Houve, no século XXI, poucas noites como a de 17 de março para o Sporting. A vitória histórica contra o Bodo/Glimt é, por si só, um dos marcos da temporada dos leões, independentemente do desfecho das competições, de troféus e de restantes resultados. No entanto, a euforia natural, evidente e saudável que resultou de uma das maiores noites europeias da história verde e branca trazia desafios para uma deslocação a Alverca com mais a tirar do que a juntar.
Os quilómetros percorridos nos 120 minutos a meio da semana, um eventual relaxamento competitivo ou o foco mais a frente, quer nas seleções nacionais, quer na folga que num calendário como o atual surge como um oásis no meio de um deserto, eram pedras no caminho do Sporting. Tudo pedrinhas muito pequeninas que não se fizeram notar em Alverca, onde a tempestade e o vendaval que se mostraram contra os da Noruega deram lugar a uma aparente tranquilidade. O tempo soalheiro, o calor relativo depois de semanas longas de chuva e a naturalidade dos golos em momentos decisivos permitiram ao Sporting respirar. Por vezes, mais do que as batalhas mais aguardadas, são as réplicas aparentemente inocentes que causam mossa, mas os leões escaparam-se.


Há, no roteiro do 3-0 (que fechou o jogo antes dos golos finais), uma garantia de segurança. O primeiro golo surge cedo, não tão cedo para motivar um adormecimento, mas cedo o suficiente antes que os minutos se sentissem passar e as oportunidades (ou falta destas) se acumulassem. O segundo golo, nos primeiros minutos da segunda parte, tornou qualquer mudança do Alverca ao intervalo algo inócua e desatualizada. O 3-0, antes dos 20 minutos finais, onde qualquer lance poderia trazer um golo que instabilizasse a equipa, resolveu as contas.
Mesmo na exibição do Sporting, não há muito mais do que destaques antigos, do que boas exibições e do que rotinas já trabalhadas. As duas partes foram diferentes e a segurança do resultado elevou a performance dos leões na segunda metade, principalmente pela forma como penalizou os ribatejanos, mas já na primeira havia traços de uma superioridade que apenas foi suavizada pelo balanço que o Alverca conseguiu trazer ao jogo depois da lesão de Nuno Santos.
À direita com mobilidade constante, com Geny Catamo, Francisco Trincão e Iván Fresneda a rodar posições, à esquerda com o azarado Nuno Santos (quando a lesão, felizmente, é apenas muscular, há algum sentimento profundo que 15 meses de ausência não fizeram desaparecer) mais fixo na largura, mas com constantes movimentos de Hidemasa Morita e Pedro Gonçalves a aparecer nos espaços em branco, o Sporting foi capaz de criar perigo. O Alverca não se limitou a defender em bloco baixo, mas acabou por inevitavelmente baixar linhas para conseguir suster o jogo interior dos leões, a mais forte marca de água de uma temporada que já vai longa e onde pouco é criado de raiz.


O nível do japonês e do português é a melhor notícia do jogo do Sporting. Estiveram numa fase menos exuberante, mas vão recuperando confiança. O internacional nipónico vai na melhor sequência de jogos da temporada, com influência em todos os momentos e capacidade de ser influente pelos deslocamentos. O português fez um jogo de alta precisão técnica e definição, como o seu perfil exige. Estiveram em vários lances de perigo criados pelos leões.
Na segunda parte, Rui Borges destacou a subida exibicional dos leões, principalmente pela forma como, com bola, conseguiram evitar desequilíbrios e transições que poderiam mudar o jogo. Com a subida do Alverca em campo, Luis Suárez foi solicitado nas costas, as posses no corredor foram mais dinâmicas e objetivas e o jogo resolveu-se à lei da bomba. Se o colombiano está cada vez mais associado à ideia, não só do golo, mas do golo com recorte técnico e sentido estético, Geny Catamo, naquela que é a época mais concretizadora da sua carreira. O Sporting foi capaz de jogar bem longe da sua baliza e o resultado surgiu e foi crescendo.


