João Pinto falou em exclusivo com o Bola na Rede sobre a sua experiência a jogar na Alemanha e o momento atual do andebol português.
Bola na Rede: Ao longo da carreira passou por diferentes clubes e realidades, tanto em Portugal como na Alemanha. Que experiências pessoais e profissionais mais o marcaram nesses contextos e de que forma essas vivências influenciaram a sua visão atual do andebol?
João Pinto: O meu trajeto no andebol foi, felizmente, sempre uma crescente. Comecei no desporto escolar, que antigamente era muito usual haver esse tipo de equipas. Depois comecei num clube de bairro, que era onde eu morava, o Torrense. Foi sempre um crescendo ao nível de exigência, depois de grandeza também. Eu atingi um clube profissional com 16 anos, quando ingressei na equipa sénior do Vitória FC, e quando me transferi para o Belenenses, aí já era perfeitamente profissional. E tudo isso foram passos marcantes na minha vida, porque os meus pais sempre me incutiram o sentido de preparação da minha vida futura. Infelizmente, como nós sabemos, as nossas modalidades ditas amadoras, por muito profissional que um atleta possa agir e ser, dificilmente consegue projetar um futuro nessa carreira. Eu, muito cedo, entrei numa equipa profissional ainda a estudar, mas só quando me transferi para Setúbal é que comecei a ter a noção do que é o profissionalismo e da exigência que isso era. E essa, provavelmente, foi a primeira grande mudança no contexto do andebol na minha vida. Embora sempre tivesse encarado a minha formação com muita seriedade, profissionalismo é profissionalismo. Nós treinávamos de manhã, treinávamos à tarde e tínhamos tempos de descanso. Essa mudança fez com que eu percebesse que era, efetivamente, aquilo que eu queria. Sempre tive uma ambição muito grande. Há um episódio muito interessante: quando eu fui à seleção pela primeira vez, numa deteção de talentos, foi-nos feito um questionário onde perguntavam qual era a nossa maior ambição. Eu lembro-me que a maior parte dos meus colegas – nós éramos à volta de 60 atletas num estágio – diziam jogar no Benfica, jogar no Sporting, jogar no FC Porto, jogar no ABC – porque o ABC na altura estava muito bem – ou chegar à seleção A. E eu fui o único que respondeu jogar no estrangeiro, na Alemanha, porque ninguém o tinha feito. E, na altura, não era como hoje, em que todos os jogos estão à distância de ligar um telemóvel, um smartphone, e conseguir ver um jogo. Nem sequer havia os canais que existem atualmente na televisão. Tudo aquilo era uma realidade quase inatingível. E, verdade seja dita, esse sonho permaneceu como sonho durante muito tempo e consegui atingi-lo. Ou seja, o grande marco se calhar foi a passagem para o profissionalismo. Todas as etapas tiveram a sua importância, mas a passagem para o profissionalismo, depois atingir ou ser contratado por um clube que lutava declaradamente por títulos, que foi quando ingressei no Sporting, onde estive sete anos, e depois culminar com o sonho de um miúdo, que foi ir para a Alemanha. Aperceber-me, aos 33 anos, que havia tanto um outro mundo para ser explorado e que, felizmente, neste momento, com a realidade do nosso andebol, já é uma realidade possível para os nossos atletas. Eu fui o primeiro a ingressar numa liga profissional, o que foi bastante desafiador. Mas ir para a Alemanha é percebermos, como eu costumo dizer, que ali chegamos à primeira divisão. Eu não fui para a primeira divisão, porque fui à experiência. Joguei no TuSEM Essen, que estava na segunda divisão, já tinha ganho uma competição europeia, é um histórico do andebol alemão, e foi um desafio muito engraçado, embora tenha vindo, a meu entender, tarde. E felizmente, neste momento, os jogadores portugueses já começam a ser recrutados para lá, onde eu também já tento deixar o meu cunho, no sentido de irem mais cedo e perceberem que a nossa qualidade está toda lá. A nossa qualidade não está cá agora, a nossa qualidade sempre existiu. A diferença é que ninguém nos olhava e nós próprios também não acreditávamos tanto nas nossas reais capacidades. E o que é certo é que neste momento somos pretendidos em todo o mundo.
