Deportivo de A Coruña: um mercado a relembrar a grandeza do passado

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É praticamente uma lei no futebol que um emblema que alcança a promoção a um principal escalão terá de reforçar o seu plantel com várias peças. Em muitos casos, chegam mais de uma dezena de jogadores a uma equipa recém-promovida, com o objetivo do clube a passar pela manutenção e a tranquilidade, mantendo essa base de atletas para os anos seguintes. Na Premier League assistimos a autênticas revoluções para sobreviver, ainda que as despromoções ao Championship sejam acompanhadas de uma almofada financeira como não existe em outro país.

Em Espanha, Deportivo de A Coruña, Racing Santander e Málaga lograram o ascenso, prometendo a edição de 2026/27 da La Liga ser uma das melhores dos últimos anos, recheada de históricos. Numa primeira análise, verificamos que os clubes do norte foram bem mais ativos no mercado em comparação com os andaluzes, que optaram por manter a base. A turma do La Rosaleda não tem as armas financeiras de outros conjuntos e viveu recentemente uma crise que os levou a um escalão não profissional, procurando não repetir os erros do passado. Ainda que sejam um dos principais candidatos a estar na zona de descida, possuem outro tipo de armas para alcançar a manutenção, como a força dos seus adeptos e a sua cantera, recheada de talentos.

Antonio Hidalgo
Fonte: Deportivo de A Coruña

No entanto, foquemo-nos no histórico galego, que depois de anos de penúria, visitando campos humildes da Primera RFEF, contando com jogadores que jamais se esperava que poderiam luzir a camisola azul e branca do Deportivo de A Coruña, regressou a um lugar que por história lhe pertence. O Riazor foi palco de uma festa em maio de 2026 e Juan Carlos Escotet e restante direção prometeram montar um plantel ambicioso, para ir além da manutenção:

«Esta cidade jamais, jamais esquecerá esta equipa. Mas este campeonato não termina aqui. Agora vamos ainda tentar ser campeões da La Liga 2. E, no ano que vem, chegar à Europa», referiu o banqueiro, que não conseguira ser promovido com o título no bolso.

A tarimba estava alta e o limite salarial dava a oportunidade de se montar um elenco com nomes de peso. Ao Deportivo de A Coruña foi-lhe permitido investir devido à boa gestão realizada nos últimos anos, sem um all-in pela promoção, sem o estabelecimento de cláusulas de compra obrigatórias. A consequência: um lugar de topo no limite salarial. A norma da La Liga é clara: a quantidade de dinheiro investida em X contratação, terá de ser repartida entre os anos de contrato do atleta adquirido de uma forma proporcional. Não há como enganar.

Fernando Soriano desde o dia da promoção sabia que tinha margem para montar um plantel que pudesse ir além de uma época tímida. 2026/27 não se trata de sobreviver, mas sim de surpreender. Todavia, o diretor desportivo teria de remar para o mesmo lado que o treinador, Antonio Hidalgo. A Galiza vive um bom momento no desporto-rei. O Celta de Vigo alcançou uma vaga nas provas europeias, com Claudio Giráldez sendo decisivo no projeto desportivo. A equipa B da formação dos Balaídos foi promovida à La Liga 2. Mais a norte, o Deportivo de A Coruña (que realizou uma pequena mudança no seu nome, incentivando à regionalização) procura seguir as mesmas pisadas. Conseguir ter o seu conjunto na Primera RFEF pode ser importante para o longo prazo.

Yeremay Hernández de fones
Fonte: Deportivo de A Coruña

Contudo, a estrutura olhou para o curto prazo no verão de 2026 e montou um elenco de outra estirpe, um dos melhores da La Liga, pelo menos no papel. Foram 26 milhões de euros investidos, com uma receita de somente 500 mil euros. 10 peças entraram no Riazor pela porta grande, algumas bem conhecidas, outras por conhecer. O primeiro grande nome a assinar pelo Deportivo de A Coruña foi Léo Román. Os galegos não tiveram qualquer problema em investir nove milhões de euros para o contratar ao Mallorca. O espanhol mostrou as suas valências na La Liga, pese embora a despromoção dos insulares. Em Espanha é obrigatório contar com um guarda-redes experiente e um avançado que marque mais de uma dezena de golos para se chegar ao sucesso. Se na baliza o problema estava resolvido, a frente de ataque passou a ser ocupada por um nome sonante. Pierre-Emerick Aubameyang aceitou regressar à La Liga, convencido pelo projeto desportivo apresentado. O gabonês de 37 anos foi comprado ao Marselha por um milhão e meio de euros e traz a experiência que faltava à posição. Um nome de luxo, que já está a produzir resultados.

Para acompanhar o avançado e Yeremay Hernández, Fernando Soriano optou por contratar mais um atleta bem conhecido, ainda que não tenha chegado ao patamar que se esperava. Adama Traoré finalizou o seu vínculo com o West Ham United e regressou ao país natal. Uma dianteira que promete causar estragos.

