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Os noruegueses menos noruegueses possíveis | Costa do Marfim 1-2 Noruega


A Noruega não foi altamente superior à Costa do Marfim e qualquer superioridade, de um lado ou outro, é altamente questionável. O futebol é de margens cada vez mais pequenas, com resultados, desfechos e títulos mais dependentes de momentos e lances isolados do que de superioridades claras e inequívocas. É verdade que continuam a existir super equipas e é verdade que continuam a existir equipas bónus, mas são cada vez menos. E, nesse sentido, há fatores que vencem jogos. Foi assim que a Noruega venceu a Costa do Marfim.
Havia poucos jogos entre seleções da segunda prateleira no prato das candidatas mais interessantes nesta ronda e todas as expectativas foram cumpridas. Num jogo de equilíbrio evidente e com momentos de ascensão bem claros, a Noruega foi mais capaz de capitalizar as suas ocasiões e de chegar com perigo. Para isso, foi importante aos noruegueses serem o mínimo de noruegueses possível, pelo menos no estereótipo.
Se fosse preciso realizar um retrato-robô capaz de representar o norueguês tipo, para uma qualquer feira de turismo mundial, este seria um tipo grande, alto, de sangue gelado e presença fria. Ora, quem decidiu o jogo a favor da Noruega foram dois extremos distintos, mas de centro de gravidade mais baixo, mais franzinos e sem a mesma volumetria para ocupar o espaço. É certo que foi Haaland quem marcou um dos golos, que Patrick Berg, mais adiantado, fez de médio construtor, que os centrais e Nyland estiveram bem competentes na defesa da área. Mas sem Antonio Nusa e Oscar Bobb, dois extremos que contrapõem – até certo ponto – a ideia da fisicalidade extrema como máxima, não tinha havido golos.


Antonio Nusa até não tem necessariamente este perfil mais técnico, bem mais evidente em Andreas Schjelderup. É um extremo que se faz valer muito da mudança de velocidade e da capacidade de aceleração para trazer valor às jogadas, mas que tem também no drible e na superação de adversários uma mais-valia clara. Marcou um golaço para emoldurar. Quando tudo se complicou, Oscar Bobb entrou. É demasiado difícil não o chamar de Bobb, o Construtor. A forma como mete o passe no lance que decide o jogo é fantástica, abrindo o campo e tornando um ataque normal numa situação de vantagem na área. Não ficou com números, mas ficou com o estatuto que o campo ditou. Está aí a espreitar a titularidade.
Independentemente do resultado, uma das equipas mais interessantes do Mundial 2026 diria sempre o adeus à competição. Calhou ser a Costa do Marfim. Desde a CAN 2023, disputada já no ano seguinte, quando o mundo começou por desabar para, num roteiro de cinema, terminou com a celebração de um título caseiro, que os Elefantes estão num processo de crescimento. Emerse Faé organizou a seleção e está a extrair-lhe o valor.
Deste Mundial 2026, saem três nomes acima de todos, com uma grande menção honrosa. Amad Diallo entrou para revolucionar o jogo e esteve perto de conseguir um bis que traria de volta a incerteza. Só não foi o Mundial dele porque há nomes ainda mais relevantes neste percurso. Acima de todos os outros, Yan Diomande. Para lá da história que deu a conhecer ao mundo – e deixou, certamente, a irmã orgulhosa – mostrou muito futebol nos pés. Pelos dois lados, é um extremo desconcertante, acelerando com a bola e driblando. Também Nicolás Pépé, nesta fase da carreira mais pensador que acelerador, se destacou. Por dentro ou da direita para lá, encontrou sempre soluções e desequilíbrios. Vive uma fase de redenção, onde joga liberto da etiqueta que já transportou e onde apenas o futebol interessa. Por fim, o teto de Christ Inao Oulai é difícil de prever. Novamente, joga num contraponto a toda a fisicalidade que a seleção tem, desde logo Franck Kessié e Ibrahim Sangaré, os seus companheiros no meio-campo. Pensa o jogo, dá soluções e joga a várias alturas. Dará o salto este verão.
A sensação leve da invencibilidade | França 3-0 Suécia


