O Bola na Rede esteve à conversa com Yuri Ribeiro. O lateral português fez um balanço geral sobre a sua carreira e deixou alguns palpites sobre o futuro.
Formado n’Os Craques, no Braga e no Seixal, Yuri Ribeiro leva dez anos de carreira sénior entre Portugal, Inglaterra e a Polónia, e prepara agora a segunda época completa ao serviço do Blackburn Rovers. Em conversa com o Bola na Rede, o lateral-esquerdo percorreu esse trajeto de fio a pavio: a chegada a Lisboa aos 15 anos, a estreia na equipa principal do Benfica em dezembro de 2016, o empréstimo ao Rio Ave, a época da reconquista à sombra de Grimaldo, a ascensão de João Félix vista de dentro do balneário, os anos em Nottingham e em Varsóvia e o regresso, breve, ao Braga. Pelo caminho, deixou ainda as suas perspetivas para a Primeira Liga, a leitura do recente duelo com o Wolves de César Peixoto e uma análise à forma como a posição de lateral mudou no futebol moderno.
Bola na Rede: Em que é que as tuas origens e os primeiros anos n’Os Craques te ajudaram a tornares-te no jogador que és hoje?
Yuri Ribeiro: Falando das minhas origens… Como todos os miúdos que começam a dar uns chutes na bola, eu venho de uma vila, e Vieira do Minho é uma vila com pouca gente, mas com pessoas que trabalham muito, que se dedicam muito. E eu, quando era muito jovem, o que eu queria era desfrutar, queria era jogar futebol com os meus amigos. Jogava muitas vezes na escola e o que eu queria era desfrutar. Nunca pensava até onde é que eu podia chegar. Vivia um dia de cada vez. Eu era feliz a jogar futebol com os meus amigos e isso era o mais importante. Depois, como é óbvio, com o passar do tempo, começa muita gente a abordar-te, começa muita gente também com comentários aos quais, quando és muito novo, não dás muita importância, mas sentes-te bem porque as pessoas começam a dizer: ‘Ah, tu tens jeito, tu és bom jogador, tu vais ser jogador’. E isso, como é óbvio, para um miúdo, sabe bem ouvir. Mas eu gostava era de jogar futebol e viver um dia de cada vez, gostava de jogar com os meus amigos. Depois, com o passar do tempo, como é óbvio, eu jogava nos Craques, como tu disseste, que é um clube em Vieira do Minho. E eu fiz muitas amizades lá. Entretanto, depois, nesse clube onde eu estava, saíam muitos jogadores para o Braga, e foi para onde eu saí depois de Os Craques. Mas foi um sítio onde gostei muito de estar, porque consigo lembrar-me de muitas histórias e fiz muitas amizades. Os meus treinadores também, com quem hoje em dia mantenho ligação, foram pessoas que me ajudaram muito e a eles devo muito, por isso sou-lhes muito grato.


Bola na Rede: Foi precisamente nessa transição para o Braga que definiste a tua posição como lateral esquerdo? Como foi a tua adaptação às exigências e rotinas da posição?
Yuri Ribeiro: Claro. Eu tenho uma história muito engraçada. Quando eu assino pelo Braga, assino com 13 anos. Só que, entretanto, nas férias, como eu tinha dito, eu queria era jogar futebol. Jogava todos os dias futebol com os meus amigos na rua, nos campos… Fazíamos balizas de baldes, relembro esses tempos com muita alegria. E lembro-me que, um dia antes de começar os meus treinos no Braga, tinha de me apresentar lá no clube, e caí de bicicleta no dia anterior. Caí de bicicleta e lembro-me de ter dormido com muitas dores na mão. Mas eu só queria era ir treinar no dia a seguir e não tinha dito a ninguém. Estava a andar de bicicleta com o meu primo. Entretanto, a minha tia veio e eu estava cheio de arranhões na cara, ela pôs-me Betadine e tudo, e eu estava cheio de dores na mão, mas não disse a ninguém. Nem consegui quase dormir. No dia a seguir, apresento-me no Braga e, no meu primeiro treino no Braga, parto o pulso. De certeza que já estava com o pulso partido, mas caio no treino, no primeiro lance, e parto o pulso. Fiquei um mês sem treinar. Entretanto, como é óbvio, eram os tempos da pré-época. O campeonato começava passado um mês e meio ou dois meses. Eu tinha 13 anos. Começo a fazer a pré-época, para mim, era pré-época, e, passadas duas semanas, começo logo a jogar. Começo logo a jogar e é o Mister Tó Nel, que é o nome do treinador que me começou a pôr a lateral-esquerdo no Braga, que me coloca a defesa-esquerdo. Mas, para ser o mais sincero possível, eu não dei importância nenhuma a isso, porque o que eu queria era jogar. Naquela altura, eu não pensava muito: ‘Vou jogar agora a lateral-esquerdo, vou jogar no meio-campo, vou jogar a ponta de lança’, porque, quando jogava nos Craques, jogava muito no meio-campo. Quando era futebol de 7, jogava muito a número 10 ou a extremo-esquerdo. Jogava-se com guarda-redes, dois centrais, três médios e um avançado. E eu jogava muito ou a extremo-esquerdo ou no meio. Eu nem pensava muito em termos de posições, eu queria era jogar porque corria o campo todo. Nos Craques, até me lembro de que estávamos a jogar contra o Vitória de Guimarães e o treinador, ao intervalo, quando estávamos a perder por 2-0, pôs-me no meio-campo, eu estava mais atrás, para eu andar lá a correr, porque eu queria era correr, correr, correr e jogar. E quando chego ao Braga, quando me colocam a defesa-esquerdo, eu nem dei importância nenhuma a isso. Comecei a jogar nessa posição e comecei-me a destacar. Comecei-me a destacar porque, lá está, eu tinha muita facilidade quando vinha de trás para a frente, chegava muito rápido à frente. Ele viu em mim muita capacidade física, viu muita capacidade de ser muito rápido e de recuperar rápido. Viu essa capacidade em mim e foi quando comecei a jogar a defesa-esquerdo e a desfrutar desta posição.