O Deportivo de A Coruña também trouxe jovens com possibilidades de crescer e serem revendidos:

  • Jonathan Asp Jensen: 6 milhões de euros ao Bayern Munique
  • Bright Ede: 6 milhões de euros ao Motor Lublin
  • Lorenzo Amatucci: 2,5 milhões de euros à Fiorentina (depois de uma grande época cedido ao Las Palmas)
  • Teun Gijselhart: 1 milhão de euros ao De Graafschap
Adama Traoré no Deportivo de A Coruña
Fonte: Deportivo de A Coruña

A equipa da Galiza precisava deste tipo de elementos para os roles secundários, uma vez que outros atletas abandonaram o projeto. Para a defesa, chegaram mais dois nomes que há alguns anos seria impossível de imaginar que representariam o clube. Angeliño regressou a casa, emprestado pela AS Roma, José María Giménez foi cedido pelo Atlético Madrid mesmo no apito final da janela de transferências. Contudo, o uruguaio não chegou sozinho.

Marc Casadó foi a última grande contratação do Deportivo de A Coruña, cedido pelo Barcelona. O internacional espanhol passou o verão a ser apontado ao Médio Oriente e à Turquia, com alguns rumores a colocarem o atleta na rota do Benfica. Decidiu ficar mais perto de casa, seduzido por um projeto com pernas para andar. A cláusula de opção de compra de 30 milhões de euros assusta. Em caso de sucesso não existirá receio de a ativar, com a quase certeza de que é possível uma revenda por um valor bem mais elevado.

A geração nascida entre os 80 e os 90 cresceu e desenvolveu a sua paixão pelo futebol habituada a um Deportivo de A Coruña em busca do topo da La Liga e impressionando nas competições internacionais. Não faz falta recordar o histórico. Mauro Silva, Juan Carlos Valerón, Diego Tristán, Fran, Djalminha, Manuel Pablo (hoje em dia treinador dos B’s), Bebeto… foram dezenas de craques. Era o Super Dépor, uma daquelas equipas que fica na memória e será recordada para a eternidade. É quase impossível que esses tempos regressem. A La Liga era mais equilibrada, todos os plantéis possuíam pelo menos um craque. Hoje em dia a hegemonia é do Barcelona e do Real Madrid. O Atlético Madrid está um patamar abaixo. A partir daí, a luta é intensa, com sucessos e dissabores.

Leo Roman treino
Fonte: Deportivo de A Coruña

O Deportivo de A Coruña sabe o que fez neste mercado. Tem a perfeita noção de que criou expectativas nos adeptos e não as quer defraudar. A massa associativa procura o regresso do Super Dépor e o primeiro passo foi dado. Uma dupla de centrais composta por Lucas Noubi e José María Giménez seria impensável há dois ou três anos atrás. Nomes consolidados como Miguel Loureiro ou Riki Rodríguez serem suplentes é um luxo. Marc Casadó, Diego Villares, Mario Soriano ou Lorenzo Amatucci são opções com muito estatuto para o meio campo. Uma frente de ataque cujas alternativas são Luismi Cruz, David Mella e Bil Nsongo não está ao alcance de qualquer um. Trata-se de um clube recém-promovido, recordo. Poderia ser um elenco construído em duas ou três janelas por um emblema do patamar da Real Sociedad ou do Celta de Vigo.

Não é ousado afirmar que o Deportivo de A Coruña dispõe de um plantel acima de Valência ou Sevilha, que vivem profundas crises institucionais. Os galegos procuram regressar em força e na teoria fizeram tudo na perfeição. A grande crítica? A falta de espaço para jogadores da formação. Será pouco provável que alguma jóia consiga surpreender. Yeremay Hernández (fortemente apontado ao Sporting e ao Hull City) já é um clássico. Diego Mella somará alguns minutos, mas não tantos como eventualmente mereceria. Dani Barcia perdeu relevância. Noé Carrillo pode surpreender, mas Antonio Hidalgo terá de arriscar, ainda que conte com peças de outro traquejo para o meio campo. Este fenómeno é uma consequência do que foi proposto: o triunfo no imediato.

O Deportivo de A Coruña conseguiu captar a atenção dos adeptos do futebol com o mercado que realizou. Se se espera que Racing Santander (que também merece um teórico notável pela janela de transferências) e Málaga lutem pela manutenção, a exigência no Riazor é outra. Juan Carlos Escotet, Fernando Soriano e Antonio Hidalgo não têm medo dos desafios que se adivinham. Após anos dececionantes, nos quais o regresso ao profissionalismo parecia um salto demasiado difícil de dar, as bases estão montadas para um ano de ilusão. Para alguns, esta revolução pode ser considerada uma loucura. Para outros, algo necessário. Retiremos as ilações nos próximos meses.

Pierre-Emerick Aubameyang
Fonte: Deportivo de A Coruña

Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

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