Entre o crescimento e as preocupações: as dúvidas e as certezas de Portugal para o Mundial 2026

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Não há, nos jogos de particular antes das grandes competições, razões para grande caos ou júbilo. Por mais que o resultado seja importante – afinal ninguém gosta de perder – há na preparação física, na definição de nuances estratégicas ou na criação de dinâmicas entre jogadores um peso muito superior. Com Portugal, não é exceção.

Contra o Chile uma vitória por 2-1, diante da Nigéria um triunfo pelo mesmo resultado, no jogo que antecede a viagem da comitiva portuguesa para os EUA, onde Portugal não terá de sair na fase de grupos. Ambos os jogos foram exemplo perfeito de um particular não de final de época, mas de início, como Roberto Martínez os tem abordado. Muitas substituições, jogos divididos em duas partes distintas e pouco grau de certeza quanto ao que vai acontecer quando o apito inicial for mesmo a valer. 

Ainda assim, são jogos com pontos de reflexão, certezas de crescimento e alguns motivos de preocupação. Seria impossível não ser assim em qualquer dos casos. Entre méritos e deméritos, pouco poderá contar. Já se sabe que nenhuma competição transporta sobre si o grau de incerteza que o Mundial acalenta. Ainda assim, quanto maior a preparação, maior serão as possibilidades de tudo dar certo. 

Portugal Jogadores
Fonte: Edmilson Monteiro / Bola na Rede

Entre março, num estágio realizado em solo norte-americano contra dois dos anfitriões, e junho, em solo português até não dar mais, Portugal defrontou adversários de três continentes distintos. Apenas uma seleção asiática – tendo em mente que a possibilidade de defrontar a Nova Zelândia é mínima – faltou no leque de adversários nacionais. 

Não há seleções iguais, mas é inegável a culturalidade de certos aspetos. Por mais que se queiram estabelecer padrões, há uma cultura sul-americana distinta da africana, por exemplo. Nesse sentido, os jogos de preparação portuguesa permitiram antecipar cenários. A viagem tardia – é sabido que para os portugueses, fazer as coisas em cima da hora é um hábito difícil de se desapegar – também não contempla sobre si grandes constrangimentos. Afinal, os dois primeiros jogos no Mundial 2026 serão jogados em Houston, um estádio fechado e com climatização. 

Dentro de campo, há pontos de crescimento, tanto coletivos e individuais. Contra a Nigéria, alinhou o meio-campo mais forte. É natural e certo, pelas palavras de Roberto Martínez, que no Mundial 2026 dificilmente se repetirão onzes. Ainda assim, o teste Vitinha – João Neves – Bruno Fernandes terá sido importante para perceber que os melhores podem jogar juntos. Contra a Nigéria, os do PSG mais baixos e Bruno Fernandes a procurar os espaços entrelinhas. Veremos se a tendência se mantém ou se Vitinha, em França mais um 6 a solo que de duplo pivô, assumirá maior peso na construção libertando o compatriota e colega para as conduções com bola. De resto, a forma como Portugal procurou sair em muitos momentos em 4+2, com muitas trocas posicionais, principalmente entre Gonçalo Inácio, Diogo Dalot e Vitinha, ganha peso sempre que a seleção tiver de encarar pressões adversárias mais altas e com referências individuais. 

Nélson Semedo Portugal Nigéria
Fonte: Edmilson Monteiro / Bola na Rede

Nas relações entre lateral e extremo, fundamentais para compreender qual o propósito do jogo de Portugal, há também maiores certezas. Contra a Nigéria, por exemplo, os laterais jogaram baixo e Pedro Neto e Francisco Trincão (embora com mais dinamismo e abrangência) fixaram a defesa adversária. Na segunda parte, à direita manteve-se a dinâmica mais livre, com Francisco Conceição e João Cancelo a permutarem, mas à esquerda houve outra repartição espacial.

Não há dúvidas de que Nuno Mendes é o melhor lateral esquerdo da seleção (tal como não há de que também é o melhor no universo global). Neste sentido, e para permitir ao lateral do PSG maior liberdade de ação, a presença de João Félix em terrenos mais interiores é um complemento à medida. O avançado do Al Nassr também é um dos jogadores em melhor momento de forma no ataque, com qualidade técnica para definir em espaços curtos e capacidade de procurar o remate. Esteve perto, se não marcou mesmo, de marcar diante da Nigéria.

Do ponto de vista individual, e escapando aos nomes mais óbvios, há alguns destaques a assinalar. Na ausência de Nuno Mendes, João Cancelo foi o lateral esquerdo contra o Chile, Diogo Dalot (e novamente o defesa do Barcelona) cumpriu esta função contra a Nigéria. Sobre João Cancelo não há dúvidas: quanto maior o protagonismo e a minutagem, melhor para Portugal. Já Diogo Dalot, teve um teste interessante à esquerda, principalmente do ponto de vista ofensivo. Nélson Semedo ganhou pontos, mas à direita, como principal alternativa. 

