«Os jogadores e os treinadores passam, mas a organização é que fica: aí começa qualquer projeto vencedor» – Entrevista Bola na Rede a Marco Almeida

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Marco Almeida, antigo defesa campeão pelo Sporting, concedeu uma entrevista em exclusivo ao Bola na Rede onde abordou o seu novo desafio da gestão desportiva.

Em entrevista exclusiva ao Bola na Rede, Marco Almeida , antigo defesa campeão pelo Sporting (1999/2000), falou sobre o seu novo desafio profissional como diretor desportivo. Entre recordações do balneário leonino e a análise à formação em Portugal, Marco Almeida abordou vários tópicos da atualidade.

Bola na Rede: A sua formação enquanto jogador no Sporting e a passagem pelas seleções jovens de Portugal. Como é que essas experiências o moldaram, tanto a nível pessoal como no profissional em que se viria a tornar?

Marco Almeida: Comecei no Sporting com 10 anos e fiz todos os escalões de formação até aos juniores. Entretanto, consegui entrar no plantel sénior, onde me mantive e fui campeão nacional na época de 1999/2000. Foi um progresso no futebol de formação do Sporting, que me deu muito enquanto jogador. No entanto, sempre tive curiosidade em perceber o que acontece para além das quatro linhas. Hoje, nesta minha possível vertente da direção desportiva, é uma forma natural de colocar toda a minha experiência acumulada ao serviço de um projeto.

«Lembro-me perfeitamente que era um grupo extremamente forte e muito unido»

Marco Almeida

Bola na Rede: Focando na sua experiência no Sporting e na conquista do título de campeão, como foi partilhar um balneário vencedor? Além disso, gostava que nos falasse um pouco sobre a sua saída para o Southampton e a passagem por Espanha. Como é que se gere a pressão num clube que percebe ter reais possibilidades de ser campeão?

Marco Almeida: Eu estava a acabar contrato com o Sporting, tinha mais dois anos na altura. Recebi a proposta para ir para o Southampton, em Inglaterra. O que falei com o meu empresário, e a mensagem que passámos ao Sporting, é que não queria sair, mas houve uma reunião onde ficou decidido que seria melhor o empréstimo, ao qual eu acedi. Chego ao Southampton com 19 ou 20 anos. Era a minha primeira experiência no estrangeiro e correu bem, fui muito bem recebido por toda a gente. Tive o privilégio de jogar ao lado de jogadores como Matt Le Tissier, o próprio James Beattie (que na altura tinha a minha idade e ia à seleção sub-21 de Inglaterra) e o Matthew Oakley. Aprendi bastante com esta experiência em Inglaterra; era um tipo de futebol que me agradava e com o qual me identificava. O convite para regressar ao Sporting veio em dezembro, com a entrada do Inácio e do Dr. Luís Duque na direção. Eles souberam que eu estava emprestado e pediram o meu regresso, até porque em cima da mesa havia uma proposta do Benfica. O Dr. Luís Duque entrou em contacto comigo (sabendo que eu iria acabar o contrato) e decidiu renovar o meu contrato por mais dois anos, e é nessa altura que me sagro campeão nacional pelo Sporting. Estando num balneário de campeões, lembro-me perfeitamente que era um grupo extremamente forte e muito unido. Os jogadores que chegaram em dezembro vieram cimentar ainda mais essa ligação de amizade e de valor. Relembro que vieram o César Prates, o André Cruz e o Peter Schmeichel. São jogadores de um calibre muito alto e foi um enorme prazer partilhar o balneário com eles.

Bola na Rede: Olhando para um passado mais recente, verificamos que teve uma experiência como treinador adjunto. Fazendo a distinção entre o ‘Marco jogador’ e o ‘Marco treinador’, como correu o desafio de gerir um balneário? E o que o leva agora a optar por um rumo diferente e abraçar a direção desportiva?