Bola na Rede: Sendo o primeiro jogador português a atuar no campeonato alemão, como descreve essa experiência e que diferenças mais significativas encontrou em termos de ritmo competitivo, profissionalismo e exigência? Tinha consciência de que estava a abrir um caminho que hoje se tornou uma realidade mais comum para o jogador português?
João Pinto: Mais do que qual era a diferença, é qual era a pouca semelhança. E a pouca semelhança é que se joga com uma bola, porque tudo o resto é diferente. Mentalidade, civismo, espetáculo à volta da modalidade. Nós estamos a falar de chegar a um jogo às quatro da tarde e, ao meio-dia, a festa já estar montada para receber os adeptos. E os adeptos estão lá. Ninguém, nem no futebol, chega quatro horas antes para estar no evento. A Alemanha tem uma mentalidade, uma cultura desportiva, que é aquilo que eu defendo muito: a pouca cultura desportiva que nós temos no nosso país. É verdade que, a espaços, vamos tentando mostrar as modalidades e nós somos bons praticamente em tudo, no hóquei em patins, no futsal, na ginástica, mas efetivamente a nossa cultura anda sempre à volta do futebol, que é o motor de todo o desporto em Portugal. Na Alemanha também o é. O futebol é um fenómeno mundial e que abarca grande parte dos recursos económicos dos clubes e do próprio Estado. A máquina gera de tal maneira lucros que as pessoas acabam por ter de se render às evidências: o futebol é o futebol. Mas a grande diferença é que os alemães também têm espaço para o basquetebol, para o hóquei no gelo, para o andebol. O andebol é a segunda modalidade no país. A cultura desportiva que existe faz com que as pessoas percebam daquilo que estão a ver. Entra-lhes pela casa dentro, pela televisão, semanalmente, jogos do campeonato alemão, da primeira e da segunda divisão, são televisionados. Existe uma federação que tem competências para tutelar todas as atividades e que é profissional, e pensa de uma forma construtiva. Ninguém cresce tudo de uma vez, mas estão sempre num crescendo. Eles estão anos-luz à frente das outras federações. Agora a Federação Francesa também já tem uma liga tão forte como eles têm, porque olhou e viu o caminho. E o caminho é esse. É uma coisa que eu digo muitas vezes, e parece quase uma cassete riscada: a profissionalização das estruturas. É fundamental que nós consigamos profissionalizar as estruturas, criar pensamento crítico e construtivo desde a federação às associações e aos próprios clubes. Porque muitas vezes dizemos: «Ah, mas uma estrutura profissional quer dizer que o clube vai ter um acréscimo monstruoso no orçamento». Nada disso. E isto estamos a falar em negócio nenhum. Eu tenho alguns negócios meus e nada nasce ao acaso. Nós temos de investir: investir tempo, investir recurso financeiro, dedicação, esforço, atenção, aprendizagem, erro, retificação, repetir, continuar. E isso é uma coisa que nós em Portugal ainda fazemos muito pouco. Estamos muito à espera do ganho imediato, e o ganho imediato é complicado, porque muitas vezes o ganho não está ao final de um ano, nem ao final de dois. Está ao final de um percurso. E estamos a falar disto na vertente estrutural das organizações, mas também podemos fazer uma comparação interessante. Durante muitos anos andámos a acreditar que o sucesso das nossas seleções passaria sempre por um treinador estrangeiro, porque eles tinham recursos que nós não tínhamos. Efetivamente, um grande marco foi termos tido o Aleksander Donner, que foi um motor para o andebol português explodir. Mas depois passámos por uma fase muito complicada, de descrença nos portugueses, sempre a apostar em