O FC Porto venceu o Rio Ave por 2-0 em Vila do Conde, no encontro a contar para a 2.ª jornada da Primeira Liga. Em comparação com o jogo frente ao Alverca, Francesco Farioli lançou Deniz Gul para o lugar de André Silva, Pablo Rosário para o lugar do lesionado Alan Varela e promoveu a grande novidade no onze inicial, com Nehuén Pérez a assumir a posição de lateral direito, por troca com Martim Fernandes. Já o Rio Ave procedeu às alterações de Ryan Guilherme, por lesão, e Ntoi, por expulsão na derrota frente ao Gil Vicente, para as entradas de Roland Galcik e Tamás Nikitscher, respetivamente.
O FC Porto, como já tem sido apanágio nesta temporada, voltou a entrar muito forte no encontro e fez valer, uma vez mais, a qualidade nas bolas paradas. A fórmula voltou a ter Gabri Veiga como protagonista na execução, desta vez com Nehuén Pérez a saltar mais alto para inaugurar o marcador aos 11 minutos no Estádio dos Arcos.
No que toca à organização defensiva, Francesco Farioli voltou a apresentar uma equipa com diferentes soluções estruturais. A capacidade para alternar entre o 4-4-2 em bloco médio/alto e o 5-4-1 em bloco mais baixo voltou a assumir importância, com Pablo Rosário a desempenhar um papel fundamental nessa transformação, enquanto Zaidu e Pepê ajustavam os seus posicionamentos em função da altura do bloco.


Do outro lado, o Rio Ave apresentou-se num 4-2-3-1 em bloco médio, procurando condicionar a primeira fase de construção do FC Porto através de uma pressão em 1+3. Tamble Monteiro assumia-se como primeira referência, enquanto Jalen Blesa, Diogo Bezerra e Roland Galcik procuravam formar uma segunda linha de pressão.
Jalen Blesa tinha como referência individual Pablo Rosário, ao mesmo tempo que Diogo Nascimento e Tamás Nikitscher procuravam acompanhar Victor Froholdt e Gabri Veiga numa pressão individualizada. O Rio Ave aceitava, ainda assim, uma situação de inferioridade (1×2) na primeira linha de pressão perante Jakub Kiwior e Jan Bednarek, utilizando Tamble Monteiro para orientar a circulação e impedir a ligação direta entre os dois centrais.
Esta opção acabou por conceder uma importância ainda maior a Jakub Kiwior na construção do FC Porto. Com o Rio Ave a procurar impedir que a bola entrasse em Bednarek, Kiwior encontrou espaço para receber e decidir com maior liberdade, assumindo-se como um dos principais responsáveis pela construção da equipa de Francesco Farioli. A capacidade do internacional polaco para alternar entre o passe longo, a condução e a ligação exterior foi particularmente importante para superar linhas do Rio Ave ao longo do encontro.


Ao mesmo tempo, Gabri Veiga apresentou maior liberdade posicional em organização ofensiva. O médio espanhol procurou diferentes zonas do campo para escapar à referência de Diogo Nascimento, aparecendo na construção, lateralizando para a direita e aproximando-se da linha dos centrais para ajudar a criar uma saída a três. Já no último terço, o médio apareceu nos três corredores e, através dessa mobilidade, dificultou as referências individuais do Rio Ave no setor intermediário.
Apesar da capacidade do Rio Ave para orientar a construção do FC Porto para o seu lado direito, a equipa de Vila do Conde não conseguiu impedir o recurso à bola longa por parte dos centrais do FC Porto. Kiwior e Bednarek procuraram frequentemente o passe longo para o corredor direito, com o intutio de aproveitar o espaço existente nas costas de Abbey, lateral do Rio Ave. Para isso, os movimentos de Victor Froholdt para a meia-direita ajudavam a arrastar Tamás Nikitscher e a libertar espaço para a ligação direta entre central e extremo direito.
A utilização de Nehuén Pérez, e posteriormente de Alberto Costa, em posições interiores ajudou também a criar novas linhas de passe para os dois centrais do FC Porto. Com Diogo Bezerra, por vezes, mais preocupado em fechar a linha de passe para Kiwior ou Bednarek, Nehuén conseguia aproveitar o espaço concedido, posicionando-se na diagonal em relação ao central, criando assim uma linha de passe aberta para receber a bola. Esta dinâmica permitiu ao FC Porto encontrar mais uma solução para ultrapassar a pressão vilacondense e chegar ao último terço.


