As 5 fortalezas do Estrela da Amadora num início de época a roçar a perfeição

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Os dados não mentem. O Estrela da Amadora, que voltou a carimbar a manutenção nas últimas jornadas da última época, está a ser uma das sensações do arranque de época. Os primeiros jogos não eram propriamente fáceis, com confrontos contra Sporting, Braga e Famalicão, todos top-5 na última temporada. Ainda assim, o registo, não sendo perfeito, é assinalável.

Até ao momento, não há espaço para qualquer derrota na temporada. São duas vitórias e três empates. Tão impressionante, em todos os jogos o Tricolor da Reboleira marcou, pelo menos, dois golos. É certo que, excetuando o último, também sofreu dois em todos os jogos. Mas a tendência inverteu-se.

A temporada é longa e conclusões precipitadas são sempre de evitar. Ainda assim, depois de uma vitória contra o Braga, num jogo antecedido por uma mudança de estádio repentina e todas as consequências que daí chegaram, há espaço para refletir e encontrar padrões e fórmulas que permitem o sucesso até ao momento.

Capacidade de superação

Ianis Stoica Estrela da Amadora
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

Excetuando o jogo contra o Alverca, o Estrela da Amadora começou todos os jogos em desvantagem no marcador. Mesmo no Ribatejo, na primeira de duas visitas ao estádio que acolheu o duelo contra o Braga, num certo momento houve um momento de desvantagem.

Há dedo de treinador na capacidade de reagir à adversidade, mas já lá vamos. Mesmo com os ajustes necessários, reagir à adversidade não é uma garantia. Há uma mudança de atitude, mais atrevida, capaz de misturar a segurança na postura com o atrevimento nas intenções, que vai guiando o Estrela da Amadora.

Mais importante, não é uma mudança atrelada apenas em alguns jogadores. Há uma espécie de sintonia comum à equipa, transmitida também pelos adeptos numa comunhão bonita de se ver, que baliza a atitude. O Estrela da Amadora joga bem e fá-lo com a língua de fora.

Impacto das mexidas de Pepa

Pepa Estrela da Amadora
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

Não são necessariamente falhas no plano ou maus planeamentos, mas o Estrela da Amadora tem tido falsas entradas em muitos jogos, com golos sofridos cedo. Ainda assim, e porque a atitude já foi destacada, é tão ou mais importante olhar para a forma como Pepa e a sua equipa técnica conseguem mexer com o jogo e fazer ligeiros ajustes para responder aos problemas.

Contra o Braga, foi simples de perceber que a pressão HxH a campo inteiro, com Dorgeles a fechar Santiago Serra e os centrais exterores arsenalistas a acompanhar os extremos do conjunto da Reboleira, provocou desconforto e erros. No golo sofrido, Rafa Soares mete a bola em zona proibida. Acima do erro, Santiago Serra, imagem de serenidade e maturidade, estava fechado. Cada bola perdida ia rapidamente ter a Gabri Martínez, de fora para dentro a pé trocado e com sentido de baliza.

Rapidamente, e ainda na primeira parte, o Estrela da Amadora reagiu. À direita, Abraham Marcus abriu completamente a posição, para causar dúvida a Gabri Martínez e Sergi Barcia – a segunda parte é de luxo a explorar este passe – e Max Scholze começou a entrar por dentro. À esquerda, Santiago Serra desceu para a linha dos centrais, tirando Dorgeles do centro do terreno e abrindo espaço para uma ligação interior com Ianis Stoica, numa primeira fase a dar solução por dentro. A teia de mar ações individuais foi superada e o Estrela da Amadora passou a jogar.

Variabilidade maior no jogo

Abraham Marcus Sergio Barcia Estrela da Amadora Braga
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

O Estrela da Amadora continua a gostar de acelerar – e já lá vamos, naturalmente – mas está mais completo. O erro no golo sofrido mostra que o caminho é longo e não está isento de infelicidades e momentos de desacerto, mas o foco também pode estar no golo do empate, numa jogada construída desde trás. Não abdicar da bola e pensar as acelerações é o grande objetivo da temporada.

Para este pensamento, há alguns nomes em evidência, mas nenhum tão forte como Santiago Serra. Dos médios do Estrela da Amadora, é o que parte por fora na procura dos holofotes. Não ganhou a Europa League, não é familiar do craque do PSG nem veio do Bayern Munique. Os restantes nomes já mostraram argumentos, mas a nível de controlo da bola, gestão dos ritmos e impacto na saída, a maturidade e coragem do jovem de 19 anos é assinalável.

Depois, há, na equipa como um todo, uma estruturação da identidade coletiva feita para valorizar a bola. Guarda-redes e centrais não têm medo de ter a bola, os laterais são participativos e capazes de interpretar, os médios estruturam o jogo e o avançado, Leandro Antonetti, vai fazendo um pouco de tudo. Os extremos, esses, estão lá para desequilibrar.

Manutenção da verticalidade e do desequilíbrio

Ianis Stoica Estrela da Amadora Abraham Marcus
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

O grande desafio para a nova vaga de pensamento que tem inundado as equipas da classe média da Primeira Liga é a conjugação da vontade de ter bola e atrair o adversário com a capacidade de manter uma ameaça ao espaço que crie, pelo menos, dúvidas ao rival. Procurar sair a jogar desde trás sem qualquer tipo de ameaça e desconforto no espaço, permite aos rivais encurtar de tal forma o espaço disponível que o sufoco é maior.

