O jogo do gato e do rato | Estrela da Amadora 0-1 Sporting

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Estava em andamento a primeira parte do Estrela da Amadora x Sporting quando um pequeno gatinho, algo assustado com o sítio onde acabou por se meter, entrou pelo relvado do José Gomes e desatou a correr. No dia anterior, foi um ratinho que, qual investigador secreto, esperava Rui Borges na conferência de imprensa de antevisão à partida da 29.ª jornada que, sem grande brilho, acabou por ser ganha pelos leões.

Há, na história da animação, inúmeros gatos e ratos reconhecidos pelas suas façanhas ou características. A poucos jogos do fim da Primeira Liga, e a esperar ansiosamente por mais tropeços do FC Porto, a história do Sporting no campeonato faz-se, um pouco, como a do gato que persegue ansiosamente o rato, qual Tom & Jerry. Pelo rumo dos acontecimentos, este até pode nem ser o exemplo mais desejado para o Sporting, muito menos o do pesaroso Garfield. Talvez o Gato das Botas, cuja leveza só era igualada pela astúcia e manejo da espada, seja a inspiração mais fiel para um Sporting que persegue ansiosamente um FC Porto que já teve algo de Speedy González, o gato mais veloz no México, mas que está agora a apenas dois pontos de distância. Esperam os leões que, nos últimos jogos, não seja o Remy a cozinhar.

Ora, diante do Estrela da Amadora, também se deu uma espécie de jogo do gato e do rato e o balanço, noutra fase da época, nem seria o mais interessante para os leões. No início de um ciclo que contemplará as decisões da Taça de Portugal e da Champions League e passará por um Dérbi Eterno, em Alvalade, o 1-0 é um resultado bem saboroso, até pelas circunstâncias do jogo.

Ianis Stoica Francisco Trincão Estrela da Amadora Sporting
Fonte: Ana Beles / Bola na Rede

É demasiado utópico olhar para o Estrela da Amadora x Sporting e ignorar que o jogo se realizou entre uma eliminatória exigente diante do Arsenal, depois de uma primeira mão inglória em Alvalade, numa fase da época em que algumas lesões ainda se fazem sentir e em plena sequência de jogos de três em três ou quatro em quatro dias. Também o vento, mais do que o frio, condicionou o jogo. Cada bola atirada para longe corria o risco de ganhar velocidade ou de travar no ar, ficando mais perto do que era o objetivo. Por essa razão, o jogo foi, de parte a parte, mais conservador do que num cenário ideal e de céu aberto.

Apesar de todos estes condicionalismos, não dá para olhar para a exibição do Sporting e de a reconhecer como uma das mais pobres da temporada no que diz respeito à fluidez e à criação ofensiva. Também para isso, e porque o jogo tem sempre um gato e um rato, é preciso destacar os méritos que a solidez defensiva do Estrela da Amadora teve ao longo da partida.

Foi uma exibição madura do Tricolor da Reboleira, contrariando a tendência para o caos que, de tempos a tempos, vai demonstrando e sendo capaz de suster o ímpeto ofensivo dos leões. Kevin Jansson descia para formar uma linha de cinco no momento defensivo e para permitir aos laterais – exibições sólidas de Bruno Langa e, principalmente, de Max Scholze – bater de frente com os corredores do Sporting. O objetivo de João Nuno era claro: proteger o espaço interior, retirar o poder combinativo dos leões em espaço central e manter a bola o mais afastada possível da sua baliza.

João Nuno Estrela da Amadora Rui Borges Sporting
Fonte: Ana Beles / Bola na Rede

Para isso, Ianis Stoica e Abraham Marcus – a principal fonte de chegada ofensiva do emblema da Reboleira –, defendiam por dentro, procurando condicionar a ação dos médios do Sporting e permitindo a Robinho, mais móvel, e a Eddy Doué, mais posicional, muitas vezes assumindo um papel de controlo nas entrelinhas numa espécie de 5-1-3-1 que pretendia controlar os espaços para combinações do Sporting. Esta estratégia retirava grandes possibilidades de saída ao Estrela da Amadora, constantemente atrás da bola, mas não deixou o Sporting confortável. Mesmo quando Morten Hjulmand se começou a projetar mais, aumentando o congestionamento do espaço central, teve o acompanhamento de Rodrigo Pinho, ponta de lança do emblema da Reboleira.

Com este castelo de cartas para derrubar, o sopro do Sporting não teve grande força, particularmente na primeira parte. Rui Borges admitiu uma circulação muito lenta e sem grande capacidade para, no último terço, provocar desequilíbrios ou gerar vantagens. Também, individualmente, foi um jogo abaixo de nomes como Pedro Gonçalvez ou Luis Suárez, limitando a capacidade de o Sporting criar perigo. O envolvimento dos laterais ia sendo a principal maneira de chegar ao último terço, mas Iván Fresneda e Maxi Araújo também não conseguiram dar o melhor sentido a muitas das bolas.

Foi de Francisco Trincão, pela capacidade de baixar em campo para assumir a construção e procurar entradas no sistema defensivo do Estrela da Amadora, e das variações de Zeno Debast para a direita, à procura de Geny Catamo, que surgiram os principais lances de perigo do Sporting na primeira parte. A segunda parte trouxe uma tendência semelhante, mas com uma grande diferença: o golo de Daniel Bragança.