É certo que a procissão ainda vai no adro, que ainda faltam os verdadeiros desafios e que é muito cedo para cantar de galo. Mas, o que dizer quando é o galo quem está a cantar e a encantar? Que a França era uma das favoritas a vencer o Mundial 2026 era evidente e não há qualquer espaço para a discussão. Mas o nível de domínio e de facilidade nos jogos em que os franceses entram em campo está a ser um absurdo completo.
Didier Deschamps levou a França, reduzindo a análise a Europeus e Mundiais, a três finais nos últimos 10 anos. Venceu uma e perdeu duas, como Éder bem se recordará. Mesmo assim, nunca teve o crédito devido. Goste-se mais ou menos, até porque a estética será sempre subjetiva, conseguiu sempre tirar resultados das boas gerações francesas. Em certos momentos podiam jogar melhor ou ter outro rendimento, é verdade, mas também é verdade que os principais elementos criativos – Paul Pogba, Antoine Griezmann, Kylian Mbappé – nunca foram desaproveitados e, pelo contrário, foram sempre potencializados. Nunca perdeu o balneário, mesmo com o desfile de egos na passarela azul, branca e vermelha, e conseguiu sempre novas formas para enquadrar da melhor maneira os melhores jogadores.
Mesmo assim, qualquer uma das seleções montadas anteriormente era menos temível que a de 2026. A profundidade de opções para a frente assustava, mas o nível que os grandes talentos da seleção, particularmente Michael Olise, Ousmane Dembélé e Kylian Mbappé, têm atingido é astronómico. A França joga por eles e para eles. Não passou ainda por grandes apertos nos jogos e conseguiu sempre enquadrar os principais criativos. Há um protagonismo que Mike Maignan, William Saliba, Dayot Upamecano, Jules Koundé ou Aurélien Tchouaméni teriam em qualquer outro lado. Nos gauleses, são apenas coadjuvantes, nas máximas possibilidades.


Desta vez, nem Ousmane Dembélé foi personagem principal. Esse estatuto ficou dividido entre Kylian Mbappé e Michael Olise. Que brutalidade de dupla anda pelos EUA a fazer estragos, qual Bonnie & Clyde. Kylian Mbappé tem na seleção a sua melhor versão porque é também onde mais goza de uma liberdade que o ajuda a ser decisivo por todo o lado. Não é só o jogador para atacar espaços, agora surge também na sua melhor versão como o lançador que vem buscar jogo e criá-los para lançar alguém por lá. Continua a aparecer próximo da baliza para marcar. Em 18 jogos leva 18 golos em Mundiais. Não andará longe de ser o melhor jogador da história na competição. Está escrito, está dito e não há volta atrás.
Michael Olise apareceu como uma aparição, face a redundância, para preencher o vazio criativo depois da saída de Antoine Griezmann. Quando tem um pouco de espaço na zona central à baliza, é mortífero na capacidade de passe ou de remate. Não é à toa que é o melhor assistente do Mundial. Não fosse o poste e entraria direto no top dos melhores golos da história da competição. Joga como quem não quer bem saber, mas sabe de tudo o que é ter impacto no terço ofensivo. A França é o coletivo que melhor permite a expressão individual. Quando se tem os melhores jogadores do mundo…
A Suécia, excetuando os primeiros 20 minutos, com Ayari e Bergvall a controlar a zona central e o trabalho dos avançados, transformados em autênticos cães de guarda, pouco criou. Cumpriu com as expectativas num Mundial onde só está porque as regras da classificação europeia o permitiram. Na despedida, permitiu a Jacob Zetterstram brilhar. Com três golos sofridos, não haverá assim tantas exibições tão boas neste Mundial. Já Egil Selvik se destacou com quatro golos na sua baliza. Talvez não haja melhor elogio à França que este.
O que foi isto? | México 2-0 Equador