O Estrela da Amadora tem conseguido ser capaz de evitar esse cenário. O crescimento de Abraham Marcus contra o Braga é auto explicativo. Gabri Martínez começou a saltar demasiado alto e abriu um buraco grande. Sergi Barcia, com muito espaço para cobrir e alguma falta de tino nos momentos da contenção, completou o abrir da passadeira para o extremo que somou uma assistência de trivela e ainda teve nos pés duas oportunidades de ouro.

Há perfis distintos nesta vontade de acelerar. Abraham Marcus é jogador para o fazer preferencialmente com a bola no pé, a este unida com uma espécie de super cola que torna difícil a missão de a tirar. À esquerda, Ianis Stoica é um acelerador de jogo e um jogador com muita capacidade de chegada e de infiltração. Com isso, traz o golo. Beni Souza é o mais descomplexado dos extremos, também o mais criativo, conjugando as duas dimensões – a da finta, do drible curto, da técnica em terrenos reduzidos, e a da velocidade, da agressividade na procura do espaço e da passada larga. Não há muitos jogadores mais entusiasmantes no futebol português.

Afirmação da individualidade

Georgios Koutsias Famalicão Eddy Doué Estrela da Amadora
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

Como consequência de um futebol positivo, que Pepa descreveu como sorridente para os jogadores, as individualidades vão sobressaindo. Para o fim, e porque não foram destaques tão evidentes contra o Braga, mas têm sido importantes na época do Estrela da Amadora, dois jogadores que já estavam na Reboleira, mas que têm atingido o pico exibicional.

O primeiro é Eddy Doué. Beneficia deste papel, mais como segundo médio e com menos responsabilidades posicionais. Conjuga a dimensão do transporte, da condução, da capacidade de queimar linhas em posse, com uma criatividade no passe e um leque de soluções interessante para um jogador com estas características físicas.

O segundo é Leandro Antonetti. É complicado encaixar o avançado de Porto Rico numa caixinha. Talvez a melhor seja mesmo a dos avançados completos, capazes de fazer um pouquinho de tudo. Joga com confiança e com capacidade para intercalar as ações, quer em apoio, quer no espaço. Até esta época, não se sabia que tinha tanta facilidade para procurar o remate e encontrar espaços na área. Quando o coletivo ajuda, o individual sobressai sempre. Não devia haver outro princípio mais importante no futebol.

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: Na segunda parte, e já falou na tentativa de tentar recuperar o controlo do jogo, acaba por lançar um terceiro médio e por apostar numa dupla mais móvel na frente, com o Gabriel Silva muito móvel. O que pretendia com estas alterações?

Carlos Vicens: Com o Gabriel [Silva] poder aproveitar os movimentos na profundidade, a sua rapidez e a relação com o golo. Com o Jonas [Wind], ganhar presença na área rival e também jogo, porque sabemos que é um jogador que o entende muito bem. O Diego [Rodrigues] é um jogador capaz de ter momentos determinantes, capaz de influenciar o jogo vindo de fora, com assistências e com chegada à área. É um jogador perigoso. Com o [Diogo] Travassos, por exemplo, está bem nos desequilíbrios. O Gabri Martínez tinha completado 45 minutos no outro dia. O Tommy [Marqués] refrescou a linha de meio-campo, sabendo que era um jogo que, nos últimos minutos, tinha muitos momentos de ida e volta. Tem a capacidade para chegar aos sítios com rapidez e dar-nos um bocadinho de controlo. Aproximou-nos da baliza contrária, que é sempre o mais difícil no futebol, e hoje custou-nos um bocadinho mais.

Bola na Rede: Já aqui destacou algumas das dinâmicas com que o Estrela da Amadora conseguiu ultrapassar a pressão individual do Braga. O Estrela da Amadora nos últimos anos, principalmente desde o regresso à Primeira Liga, tem sido uma equipa com um jogo direto muito vincado. Quão importante é ganhar também esta capacidade para sair a jogar desde trás e pensar mais o jogo, não perdendo essa ameaça na profundidade que o Estrela continua a ter? Qual a importância de ganhar esta dimensão para o jogo e para a variabilidade do jogo do Estrela?

Pepa: Isto é uma ideia, uma ideia de jogo que os jogadores estão a comprar e estão a absorver com um sorriso na cara e muita vontade de crescer e aprender. Sinceramente, eu joguei, mas mesmo que não tivesse jogado, os jogadores sentem-se mais realizados e mais felizes dentro de campo a fazer aquilo que gostam e aquilo que sabem. Posso dizer uma coisa: o golo sofrido foi a tentar sair a jogar. É o que é. É um erro, mas os erros acontecem. Nós preferimos perder, por exemplo, mas a tentar fazer aquilo que trabalhamos e a ter essa coragem para jogar. Agora, temos é de ser inteligentes dentro de campo. Ter essa variabilidade de jogo apoiado, de jogo jogado, de jogo associativo, mas nunca deixar de agredir. Muitas das vezes, o espaço está lá e, como aconteceu hoje, bola no Marcus [Abraham], bola no Leo [Antonetti], bola no Ianis [Stoica], bola no Beni [Souza] quando entrou. Temos de ser uma equipa com capacidade para atrair a marcação, mas o objetivo é sempre a baliza contrária. As melhores oportunidades, mais uma vez o digo, são nossas.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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