mohamed Salah continua a ser a estrela, mas não joga sozinho. Dentro de toda a variabilidade de opções, Hossam Hassan conta com Emam Ashour, Mostafa Ziko ou Omar Marmoush para o ataque, permitindo ao Faraó dos Faraós uma proteção relativa. Não sendo uma seleção perfeita e estando bem longe disso, entrou na última jornada com a certeza da qualificação. Quando tudo acabava, contou com a intervenção divina. Talvez o Faraó seja mesmo um sinal da presença de Deus na Terra. Ou talvez seja Mostafa Shobeir. Perguntem a Rá. Vai na volta e a resposta esteja no segredo dos deuses.

Esse momento mudou, pelo menos por umas horas, a vida do Irão. Shoja Khalilzadeh tem sido um dos destaques iranianos na prova e merecia o golo da eternização. Sem ele, há que esperar que, nos três grupos em falta, pelo menos uma das seleções faça pior que três pontos e saldo de golos neutro. Não é um pedido impossível, mas também não será estranho que assim aconteça. Por mais que os iranianos tenham batalhado, ofensivamente a equipa ficou sempre curta. Mehdi Taremi foi uma tábua de salvação, sempre muito só na frente, mas conseguindo quase sempre tirar algo do jogo. Era outro dos que não merecia ficar ligado à infelicidade. Nas Américas, nenhuma seleção teve tamanha dificuldade em jogar como a iraniana. O desfecho correr o risco de ser conhecido pela televisão, num exílio distante e longe dos holofotes não é bonito, mas é uma metáfora demasiado real do mundo. Quando tudo se mistura com o futebol, também o futebol passa a ser uma mistura de tudo. 

Eis a classificação final do Grupo G:

  1. Bélgica, 5 pontos
  2. Egito, 5 pontos
  3. Irão, 3 pontos
  4. Nova Zelândia, 1 ponto
Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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