soluções externas. E agora acabámos por provar, desde o Rolando Freitas até ao Paulo Pereira, que temos qualidade. O Rolando foi vice-campeão europeu de juniores, perdendo para a Dinamarca, com aquela geração do Rui Silva, João Ferraz, Portela, António Areia. E depois passaram para a Seleção A. Neste momento temos o Paulo Pereira a continuar a dar cartas na nossa seleção, o Ricardo Costa a fazer um excelente trabalho no Sporting, o FC Porto também já se mostrou na Liga dos Campeões. Ou seja, há qualidade nos portugueses. E eu acho que a grande diferença para a Alemanha, resumindo, é cultura desportiva e estruturas profissionais. Mesmo clubes de segunda ou terceira divisão têm estrutura profissional. O clube onde eu estava tinha quatro profissionais. Não era um Benfica, um Sporting ou um FC Porto. Eram quatro, mas eram quatro profissionais e havia exigência, porque a única maneira de crescer é através da exigência. E depois há outra diferença muito grande. Em Portugal ainda vivemos muito do voluntariado. E eu adoro isso no meu clube de formação, o Torrense. O pai ajuda, a mãe lava os equipamentos, alguém vai buscar patrocínios depois do trabalho. Mas esse é o problema. Porque depois ninguém tem tempo. Entramos num ciclo vicioso. Os alemães têm estruturas profissionais porque perceberam que sem isso não conseguem crescer.


Bola na Rede: O andebol português vive atualmente um dos melhores momentos competitivos da sua história recente. Até que ponto esse crescimento dentro de campo se traduziu numa valorização real do jogador português no mercado europeu?
João Pinto: O andebol português está sem dúvida nenhuma num patamar onde nunca esteve. Eu cresci com a geração de ouro, com o Carlos Resende, Filipe Cruz, os Morgado, Eduardo Filipe, Ricardo Costa, Ricardo Andorinho. Eu sou mais novo, cheguei um bocadinho depois, mas ainda os apanhei todos na seleção, e foi muito bom, essa geração fez o seu marco. O Carlos Resende foi o melhor lateral esquerdo de um Campeonato da Europa. Mas esta seleção está num patamar diferente. E este patamar, na minha opinião, deve-se muito a uma coisa: mentalidade. Antigamente a mentalidade do jogador português era: «Vamos jogar contra a França, contra a Alemanha, contra a Croácia… se perdermos por dez não é mau». E isso já não existe. Essa mentalidade desapareceu quando temos um Salvador Salvador a ser o melhor defensor da prova, quando temos o Martim e o Kiko na lista dos melhores marcadores da Champions, quando temos um Luís Frade no Barcelona, um dos capitães da equipa, provavelmente o jogador português com maior palmarés. Neste momento, qualquer um dos nossos jogadores pode discutir a titularidade em qualquer seleção do mundo. E esse clique começou, na minha opinião, naquela geração vice-campeã europeia com o Rolando Freitas. Houve ali um clique, fez-se a renovação da seleção e passou a existir uma mentalidade diferente. O treinador soube juntar, valorizar e fazer acreditar. Neste momento, obviamente que continua a ser difícil jogar contra França, Alemanha ou Dinamarca, porque o favoritismo mede-se pelo histórico. E nós ainda temos muito caminho para fazer. Mas mentalmente já não nos sentimos inferiores a ninguém. É engraçado porque agora eles olham para nós com respeito, já existe receio do jogador português. E essa valorização vem exatamente dessa mentalidade e dos resultados que esta geração tem vindo a construir.
Bola na Rede: A crescente exportação de jogadores para ligas como França e Alemanha deve ser vista como um sinal de evolução natural da modalidade ou também como reflexo de limitações estruturais do campeonato nacional?