Bola na Rede: Depois de dois anos no Braga, rumas ao Seixal aos 15 anos. Como correu essa integração no Benfica e a posterior transição para a equipa B, onde passaste a defrontar jogadores seniores muito mais experientes?
Yuri Ribeiro: A adaptação ao Benfica foi muito difícil. Eu vou para o Benfica com 15 anos, saí de Vieira do Minho. Quando eu jogava no Braga, vivia em Vieira do Minho e vinham-me buscar todos os dias para me levarem para o treino. Às vezes chegava às 11 da noite, meia-noite. Com 14 anos, não é fácil lidar com isto. Principalmente para os nossos pais não é fácil lidar. Eles querem que nós nos dediquemos à escola, não querem que deixemos os estudos. Nessa altura, o meu pai já estava na Suíça, trabalhava na Suíça, e eu vivia só com a minha mãe. O meu irmão jogava, na altura, no Marítimo. E eu vivia sozinho com a minha mãe. Ou seja, eu saía de casa às 7 da manhã para ir para a escola e, por vezes, chegava às 11 da noite, porque quando acabava a escola, às vezes às 7 da noite, já estava lá a carrinha para me levar para o treino em Braga. Eu ia para Braga, saía direto, ia para o treino e voltava às 11 da noite, porque depois havia o transporte da carrinha que deixava vários jogadores. Eu normalmente era dos últimos a chegar a casa. Chegava às 11, meia-noite, e no dia a seguir iniciava tudo outra vez. Ou seja, para os pais não é nada fácil. E quando tens esta transição, depois, de ir de Vieira do Minho para Lisboa, foi uma mudança muito, muito grande. Eu tinha 15 anos. Comecei a viver na academia, no centro de estágio, e tive de crescer muito rápido. Tive de crescer muito rápido. Os meus pais levam-me ao centro de estágio, ainda me lembro de como foi. Vêm-me buscar à portaria, levam-me para o quarto e começam-me a explicar as coisas: ‘Olha, aqui é o teu quarto’. Eu, nessa altura, partilhava o quarto com outro jogador da formação. ‘Aqui vai ser o teu quarto, vais partilhar o quarto. As refeições são a esta hora. Quando começar a escola, o autocarro vai estar ali àquela hora’. Começam-te a dizer estas coisas todas e, para um miúdo de 15 anos, tu começas a pensar: ‘Eu não estou habituado. A minha mãe é que me vinha acordar ao quarto, a minha mãe é que me obrigava a ir para a escola, a minha mãe é que me dizia para estudar’. E a partir do momento em que tens 15 anos e tens de lidar tu com isto, já te põe a pensar e tu cresces, levas quase como uma lição. Com 15 anos, começas a pensar em tudo e mais alguma coisa. Já é quase como se tivesses 18 ou 19 anos, já tens de estar mais lá à frente. Ou seja, tens este tipo de situações que muitas vezes as pessoas não sabem, olham para os jogadores como… Mas temos estas questões. Eu tinha 15 anos e via jogadores de 9 anos, que eram da formação, a viverem seis num quarto. Tinham 9 anos, 10 anos, e muitos vinham de Viseu, outros de Braga, e os pais vinham todos os fins de semana para os ver. Eu ficava a pensar… E essa transição foi difícil, mas fez-me crescer muito. Fez-me crescer muito e por isso é que eu digo que devo muito ao Benfica, porque, para além de crescer como jogador, cresci como pessoa, cresci como homem, porque me deram todas as ferramentas possíveis para que assim fosse. O Benfica, nesse aspeto, é uma máquina. Dão todas as condições necessárias. Tive pessoas lá dentro do Benfica que foram como pais e, por isso, digo sempre que devo muito ao Benfica porque cresci imenso.
«Benfica dedicava-se muito mais a valorizar os jogadores, a fazer com que os jogadores evoluíssem»
Yuri Ribeiro
Bola na Rede: Qual foi o verdadeiro impacto do salto para a equipa B do Benfica? Que principais ensinamentos retiraste desse contexto altamente competitivo para te afirmares no futebol profissional?
