Aproximando-se o Mundial 2026, fica na mente de quem acompanha a vida de Portugal, a questão de quais serão as escolhas do Selecionador Nacional para a competição. Entre os vários setores do campo, há sempre um que é especial e já há muitos anos que se renova a discussão à volta de um mesmo assunto: ataque e pontas de lança. Sendo absolutamente seguro que o capitão Cristiano Ronaldo (hoje um avançado mais fixo do que móvel) e Gonçalo Ramos estarão entre as escolhas do técnico espanhol, resta saber se serão as únicas escolhas para a posição ou haverá uma terceira.
O historial da equipa das quinas nas mais diversas competições quanto às opções para o eixo do ataque, é notoriamente volátil. As duas primeiras competições em que a Seleção Nacional Portuguesa participou (Mundial 1966 e Euro 1984) foram um caso particular pelas circunstâncias da época. Em 1966 e ainda sem substituições, o “gigante” José Torres e o “rei” Eusébio foram as únicas duas opções a jogarem o Campeonato do Mundo inglês. No Euro francês de 1984, existiu a circunstância absolutamente única do Selecionador Nacional, Fernando Cabrita, ter contado com os três goleadores dos três grandes: Fernando Gomes, Rui Jordão e Nené.
No entanto, entre o Mundial 1986 e o Euro 2024, as escolhas dos técnicos variaram em três sentidos. Entre o Campeonato do Mundo do México (1986) e o da Coreia/Japão (2002), a equipa nacional contou apenas com dois pontas de lança de raiz (Gomes e Águas em 1986, Domingos e Cadete em 1996 e Nuno Gomes e Pauleta em 2000 e 2002) e algumas alternativas que não o eram (Sá Pinto em 1996 e 2000 e João Vieira Pinto em 1996, 2000 e 2002). Este primeiro cenário repetiu-se em 2010 (Liedson e Hugo Almeida) e em 2022 (Gonçalo Ramos e André Silva, com Ronaldo, Leão e Félix como alternativas mais móveis).
Depois, entre 2004 e 2014 surge a tendência de convocar três pontas de lança de raiz, muito seguida por Luiz Felipe Scolari (Pauleta, Hélder Postiga e Nuno Gomes em 2004 e 2006, com Hugo Almeida no lugar do avançado açoriano em 2008) e Paulo Bento (Postiga, Almeida e Nélson Oliveira em 2012 e Éder em 2014, no lugar do atual avançado do Vitória SC).
Com a evolução do jogo e desde a vinda de Fernando Santos para a equipa nacional, surgiu uma terceira tendência e que se mantém até aos dias de hoje com Roberto Martínez: apenas contar com um ponta de lança de raiz e um conjunto relevante de alternativas não fixas (“falso nove”) e com mais mobilidade (Éder em 2016, com Ronaldo, Nani e Quaresma a serem mais utilizados em dupla móvel, André Silva em 2018, novamente com Ronaldo, Nani, Quaresma e Gonçalo Guedes a jogar do mesmo modo, algo que se repetiu em 2020 com Quaresma e Nani a serem substituídos por João Félix e Diogo Jota, por fim em 2024, Gonçalo Ramos foi a única opção de raiz e Ronaldo, João Félix, Rafael Leão e Diogo Jota a serem as alternativas mais móveis).
Resta saber se para o Mundial deste ano, Roberto Martínez vai manter a sua tendência atual (um ou dois avançados de perfil mais fixo e mais opções de estilo mais móvel) ou procurará um terceiro elemento. Juntando os critérios dos números da presente época, do global dos últimos três anos e da sua experiência nas seleções (menos relevante), aqui ficam cinco candidatos ao putativo lugar.
5.


Youssef Chermiti – O jovem avançado formado no Sporting é um jogador com boa presença física, bom remate, mobilidade razoável e uma interessante capacidade técnica no um para um. Contando com alguma experiência na Seleção Sub-21, entra neste lote como uma aposta mais virada para o presente e futuro, algo sustentado pela sua evolução e rendimento esta época e nos últimos anos. Atualmente no Rangers, Chermiti fez até ao momento quatro golos e duas assistências em 25 jogos. No global, conta com oito golos e duas assistências, em 52 jogos nas últimas três épocas.
4.


Kikas – É um elemento que pode interessar a Martínez pela sua procura de oportunidades de concretização, presença assídua num ataque consistente e boa movimentação. Kikas ganha espaço neste leque de opções muito graças à sua interessante época atual, superando concorrentes com mais nome. Sem experiência nas seleções, mas com o segundo melhor registo de golos deste top, também se enquadra no perfil de “nove” tradicional e revela produtividade consistente. Na atual época entre Estrela Amadora e Eupen conta seis golos e uma assistência em 20 jogos. No global, ficam 21 golos e três assistências, em 87 jogos nas últimas três épocas.
3.


Fábio Silva – Embora fique a ideia que devia ter números melhores por ter sido uma das grandes esperanças do futebol português a nível de avançados, a verdade é que o ex-jogador do FC Porto tem a seu favor a pressão ofensiva que mostra pelos clubes por onde tem passado, alguma força física e capacidade de jogo aéreo, além de capacidade goleadora. O seu estatuto atual mantém-se no topo, não só pela consistência e experiência internacional, como pela ligação e percurso relevante nas seleções jovens (Euro Sub-17 em 2018 e 2019, Euro Sub-21 em 2023), mesmo com épocas menos conseguidas. Embora na atual época ao serviço do Borussia Dortmund, tenha apenas um golo e cinco assistências em 22 jogos, neste lote, tem o segundo melhor rendimento nas últimas três épocas. Acrescenta criatividade com nove assistências aos 18 golos, em 81 jogos nas últimas três épocas.
2.
Leonardo Rocha – Revelando alguns dotes de goleador, além de forte nas características do físico e jogo aéreo, poderá ser uma opção interessante para o técnico espanhol. É o melhor marcador do lote no global das três últimas épocas, uma carreira maioritariamente no futebol internacional e apenas perde no critério da experiência nas seleções. Na presente época entre Lubin e Raków, Leonardo Rocha marcou sete golos e fez duas assistências em 23 jogos disputados. Já no global das três épocas, conta com 24 golos e quatro assistências, em 83 jogos.
1.


Gonçalo Guedes – Sendo um jogador com remate e finalização fáceis, boa mobilidade em termos de drible interior e também exterior para cruzamento, é uma forte opção a ser resgatada para servir de novo o ataque nacional. De todos os jogadores deste leque, o atual avançado da Real Sociedad vence no equilíbrio total: boa produção na média histórica dos últimos três anos (13 golos e 13 assistências, em 90 jogos), interessante época atual (cinco golos e quatro assistências em 24 jogos) e experiência internacional relevante. Não sendo um ponta de lança puro, além de mostrar bons números, é polivalente no ataque (algo útil nas convocatórias) e é um interveniente com impacto coletivo. Todos os adeptos portugueses se recordam da vitória com o seu golo decisivo na final da Liga das Nações 2019.

