Paris Saint-Germain e Arsenal defrontaram-se, este sábado, na tão aguardada final da Champions League. Os franceses, campeões em título, procuravam revalidar a sua conquista, enquanto que os ingleses procuravam uma glória nunca antes atingida.
Num jogo de pouca baliza e de muita paciência e concentração de lado a lado, apenas as grandes penalidades conseguiram resolver o 1-1 deixado por 120 minutos de futebol. No final das contas, os franceses acabaram por vencer e tornarem-se bicampeões europeus.
Como seria de esperar, as equipas apresentaram-se nas suas melhores versões e fiéis a si próprias. O PSG mostrou o seu melhor 11, com atenção para o trio de ataque, que promove muitas variações e é letal no 1×1. Do outro lado, Mikel Arteta montou o 11 que lhe traz mais confiança, com Lewis-Skelly e Declan Rice no duplo pivot e a preferência de Havertz por Gyokeres enquanto avançado solitário. Sendo que a grande ameaça estava nos corredores laterais, as escolhas de Hincapié e Mosquera fazem sentido em detrimento de Timber e Calafiori.


Em teoria, os franceses eram favoritos à conquista do troféu. Dispõem de uma vasta gama de talento e são melhores individualmente que o conjunto inglês e, argumentavelmente, têm um melhor coletivo também. Não obstante, o jogo tornou-se de feição para os pupilos de Mikel Arteta quando Havertz aproveitou um erro de Marquinhos e colocou o Arsenal na frente do marcador. A partir daqui, o cenário mudou, o Arsenal tinha a possibilidade de recuar e defender em bloco, negando transições ao PSG. Ou seja, o Arsenal era capaz de usar as suas melhores armas ao mesmo tempo que negava o PSG de usar as suas.
A partir deste ponto, o Arsenal assumiu-se no seu 4x4x2/4x2x2x2, onde Saka e Trossard defendiam por dentro, retirando todo o espaço do corredor central. Assim sendo, o ouro estava nos corredores laterais e era obrigação do PSG trazer o melhor de Kvaratskhelia e Doué ao jogo. No entanto, os extremos do conjunto de Luis Enrique raramente tiveram situações de 1×1 com os seus adversários, muito por ‘culpa’ do Arsenal, que juntava Trossard e Saka na ajuda a Mosquera e Hincapié.
Igual a si próprio, o PSG partia do 1x4x3x3, onde Vitinha era o primeiro homem a receber a bola dos defesas centrais e Nuno Mendes, que se juntava a estes na construção, assumindo uma saída a três mais um perante o bloco médio de 4x4x2 (na primeira fase) do Arsenal. Doué e Hakimi com variações interior-exterior, isto é, se Doué baixava para receber, Hakimi era responsável pelo ataque à profundidade e se Hakimi atacava o espaço interior, Doué dava largura.
Diferente do que acontecia do lado esquerdo, onde Kvaratskhelia tem liberdade para esticar o jogo tanto pela linha como para estar mais próximo de Dembelé, no corredor central. Assim, era Fabian Ruiz a lateralizar-se e a oferecer opção de passe a Nuno Mendes, ou a atacar espaços interiores, criando superioridade numérica perante Mosquera e oferecendo a Kvaratskhelia espaço na linha para receber a bola solto de marcação.
Enquanto esteve a perder, o PSG nunca esteve confortável e criou muito poucas ocasiões de perigo, fará de golo. Gabriel e Saliba controlavam a área e o Arsenal estava confortável no jogo, sendo que o PSG só conseguiu desequilibrar através de Nuno Mendes.
Com o jogo empatado, o cenário tático voltou a mudar, uma vez que o Arsenal já não podia defender a área a seu gosto até ao fim dos 90 minutos. Arteta respondeu com Timber e Gyokeres, onde Havertz desceu um pouco no terreno para acomodar o sueco na frente, ao mesmo tempo que Timber assumiu as mesmas funções que Mosquera. Mantendo o mesmo nível de pragmatismo, o Arsenal procurava bater longo, seja diretamente através de Raya, seja através de um toque para o lado para um dos centrais- pode parecer pouco, mas este pequeno passo força o defensor a agir ao mesmo tempo que os homens alvo movimentam-se e ganham espaço; neste contexto, Havertz desmarcava-se e saía bola longa à procura de um dos avançados em campo, enquanto o resto da equipa subia em bloco para ser opção de passe para uma eventual segunda bola.
Esta estratégia aproximou o Arsenal da baliza de Safonov e houve ocasiões onde Gyokeres e Havertz foram capazes de segurar a bola ou amortecê-la para um colega de equipa próximo da sua zona, batendo toda a pressão do PSG e atacando a sua baliza de frente. No entanto, isto também exponha a sua defensiva, uma vez que o Arsenal comprometia mais homens para a frente, ficando poucos atrás. Assim, estava criado o espaço que o trio atacante do PSG procurava desde o início do jogo e os franceses poderam sair em transição. No entanto, Barcola (principalmente) nunca definiu com clareza e a decisão foi-se arrastando para lá do tempo regulamentar.
Nenhuma das equipas abandonou a racionalidade das suas propostas de jogo e só as grandes penalidades conseguiram resolver a final. Em boa verdade, foi um jogo onde o PSG circulou à volta da defensiva do Arsenal, que parecia nunca quebrar. Perguntei-me, a meio do jogo, se Luis Enrique iria reviver o fatídico Marrocos x Espanha do Mundial de 2022 ou se estaria, agora, disposto a abdicar de ter menos homens atrás da linha da bola para ter mais homens entre linhas. A verdade é que nunca desfez o sistema, mas também não precisou.
Levantada a poeira, o PSG solidifica a sua posição enquanto melhor equipa do mundo, mesmo num jogo de 120 minutos onde nunca esteve confortável. O Arsenal mostrou enorme competência defensiva e não é descabido dizer que é o melhor bloco baixo do mundo, ainda que não acho que seja isso que define os londrinos. Cada vez mais pragmático do que romântico, acredito que veremos o Arsenal de Mikel Arteta em decisões deste calibre mais vezes.