Yuri Ribeiro: Falando daqui, voltando um bocadinho atrás, eu quando chego ao Benfica começo logo a treinar nos juvenis A, ou seja, eu já treinava com uma geração mais velha que a minha. Eu era de 97 e treinava com a geração de 96. Já treinava com a geração do Gonçalo Guedes, na altura também do Romário Baldé. Eu treinava com essa geração. Ou seja, eu tinha 15, mas já treinava com os de 16. Foi um passo ainda maior, porque tive de crescer ainda muito mais. E o treinador era o Renato Paiva. Aprendi mesmo muito e acabo por fazer uma grande época. Fomos campeões nacionais nesse ano. No ano a seguir, volto a jogar nos juvenis A com a minha geração, lá está, a geração do Rúben Dias, do Renato Sanches, do Ferro, do Diogo Gonçalves. Era essa geração. E, curiosamente, depois não fomos campeões. Não fomos campeões porque, lá está, a maior parte já jogava nos juniores, havia alguns que já iam à equipa B, e o Benfica dedicava-se muito mais a valorizar os jogadores, a fazer com que os jogadores evoluíssem, do que propriamente a ganhar títulos com esta idade. Quando eu começo a minha época nos juniores, já me começo a sentir muito mais homem. Com 17 anos, já começava a treinar com a equipa B. O treinador era o Mister Hélder Cristóvão. Havia muitos jogadores de qualidade nessa altura. Lembro-me de quando estava lá o Cancelo, o André Gomes… Ou seja, tu quando vais treinar com eles, acabas por desfrutar muito e por aprender muito. É quase uma lição que levas quando és tão novo e começas a pensar: ‘Eu quero chegar a este nível, quero chegar ao mesmo nível deles’. Entretanto, com talvez 18 anos, faço a minha estreia na equipa B. Faltavam dois ou três jogos para acabar a época. Estreei-me na equipa B e, como é óbvio, foi um sentimento muito bom. Penso que o aparecimento das equipas B acaba por ajudar muito os jogadores. Posso dar o exemplo do meu irmão: na altura dele, ele não tinha equipa B e foi emprestado ao Clube Desportivo das Aves. Se, naquela altura, ele tivesse equipa B, tenho a certeza de que teria evoluído muito mais e teria tido muitas mais oportunidades do que aquelas que teve, porque, naquela altura, eles tinham de ir diretamente para a primeira divisão e nem tinham tempo de se mostrar numa equipa B. Por isso, as equipas B ajudam muito os jogadores da formação.
Bola na Rede: Como viveste a tua estreia pela equipa principal do Benfica, em dezembro de 2016, com apenas 19 anos? Como correu a partilha do balneário com referências consolidadas como o Luisão, o Pizzi ou o Salvio?
Yuri Ribeiro: Eu apercebi-me do quão grande aquilo era quando acabou o jogo e o meu telemóvel estava cheio de mensagens e de chamadas, toda a gente orgulhosa. É aí que tu percebes que chegaste a um nível grande. Como é óbvio, quando me estreei na equipa principal do Benfica, levou-me a pensar que todos os esforços que eu tinha feito para trás estavam a dar resultado. E penso que me estreei contra o Real SC. E tenho de agradecer muito ao Mister Rui Vitória, porque aprendi muito com ele. Mais à frente, ele acabou por apostar ainda mais em mim quando voltei do Rio Ave, mas tenho de lhe agradecer muito porque sempre acreditou em mim e foi ele que me deu a primeira oportunidade. Com 19 anos, lembro-me de ter todos os meus amigos da minha geração a mandar mensagens, estavam todos orgulhosos. Por isso, nunca vou esquecer esse momento. E, como referiste e bem, quando divides o balneário com esse tipo de jogadores tão experientes e com grande qualidade, acabas por crescer. Tiras muitas lições. Eram jogadores muito experientes que me ajudaram muito.


Bola na Rede: O teu empréstimo de uma época ao Rio Ave foi planeado de raiz para regressares mais consolidado e preparado para as exigências da equipa principal do Benfica?
Yuri Ribeiro: Sim, esse empréstimo ao Rio Ave foi para vir mais preparado, porque, nessa altura, eu não teria a capacidade para poder responder àquilo de que o Benfica precisava. Eu não estava ainda preparado para jogar na equipa principal do Benfica, e esse empréstimo foi com esse intuito. Aconteceu depois do Mundial Sub-20, que tivemos com a Seleção de Portugal na Coreia do Sul. Lembro-me de que, antes de acabar o Mundial, já havia as abordagens do Rio Ave, e era com esse intuito de ser emprestado ao Rio Ave para estar muito mais preparado para, quando voltasse ao Benfica, poder dar uma melhor resposta. Devo mesmo muito ao Rio Ave, porque foi o Rio Ave que me abriu as portas para jogar na primeira divisão em Portugal. Eu era muito novo, mas foi mesmo muito bom porque também acabei por voltar às minhas origens, ao Norte de Portugal, e acabei por fazer uma grande época.
«nos dias de hoje, não sei se voltaria ao Benfica, se calhar já tinha sido vendido por 15 ou 20 milhões»
Yuri Ribeiro
Bola na Rede: Como correu a transição técnica de Rui Vitória para Bruno Lage na mítica época da reconquista dos sete pontos de atraso? De que forma é que essa mudança te afetou pessoalmente?
