Do alto da sabedoria dos seus 72 anos, tem Jesus finalmente a oportunidade de comprovar que o seu talento é também ele à medida da elite europeia.
Em contexto clubístico, sempre foi essa piscina demasiado grande mesmo para o seu Benfica: na Champions, Jesus, em oito épocas entre os rivais da Segunda Circular, qualificou-se da fase de grupos em duas ocasiões – a mesma conta de vezes com que conseguiu nem sequer lá chegar, eliminado no play-off de acesso.
O único gigante com quem não perdeu foi o United de Alex Ferguson, com dois empates em 2011-12; tropeçou mais à frente, em dose dupla, com o Chelsea de Di Matteo, não se conseguiria superiorizar um ano depois ao Barcelona de Villanova (mesmo que os culés jogassem em regime de poupança na última jornada), seria com ele no banco que se assistiria a um submisso rastejar na primeira meia-hora no Parque dos Príncipes em 2013-14 (quando Ibrahimovic só não assinou a exibição da carreira porque…).


Para contrapor esses e outros fracassos muito mais inexplicáveis, como o 0-3 em Tel Aviv frente ao Hapoel ou a derrota em Varsóvia que deixou o Sporting sem competições europeias depois do Natal (além do episódio em casa do Skenderbeu, para a Liga Europa), Jesus pode apresentar à elite, como vitória categórica sobre um gigante na principal competição, o show de Darwín frente ao Barcelona, na Luz. Em 52 jogos na Champions, Jesus ganhou 17.
Ficou mais vincada a sua aptidão para jogar às quintas-feiras, numa competição onde só perdeu 14 jogos em 68 – finalista em duas ocasiões, propôs certo dia, num fórum de elite da UEFA, que a final passasse a ser jogada ao final de semana. «Propus algumas mudanças. Por exemplo, a Liga Europa pode ser jogada como a Champions, após o fim das competições nacionais. O Benfica já teve duas finais da Liga Europa, que jogou à quarta-feira, antes de um jogo de atribuição do campeonato. E se continuar assim, a prioridade vai ser o campeonato»[1] contava assim, em 2014, o que tinha feito no encontro de Nyon. A competição interna como prioridade, reflectindo o intenso espírito patriótico.
O sentimento nacionalista construído na esforçada escalada da pirâmide competitiva nacional permitiu-lhe desenvolver e cimentar convicções técnicas antes de chegar aos holofotes. Quando o Benfica o chama, com 54 anos (contrariando o elitismo inerente à escolha dos Três Grandes) era já nome consolidado no nosso panorama, seguro de si e conhecedor de todas as manhas.
As relações que soube criar extra-campo, um dia ousadamente apontadas por Bruno Lage, protegeram-no nas alturas de maior crise de resultados.
O peculiar repertório técnico garantiu-lhe uma identidade táctica que lhe deu reputação como mestre do jogo: tornou-se figura de culto, alvo da paixão de larga franja de adeptos e do carinho da maioria dos jogadores. Soube sempre sublinhar a sua personalidade e utilizá-la para seu proveito. Ou melhor: nunca se coibiu de se mostrar castiço, genuíno, sabendo que era isso um inteligente branding. A falta de polidez que, diz-se, lhe fechou as portas do Milan em 2014. Segundo ele, o convite não o «entusiasmou»[2] …
Mas a selecção do seu país é, obviamente, caso diferente. É o justo prémio para uma carreira feita em prol do país. E em boa altura, que à sua disposição terá leque de talento quase irrepetível. Na sempre produtiva fábrica portuguesa, Jesus terá possibilidade de trabalhar com os melhores do mundo, mesmo que essas etiquetas o deixem desconfiado.


A questão das diferenças de preparação entre clubes e selecções, com muito menos tempo para trabalho de campo, poderão arrefecer ânsias de ver o actual plantel português emulado no seu 4-4-2 predilecto, ainda que deixe isso várias dúvidas à primeira vista: que fará Jesus de Vitinha e João Neves, perfis dos quais nunca foi especial fã? Quem será o seu trinco-tractor, como Javi, Fejsa, Battaglia ou Arão foram? Haverá alguém para repetir Matic ou William, dínamos físicos com desenvoltura ao nível da visão e do passe? Félix aproveita a ligação criada na Arábia Saudita para ser indiscutível como 9,5 ou a escolha recairá sobre Bruno Fernandes, dono da posição em tempos de Sporting? Enzo e Pizzi transitaram de zonas exteriores para se transformarem no ‘8’ motor «intenso», Gerson passou pelo mesmo processo para comandar o título da Libertadores, tentou Jesus fazer o mesmo a Ângelo no Al Nassr. Haverá condições para descobrir alguém assim na Cidade do Futebol? Qual a relação a ser criada com Luís Freire e qual o aproveitamento pensado para as suas pérolas, sobretudo nomes como Mateus Fernandes, Rodrigo Mora, Geovany Quenda ou Afonso Moreira?
Serão estas, as questões de relvado, as mais pertinentes neste começo de reinado de Jesus. Outras, mais sensacionalistas e mais adequadas à área das publicações cor-de-rosa, serão para aí remetidas e daí tratadas. A delicada questão Cristiano? Tanto se tem escrito e tanto se irá escrever que por aqui nos limitaremos apenas a apontar para a dinâmica profissional entre ambos em tempos de Arábia: nos 30 jogos em que Jesus utilizou Ronaldo naquela Liga (em 34 possíveis), o treinador substituiu o jogador oito vezes – apenas duas antes dos 80 minutos (uma aos 57’, outra aos 79’).
E mesmo que Proença atravesse por estes dias fase conturbada, com as pressões inerentes a um escândalo mediático, de consequências ainda por apurar, pode Jesus estar focado no seu próprio trabalho, com a certeza de que foi a escolha prioritária do actual presidente da federação. Assim o ditou Florentino Pérez, quando teve a ideia de chamar Mourinho para domar as feras do Bernabéu.
[1] https://www.rtp.pt/noticias/benfica/jorge-jesus-lanca-ideias-no-forum-da-uefa_d764307
[2] https://www.record.pt/futebol/futebol-nacional/liga-betclic/benfica/detalhe/jorge-jesus-milan-nao-me-entusiasmou-885900

