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Resultado final: 10 golos | França 4-6 Inglaterra


O jogo para definição do terceiro e quarto lugar do Mundial é sempre um mistério. Nunca é o jogo mais interessante para qualquer uma das equipas, abaladas pela morte na praia, antes do duelo final, mas, muitas vezes, é dos duelos mais memoráveis e abertos do Campeonato do Mundo. A ausência de grande pressão, apesar da diferença natural entre o terceiro lugar, de medalha, e o quarto, leva a revoluções no onze e a uma leveza e abertura pouco vistas. Foi tudo exponenciado por França e Inglaterra.
Para se ter noção, o jogo do Mundial 2026 com mais golos foi o Alemanha x Curaçau, um 7-1 que refletiu a diferença entre as duas seleções e que contou com oito bolas na baliza. O duelo entre França e Inglaterra teve 10. Pela primeira vez, neste século, alcançaram-se os dois dígitos no mesmo jogo num Mundial. Assim, vale a pena ver este jogo.
O roteiro do França x Inglaterra é ainda mais entusiasmante. Didier Deschamps fazia a despedida da seleção francesa. Thomas Tuchel viveu dias difíceis, ao ser o mais questionado do grupo inglês depois da eliminação. Quando tudo parecia apontar para um favoritismo gaulês, foram os Três Leões quem chegou ao intervalo a golear. Na segunda parte, a reviravolta andou a pairar no ar, mas, no fim, Inglaterra lá se conseguiu salvar.


Taticamente, não foi um jogo muito interessante. A adaptação de Thomas Tuchel, puxando, primeiro Eberechi Eze, depois Morgan Rogers (sai reforçado do Mundial pela polivalência e posicionamentos múltiplos), ajudou a criar superioridades no meio-campo, principalmente na primeira parte. Na segunda, o regresso de Michael Olise ao meio e a reformulação do quarteto ofensivo ajudou a França. Pouco mais há a destacar deste ponto de vista. O resto, passou pela qualidade dos jogadores.
Ivan Toney apareceu para, longe da qualidade, tentar replicar o papel de Harry Kane, baixando em campo para ajudar a Inglaterra a lançar os extremos, de fora para dentro. Foram várias as vezes em que, aproveitando o descalabro defensivo francês, abrindo espaços por todo o lado, com dificuldade na coordenação da linha e com imenso espaço para ser explorado, quer Marcus Rashford como Bukayo Saka conseguiram gerar vantagens.
Particularmente o último viveu uma exibição de luxo, principalmente pelo produto final. Ainda tem muito tempo para crescer, mas está a transformar-se num jogador de definição e de produção ofensiva no último terço, mais do que um desequilibrador nato. Chamou a responsabilidade e a sobriedade e, com o hat-trick, levou uma das bolas douradas para casa. O momento do penálti marcado é particularmente simbólico. Poucos jogadores terão sofrido mais, às mãos (e teclas, principalmente) de energúmenos, boçais e desprezíveis do que Bukayo Saka. Ajudou a fazer esquecer 2021.


Também no meio-campo há méritos. Declan Rice fez, porventura, a melhor exibição no Mundial, principalmente na primeira parte. Desta vez, sem Elliot Anderson a dar suporte, agigantou-se ainda mais na área de campo que conseguiu cobrir. Além do preenchimento de espaços, teve impacto ofensivo pela batida na bola. Sempre que tiveram espaços, Eberechi Eze, no passe, e Morgan Rogers, na abrangência de movimentos, criaram perigo.
Por aqui se explica uma superioridade inequívoca inglesa na primeira parte. Da França, para lá de Kylian Mbappé, que procurou sempre, num registo mais individualista que coletivo, agitar as águas, uma autêntica catástrofe, palavra de selecionador. A segunda parte ajudou à estabilidade, começando pela forma como as entradas de Bradley Barcola, pela ameaça ao espaço, e de Ousmane Dembélé, pela objetividade e por permitir a Michael Olise voltar a terrenos interiores, permitiram.
Em menos de 10 minutos, dois golos franceses reabriram o jogo. Já não é a primeira vez que a França reage a uma desvantagem de quatro golos. Tal como na última Liga das Nações, diante da Espanha, foi insuficiente. Ainda assim, o registo à brutalidade da segunda parte de Kylian Mbappé e Michael Olise. O primeiro, tal como na primeira, andou à boleia da procura dos recordes. Ainda falta o veredicto de Lionel Messi, mas garantiu, para já, o estatuto de melhor marcador do Mundial 2026 e da história da competição. 22 em 22, números históricos. Impressionante a forma como consegue produzir chances em contextos complicados. Por mais que a ineficácia esteja de mão dada, não há como olhar para o Mundial de Olise com nota francamente positiva. Passou de vértice a centro das combinações e criou inúmeras oportunidades. Já não é Pelé o maior assistente numa única edição do Mundial. Nota de registo.


Lá atrás, e em comparação à primeira parte, apareceu Dayot Upamecano. Fez um Mundial de grande nível, coroado com uma última exibição de tremendo impacto. Ressuscitou um setor moribundo, deu liderança e segurança à linha defensiva e permitiu à equipa atacar de forma mais liberta e espontânea pelo conforto que passou a ter. Nos últimos minutos, o trabalho impecável do defesa foi penalizado por duas ocasiões, mas não anula a exibição, muito menos o torneio, de um dos destaques franceses na prova.
Para bem de Inglaterra e do próprio Thomas Tuchel, com outra cara para enfrentar o próximo ciclo de dois anos, nesta fase mais delicada, apareceram três nomes para resgatar. Desta vez, o treinador dos ingleses demorou a mexer e, com o arrastar do desgaste, foram sendo expostas lacunas. Dean Henderson segurou vários lances de perigo e, mais importante, Djed Spence voltou a deixar muito boas indicações. É um lateral agressivo a fechar o espaço, capaz de recuperar e com argumentos no 1X1 defensivo, para lá da capacidade que oferece em condução e a esticar jogo na frente. Depois de uma época meio desacreditado, ganha estatuto. Do banco, veio Jude Bellingham revolucionar o jogo ofensivo inglês. Há poucos nomes com a sua personalidade para mudar jogos. Deu ameaça no espaço, no drible e em transição e permitiu à seleção inglesa respirar e contrariar os lances de perigo. Sai do Mundial como o melhor jogador e o melhor marcador inglês na prova – e na história da seleção, numa única edição do Mundial. Hey Jude!