João Pinto: Acredito que as duas situações. Acho que é o reflexo da qualidade dos jogadores portugueses e daquilo que nós temos apresentado, principalmente na seleção. Mal ou bem, nos clubes os resultados também passam pelos jogadores estrangeiros. Mas na seleção continuamos a dar cartas e, se estamos a dar cartas, eles começam a olhar para nós. A Alemanha já nos procura. Equipas da primeira e da segunda divisão procuram jogadores mais jovens para apostar no potencial. Antigamente, um jogador português para chegar a um campeonato estrangeiro tinha de ter todas as provas dadas em Portugal. Hoje já não. Ainda existem muitos jogadores que acabam por ir para o estrangeiro sem sequer terem tido tempo de se afirmar totalmente no campeonato português, e chegam lá fora e dão cartas. Mas também concordo com a outra parte da pergunta. Mais uma vez, com a falta de profissionalização das estruturas, a capacidade financeira dos clubes é cada vez mais pequena. Sentem-se estrangulados com despesas, inscrições, seguros, deslocações. Como quase nada é profissional, à exceção dos três grandes, muitas equipas vivem da boa vontade e do voluntariado de algumas pessoas para suportar estruturas que já exigem funcionamento profissional. Praticam-se no nosso campeonato salários dos quais ninguém consegue viver, e isso faz com que outros mercados, com um bocadinho mais de capacidade financeira, consigam facilmente vir buscar os nossos jogadores. O problema é que isso pode baixar a qualidade do nosso campeonato. Esses jogadores que saem por 1.000 ou 1.500 euros para fora, quando aqui recebiam 400 ou 500, eram jogadores que podiam enriquecer muito o campeonato português. E não os conseguimos segurar.


Bola na Rede: Como surgiu a transição de jogador para a área da gestão desportiva e o que o motivou a integrar a Shire Sports Management?
João Pinto: Eu, quando regressei da Alemanha, já trazia isso na minha cabeça. Aliás, como eu costumo dizer, vim da Alemanha com os horizontes completamente ampliados e abertos. E comecei a perceber aquilo que falta, aquilo que se deve idealizar e colocar em prática. A parte do agenciamento é uma coisa que me agrada muito. Eu nunca quis ser treinador, tenho curso, mas não tenho Master Coach, tenho grau 3, tirei-o muito mais numa perspetiva de conhecimento e de reciclagem. Sempre tive esta paixão pela estrutura, pelo dirigismo, pela criação de condições e pelo desenvolvimento da modalidade, quer fosse num clube, quer fosse nalgum organismo. Tanto que agora faço parte também da Comissão Organizadora do Campeonato da Europa de Masters, que vai ser realizado este ano, em Setúbal, de 17 a 21 de junho, com a chancela da EHF. Ou seja, isto é o que me move. Aquilo que eu acho que efetivamente tem de ser o caminho, que é a parte da estrutura. Mas não foi uma transição fácil, porque voltei da Alemanha para jogar ainda no Belenenses. Joguei mais dois anos no Belenenses e depois ainda fui jogar para o Vitória FC, para tentar pagar uma dívida de gratidão, porque foi um clube que acreditou em mim e pelo qual tenho um carinho especial. Conseguimos subir à primeira divisão e foi aí que terminei mesmo a carreira. Mas, quando voltei, naturalmente aquilo que ganhava na Alemanha não se comparava minimamente com aquilo que poderia ganhar em Portugal. E eu já vinha com o mindset de começar a entrar no mercado de trabalho. Procurei, bati a várias portas. Durante toda a minha carreira disseram-me: «Quando acabares a carreira isto vai ser fácil, vêm buscar-te». E isso era zero. Ou seja, aos 35 anos eu procurava trabalho e, quando me perguntavam qual era a minha experiência profissional, eu dizia: «Joguei andebol». Era difícil. Independentemente de ter curso, de ter estudado marketing, economia, fosse o que fosse. O problema era pura e simplesmente a experiência de trabalho. Foi difícil, muito difícil. Foi aí que decidi lançar-me nos meus próprios negócios e abri a Alpha Sport, que foi o meu primeiro negócio. É