Francisco Trincão Sporting
Fonte: Ana Beles / Bola na Rede

Também aí houve Francisco Trincão, a conduzir da direita para dentro e a perceber a chegada do médio português, mas muito do mérito passa pela capacidade de chegada de Daniel Bragança. O médio cresceu muito nos últimos anos e esta época marca a sua afirmação plena como jogador. Não é apenas um médio de saída de bola e de organização, embora também o continue a ser, e é também cada vez mais um jogador capaz de se desdobrar em campo, quer lateralizando posições, quer invadindo espaços de trás para a frente. Desta feita, pisou a entrada da área para rematar e voltar a dar pontos a Alvalade. Rui Borges disse que Daniel Bragança era um dos reforços de janeiro dos leões e estava certo disso.

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: Já destacou as dificuldades do Sporting perante um bloco baixo e com muitos jogadores atrás da linha da bola e também com os extremos a defender muito dentro. Tendo em conta este posicionamento, qual a importância das dinâmicas nos corredores para lidar com este bloco e quais sente como as maiores dificuldades na implementação das dinâmicas no terço ofensivo?

Rui Borges: É um bocadinho isso. Na primeira parte, a posse foi muito lenta. Tínhamos de fazer a bola andar mais. Percebo a dificuldade, por isso é que digo que o vento acabou por condicionar muito o jogo. Mesmo em receções não é igual. Os jogadores acabam por ter receio de fazer alguns passes porque já tiveram esse sentimento, já fizeram a receção antes e percebem que o vento torna as coisas diferentes e tornou a nossa posse algo lenta. Tínhamos de bascular muito e a bola tinha de andar muito pelo corredor para conseguirmos entrar por dentro, se quiséssemos. Mesmo por fora, tivemos lances em que tínhamos de tomar decisões mais simples, fazer a bola passar na área com muita gente. Nunca metemos a primeira bola, vínhamos sempre atrás tentar passes atrasados e em alguns momentos, ou vínhamos outra vez em posse. Em alguns momentos ganhámos o último terço e tínhamos de tomar decisões simples para ir amassando o adversário e fazê-los sentir que estão a passar mal. Chegámos ao último terço e fomos muito lentos. Não estávamos a ganhar superioridades mesmo com uma ou outra dinâmica que tínhamos. Ao intervalo melhorámos e no início da segunda parte o Dani [Bragança] conseguiu criar algumas superioridades de corredor diferentes. 2×1, 3×2 que na primeira parte não estávamos a conseguir. O Dani estava a tentar vir pegar, mas sempre com um homem na frente para passar, e havia sempre igualdade numérica e dava tempo ao Estrela para se reorganizar e tapar baliza. Foi mais da lentidão da nossa posse do que propriamente dinâmicas da equipa. Sabíamos o que tínhamos de fazer, eles optaram por meter um bloco de cinco, com o médio a encaixar e acaba por ser mais difícil. Jogadores competitivos e intensos em termos físicos e atléticos e é normal que a um ou outro jogador nosso faltasse um bocadinho mais de energia. É natural que isso aconteça. Era um jogo em que tínhamos de competir mais do que jogar muito bem.

Bola na Rede: O Estrela da Amadora foi muito capaz de neutralizar o jogo interior do Sporting, com os extremos a defender por dentro e com as referências bem identificadas. Mesmo quando o Sporting tentava atacar pelas alas – o mister já disse que houve um pequeno problema com o Stoica, que não fez bem aquilo que o mister pretendia – os laterais, com as coberturas próximas do Lekovic e do Jansson, conseguiram controlar o ataque organizado dos leões. Olhando à organização defensiva, o mister considera que esta foi exibição mais consistente da época e que os jogadores responderam bem à tal motivação que o mister pediu na antevisão?

João Nuno: Por aí, sim. Defensivamente, foi das melhores exibições. A melhor exibição foi aqui, com o Casa Pia, onde defendemos e atacámos, que é isso que eu gosto nas minhas equipas. Não gosto só de defender, mas também tenho de saber com quem é que estou a jogar. Do outro lado, temos uma equipa fortíssima e, como eu já disse, não andámos muito para trás. Não há uma média de golos esperados tão baixa do Sporting como esta. Portanto, a minha equipa cumpriu muito bem esse plano. Faltou-nos, sim, em alguns momentos, a ligação no processo ofensivo. Quando chegámos na área, porque tivemos momentos para isso, podíamos e devíamos ter definido melhor. Sofremos o golo com 10, falta falar dessa parte também. O [Rodrigo] Pinho demorou um monte de tempo a entrar. O Pinho, quando vai a entrar, obriga o Robinho a vir a uma zona que não era a dele e obriga-nos a abrir o buraco que o Sporting queria. O nosso golo já é com o Pinho dentro do campo, mas ele vinha a entrar. O golo acaba por ser com dez e mexeu na nossa organização. É um lance. Eu acho que os meus jogadores tiveram uma atitude fantástica, eu gostei muito e acredito que só temos de continuar com esta postura para, nos cinco jogos que faltam, tentarmos somar o máximo de pontos possível. Com esta postura, eu acredito que vamos conseguir!

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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