As contas, essas fazem-se no fim. A pausa surge, para os leões, depois de duas goleadas e num momento em que tudo aparenta mais tranquilo. No jogo das sensações, quase sempre efémero, já poucos se lembrarão das cabeças que se queriam a rolar depois de Bodo. E, nesta nota, que se valorizem os lances que Francisco Trincão vai protagonizando em transições defensivas absolutamente impactantes. Tivesse o português músculo no lugar do bigode e seria uma representação fiel da intensidade que, felizmente, se manifesta de diversas formas.
BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: No início da segunda parte o Luis Suárez é isolado por três vezes na cara do guarda-redes a partir de bolas na profundidade. O que pretendeu com esta mudança ao intervalo e com as diferenças da primeira para a segunda parte no ataque do Sporting?
Rui Borges: As mudanças nem foram muito por aí. É natural que ele tenha feito mais ataques à profundidade. O Alverca subiu um bocadinho o bloco, não muito, e deu-nos mais espaço para essas diagonais e esses passes de profundidade. Mais do que isso, foi a bola ser mais dinâmica a andar, não adormecemos o jogo tanto com bola, atraímos e procurámos o homem livre. Andámos muito em corredores, que era o que tínhamos de fazer. Com equipas de contra-ataque e ataque rápido, o corredor central é o mais perigoso. Nunca corremos para trás 40 metros em alta intensidade, olhámos sempre para a frente, recuperámos sempre à frente e isso é que era mais importante. Tínhamos de instalar e perceber o que o Alverca ia procurar com o 1-0, acabou a primeira parte a acreditar que podia ferir o Sporting. Controlámos o jogo muito mais dinâmicos, com a bola muito mais rápida, não parou nada. Depois a qualidade individual e coletiva veio ao de cima e a segunda parte foi muito boa com e sem bola.
Bola na Rede: Através de um bloco subido e de uma marcação tendencialmente individual e apertada aos principais criativos do Sporting, o Alverca procurou condicionar o jogo mais associativo e entrelinhas dos leões. Mas, na segunda parte, especialmente o Luis Suárez explorou com sucesso o ataque ao espaço. De que forma o mister acha que teria sido possível controlar melhor a profundidade e, em simultâneo, continuar a condicionar esse jogo mais associativo?
Custódio Castro: É um facto. Repare, nós tentámos fazer isso mais quando a bola ou era atrasada ou quando partia da bola parada, do pontapé de baliza. Nós tentávamos, com essas pressões frontais, fechar o lado, sabendo que podíamos deixar ou não o lateral contrário livre e tentar criar uma superioridade. Nós sabemos que o Suárez é forte naquilo que é o ataque à profundidade. Depois é um jogador que trabalha bastante, seja em apoio frontal, seja em profundidade. A verdade é que – e eu acho que ainda carece de uma análise mais profunda – não podemos subtrair jogadores naquilo que é a nossa pressão. Eu sinto que não estivemos todos ‘top’ na pressão, principalmente, dos homens da frente. Não estivemos ‘top’, mas, bem, vamos analisar e vamos perceber isso. Nós sabemos dos jogadores do Sporting e deste jogo associativo que eles têm. Eles acabam por jogar com muito pouco espaço, por ter essa capacidade, mas também se provou que é possível pressionar, que é possível recuperar bolas em cima e nós acabámos por fazer isso na primeira parte, uma ou outra vez. Agora, é difícil também ter esta consistência contra este tipo de jogadores. Mas nós tentámos. Não queríamos ser demasiado passivos – e eu acho que acabámos por ser um bocadinho nos primeiros 20 minutos – e depois acabámos por crescer um bocadinho no jogo. Ainda tivemos a oportunidade do Sandro [Lima], que podia ter sido o 1-1, porque a primeira parte não foi um jogo com muitas oportunidades. Mas, sim, havia essa intenção.