uma loja especificamente de andebol, embora neste momento já tenha outras valências também, porque é muito redutor focarmo-nos só numa modalidade. Depois acabei também por abrir um negócio no ramo da restauração e foi assim que entrei verdadeiramente no mercado de trabalho. Mas nunca esqueci a grande paixão, que é o andebol. Comecei a trabalhar, fui desafiado para pegar num projeto de uma marca de material desportivo e de apoio ao treinador e comecei a desenvolver essa mesma marca. Deram-me liberdade para o fazer e o dono sempre ouviu aquilo que eu tinha para dizer. Um dos meus grandes objetivos era trabalhar a parte do agenciamento. Porque eu acredito que é importante proteger o produto português. Nós temos de proteger o nosso produto e o nosso produto é a qualidade dos jogadores portugueses que temos. Entretanto, quando foi criada a Shire, foi-me lançado o desafio de pegar no departamento de andebol e desenvolvê-lo da forma que eu acho que deve ser desenvolvida. A Shire trabalha o jogador no seu todo. Eu sei que o agenciamento, infelizmente, está muitas vezes associado a coisas menos boas, principalmente porque há carreiras geridas por pessoas que olham apenas para o fim financeiro. Obviamente que a parte financeira é fundamental para qualquer negócio subsistir, mas atingir os fins a qualquer custo é complicado. E na Shire, felizmente, deram-me liberdade para fazermos um caminho diferente. Nós preocupamo-nos com o jogador, com o percurso académico dele, se for o caso, com a planificação da vida pós-carreira com a gestão da imagem desse mesmo jogador. Porque, em termos de valorização da imagem, se nós estamos num patamar como aquele em que estamos atualmente, temos de mostrar às marcas portuguesas que nós somos uma marca, que o andebol é uma marca. Nós não precisamos do influencer A, B ou C para dar cara a essas marcas, porque muitas vezes essas pessoas nem sequer sabem do que estão a falar. São contratadas por agências de imagem. A Shire percebeu esse conceito e estamos a tentar fazer esse caminho. É muito difícil, mesmo muito difícil. Lanço sempre o mesmo desafio: pensem em quais são os atletas que fazem anúncios publicitários a grandes marcas. Toda a gente pensa no mesmo: Cristiano Ronaldo. Mas o Ronaldo é uma marca mundial e tem toda uma estrutura por trás dele. Depois, pontualmente, aparece um João Neves numa campanha, ou outro atleta qualquer. Mas voltamos sempre ao futebol. É importante que nós consigamos, de certa forma, aportar cultura desportiva. Nós, agentes desportivos, também temos essa função. Porque é que não podemos mostrar às pessoas que o Salvador Salvador, por exemplo, é uma imagem forte do desporto nacional? E não estou a falar apenas do andebol. Tal como já foi o Nelson Évora, a Rosa Mota e tantos outros atletas que precisam dessa visibilidade e não podem estar dependentes apenas da boa vontade de uma marca ou de alguém que seja sensível à modalidade. Isso é mau. Por isso é que a função da agência passa também muito por aí: dar um refresh, profissionalizar, criar capacidade para desenvolver um ambiente económico e social que valorize essa imagem e mostre ao mundo que somos organizados e capazes de criar os nossos próprios meios de subsistência. Isso só acontece se conseguirmos puxar pessoas de fora para dentro. Nós, comunidade do andebol, vivemos muito dentro de uma bolha que só rebenta quando conseguimos chegarmos a toda a gente. Foi isso que o futebol fez. O futebol conseguiu chegar ao mundo inteiro e continua a crescer porque percebeu a importância da imagem, da diferenciação, da aposta no futebol feminino e na comunicação. Os bons exemplos são para seguir e acho que o caminho passa muito por aí.
Bola na Rede: Acredita que a construção de uma carreira no andebol depende mais do desempenho dentro de campo ou de uma gestão estratégica fora dele? O papel dos agentes e estruturas de gestão tornou-se decisivo na forma como os jogadores portugueses chegam ao mercado europeu?