O Rio Ave, por sua vez, procurava construir desde trás através de uma linha defensiva de quatro. Diogo Nascimento e Tamás Nikitscher tinham como missão fixar Gabri Veiga e Victor Froholdt, enquanto a equipa procurava alternar entre uma estrutura de 4-2-4 e 4-2-1-3. A intenção passava por construir curto para atrair o FC Porto e, posteriormente, procurar rapidamente o jogo direto e a profundidade. Com Jalen Blesa a juntar-se a Tamble Monteiro, Diogo Bezerra e Roland Galcik, o Rio Ave procurava criar uma situação de 4×4 contra a última linha do FC Porto. No entanto, a dificuldade em ganhar duelos aéreos acabou por limitar esta solução. Foi nesse contexto que Tamble Monteiro começou a baixar mais no terreno, procurando funcionar como elemento de ligação.
Ainda assim, o FC Porto conseguiu controlar grande parte dessas situações, com Jan Bednarek a assumir um papel fundamental para contrariar esta dinâmica. O central polaco acompanhava as descidas de Tamble Monteiro, seguindo de perto os movimentos do avançado e impedindo que o Rio Ave explorasse com regularidade os seus apoios frontais ou utilizasse o jogo aéreo do ponta-de-lança para fazer a bola chegar aos jogadores mais adiantados dos vilacondenses.
O segundo golo surgiu aos 84 minutos e acabou por sentenciar a partida. Hwang In-Beom encontrou Borja Sainz com um passe de grande qualidade, aproveitado pelo espanhol para fechar o resultado e confirmar a vitória do FC Porto. Os dragões somam, assim, a segunda vitória em duas jornadas e mantêm-se no primeiro lugar da Primeira Liga, com seis pontos. O Rio Ave, por outro lado, continua sem pontuar depois de duas derrotas na competição.
Rodrigo Lima
Relatório Tático – Rio Ave x FC Porto
1. RIO AVE
Organização defensiva
- Estrutura: 4-2-3-1 em bloco médio.
- Pressão: 1+3 na primeira fase de construção do FC Porto, com Tamble Monteiro como primeira referência de pressão e Jalen Blesa, Diogo Bezerra e Roland Galcik como elementos da segunda linha.
- Referências individuais: procura de pressão HxH, sobretudo no setor intermédio.
- Controlo interior: Jalen Blesa com referência individual sobre Pablo Rosário, enquanto os dois pivôs (Diogo Nascimento e Tamás Nikitscher) acompanhavam Victor Froholdt e Gabri Veiga.
- Inferioridade na primeira linha: aceitação do 1×2 perante Kiwior e Bednarek, utilizando Tamble Monteiro para controlar as linhas de passe.
- Liberdade para Kiwior: dada maior liberdade ao central polaco para construir, procurando evitar a ligação direta Jan Bednarek-extremo direito do FC Porto.
Organização ofensiva
- Primeira fase: construção apoiada a partir de uma linha defensiva de quatro mais baixa, procurando sair a jogar desde trás.
- Fixação dos interiores do FC Porto: Diogo Nascimento e Tamás Nikitscher com posicionamentos destinados a fixar os dois médios interiores do FC Porto (Gabri Veiga e Froholdt).
- Estrutura: variação entre 4-2-4 e 4-2-1-3, com Tamble Monteiro a baixar no terreno para procurar ser o elemento de ligação.
- Última linha ofensiva: Jalen Blesa a juntar-se a Tamble Monteiro, Diogo Bezerra e Roland Galcik, procurando criar uma linha de quatro e explorar situações de 4×4.
- Características ofensivas: tentativa de explorar a fisicalidade de Tamble Monteiro, a velocidade de Jalen Blesa e a capacidade de desequilíbrio de Diogo Bezerra.
- Alternativa à saída direta: Tamble Monteiro a baixar no terreno para suportar a ligação entre primeira e a terceira linha quando o Rio Ave sentia dificuldades em ganhar duelos.
- Cruzamentos: procura de situações de cruzamento como forma de explorar a presença dos quatro jogadores mais adiantados do Rio Ave.
