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O cérebro é o melhor físico que se pode ter | Canadá 0-3 Marrocos


Quando o futebol viram um campo de atletismo, há um órgão que se destaca acima dos demais. Não é nenhum músculo, nenhum constituinte do pé ou qualquer mão de guarda-redes. É o cérebro, esse fiel escudeiro humano que insiste em permitir ao corpo executar ações que parecem impossíveis. E, num jogo marcado pela imposição física, pela capacidade atlética e pela vertigem constante, foi do cérebro que chegou a diferença do resultado.
Os primeiros 45 minutos da seleção do Canadá foram impositivos, com capacidade para vencer duelos, pressionar alto e de criar oportunidades a partir de recuperações altas, impedindo Marrocos de ganhar grande sequência e metendo o jogo em moldes saudáveis e ajustados às características da seleção de Jesse Marsch. Fossem outras cores na camisola, e podia ser um jogo qualquer do RB Leipzig, por exemplo.
Tani Oluwaseyi soube destacar-se e impor-se no meio-campo contrário, os centrais Moise Bombito e Luc de Fougerolles encurtaram o espaço e, quer pelos extremos, quer pelo trabalho da dupla da frente, a seleção canadiana conseguiu recuperar bolas lá à frente. Redouane Halhal não é Chadi Riad quando o assunto é passar a bola e Ayyoub Bouaddi foi cometendo alguns erros sob pressão. Como tem sido comum, faltou outro acerto na definição e na finalização. Para o Canadá, é preciso produzir muita quantidade para conseguir esconder alguma falta de qualidade em alguns momentos. O jogo foi para o intervalo tal como começou e, na segunda parte, Marrocos marcou diferenças pela única forma por onde se poderia superiorizar.


O início do jogo foi complicado para a seleção africana, uma das que melhor futebol pratica neste Mundial. A imposição física canadiana nos duelos e a energia colocada nas transições fez do vai-vem um estilo de vida onde Marrocos nunca se conseguiu impor. A lesão de Ismael Saibari, que permitiria sempre alguma tranquilidade e variabilidade nos ataques, retirou algum poder à equipa de Mohamed Ouahbi. Até que apareceram Brahim Díaz, mas principalmente, Azzedine Ounahi para resolver. Quando se mete o atleticismo e capacidade e energia na corrida, estão fora da equação. Quando começaram a contrariar esta tendência e a interpretação de espaços e a definição técnica dos lances ganhou espaço, chegaram os golos. Impressionante o recorte técnico que o extremo tem metido em vários lances. Do médio, é destacável a velocidade com que perceciona espaços e com que toma decisões para acelerar ou travar o jogo. Já não é revelação.
Quando em vantagem, Marrocos voltou a 2022 por uns instantes. Anulou riscos e apostou numa postura mais expectativa, baixando o bloco e apostando na capacidade de sair de forma mais rápida – Soufiane Rahimi brutal neste cenário – e de se proteger. Entrou Amrabat, para fazer lembrar o último Mundial e, entre a redução dos riscos e a organização defensiva, anulou o Canadá da partida. No futebol, nada se cria de um jogo para o outro, mas também nada se perde. A solidez defensiva é uma obrigatoriedade em torneios de tiro curto, principalmente em certos contextos nos jogos a eliminar. E Marrocos conseguiu fazê-lo.
O desnível do resultado não transparece a competência e competitividade do jogo do Canadá. Correria sempre por fora diante dos Leões do Atlas, mas apresentou uma versão sólida, complicou o jogo e conseguiu, principalmente na primeira parte, demonstrar superioridade. O modelo de jogo de Jesse Marsch teve repercussão em campo e enquadrou os jogadores em posições e funções de onde lhes conseguiu extrair rendimento. Entre as certezas do caminho tomado, fica a dúvida: o que seria deste Canadá com Alphonso Davies a um bom nível físico. Uma pena que nunca o tenha conseguido demonstrar num torneio de bom nível para a sua seleção.
Batalha ganha | Paraguai 0-1 França


Mais do que um jogo de futebol, a França teve de vencer uma batalha campal. Nunca seria uma partida fácil, a Alemanha que o comprove, mas o Paraguai foi capaz de levar tudo para outro nível diante de uma das melhores seleções do mundo. Não há vitórias morais nem qualquer tipo de resultado final que os sul-americanos retirem do jogo, mas a exibição paraguaia teve alma e propósito. Só assim se explique que, pela primeira vez neste Mundial, a França tenha passado tamanhas dificuldades.
Não há qualquer intenção em romantizar o que o Paraguai fez. Para competir, entrou em campo para destruir. Defendeu-se em 5-4-1 com linhas muito juntas, preencheu a área e o espaço interior e reduziu quase todas as possibilidades para os gauleses combinarem, procurarem o espaço ou entrarem na área por via de intenções individuais. Sem referências na área para situações de cruzamento, a França fez o que lhe competia e foi circulando a bola à espera que um espaço se abrisse. E conseguiu fazê-lo. Mas, do outro lado, ergueu-se um verdadeiro muro.
Sobre a agressividade – excessiva em muitos momentos – e, principalmente, a forma como foi permitida, não há culpas ao Paraguai. Por muito que se tentasse evitar um festival de cartões, é absolutamente impossível olhar para este jogo e achar normal que, do lado sul-americano, não tenha havido nenhuma atitude justificável de sanção disciplinar. E aí, a culpa não recai nos jogadores, que tinham na vontade de extrapolar o jogo para um plano transcendente ao futebol e ao toque de bola, mas à forma como a partida foi arbitrado. O risco da estratégia do Paraguai passava, para lá das brechas, pelo efeito que cartões amarelos poderia ter na contundência nos duelos. Sem esse fator em jogo, tudo o que os paraguaios procuraram saiu reforçado.


Não houve, ao contrário do que aconteceu noutros jogos, capacidade para escoar jogo e procurar saídas. Por mais que Julio Enciso e Miguel Almirón, suportado por Diego Gómez, tentassem sair de forma rápida para ganhar alguma falta ou alguma continuidade no lado contrário, quando se defrontam defesas como William Saliba ou Dayot Upamecano, todas as tentativas isoladas se transformam em esforços inócuos. E, a partir da capacidade de ter sempre solidez defensiva, a França conseguiu materializar o tempo de ataque.
Não houve espaço para muito e as principais referências até passaram algo longe do jogo. Manu Koné tentou por duas ou três vezes a meia distância e tentou forçar entradas, mas, quando saltou do banco Désiré Doué é que tudo se resolveu. Uma entrada em campo, uma entrada na área e um malabarismo improvável que meteu um pé paraguaio num sítio proibido. Não há qualquer artifício melhor para fazer face a blocos baixos que a qualidade e as artimanhas individuais no drible e desequilíbrio. A profundidade do plantel francês é absurda e voltou a ficar bem patente. Quando se tem Désiré Doué a saltar do banco…
Do lado francês, há também um grande mérito. Embora seja evidente que a postura paraguaia, acentuada por 70 minutos sem um golo, fez mossa e obrigou a equipa gaulesa a redobrar esforços, nunca o jogo esteve descontrolado. Dentro dos possíveis, a França manteve a paciência na circulação e na forma como forçou entradas e como, do ponto de vista mental, fez a gestão das emoções. Haveria sempre espaço a uma enormidade de confrontos em campo e alguns deles obrigariam aos famosos tête-à-tête. A cabeça fria salvou a França de males maiores e a vitória na Batalha do Paraguai vai ser combustível para a Guerra. Essa, ainda terá de ter mais três capítulos para ser vitoriosa.