Marco Almeida: Acabei a carreira e decidi estar ligado ao futebol na vertente de treinador, pelo que tirei o curso na Associação de Futebol de Lisboa. Recebi um convite do Camarate, o clube pelo qual até hoje tenho um carinho muito especial por ter sido o primeiro a dar-me a oportunidade de demonstrar o meu perfil. Estavam à procura de treinador para os juniores, eu aceitei o convite, correu muito bem e fiquei lá algum tempo. Depois recebi um convite para ser treinador adjunto noutra equipa técnica, onde as coisas também correram mais ou menos bem, e houve um ano em que até fomos para o Irão. Mas, muito sinceramente, pensei que me adaptaria melhor a essa vertente de treinador. Não é que me tenha adaptado mal, mas não era realmente aquilo que eu queria. Em termos de liderança, sabia muito bem ao que ia; aliás, em praticamente todos os clubes onde estive, eu fazia parte do lote de capitães, logo via-se em mim essa vertente de liderança. Na vertente de direção desportiva, muitas pessoas pensam que um diretor desportivo serve apenas para contratar jogadores, o que na realidade não é assim. É alguém que faz a ligação à administração, define estratégias, cria processos, ajuda a construir plantéis e garante uma visão comum desde os escalões de formação à equipa principal. É nisso que me revejo perfeitamente, e por isso tirei o curso de Gestão Desportiva da Federação Portuguesa de Futebol. Sinto-me à vontade para qualquer projeto. Procuro um projeto com ambição e visão; não procuro necessariamente o maior clube ou orçamento, mas sim uma estrutura onde possa acrescentar valor e construir algo sustentável.

Marco Almeida
Fonte: Marco Almeida

«O diretor desportivo hoje em dia é uma pessoa extremamente importante num clube»

Marco Almeida

Bola na Rede: Relativamente a este seu novo desafio, como perspetiva a posição hierárquica do diretor desportivo num clube? Muitas pessoas ainda não compreendem bem quais são as suas funções exatas e onde deve estar inserido.

Marco Almeida: A posição do diretor desportivo irá sempre fazer a ligação entre o futebol e a direção. No topo pomos o presidente do clube (ou, hoje em dia, as SADs e os investidores), logo abaixo um diretor-geral para o futebol e, depois sim, o diretor desportivo. É ele que faz toda a ligação entre o scouting, a formação, o plantel profissional e tudo o que envolve gerir um clube. Consoante a liberdade dada, o diretor desportivo está habilitado a contratar jogadores e treinadores. Mas, antes de contratar, eu procuraria perceber que tipo de estrutura está montada, pois os jogadores e treinadores passam, mas a organização fica; é aí que começa qualquer projeto vencedor. O diretor desportivo hoje em dia é uma pessoa extremamente importante num clube.

Bola na Rede: Atualmente, sobretudo no futebol sénior da Primeira Liga, nota-se uma grande rotatividade nos plantéis, sendo difícil manter uma base. Tendo em conta a sua experiência, como olha para o papel da formação nos dias de hoje? Quais são as principais diferenças entre os jovens jogadores da sua geração e os atuais, e quais os maiores desafios?

Marco Almeida: Em Portugal fala-se muito de projetos, mas a maior parte das vezes o “projeto” é apenas o próximo jogo. Um verdadeiro projeto é a curto, médio ou longo prazo, dependendo do que é definido pelas direções. Se me pedirem para organizar um projeto a médio/longo prazo, a formação é essencial. Sempre fomos um país formador, temos seleções nacionais fortes e já conquistámos a Liga das Nações e o Campeonato da Europa. A formação é a base de qualquer projeto e temos miúdos ótimos que têm de ter oportunidade de fazer parte. Os próprios clubes grandes vivem de jogadores da formação, e nos escalões mais baixos já não há uma discrepância tão grande, com clubes a formar muito bem. A diferença principal é que hoje em dia há mais oportunidades para os jovens que estão a aparecer. No meu tempo, nomeadamente no Sporting, da minha geração só chegámos três à equipa principal: eu, o Beto e o Dani. Era muito mais complicado e difícil chegar lá acima do que hoje em dia.

Bola na Rede: O facto de ter sido jogador profissional e de já conhecer profundamente o mundo do futebol beneficia-o nesta entrada para o âmbito da gestão e direção desportiva?

Marco Almeida: Neste momento sinto-me com perfeitas condições para assumir um projeto. Tenho a noção de que será a minha primeira experiência na gestão desportiva, mas todos temos de começar por algum lado e têm de nos dar oportunidade de mostrar trabalho. Sendo a primeira experiência, consigo aportar outras coisas derivadas do meu passado enquanto profissional, enquanto treinador e como intermediário entre jogadores. Ganhei uma vasta experiência em todas as vertentes e estou pronto para as pôr em prática.