Yuri Ribeiro: Essa época foi muito, muito difícil para mim, mas foi uma época de muita aprendizagem. Com a época que eu fiz na altura no Rio Ave, hoje em dia, se calhar, um lateral valia 15 milhões, porque eu tinha 21 anos. Acaba a minha época com 21 anos, regresso ao Benfica, mas se calhar nos dias de hoje, não sei se voltaria ao Benfica, se calhar já tinha sido vendido por 15 ou 20 milhões, da maneira como o mercado está. Eu regressei ao Benfica porque sempre fui adepto do Benfica, não escondo isso. Desde os 15 anos que lá estava, foram seis ou sete anos de Benfica, e eu queria muito voltar. Volto ao Benfica e apanho um dos melhores laterais-esquerdos do mundo [Grimaldo]. As pessoas muitas vezes esquecem-se e perguntam-me sempre se sinto tristeza por, nessa época, ter acabado por não jogar muito no Benfica. O que eu respondo sempre é: ‘Eu fui suplente de um dos melhores laterais-esquerdos do mundo’. Fui suplente de um jogador que fez uma das melhores épocas dele no Benfica. Se olharmos para as estatísticas, foi provavelmente a melhor ou a segunda melhor época do Grimaldo no Benfica. E foi a época em que ele não teve lesões, porque, se olharmos para trás, lembramo-nos de que o Grimaldo tinha muitas lesões. Isso também, na altura, não posso esconder, foi um dos aspetos que me fez pensar: ‘Eu vou porque acredito, vou ter a minha oportunidade e já não vai fugir mais’. Mas há outro ponto de que quero falar: normalmente, tento sempre não olhar para os treinadores, apontar o dedo a alguém ou dizer que não joguei por causa do treinador, do diretor, etc. Não. Eu olho primeiro para mim e sei reconhecer que podia ter feito melhor. Nessa época, podia ter feito melhor porque houve momentos cruciais, momentos em que tive a oportunidade e eu, por uma razão ou outra, se calhar por pensar: ‘Ah, eu não jogo e agora querem que eu jogue porque é para a Taça, ou só porque querem dar descanso ao Grimaldo’, se calhar por pensar dessa maneira, não estava pronto para dar a resposta. Ou seja, eu primeiro olho sempre para mim e sou capaz de dizer que podia ter feito melhor. Ao mesmo tempo, convivi com jogadores de uma experiência incrível. Convivi no balneário com o Rafa Silva, com o Pizzi, com o André Almeida, com o Samaris, com o Bruno Varela… Convivi com eles todos, tínhamos um grupo fantástico e isso também te dá aprendizagem, faz-te crescer como homem. Acabas por perceber também que, por vezes, não tendo muito tempo de jogo, tens de ajudar a equipa noutro sentido. Tens de ser o jogador que ajuda nesse momento crucial. E, como disseste e bem, estávamos com o Rui Vitória e houve a mudança para o Mister Bruno Lage. As coisas com o Mister Rui Vitória no início até estavam a correr bem, depois, coisas do futebol, os resultados começaram a não aparecer. Há muita pressão no Benfica, pressão dos adeptos, de tudo e mais alguma coisa. Houve a mudança e acabou por correr bem. Se calhar correu bem porque tínhamos um bom grupo. Tínhamos muitos portugueses, tínhamos jogadores muito experientes que, no fundo, quando não jogavam, estavam lá para apoiar e, pronto, as coisas no final acabaram por correr bem.
Bola na Rede: Estando dentro do balneário, como assististe à ascensão do João Félix nessa época? Já se percebia que ele era um jogador completamente diferente?
Yuri Ribeiro: O João sempre foi um talento puro. Quando ele estava na equipa B connosco com o Mister Hélder Cristóvão, nós brincávamos muito com ele quando fazíamos meinhos e tudo. Ele vinha sempre para o nosso meinho e nós, em brincadeira, estávamos sempre a dizer ao Mister Hélder: ‘O miúdo tem de jogar, o miúdo tem de jogar!’. Nós, que éramos miúdos apenas dois anos mais velhos do que ele, brincávamos e dizíamos sempre isso. Quando ele entrava, já sabíamos que era um talento puro. Entretanto, na equipa principal, toda a gente sabia que era uma questão de tempo, uma questão de oportunidade. Depois, esta é a diferença: quando surge a oportunidade, há jogadores que a agarram, e foi o caso dele. Agarrou a oportunidade, acaba por marcar contra o Sporting e, marcando num jogo tão importante contra um rival, as coisas tendem a correr ainda melhor. Depois é tudo mérito dele. Não deixou de acreditar, trabalhou sempre da mesma maneira e, como eu disse, é um talento puro. Foi por isso também que fez tanta diferença.


Bola na Rede: Quais foram os grandes motivos para a tua saída do Benfica rumo ao Nottingham Forest? Como correu a tua adaptação inicial ao Championship?
Yuri Ribeiro: Sim, eu queria sair do Benfica depois da época acabar porque queria jogar, e sabia que, se continuasse no Benfica, não iria ter minutos. Ia continuar a ser o segundo lateral-esquerdo porque sabia reconhecer que havia uma qualidade incrível no Grimaldo. Ou seja, eu sabia que ia ser a segunda opção e eu não queria ser a segunda opção, queria jogar, era muito novo. Eu nunca lidei muito bem com o estar no banco e não jogar, e queria ter essa mudança. Entretanto, surgiu a hipótese do Nottingham Forest. Na altura, o meu empresário falou-me do Nottingham e do campeonato, que podia ser bom para mim, muito parecido com as minhas características e que me podia dar bem. E foi quando fui para o Nottingham. No início foi difícil porque era a minha primeira aventura no estrangeiro e era muito novo, mas depois consegui-me adaptar bem à cultura, aos jogos com estádios cheios, à mentalidade muito diferente da nossa, e as coisas acabaram por correr bem.
