Cristiano Ronaldo: A dor do fim inevitável

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Após a participação de Portugal no Mundial 2026 ter terminado de forma algo inglória e com um balanço negativo em geral, existem vários temas a serem tratados antes da equipa nacional iniciar o próximo ciclo. Sendo certo que o mais falado já teve tratamento com a saída de Roberto Martínez para a entrada de Jorge Jesus e assim existirão mudanças a nível tático e espera-se o mesmo no rendimento da equipa. No entanto, ainda existe outro que permanece pendente e é inevitável: a continuidade de Cristiano Ronaldo na seleção.

Embora o novo selecionador tenha dado a entender na sua apresentação que ainda não tinha falado com o capitão da seleção sobre a sua continuidade, tudo indica que Jesus não se irá opor à mesma. Ficou apenas no ar que não terá problema em substituir Ronaldo mais vezes do que Martínez o fez, o resto permanece uma incógnita.

Cristiano Ronaldo e Roberto Martínez Portugal
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Enquanto não arranca o novo ciclo da seleção com Jorge Jesus ao leme, com início marcado para finais de setembro, frente à seleção do País de Gales rumo a uma grande caminhada na Liga das Nações, existe tempo para refletir e tomar uma decisão quanto à continuidade de Cristiano Ronaldo na equipa das quinas. Sendo que a mesma decisão tem de ser tomada pelo próprio jogador, pelo novo selecionador ou mesmo por ambos.

Antes de se verificar uma decisão nítida quanto ao assunto, existirão sempre três narrativas jusantes a três fações relativamente a este tema, todas elas com alguns radicais.

Uma a defender que se deve ser grato para sempre a Cristiano Ronaldo, que o mesmo deve ser sempre opção (ou mesmo sempre titular) e que qualquer crítica ao histórico jogador português é infundada ou injusta.

Uma segunda que talvez até agora tenha sido a mais moderada, defendendo que Ronaldo deveria estar sempre entre os eleitos na convocatória, mas nem sempre entre os titulares e devendo ser gerido o tempo em que é utilizado, até para dar o seu melhor e não ficar desgastado muito depressa.

Por fim, uma terceira que pode ganhar mais força neste momento e que não é de agora, defendendo que Cristiano Ronaldo deve deixar a seleção fruto da sua idade, de já não conseguir acrescentar o mesmo que já deu no passado e por estarmos no tempo de existir uma mudança e renovação nas opções.

Cristiano Ronaldo
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Convém recordar que este dossiê não é de agora e nem é verdadeiro reportar o mesmo aos tempos de Roberto Martínez. Tudo isto começa no Mundial 2022. No torneio disputado no Catar, Cristiano Ronaldo teve um conflito com o então selecionador, Fernando Santos quando o mesmo o substituiu “cedo” no jogo contra a Coreia do Sul e “amuou”. Tudo num contexto em que a seleção já estava apurada e Cristiano Ronaldo não tinha tido um rendimento que justificasse ser titular indiscutível (apenas um golo de penálti frente ao Gana, desperdício de muitas oportunidades de golo e a reclamação de um golo que não foi seu, mas sim de Bruno Fernandes frente ao Uruguai).

O ex-selecionador campeão europeu em 2016 teve vários pontos negativos enquanto orientou a equipa, desde logo o paupérrimo futebol praticado e as opções demasiado comodistas em muitos jogos em que se devia ter arriscado muito mais.

No entanto, além de ter vencido dois dos três troféus da seleção portuguesa e ter tido sempre (salvo algumas exceções) convocatórias com os melhores jogadores disponíveis, Fernando Santos teve o mérito de ter entendido que Cristiano Ronaldo poderia estar a entrar numa fase descendente e que provavelmente outra opção serviria melhor o ataque da seleção em alguns momentos.

Cristiano Ronaldo João Félix Mundial 2022 Jogo
Fonte: FIFA

Assim foi nos oitavos de final, quando Gonçalo Ramos foi titular e fez um hat-trick (três golos) à Suíça, enquanto Ronaldo foi suplente e só entrou aos 74 minutos. O mesmo aconteceu frente a Marrocos, em que Portugal fez uma exibição aquém do desejado e terminou eliminado. Um jogo em que Ronaldo saiu em lágrimas, após não ter conseguido fazer a diferença quando entrou aos 51 minutos e talvez sentindo que tinha sido a sua última aparição num Campeonato do Mundo.

Recuando aos últimos meses de 2022, Cristiano Ronaldo passava um dos momentos mais difíceis da carreira. Os resultados não estavam famosos no Manchester United (tinha ficado em sexto lugar no final de 2021/22), tinha chegado um treinador com o qual teve uma relação nada saudável (Erik ten Hag) e tudo terminou com uma entrevista absolutamente transparente e sem tabus ao jornalista britânico Piers Morgan. Uma sequência de acontecimentos que terminou com a saída de Cristiano Ronaldo do emblema inglês e terminou a rumar à Arábia Saudita para representar o Al-Nassr.

Contudo, durante este período e no regresso a casa português do Mundial do Catar, já se falava se Ronaldo continuaria na seleção, pois com 37 anos o fim já se avizinhava. Acabou por continuar agora às ordens de Roberto Martínez, mas era inevitável não durar muito mais tempo este seu ciclo final na seleção.

Roberto Martínez Portugal
Fonte: Luís Batista Ferreira/Bola na Rede

Disputou o Euro 2024 (zero golos e uma assistência em cinco jogos), a Liga das Nações 2024/25 (única com um bom rendimento em geral, com oito golos e uma assistência em nove jogos) e o Mundial 2026 (três golos em cinco jogos). Com a exceção da Liga das Nações, o rendimento de Ronaldo no Euro 2024 e Mundial 2026 foi absolutamente uma sombra do que já foi e pouco útil para o que uma seleção como a portuguesa almeja jogar nas grandes competições.

