O acesso do Benfica à fase de liga da Europa League selou-se na Dinamarca com a naturalidade que se exigia, mas com uma maturidade coletiva que merece destaque. A vitória por 3-1 frente ao Aarhus (6-2 no agregado) foi muito mais do que a confirmação de um favoritismo anunciado, foi a demonstração prática de uma equipa a assimilar rapidamente os princípios de Marco Silva, exibindo um nível de controlo posicional e agressividade na perda que há muito não se via no universo encarnado.
O primeiro grande traço deste Benfica reside na capacidade de desmontar a primeira fase de pressão adversária. Em espaços curtos, sob marcação agressiva dos dinamarqueses, a equipa mostrou paciência na atração e critério no passe para encontrar o homem livre. A dinâmica entre linhas funcionou com fluidez, enquanto Leandro Barreiro ofereceu constantes movimentos de rutura no corredor central, Georgiy Sudakov apareceu mais solto para ditar os ritmos de posse. A somar a isto, a capacidade de Vangelis Pavlidis em jogar de costas para a baliza e associar os médios serviu de referência ofensiva, dando sentido a cada ataque organizado.
No plano tático, as nuances sem bola continuam a ser o aspeto mais interessante da equipa de Marco Silva. A organização defensiva em bloco médio ajusta-se com facilidade, Enzo Barrenechea afunda temporariamente para desenhar uma linha de cinco quando os corredores laterais são ameaçados, enquanto Sudakov recua para formar a dupla no miolo. Mais do que a estrutura em si, impressiona o compromisso coletivo, personificado no trabalho invisível de Rafa Silva, a somar recuperações cruciais à entrada do próprio terço defensivo. O único momento de desconcentração acabou por ser punido no lance do golo sofrido, numa perda em zona de construção perante a agressividade de Rasmus Carstensen.
A grande figura do encontro e deste arranque de temporada é, sem margem para dúvidas, Gianluca Prestianni. A mudança de rendimento do avançado argentino transcende a sua colocação a partir da esquerda ou a eficácia demonstrada no bis. Há uma transformação psicológica evidente, Prestianni joga sem hesitação, assume o um-para-um com confiança e define lances capitais com uma frieza de jogador feito.
A resposta imediata que deu ao golo do Aarhus, com um remate em arco de fora da área a fechar a eliminatória no minuto seguinte, é a imagem de um atleta no auge da sua afirmação.
Quem olhar para o início de época e recordar as dificuldades sentidas na primeira mão frente ao St. Gallen perceberá a dimensão do trabalho acumulado nos treinos. O Benfica não só fechou a qualificação sem sobressaltos e estreou Alessandro Circati na reta final para consolidar o setor recuado, como deu passos largos na consolidação da sua identidade. Há rotações por afinar e a eficácia na finalização ainda pode subir para espelhar o volume de jogo gerado, mas a equipa viaja para o campeonato com as rotinas bem vincadas e uma estrutura pronta para competir em várias frentes.