Bola na Rede: A presença de outros jogadores portugueses como o Tiago Silva, o Tobias Figueiredo ou o João Carvalho facilitou essa tua integração no Nottingham?
Yuri Ribeiro: Sim, sim, foi muito fácil. Tínhamos um bom grupo e dávamo-nos todos muito, muito bem. Eu e o Tiago até estávamos juntos três ou quatro vezes por semana. Ele vinha para minha casa, eu ia para a dele, jantávamos juntos, almoçávamos juntos, fazíamos muitas coisas e criámos uma grande amizade. Tínhamos um excelente grupo de portugueses e isso, como é óbvio, acaba por ajudar na adaptação porque nos ajudávamos uns aos outros e, pronto, foi muito positivo.
«no Legia, senti aquilo que sentia no Benfica: é um clube grande»
Yuri Ribeiro
Bola na Rede: Depois de duas épocas no Nottingham Forest, mudaste-te para o Legia Varsóvia, onde vieste a encontrar o Josué e o Gil Dias. Como se processou a tua adaptação à liga polaca e que diferenças encontraste em relação ao futebol português?
Yuri Ribeiro: O meu primeiro ano foi muito, muito difícil. Fui operado ao apêndice, tive duas lesões… Aconteceu-me tudo e mais alguma coisa nessa época. A adaptação foi muito difícil porque eu não estava muito inclinado para ir para a Polónia ao princípio. Há aquele pensamento de que a liga polaca não é uma liga tão forte, que não é como a liga espanhola, inglesa, francesa… É um campeonato que não é muito bem visto, digamos assim. Só que acabou por me surpreender muito porque, no Legia, senti aquilo que sentia no Benfica: é um clube grande, obrigado a ganhar todos os jogos, com muita pressão dos adeptos. Acabei por me adaptar bem nesse sentido. Quando estive no Nottingham, era totalmente diferente: não havia aquela pressão de clube grande, de seres obrigado a ganhar todos os jogos, como acontecia no Benfica. E quando vou para o Legia, volto a sentir isso, sinto a pressão dos adeptos, a obrigação de ganhar todos os jogos, e eu sentia falta disso também. Quando voltei a sentir isso, foi muito bom, mas acabei por passar mal por causa dessas lesões. No meu segundo ano é quando as coisas começam a correr-me bem e íamos às competições europeias também. Fizemos uma campanha muito boa mesmo na Conference League. Jogávamos mesmo muito bem. Acabámos por jogar com o Aston Villa, já com o Unai Emery, que jogava muito, muito bem, mas nós acabámos por estar muito bem nesse jogo e gostámos imenso de ganhar. O Legia, mesmo em termos de cidade, Varsóvia… As pessoas não imaginam, mas é um país muito seguro, muito mais seguro do que o nosso, para dizer a verdade. Na altura, quando começa a guerra na Ucrânia, havia muitas notícias porque vinham muitas pessoas da Ucrânia para Varsóvia, mas não se passava nada. É um país muito seguro e gostei muito de estar lá. Foram três anos muito bons. Como disseste e bem, acabei por apanhar o Josué e o Gil Dias. Na altura, no primeiro ano, até cheguei a apanhar o André Martins, o Rafael Lopes… Mas principalmente o Gil, que já o conhecia dos tempos da seleção. Já convivia muito com ele, e com o Josué também fiz uma boa amizade. Ele era o capitão e acabámos por criar uma boa amizade. O Legia é um clube muito grande e tenho ótimas recordações de lá.


«No Braga, acabei por estar na minha zona de conforto»
Yuri Ribeiro
Bola na Rede: Após essa passagem pelo Legia vais para o Braga e ficas só seis meses. O que se passou para ter sido uma estadia tão curta?
