Três “orelhudas”, uma taça da Europa League, uma Taça Intercontinental, um título de campeão do mundo, uma Taça das Taças e uma Supertaça Europeia. Fora este elevado número de conquistas internacionais, oito no total – seis delas com Sir Alex Ferguson -, os vermelhos de Manchester contam no seu palmarés com a conquista de 20 campeonatos, 13 conquistas da Taça de Inglaterra, 21 Supertaças e seis Taças da Liga.
A nível interno, tendo em conta os títulos de maior importância, o Manchester United é o clube inglês mais vitorioso. Só o Liverpool, que junta, depois, um currículo invejável a nível europeu, tem uma história tão recheada quanto os red devils em solo inglês.
Na última década, principalmente desde a chegada de Guardiola, o Manchester City tem dominado o futebol inglês. O Liverpool recuperou o seu estatuto, ganhando dois campeonatos nos últimos seis anos – é o atual campeão inglês -, mas o futebol britânico mudou muito. Para se ter uma maior noção dessa mudança, à qual se relaciona, também, a queda do Manchester United, o Leicester City conquistou mais campeonatos nestes últimos dez anos do que a equipa de Old Trafford. Aliás, nesse período, tudo aquilo que o United ganhou foi uma Europa League (2016/2017), uma Taça de Inglaterra, uma Supertaça de Inglaterra e uma Taça da Liga. O cenário fica mais negro quando se verifica que, tendo já sido eliminado das Taças na presente temporada e não estando a competir em provas europeias, o Manchester United vai estar dois anos seguidos sem somar qualquer troféu. Os resultados obtidos na última dezena de anos são insultuosos para um clube com a dimensão, história e domínio nacional dos red devils. Mas, acima de tudo, são reflexo de uma gestão danosa, sem rumo, sem um objetivo desportivo definido e de decisões tutelares que não podem ser postas em causa.
A queda do Manchester United não pode ser dissociada dos donos do clube, a família Glazer. Entre 2003 e 2005, esta família norte-americana, sob representação do pai, Malcolm Glazer, tornou-se acionista maioritária do clube. O que é certo é que os moldes utilizados na compra do clube geraram enormes ondas de contestação desde início. Sumariamente, Malcolm recorrer a um mecanismo que financiava a compra do clube através de um empréstimo. O Manchester United viu-se, então, com uma dívida próxima dos 600 milhões de libras.
Em resposta, ex-atletas e muitos adeptos mostraram-se contra os novos proprietários, pelo que uma fação desses associados criou o Football Club United of Manchester, equipa que milita nas divisões inferiores. Após a morte de Malcolm, Avram e Joel, filhos do ex-dono do clube de Manchester, assumiram o controlo dos reds em 2014. De lá para cá, para além da saída de Sir Alex Ferguson, o clube tem passado por um dos períodos mais negros da sua história. Desde 2021 até à data desta crónica, houve três CEO’s no clube.
Primeiramente, Ed Woodward, que saiu em 2021, depois de ter ocupado o cargo durante cerca de 9 anos. Chegou ao clube em 2005 e, desde 2012, ocupava o cargo de vice-charmain executive, semelhante à função de diretor executivo, mas com a particularidade de colocar em prática a visão financeira e estratégica dos verdadeiros donos. Richard Arnold, com a saída de Woodward, assumiu o cargo em 2022, depois de ter passado pelas funções de diretor comercial do clube, entre 2007 e 2013, e de diretor administrativo, entre 2013 e 2021. Pouco mais de um ano depois, refletindo a desordem em que o Manchester United se tornou, acabou por, também ele, abandonar o cargo. Agora, é Omar Berrada quem ocupa a função de diretor executivo, depois de ter sido diretor comercial e de operações do Manchester…City.
Se o cenário parece assombroso, revelando erros estruturais básicos a todos os níveis, ficou ainda pior com a entrada de um novo acionista: Jim Ratcliffe. Tendo adquirido 25% do clube em fevereiro de 2023, revelando a intenção dos Glazers em se afastarem do dia-a-dia do clube, o bilionário britânico pretendia tornar-se uma figura central na coordenação do futebol dos diabos de Manchester, ficando responsável pela contratação dos elementos relativos ao futebol (treinadores, jogadores e, até mesmo, do diretor executivo).
