Há frases que resumem clubes e “90 minutos no Bernabéu são muito longos”, resume o Real Madrid. Conhece a origem da expressão.
Há, no futebol, poucas coisas mais importantes que as tradições. Seria impensável amanhã acordar e ver o Benfica a jogar de verde, o Athletic contratar um inglês ou o Real Madrid a deixar virar uma eliminatória em casa.
Este último é o mais provável de todos os cenários anteriores até porque, diz a história, que já aconteceu. Ainda assim, o historial do Real Madrid a virar eliminatórias, a marcar golos nos descontos e a conseguir seguir em frente em frases a eliminar torna a relação dos merengues com os 90 minutos do Bernabéu uma história de amor sem prazo de validade.
Cada vez que se chega à fase do mata-mata e o Real Madrid é chamado a assunto, ouve-se que os “90 minutos no Bernabéu são muito longos”, como se houvesse na capital espanhola um relógio que só funcionasse sob ordem do Santiago Bernabéu, onde o tempo parasse só para uns enquanto para o resto do mundo continuasse a funcionar.
Quando Lewis Carrol escreveu uma das mais famosas histórias da animação, deu a um coelho que transportava um relógio um papel de auxílio do protagonista e chamou-o de Coelho Branco. A sua função, sempre com o relógio na mão, era garantir que os tempos eram cumpridos e respeitados e acabou por se tornar num dos mais importantes auxílios de Alice.
O objetivo do Real Madrid é claro: chegar ao País das Maravilhas onde, com 15 títulos, tem um lugar de destaque. Para isso, o Santiago Bernabéu é uma aliança. Também neste palco mítico há a capacidade de controlar o tempo como em mais nenhum outro lado do mundo. Vai-se a ver no centro da Península Ibérica e na capital espanhola reside alguém capaz de o fazer. Quiçá o Coelho Blanco.
Juanito e um aviso ao Inter Milão que se tornou intemporal


Estávamos em 1985 e os jogadores do Real Madrid olhavam para o chão e vislumbravam, de cara trancada e cabisbaixos, o futuro. No Giuseppe Meazza, o Inter Milão havia vencido por 2-0 e os jogadores espanhóis viam uma montanha dura por escalar. Todos menos um.
O pequeno Juan a quem todos carinhosamente chamavam de Juanito tratou-se de começar a virar a eliminatória ainda em solo italiano. Fluente ou não em italiano, ao irreverente extremo bastou aprender uma frase que repetiu à exaustão por cada um dos nerazzurri que dele se aproximava.
«90 minuti en el Bernabéu son molto longo», dizia o extremo merengue cada vez que pela frente lhe apareciam riscas pretas e azuis. Os 90 minutos são muito longos no Bernabéu, ouviu cada um dos italianos numa espécie de conselho servida sob a forma de ameaça e sobreaviso. Afinal, só nessa época, já o Rijeka (1-3 na Croácia, 3-0 no Bernabéu) e o Anderlecht (0-3 na Bélgica, 6-1 na capital espanhola), haviam comprovado a mística do Bernabéu.
Em Espanha, poucos acreditavam numa reviravolta. Emilio Butragueño, nome forte da história do Real Madrid, confessou mesmo que, a meia hora do jogo, poucos eram os jogadores confiantes para o encontro. Ao contrário, os adeptos estavam em efervescência, impulsionados pela crença de Juanito que se foi propagando ao longo da semana.
O resultado? Santillana (12’ e 42’) e Míchel (57’) cumpriram a profecia e o Real Madrid ultrapassou o Inter Milão e chegou à final da Taça UEFA. A primeira mão de pouco importou em três das cinco eliminatórias e os merengues agarram um lugar na final onde, curiosamente, até perderam o jogo no Santiago Bernabéu da 2.ª mão. Aí, o trabalho foi feito na Hungria diante do Fehérvár.
A profecia tinha sido feita e a frase do profeta Juanito ganhou uma dimensão histórica. Hoje, quem quer que vá ao Santiago Bernabéu sabe que o jogo tem uma duração própria. E desde então que o Real Madrid tem feito para provar que os 90 minutos no Bernabéu são mesmo muito longos.
Juanito um anito depois