Comportamentos-chave
- Jalen Blesa: subida para a última linha em organização ofensiva, procurando criar igualdade numérica com os quatro defesas do FC Porto.
- Linha defensiva: Abbey, Gustavo Mancha, Petrasso e Liavas a posicionarem-se mais baixo para favorecer uma saída sustentada desde trás.
- Tamble Monteiro: por vezes baixava da última linha para participar no jogo direto, procurando utilizar a sua capacidade física e jogo aéreo para ganhar o duelo e permitir ao Rio Ave explorar rapidamente a segunda bola em situações de 3×3/4×4.
- Diogo Nascimento: referência para controlar os ritmos de jogo na segunda fase, sobretudo quando a equipa procurava uma saída apoiada em vez de jogo direto.
- Troca de extremos: Sotiris Silaidopoulos trocou Diogo Bezerra e Roland Galcik de corredor ainda na primeira parte, procurando colocar os jogadores com o pé dominante mais favorável à exploração de situações de cruzamento.
- Jalen Blesa sobre Pablo Rosário: pressão reativa e acompanhamento individual, procurando impedir que o médio do FC Porto recebesse de frente e pudesse dar continuidade à circulação. Apesar do acompanhamento, Pablo Rosário conseguiu manter a capacidade de ativar o terceiro homem em vários momentos, sobretudo de costas para a baliza do Rio Ave.
Limitações
- Pressão sobre os laterais: posicionamento de Diogo Bezerra por vezes demasiado orientado para fechar o central de fora para dentro, permitindo ao FC Porto encontrar saídas através do lateral (na diagonal), sobretudo Nehuén Pérez.
- Duelos aéreos: dificuldades em ganhar duelos que permitissem ao Rio Ave tirar maior partido do 4-2-4/4-2-1-3 e das características dos seus jogadores ofensivos.
- Referências defensivas: algumas dúvidas de Petrasso perante as descidas de Deniz Gul, optando por não acompanhar para não desposicionar a linha defensiva, mas deixando o avançado livre em alguns lances.
- 1×1 exterior: perante o 5-4-1 do FC Porto, dificuldade em colocar Diogo Bezerra em situações de 1×1 com Nehuén Pérez devido à existência de coberturas defensivas.
- Exploração do lado esquerdo: o Rio Ave teve oportunidades para explorar melhor os momentos de transição estrutural do FC Porto entre 4-4-2 e 5-4-1, nomeadamente dos timings necessários para Zaidu baixar e formar a linha de cinco.
- Bola parada: dificuldade em contrariar o FC Porto nas bolas paradas, daí surgiu o primeiro golo do FC Porto por Neuhén Pérez
2. FC PORTO
Organização defensiva
- Estrutura: 4-4-2 em bloco médio/alto / 5-4-1 em bloco mais baixo.
- Bloco médio/alto: em 4-4-2, Pablo Rosário baixa para a linha defensiva como central direito, Kiwior assume a posição de lateral esquerdo e Zaidu sobe para médio esquerdo.
- Bloco baixo: Zaidu ajusta para defesa esquerdo numa linha de cinco e Pepê retoma a posição de extremo/médio esquerdo.
- Primeira linha de pressão: 2+4, com Deniz Gul e o extremo esquerdo – inicialmente Pepê e posteriormente William Gomes – na primeira linha.
- Controlo de Bezerra: Pepê com responsabilidade acrescida em fechar as linhas de passe para o corredor direito do Rio Ave e impedir que Diogo Bezerra recebesse em condições de desequilíbrio.
- Compactação: em bloco médio, procura de manter a equipa compacta e fechar o espaço entre linhas, reduzindo as condições para o Rio Ave explorar os duelos aéreos e os espaços entre-linhas.
- Referência individual: Bednarek a acompanhar as descidas de Tamble Monteiro durante a primeira fase de construção do Rio Ave, garantindo condições para controlar os duelos aéreos ou apoios frontais do ponta-de-lança.
- Reposicionamento dos extremos do FC Porto: William Gomes e Pepê apresentaram maior rapidez na reposição posicional para o 5-4-1 relativamente ao comportamento observado frente ao Alverca.