Bola na Rede: Sei que já recebeu alguns convites para exercer o cargo. Para si, o que é essencial num projeto para que o aceite com convicção? E o que terá faltado nesses convites recentes para que ainda não esteja em funções?

Marco Almeida: Estou disponível para ouvir projetos sérios. Já apareceram um ou dois clubes com os quais simplesmente não chegámos a acordo. E quando digo não chegámos a acordo, não foi a nível financeiro, foi porque eu não me revi naquilo que o clube pretendia. Mais importante do que a divisão em que o clube compete é existir organização, objetivos claros e vontade de crescer. Ainda há muita gente, principalmente nos escalões mais baixos, com uma mentalidade fechada e sem abertura para novas ideias, e por isso alguns clubes não conseguem evoluir. O mais importante, independentemente da divisão, é a vontade de crescer com objetivos claros.

Bola na Rede: Pensando em clubes de menor dimensão, que competem na Liga 3 ou no Campeonato de Portugal, como é que o diretor desportivo aborda o mercado de transferências? Considera viável atrair jogadores estrangeiros para estas divisões?

Marco Almeida: Depende sempre daquilo que o clube é capaz de fazer. Pela experiência que tenho, consegue-se trazer jogadores de fora para essas divisões. No entanto, eu não contrato um jogador apenas pelos dados e não vou contratar sem saber a mais-valia que ele pode trazer. Dou muito valor à formação do jogador português e acredito que há jogadores com enorme capacidade no Campeonato de Portugal e na Liga 3 que saltam rapidamente para a Primeira Liga ou para o estrangeiro. Não vou buscar um jogador ao estrangeiro só porque sim; para vir, terá de aportar muito mais do que aquilo que eu já tenho no clube.

«Há coisas que os dados não mostram; Aí entra a minha experiência enquanto ex-profissional no estrangeiro»

Marco Almeida

Bola na Rede: No futebol moderno, existe uma enorme dependência de dados estatísticos. No entanto, focando na vertente humana, ao contratar um jogador estrangeiro, subsiste sempre o risco da sua adaptação ao novo país – algo que os dados não preveem. Qual é a sua perspetiva sobre isto?

Marco Almeida: Concordo plenamente. Não contrato só pelos dados, mas os dados também são precisos. Há coisas que os dados não mostram. Aí entra a minha experiência enquanto ex-profissional no estrangeiro: adaptei-me melhor a alguns países do que a outros. Acredito que se um jogador vier de fora para Portugal e tiver um bom acompanhamento fora das quatro linhas, o que muitas vezes falta, a adaptação será muito mais fácil. Os jogadores vêm com famílias e sentem falta das pessoas que deixaram para trás. Se o clube fizer esse trabalho fora das quatro linhas, o jogador sentir-se-á muito melhor e tiraremos o maior proveito possível dele enquanto profissional.

Bola na Rede: Qual é a sua opinião sobre o papel e a preponderância do treinador na entrada e saída de jogadores? Se surgir um conflito – por exemplo, o clube querer manter um jogador com o qual o treinador já não conta –, como é que o diretor desportivo gere essa situação?

Marco Almeida: Serei muito direto: o treinador será sempre uma peça fundamental. É o treinador que escolhe os jogadores e sabe com quem quer trabalhar. Da minha parte, enquanto direção desportiva, irei sempre proteger o treinador e o clube, mas defenderei sempre que é mais benéfico o treinador decidir o que acha melhor para o plantel e para o projeto que lhe apresentei. A partir do momento em que lhe apresento o projeto e ele o aceita, teremos toda a abertura, mas ele é quem vai gerir os jogadores da maneira que bem entender.

Bola na Rede: Para terminar, o que ambiciona encontrar pela frente no seu futuro profissional na direção desportiva?

Marco Almeida: Sinto que estou preparado para este desafio da gestão desportiva porque vivi o futebol de várias formas ao longo da minha vida. Quero colocar essa experiência ao serviço dos clubes, ajudando a construir estruturas mais fortes, a desenvolver o talento e a criar projetos sustentáveis. O meu objetivo não é estar no futebol; o meu objetivo é acrescentar valor ao futebol com toda a experiência que fui adquirindo.

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