Há muitas maneiras distintas de olhar para um 0-0, principalmente quando este chega nos primeiros 90 minutos de uma eliminatória resolvida apenas a duas mãos. A última vaga na Primeira Liga, a mais alta divisão do panorama português, está 90 minutos mais próxima de ser decidida embora, na sua génese, continue perfeitamente equiparada ao cenário anterior ao jogo. O empate por 0-0 entre o Casa Pia e o Torreense na primeira mão do playoff não mudou, na prática, nada. Mas, se há 1.001 maneiras de comer bacalhau, também há 1.001 maneiras de olhar para um 0-0. E, se há maus 0-0, este nem foi um desses.
É, antes de olhar para o panorama do jogo e para as intenções dos treinadores e ações dos jogadores, um embate que comprova o equilíbrio entre os últimos da Primeira Liga e os primeiros da Segunda. A diferença não existe, em muitos cenários, para lá do mais importante: o nome da prova. De resto, e à exceção do último ano, um feito inédito que o Casa Pia pretende alcançar, as equipas que procuram a subida até se têm superiorizado face às que lutam com todas as forças pela manutenção. Há uma dinâmica de vitória e de embalo impossível de igualar, se for preciso identificar favoritismos.
Por falar em favoritismos, e como última adenda antes do jogo puro e cru, este playoff é o exemplo mais contraditório à suposta valorização do mérito com que se premeiam – ou assim deveria ser feito – os protagonistas. Em poucos cenários o Torreense chegaria à final da Taça de Portugal, mas conquistou-o de forma tão legítima como justa. Inserir o playoff de subida de divisão a meio do jogo do Jamor – a primeira vez em 70 anos dos de Torres Vedras no Estádio Nacional – é uma calendarização no mínimo questionável e que não só não premeia o mérito, como que o penaliza. Haveria espaço e, provavelmente, boa vontade para fazer diferente. Até porque, a haver influência do Mundial 2026 no plantel, esta seria no Torreense, que viu Stopira chamado à competição.


Posto isto, há que olhar para o jogo e perceber que o 0-0 é um resultado enganador. Há estratégias diferentes, intenções diferentes, níveis de volume ofensivos diferentes, mas foi um jogo bem jogado e com intenções claras de ambos os lados, acentuadas por uma expulsão que, curiosamente, tornou o jogo mais monótono. Com todas as delicadezas de um jogo no final de uma época que vai longa, jogou-se futebol em Torres Vedras.
É natural e justo também olhar para o Torreense para a equipa que fez mais para vencer o jogo e ganhar uma boa vantagem para Rio Maior, a casa do Casa Pia que, curiosamente, fica mais perto de Torres Vedras que de Pina Manique. Um ingrediente que também poderá marcar a segunda mão. Pela primeira, houve clara proatividade do conjunto de Luís Tralhão para gerar volume ofensivo.
O Torreense é uma equipa que, na sua génese, procura impor-se com bola sem que tal seja sinónimo de longas posses no terço ofensivo. O objetivo da equipa é claro: convidar o adversário a pressionar, chamar a pressão forasteira para depois criar espaços nas costas e agredi-los a partir dos jogadores muito rápidos no último terço. Nesta intenção, o emblema da segunda Liga tem recursos valiosos, quer no momento de construção, quer no momento da aceleração.


A influência espanhola na construção do plantel trouxe a Torres Vedras Javi Vázquez e Alejandro Alfaro. São os principais construtores e organizadores do jogo do conjunto do Oeste, que se concentra principalmente sob a esquerda. O lateral é um organizador de jogo a partir de posições mais baixas e tem no pé esquerdo uma mais-valia pela batida na bola. Quer nos lançamentos para a frente, quer na bola parada, quer nas situações em que se projeta para cruzar, cria lances de perigo para a sua formação.
Face à presença de Léo Azevedo e Guilherme Liberato em simultâneo em campo, para permitir ao primeiro baixar para a linha defensiva e criar situações de igualdade na última linha no momento sem bola, Alejandro Alfaro tinha um híbrido de posições. A defender, ocupava o espaço à direita de Liberato; com bola, flutuava sobre a esquerda para ver o jogo de frente a pé trocado. No seu espaço potencial, na meia direita, uma dinâmica que procurava aproveitar potenciais inferioridades numéricas do Casa Pia no meio-campo: Luis Quintero, extremo direito, baixava para funcionar como uma espécie de médio interior para receber e virar-se de frente para o jogo, com espaço e possibilidade de definir em áreas mais centrais.
Depois de atrair a pressão adversária, o objetivo do Torreense era chegar rápido à baliza adversária. A intenção é bem clara: chamar a pressão adversária para criar espaços nas costas e acelerar. Este objetivo criou duelos muito interessantes entre as duas flechas do ataque da equipa da casa e os dois marcadores diretos da formação casapiana.