Organização ofensiva
- Kiwior como construtor: aproveitamento da liberdade concedida pelo Rio Ave ao central polaco, que beneficiava da situação de 2×1 perante Tamble Monteiro na primeira linha de pressão.
- Progressão de Kiwior: utilização do passe longo e das conduções do internacional polaco para superar linhas.
- Deniz Gul: posicionamento entre linhas, aproveitando algumas dúvidas na marcação dos centrais do Rio Ave, sobretudo Petrasso.
- Liberdade de Gabri Veiga: maior liberdade posicional para retirar a referência individual de Diogo Nascimento e criar diferentes soluções na construção.
- Gabri Veiga na construção: alguns movimentos de lateralização à direita formando uma saída a 3 em conjunto com os dois centrais do FC Porto.
- Gabri Veiga no último terço: capacidade para aparecer nos três corredores, criando dificuldades às referências individuais do Rio Ave.
- Passe longo: Kiwior e Bednarek procuraram frequentemente a profundidade pelo corredor direito, explorando o posicionamento e o espaço nas costas de Abbey.
- Laterais por dentro: utilização de Nehuén Pérez e, posteriormente, Alberto em posições interiores, mas um pouco mais adiantadas para criar linhas de passe em diagonal a partir dos centrais.
Comportamentos-chave
- Jakub Kiwior: principal construtor do FC Porto, com capacidade para alternar entre passe longo, condução e ligação com os laterais/extremos através do passe longo/ em diagonal.
- Superioridade na primeira fase: utilização da situação de 2×1 perante Tamble Monteiro para permitir a Kiwior receber e decidir com maior liberdade.
- Bola parada: capacidade do FC Porto para se impor através do jogo aéreo, beneficiando da qualidade das bolas paradas batidas por Gabri Veiga.
- William Gomes/Pepê: quando posicionados no corredor direito, procura sistemática de explorar as fragilidades de Abbey e o espaço nas suas costas.
- Gabri Veiga: maior liberdade em organização ofensiva, aparecendo em diferentes zonas da construção e do último terço.
- Victor Froholdt: movimentos horizontais para a meia-direita, arrastando Tamás Nikitscher e libertando espaço no corredor direito para facilitar a ligação direta central para o extremo direito do FC Porto.
- Troca de extremos: Francesco Farioli trocou Pepê e William Gomes ainda na primeira parte, procurando melhorar o comportamento defensivo e os timings necessários para passar da primeira linha de pressão em 4-4-2 para o 5-4-1 no corredor direito.
- Pablo Rosário: elevada exigência de mobilidade no modelo de Francesco Farioli. Necessidade de controlar os timings de descida da posição de médio defensivo para a linha de quatro/cinco.
Limitações
- Timings de Zaidu: algumas dificuldades em sair da linha de cinco para pressionar Liavas, atrasando a transformação estrutural do 5-4-1 em 4-4-2 e criando momentos que o Rio Ave poderia ter explorado para encontrar o homem livre no corredor direito.
- Definição no último terço: dificuldades em aproveitar algumas situações de último passe e finalização no último terço.
Impacto competitivo
- Liberdade de Kiwior: a liberdade concedida pelo Rio Ave ao central permitiu ao FC Porto ter um primeiro construtor com capacidade para variar entre condução, passe longo e ligação exterior.
- Mobilidade de Gabri Veiga: a liberdade posicional do médio dificultou o funcionamento das referências individuais do Rio Ave e criou linhas de passe adicionais em diferentes zonas.
- Exploração do corredor direito: os movimentos de Froholdt e a utilização de William/Pepê permitiram explorar o espaço criado nas costas de Abbey.
- Controlo defensivo: a transformação entre 4-4-2 e 5-4-1 permitiu ao FC Porto adaptar a estrutura à altura do bloco e proteger melhor a última linha.
- Controlo da profundidade: o acompanhamento de Tamble Monteiro por Bednarek e a compactação do bloco reduziram as condições para o Rio Ave explorar sistematicamente o jogo direto.
- Resposta às dificuldades: a troca de extremos permitiu ao FC Porto ajustar o comportamento defensivo e melhorar os timings de recomposição.
- Exigência do modelo: a mobilidade de Pablo Rosário foi determinante para executar as diferentes estruturas, mas implicou uma elevada exigência física e uma necessidade de coordenação precisa dos timings.
Rodrigo Lima