Nélson Semedo Portugal
Fonte: Edmilson Monteiro / Bola na Rede

No meio-campo, e para lá da tripla que parte na frente pela titularidade, há duas certezas. A primeira prende-se com Bernardo Silva. Em nenhum dos jogos foi utilizado como extremo. Alguma coisa há de dizer, pensando no Mundial 2026. Tem capacidade para funcionar a qualquer altura, mais perto da construção ou da definição, e esta capacidade continuará a garantir-lhe importância. Também Samu Costa se destacou. Se muitas vezes foi tratado como uma alternativa, ou concorrência, pelo menos, a João Palhinha, tem-se destacado em terrenos diferentes, à semelhança do que fez na época no Mallorca. É um médio de ocupação de espaço e de chegada de frente para trás, com capacidade para grandes deslocações. Poderá ser encarado como uma alternativa ao dinamismo e capacidade física que só João Neves consegue oferecer em dimensões semelhantes.

No ataque há algumas boas notícias. À direita, e esquecendo Pedro Neto, que pode jogar pelos dois lados, há um claro candidato a titular e a suplente de entrada quase obrigatória. Francisco Trincão, pela capacidade de jogar mais aberto ou mais por dentro, e pela relação com a bola, é um elemento fundamental, quer a desbloquear blocos mais baixos, quer como lançador, em jogos mais divididos. Francisco Conceição, o denominado “Espalha-Brasas”, tem o perfil certo para trazer sempre algo para o jogo. Cria sempre qualquer coisa.

Ainda assim, não dá como esquecer e ignorar preocupações evidentes antes do Mundial 2026. Se na baliza – Diogo Costa não foi destacado, mas vem da melhor época da carreira e tem um peso natural na equipa – nos lados da defesa e no meio-campo há, na seleção, a elite da elite, as restantes áreas de campo trazem mais dúvidas que certeza.

Cristiano Ronaldo Portugal
Fonte: Edmilson Monteiro / Bola na Rede

No ataque, sendo certo que há uma abrangência de perfis que permite vários desenhos, não há grande garantia de continuidade e regularidade em vários dos jogadores. Mesmo Cristiano Ronaldo, referência inegável da equipa e titular indiscutível, seja por convicção, estatuto ou algo no meio dos dois, está num momento da carreira inverso ao que pautou a sua etapa longa e de sucesso pela seleção.

Esperava-se que, na reta final da carreira, se desenvolvesse como um goleador e um jogador para viver na área alheia. Curiosamente, nos jogos de preparação, teve sempre mais impacto fora desta, ao nível do apoio frontal, do arrastamento de defesas e das desmarcações, do que na área. No Euro 2024, por exemplo, realizou dois jogos iniciais de alto nível e contribuição coletiva. Quando o fantasma do golo, uma expressão insólita quando se fala de CR7, começou a ganhar peso, perdeu-se a influência. Nos particulares, foram várias oportunidades de luxo e nenhum golo. No Mundial espera-se que seja diferente.

Por fim, talvez o maior receio e foco de preocupação de Portugal: o centro da defesa. Rúben Dias é indiscutível e, apesar da lesão que o fez perder grande parte da segunda metade da temporada, continua a fazer-se valer pela capacidade nos duelos e no ar. Ao seu lado, na tendência da complementaridade, poder-se-ia pensar que um central forte no passe cumpriria bem a função. E, teoricamente, isso faz sentido. Na prática, há preocupações naturais.

Portugal Jogadores
Fonte: Edmilson Monteiro / Bola na Rede

No futebol mundial, cada vez mais regido pela fisicalidade, multiplicam-se os avançados de capacidade atlética para ganhar duelos, batalhar com o defesa e atacar espaços. Não é preciso ir muito longe, basta ver como jogam Cédric Bakambu, Yoane Wissa ou Eldor Shomurodov, nos próximos dois adversários lusos. Ou como jogou Akor Adams.

Diante do possante avançado nigeriano, foi evidente o desconforto de Gonçalo Inácio. No golo, por exemplo, é superado no duelo direto. Noutros lances, notou-se algum descontrolo relativo ao timing do desarme, da antecipação ou do momento para o choque. Esta falta de contundência nos duelos é, num panorama mais geral, também uma lacuna de Tomás Araújo ou de Renato Veiga, num nível inferior, mas ainda assim evidente.Diante destas limitações, a solução é simples e foi demonstrada por Espanha no Euro 2024, ganho pela Roja. Por um lado, quanto mais tempo se tiver a bola, menos tempo teremos de nos preocupar no que fazer sem esta. Por outro, quando não a tivermos, a melhor solução passa por tê-la o mais à frente possível. Este é o grande objetivo de Portugal para o Mundial 2026.

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: Antes de mais, boa sorte para o Mundial e bom trabalho também. Sobre o jogo, principalmente na primeira parte vimos muita mobilidade dos elementos mais recuados de Portugal na construção de bola, com posicionamentos interiores, exteriores, mais dentro ou mais fora. Num futebol e com muitas seleções a apostar numa marcação HxH, o que é que esta mobilidade permite acrescentar ao jogo de Portugal?

Roberto Martínez: Muito boa reflexão. A Nigéria joga com um losango e dois pontas de lança. Não há muitas equipas na Europa que joguem assim, então isso cria uma oportunidade de poder ter uma pressão média de três, quatro, cinco jogadores na zona central. Isso acontece muito quando há marcações ao homem. Temos jogadores com bola como o Bernardo Silva, o Vitinha, o João Neves e sem dúvida que no Mundial vamos ter situações de marcação ao homem. Hoje era tentar experimentar, nas nossas posições com bola, poder criar linhas de passe e uma superioridade numérica na zona central. Foi muito bom porque a disposição tática da Nigéria, a atitude de arriscar muito no bloco médio, fez com que o teste fosse perfeito para isso.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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