O principal jogador do Torreense para receber e acelerar é Dany Jean. Internacional A pelo Haiti, embora não faça parte das escolhas da sua seleção pelo Mundial 2026, o extremo de 23 anos fez a época de plena afirmação no futebol português. Tem agilidade para vir mais atrás receber e rodar, oferece soluções no drible e na condução em velocidade e ataca espaços. Também Musa Drammeh, menos criativo, mas igualmente rápido e com mais sentido de baliza (até por jogar em terrenos centrais), cumpriu o propósito de se tornar solução para o jogo de lançamentos e de ataque à profundidade.
O 0-0 facilmente poderia ter sido outro resultado. Para isso, contribuíram as exibições defensivas de João Goulart, marcador direto de Dany Jean, e de Khaly, que batia de frente com Musa Drammeh. O primeiro é um jogador mais experiente, voz de comando da linha defensiva e com capacidade para, com bola, desequilibrar através do passe. O segundo tem perfil de central moderno, com estampa física e muito atleticismo, sendo forte nos duelos aéreos e, principalmente, a jogar longe da baliza, com velocidade para voltar atrás nas corridas.
Com menos bola que o adversário, o Casa Pia contou com estas duas exibições, bem como a de Lawrence Ofori no meio-campo, ocupando vastas áreas do terreno e limpando bolas, para ter segurança defensiva. O Torreense teve várias oportunidades para criar golo, mas não teve assim tantas oportunidades de golo. Essas, chegaram na segunda parte e em dose dupla para o Casa Pia. Cassiano, tantas vezes farol, acabou por não dar o seguimento a nenhum dos lances, também pela imponência de Lucas Paes na baliza.


Num desses lances, Pedro Rosas acabou por ser expulso. A superioridade do Torreense acentuou-se, mas o cenário predileto para criar perigo, desapareceu. O Torreense mudou o perfil do ataque, juntou referências na área e procurou dar ao cerco mais componentes para fazer a bola entrar na baliza. Sem o espaço de antes, o jogo mudou, mas não o resultado. Há novo embate dentro de uma semana e uma Taça de Portugal a jogar pelo meio. No dia 28 de maio, não haverá outra solução que não seja definir a última equipa a jogar a próxima Primeira Liga.
BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: O Torreense tem jogadores muito rápidos na frente e o Casa Pia acabou por apostar numa marcação que primava por muitos duelos, exponenciados no embate muito claro entre o Khaly e o Musa Drammeh. Que avaliação faz da estratégia defensiva da equipa e o que pretendia implementar em campo?
Álvaro Pacheco: Nós defensivamente estivemos bem. Tivemos um período na primeira parte. Sabemos que o Torreense é uma equipa que, mesmo com bola, tem como primeiro instinto atacar a profundidade. São sempre extremos muito rápidos, muito verticais, abertos. Estão constantemente a atrair a pressão para depois meter lá a bola. Sabemos que o comportamento da linha defensiva tem de ser sempre dar prioridade aquilo que é defender a profundidade. Só por uma situação ou outra é que o Torreense foi capaz de aproveitar. As vezes em que aproveitou com mais facilidade foi com momentos em transição, um momento em que o Torreense é muito forte. Tem muita verticalidade no seu jogo e nós tínhamos de estar atentos a isso, não só no equilíbrio como na proteção. Penso que fomos capazes de resolver isso, não de uma forma tão eficiente como gostava, mas mesmo quando fomos obrigados a recuar, à frente da nossa área fomos capazes de resolver. O Torreense não teve oportunidades assim muito flagrantes. Faltou-nos foi com bola estarmos mais tranquilos no momento da finalização e aproveitar os espaços que o Torreense estava a deixar no jogo. São espaços que agora vamos trabalhar, vamos analisar a vamos explorá-los no segundo jogo.
Bola na Rede: Falou da importância de valorizar o jogo com bola. Além dos médios, o Luis Quintero procurava baixar para receber na meia-direita. O que pretendia com este elemento nesta posição e com a substituição, colocando três “flechas” na frente a atacar espaços?
Luís Tralhão: Relativamente ao Luis Quintero, ele é um jogador com uma qualidade técnica muito acima da média e gosta muito de jogar em espaços interiores, de receber a bola. Tem essa capacidade entrelinhas. Está a melhorar a decisão dele. É um miúdo com muita capacidade e acho que ainda não vimos o melhor dele. Teve uma primeira metade da época em Espanha com pouco tempo de jogo, está a habituar-se ao nosso estilo de jogo. Acho que toda a gente fica entusiasmada quando ele toca a bola no jogo interior, mas ele não se esgota aí. É um jogador que consegue partir de fora e vir para dentro com capacidade de drible no 1X1. Quanto às substituições, quando ainda estávamos 11X11, senti que a última linha defensiva já estava um pouco cansada. O Ismail Seydi é um jogador que nos traz essa velocidade e, com os corredores bastante rápidos, podíamos aproveitar o facto de eles já terem alguns amarelados na última linha. Com a expulsão, o jogo acabou por mudar um pouco de figura e daí ter entrado o Kévin [Zohi]. O André [Simões] já tinha entrado, entrou também o Costinha para nos darem alguma clarividência no jogo posicional, com a procura do Kévin, para fazer algo que já tínhamos feito, por exemplo em Lourosa. Ter mais presença na finalização porque, de facto, o Kévin e o Musa [Drammeh] são jogadores que procuram vários espaços na área e são muito fortes nisso.

