André Villas-Boas defende aposta em Francesco Farioli e responde a Frederico Varandas: «mais uma das suas habituais tiradas, plenas de hipocrisia e de memória seletiva»

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André Villas-Boas deixou críticas para Frederico Varandas. O presidente do FC Porto falou também de Francesco Farioli e da aposta em Thiago Silva.

André Villas-Boas já respondeu às declarações de Frederico Varandas. Através do editorial do FC Porto, o presidente dos dragões deixou palavras para o presidente do Sporting, após as recentes declarações, no pós-jogo em Guimarães.

André Villas-Boas comentou também a aposta em Francesco Farioli como treinador do FC Porto e a contratação de Thiago Silva para o centro da defesa azul e branca.

Eis o editorial completo de André Villas-Boas:

«Há um ponto em que a análise deixa de ser futebol e passa a ser narrativa. Este texto devolve o jogo ao seu lugar: o trabalho diário, a responsabilidade e a coragem de um projeto. E desmonta, sem rodeios, o moralismo seletivo que aparece quando a conversa dá jeito. Há palavras que atravessam décadas e continuam a explicar o presente com uma clareza desconcertante. A 23 de abril de 1910, na Sorbonne, em Paris, Theodore Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos, proferiu o discurso “Citizenship in a Republic” e deixou-nos a história inesquecível sobre o”Homem na Arena”. A história exalta aqueles que, ao contrário dos críticos, competem na Arena, se expõem, tentam, erram, levantam-se e voltam a tentar. Vem isto a propósito da crónica “O fim da linha para Farioli”, em que a leitura do nosso treinador é conduzida como se o futebol fosse um guião fechado: um passado no Ajax usado como maldição, um presente explicado por fatores externos e um futuro anunciado como um naufrágio inevitável com direito a imagens de cinema para “encaminhar” o leitor antes mesmo de a época pedir respostas.

A aposta em Francesco Farioli não é um capricho nem um gesto para dizer que “fizemos algo diferente”. É um projeto de método, exigência e coragem. Coragem para propor uma ideia de jogo e assumi-la; coragem para ajustar sem renegar; coragem para trabalhar no detalhe quando a tentação é simplificar; e coragem para não confundir um episódio com uma biografia inteira. Quem vive o futebol por dentro sabe que nenhuma vantagem é garantia e que nenhum percalço é sentença. O treinador e os jogadores estão na Arena todos os dias e é aí, no risco e na responsabilidade, que se mede o valor de um projeto.

Quando uma análise transforma homens que decidem e arriscam em personagens de uma narrativa pré-escrita, perde-se o essencial: a responsabilidade de quem faz e a humildade de reconhecer que o jogo é caos e não cabe num conjunto de metáforas. Se uma eliminação é sempre “conveniência”, se um descanso é sempre “estratégia” e se um bom momento é sempre “mérito alheio”, então já não estamos a discutir futebol, estamos a desrespeitar todo o trabalho diário de uma equipa e também a Instituição. É com forte e confiante convicção que, enquanto Presidente do FC Porto, distingo o trabalho de Francesco Farioli. Um trabalho sério, rigoroso, competente e profundamente comprometido com o Clube.

Estou convicto de que Farioli tem tudo para se afirmar ao mais alto nível e que o futuro confirmará o que já vemos todos os dias no Olival: exigência, coerência e uma ideia clara. Quanto aos que preferem viver do conforto da bancada, Roosevelt deixou uma definição que permanece atual: “almas frias e tímidas que não conhecem nem a vitória nem a derrota”. É por causa do trabalho desta equipa e da exigência do seu treinador que, no plano desportivo, Dezembro tem sido um mês de orgulho e de gratidão. Frente ao Alverca, vencemos por 3-0 e atingimos 43 pontos: 14 vitórias e um empate, 43 pontos em 45 possíveis, o melhor arranque de sempre da história do nosso Clube. Passamos aos quartos de final da Taça de Portugal após uma vitória clara, à Porto.

Agradeço aos Adeptos o apoio incansável, dentro e fora de casa, e o modo como empurram a equipa nos momentos em que os jogos exigem cabeça fria e coração quente. Agradeço também aos jogadores e a toda a equipa técnica pelo trabalho diário, pela seriedade e pelo compromisso com aquilo que significa representar o FC Porto. Cada dia é uma nova Arena e devemos continuar com a mesma ambição e sentido de responsabilidade. Essa ambição e esse sentido de responsabilidade levaram o FC Porto a concluir a operação que trouxe de volta Thiago Silva. O jogador, cuja história começou aqui, regressa ao nosso Clube 20 anos depois, como lenda em que se tornou. Tocou o topo do futebol mundial como um líder admirado, dentro e fora de campo, e inspirou milhões ao transformar uma adversidade cruel numa história de superação e grandeza. Sê muito bem-vindo, Thiago!

