Existem derrotas que custam pelos números e outras que custam pela forma como acontecem. A do Académico de Viseu frente ao Santa Clara pertence claramente à segunda categoria.
Depois da personalidade demonstrada na jornada inaugural, quando os viseenses arrancaram um empate surpreendente na Luz diante do Benfica, havia uma expectativa natural em torno da estreia caseira no regresso à Liga Portugal. O Fontelo apresentou uma moldura humana digna da ocasião e a cidade respondeu ao apelo no regresso aos jogos, no escalão máximo do futebol português 37 anos depois. O palco estava montado para mais uma tarde de afirmação academista. O desfecho, porém, foi bem diferente.
O único golo da partida surgiu cedo, através de uma grande penalidade convertida por Gonçalo Paciência. Mais do que o resultado, foi precisamente esse lance que acabou por dominar as conversas após o apito final. A decisão da equipa de arbitragem gerou forte contestação dentro e fora do estádio, com adeptos e observadores a questionarem a existência de falta e a ausência de intervenção do VAR. Consensual foi o erro de Ruben Pereira no domínio da bola e que o levou a cometer falta sobre Sorriso.
Contudo, reduzir a análise ao momento da grande penalidade seria simplificar demasiado aquilo que aconteceu ao longo dos noventa minutos. O Académico teve dificuldades em transformar a sua ambição em verdadeiro perigo ofensivo. Houve entrega, intensidade e vontade de discutir o resultado, mas faltou criatividade nos últimos metros e maior capacidade para desmontar a organização defensiva açoriana. O Santa Clara mostrou a experiência de quem já conhece estas andanças, soube gerir os ritmos do encontro e aproveitou a vantagem para conduzir o jogo para o terreno que mais lhe interessava.
A derrota não apaga os sinais positivos deixados pela equipa de Viseu neste arranque de temporada. O Académico continua a demonstrar competitividade, organização e uma identidade de jogo que lhe permite olhar de frente para adversários teoricamente mais apetrechados. No entanto, a subida de divisão também traz uma realidade incontornável: na Liga Portugal os detalhes pagam-se caro. Uma decisão discutível, uma desconcentração ou uma oportunidade desperdiçada podem definir um resultado.
Para os academistas, a sensação final é inevitavelmente amarga. Não apenas pela derrota, mas pela perceção de que o desfecho poderia ter sido diferente. Ainda assim, o campeonato é uma maratona e não um sprint. Se a equipa conseguir manter a atitude competitiva demonstrada nas duas primeiras jornadas, o Académico terá argumentos para lutar pelos seus objetivos e transformar o Fontelo numa fortaleza ao longo da época.
O resultado ficará registado como uma derrota por 0-1. A discussão sobre o penálti continuará durante alguns dias. No entanto, para Bruno Pinheiro e para os seus jogadores, a verdadeira resposta terá de surgir já na próxima jornada: dentro do campo.
BnR na Conferência de Imprensa
BnR: Qual foi o objetivo das substituições que fez na equipa, na segunda parte?
Petit: Nós fomos fazendo alguns ajustes. Sabemos aquilo que queremos para o clube. Fomos introduzindo muita juventude que, há um ano, estava a jogar na Liga 3, nos sub-23, como o Afonso Duarte, o Hiago, o Tiago, o Manu que se estreou na Primeira Liga. Faz parte do projeto. Vão errar, mas isso vai fazê-los crescer. Vamos lançando esses jogadores.
Podíamos ter melhor controlo de jogo. A ganhar por 1-0, fomos perdendo uma ou outra situação de bolas fáceis que não foi empurrando para trás por parte do Académico de Viseu. Mas penso que foi uma vitória merecida, por aquilo que trabalhámos e criámos.
BnR: Como disse na pergunta anterior, o Académico “deu uma parte de avanço ao adversário”. A estabilidade na defesa na segunda parte foi o fator que permitiu à equipa estar mais próxima da baliza adversária?
Bruno Pinheiro: O problema das transições defensivas deve-se ao local onde perdemos a bola. Quando perdemos a bola no meio campo ofensivo, normalmente conseguimos montar as vigilâncias porque quem não está envolvido no processo ofensivo consegue fazer um controlo dos adversários que estão prontos para a transição ofensiva.
Quando a bola é perdida no meio campo defensivo, esse controlo dos adversários é muito mais difícil. Portanto, há muito menos tempo para reagir. A perda da bola apanha muitas vezes a equipa aberta e desequilibrada. O problema é mais da forma como perdemos do que da linha defensiva.
No final da segunda parte, quando estávamos a carregar no adversário, era muito mais fácil recuperar a bola no meio campo ofensivo contrário porque a perdíamos muito mais à frente e já não é a linha defensiva que está a construir, são jogadores mais à frente. Assim, a linha defensiva está em vigilância. Quando estamos com a bola na linha defensiva e eles estão a construir, eles não podem estar a fazer vigilância ao mesmo tempo. Leva a um problema de perdas de bola e, na primeira parte, perdemos muito a bola em zonas que não deveríamos e que facilita as transições ofensivas do adversário. É um problema coletivo da forma como perdemos a bola.
