Um romance de verão entre Estrela da Amadora e Famalicão

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O calor de setembro, a puxar lembranças de um verão que caminha a passos largos para o seu fim, foi o cenário ideal para um destes jogos. Numa altura em que vender a Liga parece quase tão importante como disputá-la, há cantinhos bonitos como este Estrela da Amadora x Famalicão para recordar que os 300 milhões de euros (talvez a manifestação funcione quando toda a racionalidade diz que são números impossíveis) abrangem tantos e tantos jogos.

Sorriso Eddy Doué Famalicão Estrela da Amadora
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

O apito final do jogo foi um término de um romance de verão, daqueles que acabam tão rápido como começaram, praticamente efémeros na sua génese, mas eternos, quando bem vividos, como se uma semana, uns dias ou umas horas fossem capazes de durar para sempre. O Estrela da Amadora x Famalicão não foi o melhor jogo de sempre, é óbvio, mas um romance de verão também não precisa de ser um amor de filme. Basta um epílogo para a felicidade. Bastam 90 minutos.

O clima na Reboleira foi propício à história. O sol e o calor abrasador, quase desconfortáveis, são sempre o palco melhor para estas histórias. Depois, dos dois lados, houve vontade para fazer a coisa avançar, talento para mexer com o jogo e uma abertura à aleatoriedade e a sucessão de acontecimentos. No jogo de aproximações e afastamentos, Pepa fez a primeira mudança para quebrar com a monotonia, Carlos Carvalhal reagiu num momento crítico e conseguiu um avanço valioso mais tarde.

Carlos Carvalhal Famalicão
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

A primeira parte foi do Famalicão, regra geral, partindo de princípios bem estabelecidos. Um lateral, desta vez Pedro Bondo à esquerda, projetava, o outro, Rodrigo Pinheiro pela direita, ficava mais baixo na saída. Em sentido contrário, Sorriso vinha por dentro, procurar forçar a linha defensiva adversária e Roméo Beney, à direita, encostava por fora para esticar ao máximo os adversários. Por mais que esta divisão de espaços, perfeitamente racional e intencional, tenha servido de base, o verdadeiro jogo do Famalicão jogou-se lá dentro, pelos três nomes mais dinâmicos da equipa.

Com Marcus Peña mais posicional, garantindo equilíbrios e coberturas à frente da defesa, os dois médios do Famalicão funcionaram de forma diferente. Paulo Moreira e Mathias de Amorim são, na sua génese, dois dínamos, garantindo um pensamento ao jogo que não se esgota na posição base, mas que se vai prolongando em campo pelos terrenos que os dois interiores pisarem. Paulo Moreira funcionou mais perto da ligação, Mathias de Amorim da definição (até à mudança, lá à frente. O internacional sub-21 português anda agora frequentemente pela meia direita, nos momentos em que o Famalicão se camufla num 3-4-2-1. Sempre que é capaz de ver o jogo de frente, faz estragos pelo passe. Descobre linhas de passe e, quando estas não têm o X no mapa, inventa-as, como se as pernas fossem movidas a uma regra e um esquadro. Brutal a facilidade e fluidez como joga. É interessante a ligação que vai criando com Georgios Koutsias. O futebol português está atrativo para os pontas de lança gregos e o do Famalicão, o mais alternativo dos três, é um dos mais promissores reforços desta época. Conjuga a facilidade em jogar como apoio com a procura de diagonais curtas e com o instinto goleador na área. Os ingredientes estão todos lá.

Mathias de Amorim Famalicão
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

Com a pressão do Estrela da Amadora a abrir um buraco (sempre que Zvonarek subia para apertar os centrais, o Famalicão criava um 3×2 e encontrava o homem do livre), estava criado o cenário perfeito para os famalicenses jogaram a seu favor. Mas o Estrela da Amadora voltou do intervalo com outros planos.