João Pinto: Eu acho que são coisas complementares. Se nós não tivermos qualidade nos jogadores e naquilo que eles conseguem fazer e mostrar, podemos ter os melhores agentes do mundo que dificilmente vamos conseguir exportar qualquer tipo de jogador para os campeonatos mais fortes. O trabalho do agente – e isto não acontece só em Portugal -, para grande estranheza minha, ainda vive muito sem regulamentação. Existem praticamente apenas dois campeonatos onde há alguma legislação e normalização do agenciamento: o campeonato alemão e o campeonato francês. É verdade que para chegar a campeonatos como o dinamarquês, o italiano ou o romeno, geralmente os jogadores também são levados por agentes, mas não existe legislação específica. Aliás, na própria Federação Europeia não existe ainda uma regulamentação que tutele o agenciamento. Existe neste momento uma sociedade de agentes que está a ser criada por profissionais que já estão no mercado há muitos anos, da qual a Shire já fez todo o processo para se tornar membro, vamos ser a primeira agência portuguesa a fazer parte dessa estrutura. Ainda não existe um reconhecimento total por parte da EHF, mas já existe um reconhecimento tácito. Ou seja, mais uma vez, estamos a falar de um percurso de evolução natural. Os treinadores passaram por isso, os diretores desportivos passaram por isso, os próprios jogadores também passaram por esse processo de regulamentação e profissionalização. E eu acho que, pela evolução natural do andebol mundial, essa regulamentação vai também chegar aos agentes desportivos. A figura do agente é fundamental porque, na gestão de uma carreira, tem de existir alguém que consiga ser equidistante e perceber onde é que o jogador poderá ter maior sucesso pelas suas características, qual a realidade do país e do clube para onde vai, e defender os interesses do atleta, que isso é fundamental. Muitas vezes ouvimos relatos de histórias muito complicadas, de «pseudoagentes» que servem apenas de intermediários para fechar o negócio e depois desaparecem, deixando os jogadores completamente entregues à sorte, e isso é muito mau. Por isso é que eu acho que a normalização e a regulamentação do agenciamento são fundamentais. É mais um elemento que pode ajudar a máquina a funcionar melhor e contribuir para um crescimento mais qualitativo do andebol mundial. Relativamente à importância do agente na carreira do jogador, eu acho que isso vale para o andebol e para qualquer modalidade. Na Shire temos uma filosofia muito própria. Isso não quer dizer que estejamos sempre certos, porque estamos em constante evolução, como toda a gente. Mas a ideia passa por ir limando arestas e criando um caminho mais limpo e mais assertivo, para que o jogador se preocupe única e exclusivamente em ter a melhor performance possível dentro de campo, porque o resto alguém está a pensar e a tratar por ele.
Bola na Rede: Como é possível equilibrar a formação, a competitividade interna e a saída de jogadores para o estrangeiro?
João Pinto: Existem vários fatores que podem afetar isso. Eu diria que na parte da formação existe neste momento alguma carência na formação de melhores treinadores. Acho que temos bons treinadores de formação e o resultado disso são os jogadores que têm sido criados, mas acho que os clubes de formação são, de certa maneira, negligenciados neste processo. Eu separo muito bem aquilo que são clubes de competição e clubes de formação. Obviamente que todos competem, porque a competição é a alma do desporto, mas é importante conseguirmos segmentar e criar patamares diferentes. Nós não podemos olhar apenas para a copa da árvore. Temos de olhar também para a raiz. E a raiz é aquilo que alimenta toda a estrutura. Esses clubes de formação são a raiz do andebol, e eu acho que precisam de ser protegidos, valorizados e apoiados de forma diferente, quer seja ao nível das câmaras municipais, do Ministério do Desporto, das próprias federações ou das associações. As próprias associações também precisam de outro nível de exigência para conseguirem crescer. Não podemos continuar a viver muito à custa de casos isolados, em que uma associação funciona bem porque existe uma pessoa extremamente dedicada, cheia de ideias e vontade de implementar coisas novas, enquanto outras estão praticamente devolutas porque as pessoas estão cansadas e as estruturas são fracas. Quem tutela tudo isto tem de ter uma visão abrangente e perceber como é que se consegue desenvolver cada realidade. Tem de aproximar-se dessas estruturas e ajudá-las a crescer, porque elas são a base da modalidade
Bola na Rede: O que falta ao andebol nacional para transformar o atual crescimento desportivo em crescimento económico e estrutural?