Eu acabo a minha época no Legia e assino pelo Braga. Quando assino pelo Braga, assinei principalmente porque as pessoas que falaram comigo acabaram por me convencer muito. Falei com o Mister Carlos Carvalhal na altura, ele queria muito que eu fosse e até falou sobre a questão de eu conhecer todos os cantos à casa, saber o que era comer um bom assado e tudo, e nós tínhamos a mesma ideia. Eu sabia que o Braga é um clube que faz crescer muito os jovens, valoriza muito o que é a formação, tenta tirar o melhor partido dos jogadores jovens. Eu sentia naquela altura, porque estava sem clube, que ia ajudar o clube e o Mister Carlos Carvalhal com a minha experiência. Acabo por não fazer muitos jogos, menos do que aquilo que esperava, e estava muito na minha zona de conforto, algo a que não estou habituado na minha carreira, nunca estive na minha zona de conforto. No Braga, acabei por estar na minha zona de conforto. Vivo a 20 ou 25 minutos de Braga, a minha casa é em Braga, conheço toda a gente em Braga… Estar na minha zona de conforto foi um bocado estranho na altura. Ter regressado ao campeonato português depois de tanto tempo, depois de seis anos, foi algo estranho para mim. É um bocado estranho o que estou a dizer, mas aquelas pequenas faltas que lá fora não existem, os contactos, as polémicas… Eu já não estava habituado a isso. Levei aqui um bocado aquele choque, comecei a viver outra vez na onda das polémicas e foi um bocado aquele choque inicial. Em termos de clube, também foi um ano atípico no Braga porque houve muitas contratações e as contratações que houve, sinceramente, não sei até que ponto foram as melhores, porque havia pouca gente que conhecia o campeonato, havia pouca gente que conhecia o que é o Braga. Um lateral polaco é contratado para o Braga e depois, entretanto, está lá tipo um mês e já não o queriam. Mas houve muitas contratações que acho que fizeram com que houvesse muita instabilidade na equipa. Havia muitos jogadores em que era a primeira aventura em Portugal, jogadores com pouca experiência, jogadores que não sabiam onde estavam. Eu, desde os meus 12 anos, sei bem o que é o Braga. Sei bem também o que o Braga evoluiu, sei bem o trabalho que houve, principalmente por parte do seu presidente. Nesse ano, foi um ano atípico e, quando chegámos a janeiro, eu não sentia que queria continuar no Braga. Lá está, porque queria sair outra vez da minha zona de conforto. E foi quando vim para Inglaterra outra vez, para o Blackburn.
Bola na Rede: Estás agora no Blackburn Rovers, outro clube histórico do futebol inglês. Como tem corrido esta experiência e quais são as tuas perspetivas para a temporada?
Yuri Ribeiro: A adaptação foi muito fácil porque, quando venho para o Blackburn, já não era o mesmo de quando fui para o Nottingham, já trazia outra experiência. A adaptação foi muito fácil também porque já conhecia o campeonato, já conhecia todas as ‘manhas’… Foi muito, muito fácil. Foi por isso também que, quando assinei cá, assinei só até ao final da época. Passado um mês e meio, renovei porque as coisas correram muito bem mesmo. Já conhecia o campeonato e o treinador jogava de uma maneira que era a melhor para mim: era um treinador que gostava muito de futebol ofensivo e isso ia ao encontro das minhas características. Num mês e meio, as coisas correram muito bem e renovei por mais dois anos. As coisas até agora têm corrido bem. Em termos de clube, como disseste e bem, é um clube com uma história incrível. Eu vivo em Manchester, que fica a uma hora de Blackburn. Muitas vezes, quando estou no centro da cidade, há muitas pessoas que me reconhecem, que são adeptas do Blackburn, e tu sentes a grandeza. Pela maneira como as pessoas falam, querem muito ver o clube outra vez na Premier League. Também temos de ver as coisas como elas são em termos de orçamento, não há comparação com outros clubes. Neste momento, sem ter a certeza absoluta, diria que somos, se calhar, dos clubes com menor orçamento comparativamente às equipas que desceram agora da Premier League ou os clubes que estão a lutar para subir. Mas essa história está bem presente e, se nos movermos com ela, se acreditarmos, há coisas que são bem possíveis. É só olharmos para o ano passado, quando o Hull City acabou por subir. Se me perguntasses em fevereiro ou março, quando faltavam só dois meses para acabar, eu diria que era impossível subirem. E surpreenderam tudo e todos, foi incrível mesmo. Quando foram ao play-off, eu diria que eram os menos prováveis para subir e, lá está, agarraram-se todos. É o que acontece em muitos jogos aqui no Championship: os jogos são de 50/50. Podes jogar contra o último, sendo tu o primeiro, e toda a gente achar que vais ganhar por 3-0. Aqui isso não acontece, ou pode acontecer, mas também o último pode ganhar ao primeiro por 3-0. É incrível nesse sentido. Eu estou feliz cá. Tenho mais um ano de contrato. Estou bem porque conheço o campeonato, mas não sei como vai ser o futuro. No futebol, as coisas mudam muito rápido. Acho que é um campeonato que se adequa às minhas características, por isso estou bem.


Bola na Rede: Como foi defrontar a equipa do Wolves, orientada por César Peixoto? E quais são as tuas expectativas, coletivas e individuais, para esta época?
Yuri Ribeiro: Tal como eu disse, em termos de orçamento não nos podemos comparar com as equipas lá de cima. Mas, como eu sei, se encarares todos os jogos para ganhar, os jogos serão sempre de 50/50. Penso que vai ser um ano difícil porque faltam 10 dias para fechar o mercado e só contratámos um médio. Se olharmos para as outras equipas, que contrataram muito… Não quer dizer que por contratares muito a equipa vá ser melhor, mas tens de te preparar porque este campeonato é muito exigente. São 46 jogos só de campeonato. Muitas vezes jogas três jogos numa semana, e acontecem mesmo muitas lesões. Tens de estar preparado para isso. Nós só tivemos uma contratação e as outras equipas já contrataram muito. As minhas expectativas são boas: temos um bom grupo, somos uma equipa difícil de vencer. Mesmo em situações em que sentimos que há favoritismo do outro lado, como no jogo com o Wolves, em que havia muito mais favoritismo para eles, sabíamos que, se estivéssemos num bom dia, se igualássemos em termos de agressividade ou se fôssemos ainda mais agressivos do que eles, podíamos ganhar o jogo. E assim foi até ao último minuto. Aquilo que senti da equipa do Mister César Peixoto foi uma equipa com uma boa ideia. Sendo treinador português, quando falamos de treinadores portugueses, falamos de qualidade. Todos têm qualidade e vi uma ideia muito positiva por parte deles, por parte do Mister César. Mas terão, obviamente, de se adaptar ao campeonato. É um campeonato nada fácil e estou curioso para ver se vão conseguir manter essa ideia, porque tenho a certeza de que ele não vai mudar a ideia dele, mas vai ter de ajustar certos aspetos porque estamos a falar de um campeonato mesmo muito exigente. Estou curioso.