A entrada de Beni Souza, Benito se preferirem, só por si já indiciava que o clube da casa traria do intervalo uma dose extra de risco e atrevimento. Estando longe de um produto acabado, Beni Souza tem o perfil de agitador certo para se tornar num dos mais entusiasmantes jogadores de assistir no futebol português. Dá sempre qualquer coisa ao jogo, puxando para terrenos bem distantes a passividade e a certeza e trazendo dúvida à cabeça do adversário. Num destes momentos, encontrou a cabeça de Leandro Antonetti na área. Se há crítica ou julgamento a fazer ao Famalicão é mesmo a fraca capacidade defensiva na área. Foi muito raro o cruzamento do Estrela que não causou calafrios ou uma segunda vaga do ataque. Quanto ao porto-riquenho, que atire a primeira pedra quem estava longe de imaginar que chegaria a este nível logo no arranque de uma época. Talvez dê para construir um castelo. Impressionante a forma como se conseguiu afirmar na equipa da Amadora. Marcou um golo e foi, pelo menos, o autor moral do outro.

No meio de tudo, atenção a Eddy Doué. O apelido deixa adivinhar tudo o que os pés confirmam. É um primeiro médio que beneficia do risco, da incerteza e da liberdade para carregar bola. O perfil de transportador não é completo pelas inúmeras artimanhas que o médio tem no passe criativo. Quebra linhas em posse e no passe e, quando cria relações e chega perto da área, gera-se perigo.

Pepa Estrela da Amadora
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

A reviravolta podia fazer imaginar que o Estrela conseguiria mais uma vitória. Mas, antes do 2-1, Carvalhal quis algo diferente. Chamou Pedro Santos ao jogo e meteu Paulo Moreira e Mathias de Amorim lado a lado no meio-campo. O choque do golo da reviravolta atrasou as mudanças efetivas, mas o Famalicão recuperou a segurança e a capacidade de equilibrar a organização com o risco e acabou por, dos 11 metros, conseguir o empate. Continua sem vencer, é certo. Mas nem todos os romances de verão dão certo. Aliás, são muito poucos os que o fazem. Às vezes, a desilusão com o fim do romance é mútua. E é aí que se sabe que o romance de verão foi bom.

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: O Mathias de Amorim começa em posições um bocadinho mais adiantadas do campo, depois, com a primeira substituição, acaba por baixar no terreno. Como é que futebolisticamente falando entende o jogador e pergunto se considera que a capacidade para pegar no jogo, ler o jogo e ter intervenção no jogo é superior ou, pelo menos, mais importante e preponderante que a posição inicial?

Carlos Carvalhal: O Mathias é um jogador muito inteligente e interpreta muito bem as duas funções. É um jogador inteligente e nós estamos a utilizá-lo mais perto do avançado e fá-lo muito bem. Hoje esteve muito bem, tem a assistência para o golo e uma presença importante, com dinamismo no lado direito com o Roméo [Beney] e com o Rodrigo [Pinheiro] por trás deles. Conseguiu fazer muito bem essa função. Quando assume a função de segundo médio, um dos médios da equipa, fá-lo também muito bem. A recuperação é sempre muito boa e quebra linhas. É um jogador que quebra linhas e ajudou-nos muito na parte final. A intencionalidade quando metemos o Pedro [Santos] e o Gil [Dias], era mesmo essa, passar o Mathias para ficar com o Paulo, e com o Mathias subirem uma linha e ganharmos uma linha dentro do campo. No momento da substituição, sofremos um golo e só se veio a manifestar mais à frente. O Mathias desempenha muito bem essas duas funções. Quer uma ou outra, ele fá-lo muito bem.

Bola na Rede: O Estrela da Amadora cresce na segunda parte com a inclusão de vários jogadores com um perfil muito desequilibrador, irreverente e imprevisível. Como é que um treinador consegue equilibrar o lado do controlo, que todos os treinadores querem ter, com este lado mais irreverente e aleatório do jogo.

Pepa: Dando-lhe disciplina tática. Não cortando… É importante não cortar a criatividade a quem a tem. Era um crime se cortássemos a criatividade do Eddy [Doué], do Beni [Souza], entre outros. É impensável. São jogadores que têm esse talento natural e muito jovem. Nós temos é de os ajudar a ter a responsabilidade tática e não só. Também emocional e física. Técnica eles têm de sobra. Agora é ajudá-los. Ajudá-los a crescer, ajudá-los a entender o jogo, ajudá-los a perceber que a equipa está acima de tudo o que é individual. Vejo com satisfação a evolução de alguns jovens da nossa equipa.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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