Em Moreira de Cónegos, o Benfica voltou a deixar bem vincada a identidade que Marco Silva está a construir. O modelo de jogo encarnado parece já perfeitamente assimilado, com uma equipa cada vez mais confortável nos seus princípios e capaz de transformar essa organização numa verdadeira máquina ofensiva. Do outro lado, o Moreirense voltou a mostrar as qualidades que lhe têm permitido competir: uma equipa organizada, disciplinada e com ideias interessantes, mas limitada pela falta de talento individual para contrariar adversários deste nível. Quando a organização encontra pela frente uma equipa com mais soluções e qualidade, a diferença acaba inevitavelmente por aparecer, como o próprio Vasco Botelho da Costa assumiu.
Com Alexander Bah afastado por lesão, Daniel Banjaqui entrou para lateral-direito, desempenhando uma função que se adequa às suas competências. Com o extremo do lado direto do Benfica a alinhar sempre em posições mais interiores, a capacidade de Banjaqui em largura foi evidente, através da sua potência física e movimento sem bola, deixando bons indícios para uma posição curta em termos de profundidade do plantel. O jovem de apenas 18 anos entrou em campo com algum nervosismo, visível pelos pequenos erros cometidos no arranque da partida, mas foi ganhando conforto à medida que o jogo avançou, acabando por se tornar um dos jogadores mais consistentes das águias na segunda parte.


Do lado contrário, a entrada em grande de Andreas Schjelderup não só é uma boa notícia para o Benfica, como também para Gianluca Prestianni em particular, desbloqueando por completo o talento do argentino. Com o norueguês aberto, Prestianni encontrou quase sempre o momento e o espaço certo para atacar entre-linhas e, ocupando a meia-esquerda, tirou proveito da sua qualidade em espaços curtos, mas isso já não choca ninguém. O que foi realmente notável foi a forma como o jovem argentino foi capaz de, nos momentos certos, baixar na construção, reconhecendo que um dos centrais do Moreirense estava num acompanhamento muito agressivo nas suas costas. Nos momentos em que o fez, tomou boas decisões, conseguindo várias vezes rodar, bater a marcação e sair a jogar.
Assim, a irreverência e finura técnica de Schjelderup em largura, combinada com um Mega-Prestianni a flutuar na meia-esquerda e ainda com Dahl confiante, seja em apoio ou nos movimentos desde trás, entre central e lateral, aquele corredor foi uma dor de cabeça para o Moreirense. A dinâmica e fluidez com que o lado esquerdo do Benfica atacou, com um trio que jogou pela primeira vez juntos, só pode assustar os próximos adversários do Benfica.


O Moreirense ainda tentou controlar estas dinâmicas e assimetria do Benfica nos corredores, colocando Alonso num acompanhamento a Dahl, caindo muitas vezes para a linha dos médios, e ainda com Landerson a fazer a linha de cinco do lado esquerdo, como já tinha acontecido no Dragão. No entanto, a falta de pressão aos centrais acabou por ser sentida. Lenglet e Tomás Araújo tiveram espaço para pensar duas vezes, o que só pode ser definido como uma sentença de morte para o meio-campo. Ambos os centrais terminaram o encontro com mais de 95% de eficácia de passe e o espanhol até foi criador de três oportunidades, através da sua capacidade de quebrar linhas de pressão.
Oportunidades não faltaram na primeira parte, mas a turma de Marco Silva não foi capaz de finalizar as jogadas, acabando por ser um penálti a desfazer a igualdade no marcador. Esta temporada, Vangelis Pavlidis parece que não sabe fazer outra coisa senão marcar em todos os jogos e concretizou a chance de ouro para chegar ao registo impressionante de 12 golos em 10 jogos, ao qual junta ainda três assistências.


Na segunda metade, a história foi diferente e facilmente descrita pelos dois T’s: timing e técnica. A turma de Vasco Botelho da Costa manteve a estrutura, mas os momentos em que alguém saltava na pressão, o jogador em questão era batido por chegar tarde demais ou por ser simplesmente superado no duelo individual. Esta diferença clara entre as duas equipas foi inegável e as oportunidades que ficaram por finalizar na primeira parte foram concretizadas com classe na segunda, montando mais uma goleada para a turma cada vez melhor comportada de Marco Silva.
Em suma, se o poderio do Benfica já era evidente, os encarnados ganham agora uma nova velocidade na caixa de mudanças com o regresso de Andreas Schjelderup e a consequente ligação com Gianluca Prestianni. Daqui em diante, será interessante ver a forma como os reforços de verão crescem no esquema encarnado, numa altura em a equipa parece que já joga neste sistema desde pequeninos. Fica ainda por esclarecer a capacidade de este modelo encaixar contra equipas ao mesmo nível ou superior, mas uma coisa parece ser certa: todos os outros vão sofrer.


Bola na Rede na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Possivelmente já estando à espera das mudanças do lado esquerdo, o Moreirense ajustou a pressão, baixando Alonso para a linha dos médios. Mas com a entrada de Schjelderup para o corredor e Prestianni para a meia-esquerda, o Benfica mostrou uma grande dinâmica no lado esquerdo, aproveitando também o apoio e os movimentos desde trás de Dahl. Pergunto-lhe se ligação Schjelderup – Prestiannni será um dos focos do ataque do Benfica e o que causou a diferença de eficácia no último terço entre a primeira e a segunda parte?
Marco Silva: Em relação à eficácia, continuámos a criar várias oportunidades de golo. Fizemos uma primeira parte de grande nível perante um Moreirense que se apresentou a defender muito baixo, muitas vezes com uma linha de cinco e uma linha de quatro junto à área. Estávamos preparados para essa organização defensiva e a nossa dinâmica no corredor esquerdo foi muito boa e pelo direito também.. Algumas incertezas nos primeiros 10 a 15 minutos mas a equipa foi crescendo. Não havia muito espaço por dentro, por isso tentamos esticar a linha defensiva o máximo possível. Também com alguns movimentos do Prestianni a vir buscar mais atrás, porque eles tinham um central praticamente a marca-lo por trás. A equipa entendeu bem a estratégia e expressou em campo o nosso futebol, o que me deixa muito satisfeito.Conseguimos muitas vezes atrair por dentro para depois ir por fora e é uma das formas que temos de lá chegar.
Bola na Rede: O Moreirense ajustou a pressão em relação ao último jogo, tornando-se mais assimétrica, com o Alonso a baixar para a linha dos médios na direita e Landerson a fazer linha de cinco do lado esquerdo. Pergunto lhe o que procurou com estes ajustes e também o que sente que mudou na segunda parte, para que o controlo do lado esquerdo não fosse tão eficiente?
Vasco Botelho da Costa: Passámos a chegar demasiado tarde à bola e quando chegávamos já ela não estava lá. Não foi uma questão estratégica, quando a bola ia a um lado saltávamos com o jogador certo, mas depois eles passavam por nós e nós não estávamos a conseguir aguentar. A diferença em relação ao último jogo tem a ver com os posicionamentos e características da equipa do Benfica. Partindo do nosso bloco, a ideia era igualizar, com o Rodri a saltar na construção, no 3-4-3 lá na frente, e ainda estávamos a pedir a um médio para saltar no Palhinha. Mas depois o Benfica usou muito o Palhinha e o Prestianni, que teve muita capacidade para receber e rodar e nós optámos por deixar o Palhinha como jogador livre e deixar um médio baixo para ajudar a controlar entre-linhas. Com isso conseguimos defender melhor por dentro, por estar em superioridade numérica, mas depois o Benfica acaba por ser muito forte. Faltou-nos pernas e frescura.

