Marco Silva estreou-se não oficialmente enquanto treinador do Benfica no Algarve, ao orientar a equipa em dois jogos de caráter particular, opondo o Benfica a Flamengo e Villarreal. Em contagem decrescente para o primeiro jogo da temporada, frente ao St. Gallen, parece oportuno debater as primeiras impressões de Marco Silva no Benfica e aquilo que podemos esperar tanto coletiva, como individualmente dos encarnados num futuro próximo.
Primeiro, há que enquadrar no contexto: ainda há jogadores importantes de férias, depois de terem estado ao serviço das suas respetivas seleções no Mundial e o treinador encarnado ainda espera entradas e saídas dentro do próprio plantel, pelo que toda a análise que possa ser feita vem quase sempre com um asterisco à frente. Não obstante, a pré-época do Benfica é tudo menos normal e os jogos ‘a contar’ começam mais cedo do que nunca, fruto do insucesso da temporada transata.
Posto isto, no que toca a equipas iniciais, Marco Silva manteve a mesma base em ambos os jogos, alterando apenas uma unidade de um jogo para o outro, no caso, Umeh, que sofreu uma lesão grave no primeiro jogo. Kaminski assumiu o lugar do jovem extremo da formação do Seixal no segundo encontro, frente ao submarino amarelo.
Longe de ser por causa de Umeh ou Kaminski, o Benfica teve dois jogos muito diferentes contra Flamengo e Villarreal. Contra o clube brasileiro, vimos um jogo muito agressivo e faltoso, ultrapassando até o limite do que é aceitável desportivamente, especialmente num amigável, o que acabou por prejudicar o espetáculo. Ainda assim, foi possível ver alguns padrões coletivos que se repetiram na partida seguinte.


No momento sem bola, Marco Silva começa por apostar em processos comuns ao redor do globo: pressão alta numa estrutura semelhante ao 1x4x4x2, que também pode ser 1x4x1x3x2, caso um dos médios suba para condicionar o médio defensivo, formando um triângulo com os homens da frente que encaixam nos centrais e médio adversário. Diga-se também que a pressão do Benfica foi muito mais eficaz perante o Villarreal do que contra o Flamengo, seja isto por fruto de repetição diária no treino ou pela diferença de qualidade entre as equipas.
Quando a pressão foi batida, o Benfica recolhia ao seu bloco em 1x4x4x2 a meio do campo, não baixando em demasia, mas abstendo-se de agressividade nesta fase, procurando colocar os extremos mais centrais, fechando o corredor central ao opositor. Este bloco médio mais compacto já mostra algumas diferenças para aquilo que foram os processos defensivos de Bruno Lage e José Mourinho, ainda que as estruturas utilizadas sejam semelhantes.
Àquilo que diz respeito ao momento com bola, Marco Silva mostra-se diferente dos seus antecessores, alternando entre uma saída a quatro ou uma saída a três; isto é, mantendo o 1x4x2x3x1 original encarnado, o Benfica coloca quatro jogadores em fase de construção, sendo eles os dois centrais e os dois médios, formando um quadrado. Isto permite que haja proximidade na primeira fase de construção, garantindo viabilidade em passes curtos antes de lateralizar para Dahl ou Bah, ou até mesmo encontrar Sudakov entre linhas ou Rafa em profundidade.
Numa outra ideia, foi por vezes apenas Barrenechea a mostrar-se aos centrais, deslocando Barreiro para linhas mais próximas de Sudakov, desenhando um 1x4x3x3 no terreno. O destaque vai para Lenglet, que mostrou serenidade no passe, tanto curto como longo, numa altura onde o Benfica precisava de um defesa central canhoto confortável com bola.


Vale, no entanto, frisar o pouco esclarecimento que o Benfica teve a desmontar blocos baixos. Isto foi por demais evidente no frente a frente com o Flamengo, principalmente na segunda parte, onde os cariocas ofereceram a iniciativa ao clube português. Neste contexto, foram raras as vezes onde o Benfica conseguiu chegar à área adversária e concluir a jogada. Novamente, há asteriscos a serem colocados aqui, seja pela má forma de Sudakov, pelo pouco tempo de trabalho de Marco Silva ou pelo facto de haverem jogadores importantes ainda ausentes.
Será curioso vermos como Marco Silva tenciona dinamizar o corredor central, seja pela ligação Pavlidis-Rafa ou pelo renascimento de Sudakov. Como bem empregou no Fulham, o Benfica fez muitos movimentos de aproximação pelos flancos, onde o extremo e o lateral alternam entre movimentos interiores e exteriores, conquistando a profundidade e procurando atacar a baliza a partir daí.
Foi também a primeira oportunidade que os benfiquistas tiveram para ver novas caras em ação, como Kaminski e Lenglet. O central francês deixou marcas positivas na saída de bola, mas parece ter deixado o sentimento de que necessita de um parceiro de posição que o complemente, nomeadamente um central com perfil atlético e ágil para reagir a bolas na profundidade e que se consiga impor fisicamente perante os centrais adversários.
O extremo polaco, por outro lado, mostrou-se algo desconectado com o coletivo e a parceria com Dahl não foi um sucesso, não sendo isto anormal para um jogador recém-chegado ao clube. A seu tempo, as comparações com Kerem Akturkoglu serão evidentes e justificadas, para o bem e para o mal.


Há muito ainda por fazer e dizer sobre este novo Benfica. Nota-se ainda que o meio campo está longe daquele que deverá ser o meio campo de eleição de Marco Silva e a própria defesa carece de rotação: não creio que Dahl e Bah terminem a temporada como laterais titulares do Benfica e o parceiro de Lenglet ainda não está definido.
O mercado mexe, Schjelderup e António Silva estão com um pé fora da Luz e nesta quinta feira os jogos já são a doer. Tempo é algo que Marco Silva não tem, veremos se lhe resta paciência para voltar a fazer do Benfica o Benfica.