Tudo não passaria de uma curiosa coincidência não fosse o Real Madrid ter feito um percurso praticamente igual no ano seguinte. Em 1985/86, na última época de Juanito no clube merengue, os blancos também venceram a Taça UEFA e os minutos no Bernabéu tornaram-se ainda mais demorados.
Na primeira ronda, o Real Madrid perdeu por 1-0 com o AEK na Grécia. Respondeu com um 5-0 no Bernabéu. Na segunda (e na quarta) tal não foi necessário, mas os oitavos de final e, principalmente, as meias-finais reforçaram a frase de Juanito.
O Borussia Monchengladbach fez o impensável e venceu o Real Madrid por 5-1 na primeira mão dos oitavos de final. Por muito que o tempo demorasse a passar, a diferença era demasiado grande para os merengues… ou assim parecesse. Numa época em que o golo fora valia, o golo fora valeu e o Real Madrid venceu os alemães por 4-0 em casa, carimbando o passaporte para a próxima fase. O golo decisivo da goleada foi marcado por Santillana, um dos heróis das meias-finais contra o Inter Milão já aos 89 minutos.
No roteiro de cinema escrito por Juanito e protagonizado pelo Real Madrid, o Inter Milão voltou a cruzar-se com os merengues nas meias-finais. Desta vez, já não havia espaços a relaxamentos na segunda mão e os italianos estariam precavidos. Assim pensou meio mundo quando, na cidade da moda, os nerazzurri venceram o Real Madrid por 3-1. Mas nos deuses do futebol, alguém decidiu que a história se repetiria e com contornos ainda mais macabros.
Na segunda mão, o Real Madrid conseguiu empatar a eliminatória com um 3-1 ao fim do tempo regulamentar. Se 90 minutos são muito longos, o que seriam 120? Demasiado curtos para qualquer adversário. Dois golos no prolongamento de Santillana, o herói das reviravoltas, a levar os merengues para nova final europeia e para mais um título.
Juanito entrou aos 110 minutos, quando os merengues já haviam marcado o 5-1 final e aí ficou, pelo relvado, a admirar o magnetismo de um palco especial onde o tempo é ditado pelo Real Madrid. E assim continou.
90 minutos são muito longos e têm descontos


São inúmeras as reviravoltas europeias do Real Madrid na história. O Sporting de Jorge Jesus que o diga, quando em 2016 o minuto otxenta e otxo (na realidade o 89) se eternizou e tudo o que os leões haviam feito de muito bom até ao momento se apagou com os golos tardios de Álvaro Morata e Cristiano Ronaldo.
As tradições mantiveram-se e, só desde 2020 em diante, na nova década, vários jogos o comprovam. Com Carlo Ancelotti, um italiano simpático capaz de pronunciar perfeitamente a frase de Juanito, o Real Madrid exponenciou a frase. Os 90 minutos só não eram muito longos, como vinham com uns pozinhos extra. Também os descontos são muito longos no Bernabéu.
Eis as eliminatórias europeias viradas pelo Real Madrid e/ou decididas fora de horas no Santiago Bernabéu desde 2020:
Oitavos de final Champions League 2021/22
- 1.ª mão: PSG 1-0 Real Madrid (Kylian Mbappé 90+4’)
- 2.ª mão: Real Madrid 3-1 PSG (Karim Benzema 61’, 76’ e 78’; Kylian Mbappé 39’)
Quartos de final Champions League 2021/22
- 1.ª mão: Chelsea 1-3 Real Madrid (Kai Havertz 41’; Karim Benzema 22’, 25’ e 46’)
- 2.ª mão: Real Madrid 2-3 Chelsea após prolongamento (Rodrygo 80’ e Karim Benzema 96’; Mason Mount 15’, Antonio Rudiger 41, Timo Werner 75’)
Meias-finais Champions League 2021/22
- 1.ª mão: Manchester City 4-3 Real Madrid (Kevin De Bruyne 2’, Gabriel Jesus 11’, Phil Foden 53’, Bernardo Silva 74’; Karim Benzema 33’ e 82’ e Vinícius Júnior 55’)
- 2.ª mão: Real Madrid 3-1 após prolongamento (Rodrygo 90’ e 90+1’e Karim Benzema 95’; Riyad Mahrez 73’)
Meias-finais Champions League 2023/24
- 1.ª mão: Bayern Munique 2-2 Real Madrid (Leroy Sané 53’ e Harry Kane 57’; Vinícius Júnior 24’ e 83’)
- 2.ª mão: Real Madrid 2-1 Bayern Munique (Joselu 88’ e 90+1’; Alphonso Davies 68’)
Em 2025/26, o Benfica é o primeiro adversário do Real Madrid em fases a eliminar e o objetivo das águias é sádico: inverter à tendência e ir ao Bernabéu virar uma eliminatória. José Mourinho, que já foi um beneficiado desta frase nos tempos em que orientava os merengues, quer voltar a tornar os 90 minutos muito longos no Bernabéu contra o Real Madrid. Conseguirão as águias virar o feitiço contra o feiticeiro?