Desde a chegada de Ratcliffe, CEO da INEOS ao clube, o emblema de Old Trafford já investiu mais de 707,7 milhões de euros na aquisição de jogadores para comporem o plantel, ainda que tenha havido o despedimento de centenas de funcionários e que o clube tenha de pagar dívidas a terceiros. Para além de um saldo negativo no que toca ao equilíbrio entre ganhos e perdas, o Manchester United, desde a chegada do engenheiro químico, não ganhou qualquer troféu. Por esse motivo, a contestação já atingiu Ratcliffe, que chegou mesmo a admitir que teria de “tomar algumas decisões difíceis e impopulares” e que não iria permitir ser vítima dos “abusos feitos aos Glazers”. Os alarmes soam ainda mais alto quando recordamos que a INEOS é, também, acionista do Nice. O emblema francês não tem passado por tempos nada positivos, ocupando a última posição que garante a manutenção na Ligue 1 e estando em 33º lugar, em 36 possíveis, na fase de liga da Europa League. A tensão entre adeptos e equipa já levou alguns jogadores a afastarem-se do clube. A INEOS pretende desfazer-se das águias francesas.
Este contexto, embora longo, é essencial para se compreender a perda da hegemonia de um dos maiores clubes do mundo. Como se percebe, pese embora as injeções de capital muito avultadas, o dinheiro, por si só, não ganha títulos. Como tal, é essencial que o projeto seja bem desenvolvido, que seja definida uma identidade no clube transposta para uma filosofia de jogo – que se perdeu desde a saída de Sir Alex Ferguson – e que haja coerência entre o futebol que se pretende jogar e os jogadores que são contratados. Tantas e tantas vezes dou o seguinte exemplo: Harry Maguire não desaprendeu a jogar futebol. O percurso no Leicester e na seleção inglesa, sob o comando de Southgate, demonstra bem as suas competências. Todavia, não se pode pedir a um jogador que defende bem a área e que é poderoso quando a sua equipa joga num bloco mais baixo que apresente o mesmo rendimento numa equipa que procura subir as linhas para pressionar e condicionar o adversário, deixado muito espaço nas costas da defesa. O carrossel de treinadores que por lá passam não favorecem a estabilização de um modelo de jogo, não favorecem a adequação dos jogadores à forma de jogar e prolongam a crise de resultados.
O problema ganha ainda mais peso quando os proprietários não são abertos à crítica e ao diálogo, tanto com adeptos como com treinadores. O calcanhar de aquiles de Rúben Amorim não foi a posição na tabela classificativa, mas antes ter apontado o dedo a algo que não funciona adequadamente. Longe de desculpar Rúben Amorim por alguns erros estratégicos e táticos – nomeadamente, na decisão de jogar com Bruno Fernandes num meio-campo a dois -, estou certo de que, tal como o passado recente o tem comprovado, esteve longe de ser o maior problema do clube. Se a família Glazer pouco ou nada quer saber do clube (além do retorno financeiro), Jim Ratcliffe carrega consigo uma postura de sabichão, de ‘guru’ do futebol, que não o impede de sair de uma bolha que o próprio criou.
Antes da chegada de Ratcliffe, o clube contratava jogadores e treinadores pelo seu peso mediático, pelo nome, não criando uma ligação lógica entre os valores do clube, a identidade e o estilo de jogo. Por esse motivo, surgiram desequilíbrios nos vários plantéis, com tantas alterações nos vários grupos de trabalho de época para época. Atualmente, o problema do Manchester United começa a ser outro. Como o CEO da INEOS não quer ser confrontado, o passo seguinte assenta na contratação de treinadores com um passado ligado ao clube, que estabeleçam uma ligação emocional com os adeptos – para amenizar a relação entre donos e fãs – e que, não tendo uma carreira enquanto técnicos tão prestigiosa assim, não possam confrontar o “dono disto tudo”. Por esse motivo, os treinadores na calha para suceder a Amorim eram Carrick, que por lá continua como interino até ao final da presente temporada, e Ole Gunnar Solksjaer.


O Manchester United está a anos-luz dos grandes tubarões europeus. Os red devils vão alimentando-se de vitórias esporádicas frente aos principais rivais. O recente triunfo frente ao Manchester City é exemplo do que aqui escrevo, mas não pode ser suficiente para alimentar um projeto desportivo. Os reds não têm consistência nenhuma, tanto a nível exibicional como de resultados, nem muito menos coerência numa perspetiva de planeamento. Como se não bastasse, esta é a segunda época consecutiva em que o treinador que iniciou a temporada é despedido…depois de serem investidos mais de 200 milhões de euros. A não ser que Michael Carrick faça milagres, não há forma de o United ser reerguer nos próximos tempos.
A era de Alex Ferguson não volta, isso é certo. Não só porque é quase impossível alguém conseguir manter o nível competitivo durante quase três décadas, como o futebol de hoje se tornou impaciente. Essa impaciência conduziu, enfim, àquilo em que o United se transformou. Os Glazers olharam para Old Trafford como um brinquedo e Jim Ratcliffe utilizou o Manchester United como ferramenta para afagar o ego. Graças a tudo isto, o passado grandioso do United já não passa de uma utopia.