Bola na Rede: De todas as ligas por onde passaste, qual foi a que mais exigiu de ti a nível físico, tático e técnico? Que paralelo traças com o campeonato português?
Yuri Ribeiro: A liga mais exigente até agora foi o Championship. Foi a liga mais exigente porque, tal como disse, são 46 jogos e, por vezes, jogas oito jogos num mês. É mesmo muito exigente fisicamente e não podes facilitar. Não podes facilitar porque não é como, por exemplo, quando eu jogava no Braga, com todo o respeito, em que muitas vezes alteravas a equipa e, em alguns lances, até podias ir ‘a meio gás’. Aqui isso não acontece. Mas, obviamente, quando falamos da Liga Portuguesa, falamos de um campeonato de enorme qualidade. Eu adoro o nosso campeonato, por isso é que saem tantos talentos de lá, tanto portugueses como jovens estrangeiros que jogam na nossa liga. Há muita, muita qualidade. Em termos técnicos, a nossa primeira divisão, em algumas equipas e, como é óbvio, nos grandes, é superior, mas no resto não há comparação. Não há comparação mesmo. Se olharmos para os orçamentos, para os salários, para as transferências… Vemos que as maiores transferências são todas em Inglaterra. Aqui não há comparação possível, o nível financeiro e de investimento é muito superior. Mas eu falo sempre bem do nosso campeonato porque, para mim, é um dos melhores campeonatos do mundo. É um campeonato em que, se olharmos para todos os jogos no fim de semana, tenho a certeza de que há seis ou sete scouts a ver os jogos da Liga Portuguesa. Aqui no Championship também acontece, mas há muitos mais a ver um jogo da Liga Portuguesa, vindos de Espanha, Alemanha, França, Inglaterra… Tenho a certeza de que há muitos scouts em Portugal.
Bola na Rede: Equacionas voltar a Portugal para uma terceira passagem pela nossa Liga no futuro, ou já não vês esse cenário no horizonte?
Yuri Ribeiro: É engraçado que eu vejo sempre Portugal como uma possibilidade porque é o meu país, eu adoro o nosso país. A todo o lado a que vou, tento falar sempre bem do nosso país. Defendo muito Portugal, esta é a realidade. Em todos os sítios onde vou, se for a um restaurante e falarem de certa comida, vou falar sempre da nossa comida. Se for para um hotel e estivermos a falar de destinos, vou falar sempre do meu país, porque acho que para viver não há país como o nosso. Temos boa comida, bom tempo, boas pessoas… Sou um grande defensor do nosso país. Por isso, vou colocar sempre Portugal como uma hipótese. Agora, se regressar a Portugal, terei sempre de olhar para o projeto, para aquilo que o clube quer. Não vou olhar para o aspeto financeiro, para ser o mais sincero possível. Se regressar a Portugal, não vou olhar para o lado financeiro, vou olhar para o que o clube quer, se tem um bom grupo de jogadores, se vou acrescentar e ajudar… Vou olhar muito mais para isso. Não te consigo garantir se é para o ano, se daqui a três ou quatro anos. Sinto-me capaz de jogar por muito mais tempo. Gostava de um dia voltar a Portugal, mas, neste momento, na minha cabeça não está isso, porque também não foi assim há tanto tempo que saí. E, tal como te disse, em Braga estava muito na minha zona de conforto. Ter vindo para cá fez-me reviver outras coisas que sei que no campeonato português não iria ter. Em Portugal, não vou ter 20 ou 30 mil adeptos a verem os jogos, a não ser quando for jogar contra o Sporting, o Porto ou o Benfica. E mais nada. Por isso…
Bola na Rede: Como vês a chegada de Marco Silva ao Benfica e quais as tuas perspetivas para a Liga e para o Braga do Carlos Vicens?
Yuri Ribeiro: Acho que o Mister Marco Silva vai ser muito bom para o Benfica porque tem uma boa ideia. Apesar de não o conhecer pessoalmente, parece-me um treinador muito exigente. Uma equipa grande precisa de um treinador muito exigente, e ele parece-me sê-lo. Tem uma boa ideia e acho que vai ser muito bom para o Benfica. Acho que é um Benfica diferente dos últimos anos. Falta um pouco aquilo que acabei por sentir no Braga: jogadores que conhecem o campeonato, que conhecem o que é o clube, que vão passar essa ideia para aqueles que chegam. Isso é muito importante: teres jogadores desse género, líderes. Na minha altura, lembro-me… Atualmente, do meu tempo, acho que só o Rafa é que está lá. De resto, vejo muitos jogadores jovens ou jogadores que foram contratados há pouco tempo.