João Pinto: Falta criar espetáculo. Da experiência que tenho e daquilo que vou vivendo – no ano passado estive em algumas provas da seleção e também na Final Four da Liga dos Campeões, em Colónia -, aquilo que eu percebo é que tudo acaba sempre por bater no mesmo ponto: para ser apetecível investir, o espetáculo tem de ter grandeza. É necessário fomentar essa grandeza, criar vontade de presença para as marcas, para as autarquias e para os próprios clubes, fazer com que sintam que vale a pena investir. O espetáculo é aquilo que chama o público, e o público é a massa crítica que, economicamente, torna apetecível estar ou não estar na modalidade.
Bola na Rede: A seleção nacional vive um grande momento, o Sporting, o Benfica e o FC Porto têm sido competitivos nas provas europeias. Considera que este é o melhor momento da história do andebol português?
João Pinto: É o melhor momento da história do andebol português. Até porque eu sou muito pouco saudosista. Só sou saudosista quando me lembro de quando comecei a jogar andebol e pensava que podia jogar a vida inteira, porque é a minha grande paixão. Mas este é claramente o melhor momento. Isso não quer dizer que não possamos fazer mais. Eu digo sempre que os limites existem para ser ultrapassados e aquilo que já foi conquistado pode sempre ser melhorado. Neste momento temos um grupo brilhante a representar a nossa seleção, mas eu acredito que ainda conseguimos mais. Se os franceses conseguem ser campeões, bicampeões, tricampeões e campeões olímpicos, porque é que nós não havemos de sonhar? Nós ainda não fomos campeões de nada. Portanto, este é o melhor momento até à data, mas acredito sinceramente que vamos fazer mais. Estamos à beira do pódio. O Benfica ganhou uma competição europeia, o Sporting também já conquistou títulos europeus no handebol, ou seja, eu acho que nós já estamos na elite do andebol mundial, mas ainda estamos na porta de entrada para sermos verdadeiramente uma grande seleção e um país de referência na modalidade. Agora, para isso acontecer é necessário a profissionalização de estruturas, mais apoio, pensar no espetáculo, fazer crescer a modalidade e rodearmo-nos de pessoas com visão e vontade de lutar por esse caminho. Ainda temos muito para conquistar.


Bola na Rede: Como imagina o mercado do andebol europeu nos próximos anos e que posição pode Portugal ocupar nesse cenário?
João Pinto: Eu acho que o andebol está em franca expansão. Já nem estamos apenas a falar do andebol europeu, neste momento, é um fenómeno cada vez mais mundial. Antigamente, por exemplo, o mercado brasileiro tinha pontualmente dois ou três jogadores interessantes. Hoje não. Hoje a seleção brasileira já bate o pé nos Mundiais. A Argentina já tem jogadores nos melhores campeonatos europeus. Os países árabes também começam a olhar para o andebol como um espetáculo interessante, tal como fizeram com o futebol. Ou seja, existe cada vez mais investimento, mais estrutura e mais crescimento. O andebol vai continuar a expandir-se, isso é natural. E cabe-nos a nós, em Portugal, termos também capacidade de visão e conseguirmos munir-nos outra vez de estruturas, pessoas, vontade e competência para acompanhar esse crescimento. Acredito sinceramente que Portugal pode continuar a afirmar-se como uma voz ativa e uma referência cada vez maior dentro da modalidade.