Se em 2024 já se dizia que o rendimento de Cristiano Ronaldo não acrescentava o necessário à equipa e que só era titular devido ao seu estatuto e passado na equipa das quinas, em 2026 ainda maior é essa a imagem que se vê dentro das quatro linhas. Sendo notório que alguns dos melhores jogos da seleção em termos de qualidade de jogo e entendimento entre os jogadores da equipa é sem Cristiano Ronaldo na equipa (5-2 à Suécia, 9-0 ao Luxemburgo ou 9-1 à Arménia são alguns entre mais exemplos).

João Cancelo Erik Piloyan Portugal Arménia
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Cristiano Ronaldo está a caminho dos 42 anos, logo a idade não lhe perdoa (nem a nenhum jogador) e já não joga ao mais alto nível há quatro anos, pois jogar na Arábia Saudita não é do mesmo nível de jogar na Europa. Já para não falar da realidade da frase já dita por alguém no mundo do futebol: “Quando bates à porta, não perguntas quem eras, perguntas quem é”.

O seu rendimento na seleção nos últimos dois anos, mais em particular no Euro 2024 e agora no Mundial 2026 foi muitas vezes penoso de se ver. É um rendimento maioritariamente com remates desenquadrados, alguma falta de perspicácia, dificuldade no salto, pouca mobilidade e a incapacidade de dar mais que um toque na bola sem a perder.

A pouco e pouco, o seu porte atlético (outrora) de topo já de pouco lhe tem valido para acrescentar algo à equipa. Também o prejudica ser (como sempre foi) um elemento que necessita mais que lhe criem jogo do que cria aos companheiros. Nos seus melhores dias, pouco mais se vê do que exibições esforçadas, com algum entrosamento com os colegas, alguma mobilidade e bom posicionamento a rematar, resultando em alguns golos.  Tirando isto, mais nada Cristiano Ronaldo pode acrescentar à equipa nacional e com o tempo, cada vez menos.

Cristiano Ronaldo
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Não se percebendo se o capitão da seleção portuguesa está em negação para perceber que já não é o que era ou já entendeu, mas não dá o braço a torcer, está claro que o terminar do seu ciclo está muito doloroso de concluir embora seja inevitável. Tal como não faz sentido planear ou desenhar o próximo ciclo da seleção nacional portuguesa tendo como principal alínea qual será o papel de Cristiano Ronaldo e muito menos construir a equipa em torno de um jogador com 41 anos que é uma sombra do que já foi. Não faz sentido algum, há sempre alternativas.

Portanto, é justo dizer e pensar que o seu tempo chegou ao fim. Cristiano Ronaldo é e será durante largo tempo (se não mesmo para sempre) o melhor jogador da história do futebol português, além dos maiores nomes do futebol internacional. Logicamente que a sua carreira é ímpar e no dia em que Ronaldo se retirar, o país terá de o aplaudir com todo o orgulho do mundo. Mas também é necessário olhar para o tempo em que se está e o próprio contexto.

Já existiram diversos jogadores que tiveram a dignidade e a coragem de se retirar da seleção nacional no momento em que consideraram certo e sem nunca mudar a sua imagem com as quinas ao peito. Luís Figo após o Mundial 2006 ou Rui Costa no Euro 2004 são bons exemplos.

De modo particular, é notável o exemplo de Rui Costa. Em 2008, para um DVD que estava a ser realizado com o objetivo de recordar os feitos passados da seleção nacional e que precedeu a participação de Portugal no Euro 2008, chamado “Força de Campeões”, o “maestro” partilhou as razões do adeus à seleção após o Euro 2004: “Sentia que não tinha a importância de outros tempos na seleção”, “o meu passado na seleção poderia até não ser uma vantagem” e “entendi também que havia uma geração que estava a crescer”.

Cristiano Ronaldo Portugal
Fonte: Luís Batista Ferreira/Bola na Rede

Tudo isto mostra a classe, a elegância e o bom senso de um jogador quando sente que o seu tempo de representar a seleção chegou ao fim e saber sair sem nunca manchar o seu legado com as quinas ao peito. Enquanto a imagem que Cristiano Ronaldo pode deixar nesta fase final, além do seu ego enorme, é caracterizada com a frase “Deixarei a Seleção quando eu quiser”. Uma frase que só seria compreensível se se estivesse a referir ao seu tempo enquanto jogador de futebol, aí logicamente só se retira quando entender. Agora referindo-se à seleção nacional é totalmente errado, pois Cristiano Ronaldo não é maior do que o emblema português. Se a seleção portuguesa voltou a renascer e a dar grandes alegrias ao povo após a saída de Eusébio, Chalana, Futre e Figo, logicamente irá acontecer o mesmo após Cristiano Ronaldo.

Um grande obrigado a Cristiano Ronaldo, o melhor jogador português de sempre e da seleção nacional. Mas tudo tem um fim, acabou. É hora de novo sangue, novas caras e uma verdadeira “equipa” em vez de um grupo de jogadores afamados com um enorme elefante na sala.

Jorge Afonso
Jorge Afonso
O Jorge apaixonou-se pelo futebol num dérbi em Alvalade e nunca mais largou. Licenciado em Comunicação Social e mestre em Ciência Política, vive entre estatísticas, memórias épicas e o encanto de equipas como o Barça de Guardiola ou a França de Zidane.

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