Bola na Rede: Consideras que a contratação do João Palhinha seria um bom reforço para o meio-campo do Benfica?
Yuri Ribeiro: Sim, claramente. Claramente era um jogador que ia acrescentar muito. Já conhece o treinador, o treinador já o conhece, e por aí já se começa a ganhar. Conhece o campeonato, é português… Não sei até que ponto isso pode acontecer, mas, como é óbvio, jogadores desse nível seriam muito bons para o Benfica. Aqueles jogadores que chegam de fora precisam de tempo, e se não têm jogadores com experiência e muitos anos de clube, torna-se mais difícil. Se olharmos para a equipa do Benfica, vemos que foi contratar, contratar, contratar… Às vezes corre bem, mas outras vezes não basta só contratar, é preciso muito mais do que isso.


«Eu tenho gostado muito da maneira como o Porto tem vivido os jogos desde a entrada do novo treinador»
Yuri Ribeiro
Bola na Rede: Entre os candidatos principais, tens algum favorito destacado ao título?
Yuri Ribeiro: Eu tenho gostado muito da maneira como o Porto tem vivido os jogos desde a entrada do novo treinador. Sinto muito isso também por causa do presidente, desde que chegou. Veio trazer uma nova energia ao clube e resgatar muitos hábitos que eles tinham no passado, trouxe-os para o presente, e isso impulsionou-os a ter bons resultados. Trouxe um bocado daquilo que era a mística do clube, digamos assim. Vejo-os como fortes candidatos, até porque foram campeões no ano passado também. Dos jogos que vi do campeonato, vi a primeira parte do jogo contra o Alverca e a primeira parte do jogo contra o Rio Ave, e parece-me que nada mudou, estão a ir no mesmo sentido da época passada. Mas também olho para as outras equipas: estou otimista com o Benfica por causa do treinador, acho que vai acrescentar muito e ajudar o clube a ter bons resultados. Não esquecendo o Sporting, claro. E, como tu disseste, o Braga tem um bom treinador, tem boas ideias, por isso também estou muito curioso para ver se vão conseguir afirmar-se mais do que aquilo que têm feito nos últimos anos. O quarto lugar é sempre garantido, mas estou curioso para ver se conseguem ir além disso.
Bola na Rede: Para concluir, como analisas a evolução da posição de lateral no futebol moderno? O que se exige hoje taticamente a nível de adaptabilidade ofensiva e defensiva?
Yuri Ribeiro: Acho que hoje em dia, para um lateral, é preciso muita adaptabilidade. É preciso saber adaptar-se porque há certos treinadores que querem um lateral mais ofensivo, outros preferem mais defensivo, e há quem prefira fazer uma linha de três com o lateral por dentro. Aquilo que tenho sentido nos últimos três ou quatro anos é que precisamos de nos adaptar consoante o adversário que vamos encontrar pela frente e o que o treinador quer. Acho que é importante conseguirmos ser um pouco de tudo. Principalmente quando temos bola, perceber se calhar: ‘Olha, hoje é melhor não estar tão aberto ou não ser tão ofensivo, vou fazer uma linha de três e jogar quase como um terceiro central do lado esquerdo’. Ou saber, por exemplo, que se tenho um extremo pela frente que sinto que não vai querer correr para trás para defender, se calhar faz sentido eu abrir, dar a profundidade toda e jogar quase à frente dele, porque ele próprio não vai saber se deve acompanhar e o lateral deles vai ficar na dúvida de quem deve pressionar. Acho que é preciso ‘cheirar’ o jogo, ler as situações, mas também é fundamental saberes o que o treinador quer de ti. Trabalhando isso durante a semana, fica tudo mais fácil. O treinador acaba por pedir certas coisas, como: ‘Olha, prefiro que neste jogo faças mais linha de três, ou prefiro que estejas mais aberto e profundo’. Ou, o que tem acontecido muito hoje em dia: o central do lado esquerdo começa a conduzir a bola e eu coloco-me por dentro, abrindo o espaço. Fico quase como um terceiro médio, a bola entra no ala e eu posso fazer um movimento de rutura nas costas do lateral deles se ele decidir sair a pressionar. Hoje em dia, é preciso perceber muito o jogo. Às vezes há dificuldade, principalmente aqui em Inglaterra, de perceber o porquê de um colega ter feito um determinado movimento. Se calhar, ele fez aquele movimento para me abrir espaço. Estas dinâmicas e a conexão com a equipa têm de ser muito trabalhadas. Para os laterais, a posição mudou muito nos últimos tempos. Vemos o Nuno Mendes, por exemplo: no jogo do PSG contra o Aston Villa, houve uma altura em que ele não subia, não atacava, ficava como um terceiro central ali na contenção. Reparei que ele fazia isso propositadamente para atrair a pressão do extremo ou do ponta de lança adversário, porque isso abria o espaço todo no meio-campo. Depois, ou jogavam por fora e o jogador de fora servia por dentro, ou ele próprio metia uma bola vertical entre linhas e encontrava o médio completamente livre. Ou seja, vem muito do treinador, do que ele pede, vem muito do treino e, claro, da qualidade individual, e aqui estamos a falar do Nuno Mendes, que para mim é atualmente o melhor lateral-esquerdo do mundo.