Dentro da equipa temos também as nossas lendas. Aqueles que se têm entregado ao Clube com toda a alma e coração, que transpiram e respiram Porto e projetam os nossos valores e princípios na eternidade tornando-se na referência e no exemplo a seguir para os mais jovens. É uma honra para o FC Porto poder hoje anunciar que a renovação de Diogo Costa é um passo fundamental não só para os títulos que ambicionamos, mas também para o legado futuro que queremos ver projetado por aqueles que melhor nos representam. Bem hajas, Diogo!

Foi com emoção e orgulho que vivemos a Gala dos Dragões de Ouro 2024/25. Dou os parabéns a todos os “Dragonados”, em especial aos que mais se distinguiram na época transata. Foi uma noite bonita, emotiva e profundamente Portista, uma celebração do mérito, da memória e do futuro. O Dragão de Honra a Jorge Nuno Pinto da Costa e o Dragão de Ouro Recordação a Jorge Costa lembram-nos que a grandeza do Clube se mede também pela forma como honramos quem o fez maior.

Deixo uma palavra muito especial ao Luís Bacelar, distinguido como Sócio do Ano. Num Clube que se explica pelos seus Sócios, a dedicação de quem está sempre presente – na vitória e na dificuldade – é inegavelmente património imaterial do FC Porto. O Luís Bacelar é um símbolo vivo do Portismo e, pela sua história e longevidade, está cada vez mais perto de ocupar, com toda a justiça, o lugar cimeiro que a família Portista lhe reserva.

Por fim, ontem, o Presidente do Sporting teve mais uma das suas habituais tiradas, plenas de hipocrisia e de memória seletiva sobre a história do futebol português. Assumindo que foi beneficiado nos Açores, por duas vezes, decidiu discretamente ignorar todos os outros episódios em que, por mero infortúnio, o seu clube beneficiou de erros que, na sua opinião, podem acontecer em qualquer campo. Diz ele que no Sporting são diferentes e que, quando beneficiados, saem a terreiro e admitem-no; tudo o resto são casos normais do jogo.

Na época passada, frente ao Estoril, Pepê recebeu a bola nas costas da defesa e tinha caminho livre para marcar, mas viu Pedro Amaral lesionar-se na coxa. Em vez de continuar a jogada, Pepê parou, levantou a bola e chamou a equipa médica, demonstrando preocupação com o adversário. Esse gesto deu a volta ao mundo e foi reconhecido pela Liga e pela FPF como o ato de fair play do ano.

Os 12 minutos de falha do VAR e a decisão incompreensível tomada de seguida deveriam ser suficientes para uma revolução e uma auditoria profunda à tecnologia VAR e aos critérios de decisão arbitral adotados esta época, mas também deveriam ter sido suficientes para fazer refletir o capitão do Sporting e levá-lo a admitir que é feio cair na área e ganhar indevidamente um penálti ao toque de um dedo na cara. Ao fazê-lo seria efetivamente diferente, ao ignorá-lo acabou por ratificar o nível de hipocrisia em que vive o discurso do presidente do seu clube.

É por isso que, no caso do FC Porto, construímos uma dimensão identitária que nos distingue dos demais ao sermos, também nós, durante décadas o “Homem na Arena” do futebol português, o bicampeão europeu e bicampeão mundial que em território nacional enfrenta todos os dias os poderes instalados e a desvalorização permanente dos seus jogadores, dos seus técnicos e dos seus feitos. Entramos agora no período das festas com uma ideia simples e essencial: o FC Porto é mais forte quando está unido. O sonho do título não é um slogan; é um objetivo que se conquista com trabalho, rigor e coragem.

A todos os Portistas, desejo Boas festas, com saúde e serenidade. Que o novo ano nos encontre juntos, focados e ambiciosos. E que, como sempre, continuemos a fazer do Dragão a nossa “Arena” onde se luta contra tudo e contra todos!”

Mário Cagica Oliveira
Mário Cagica Oliveirahttp://www.bolanarede.pt
O Mário é o fundador e diretor-geral do Bola na Rede. É também comentador de Desporto na DAZN, SIC e Rádio Observador e professor universitário.

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