O futebol tem as suas maneiras de surpreender, mas continua a colocá-las no caminho da forma mais inesperada possível. O México tinha ganho todos os jogos da fase de grupos sem sofrer golos, mas além do nível dos adversários, nunca tinha conseguido mostrar o domínio e capacidade com que, ao longo de 45 minutos, simplesmente subjugou o Equador. Parecia outro jogo. Mais do que a quarta vitória consecutiva, mais do que o quarto jogo consecutivo sem sofrer golos, o México não deu qualquer hipótese a uma seleção que vinha moralizada e com qualidade.
De resto, e não sendo naturalmente o principal fator do triunfo, o ambiente no Azteca é impressionante. O jogo começou atrasado uma hora, em virtude de um alerta de tempestade, e nem isso tornou o ambiente mais calmo ou menos efervescente. Pelo contrário, provavelmente. Aos primeiros minutos, já se ouviam Olés cada vez que o México somava uns quantos passes e cada posse de bola equatoriana era marcada por um ruído ensurdecedor. Nos oitavos de final, os mexicanos continuarão a jogar em casa. Aí, não há impossíveis.
Ao ambiente, juntou-se o que o México foi capaz de vencer. Mais do que jogar noutra velocidade, parecia outro desporto. O Equador, como habitual, lançou-se nos seus encaixes individuais em todo o campo, na tentativa de recuperar bolas lá em cima e de visar a baliza. Nem cheirou a bola. O canto da sereia, o encantador de serpentes ou o jogo das escondidas mais difícil de sempre. Cada vez que um jogador do Equador se aproximava da bola, ela já andava por outros lados. Cada vez que chegava perto da marcação, já por lá andava outro jogador.


Entre o centro e a direita, tudo fluiu bem para o México. Jorge Sánchez ganhou o lugar a Israel Reyes e mudou algumas dinâmicas na seleção mexicana. Já não funciona como o terceiro central. Pelo contrário, mete-se por dentro e anda a toda a altura, compensado constantemente por Roberto Alvarado, um rosto do equilíbrio. Por dentro, andavam Erik Lira, Luis Romo, Gilberto Mora e Raúl Jiménez, a jogar à apanhada com os jogadores amarelos. Andavam por todo o lado, à procura do espaço vazio para trocar passes. A maturidade, regularidade e qualidade da exibição de Gilberto Mora é para guardar e recordar. Será uma superestrela. Neste jogo de atrações, Julián Quiñones funcionou no lado contrário, para receber solto, depois da pressão ter sido atraída. Marcou um golo e deu uma assistência. Em termos de produto final, é fundamental para o México. Não deverá haver assim tantos 45 minutos de tanta qualidade como estes.
Na segunda parte, um México mais dentro do esperado, dentro do seu estilo mais pragmático, mas mantendo válvulas de saída. Foi mudando jogadores, refrescando a equipa e juntando jogadores lá atrás, para lidar com o crescente de nomes do Equador a atacar a última linha. Não houve o génio da primeira parte, mas houve uma solidez que fará com que os adversários se tenham de preocupar. Javier Aguirre sabe muito de futebol e pode muito bem colocar o Mundial 2026 como a sua melhor campanha pela seleção e no topo histórico. Neste momento, já não seria surpreendente. Neste caminho, o México tem quatro golos. Impressionante também o registo defensivo.
O Equador merecia chegar até esta fase, mas não teve argumentos para fazer mais. Defensivamente foi superado e até os elementos da última linha, mais reputados internacionalmente, sofreram. Não foi o jogo (nem o Mundial) de Pacho, Ordóñez ou Hincapié. Sem a segurança defensiva, será sempre muito complicado para a seleção equatoriana competir. Ofensivamente, há mais contras que prós, por mais que Nilson Angulo e Jordan Yebboah tenham conseguido valorizar-se como extremos com produto final e que Pedro Vite consiga criar. Não foi o jogo mais influente de Gonzalo Plata e Enner Valencia, por mais carinho que mereça, já não consegue oferecer o necessário para este nível. Se Kendry Paéz ganhar cabeça, e vai bem a tempo, pode ajudar nesta reformulação ofensiva.

