Rogério Félix é formado em Marketing e Comunicação e um dos fundadores da Claro Creative Group. Neste Tribuna VIP, escreve sobre o novo emblema do Sporting e o processo de renovação dos leões.
Enquanto outros clubes europeus, como a Atalanta ou o West Ham limpam os seus logótipos em nome do minimalismo e por questões claras de marketing, o Sporting rema contra a maré e decide, no seu 120.º aniversário, fazer algo que não fazia desde 2001.
Pela segunda vez neste século, há um novo símbolo no peito dos leões, um rebranding do símbolo de 1945, respeitando os cinco pilares do Sporting: o escudo, a coroa, o leão, as listas e a porta 10A.
Esta mudança vem apenas com um propósito muito bem imposto no vídeo de dois minutos de apresentação da nova identidade visual – novo símbolo, mesma alma.
O maior ponto forte deste marco importante para o futuro do clube é, sem dúvida, a inovação do logotipo nostálgico que é adorado por grande parte dos adeptos leoninos. «Tudo o que fomos a moldar em quem nos estamos a tornar» representa exatamente o sentimento que este símbolo traz a todos os adeptos. Uma homenagem ao espírito leonino, trazendo de volta o leão branco ao centro das atenções e deixando para trás o amarelo que o caracterizava desde o início do século. Também percebemos uma dobra forçada na cauda do leão, parecendo cada vez mais um “S”, inicial do nome do clube.
O que também poderá passar despercebido, é a falta de cor da língua do animal, passando de um vermelho para o branco, fazendo com que o animal passe a ser monocromático. Detalhe a detalhe, passamos a ter um logotipo apenas com duas cores, verde e branco, a verdadeira natureza do Sporting Clube de Portugal.
A nova tipografia dos leões, intitulada de Sporting Sans, foi, sem dúvida, o que mais dividiu as opiniões portuguesas. Alguns adoraram a mudança por trazer um sentimento nostálgico que combina bem com o restante do emblema, outros criticaram pelo choque que é comparativamente ao logótipo antigo e por dar um ar menos profissional a uma equipa tão grande como o Sporting. Embora uma fonte mais volumosa possa, de facto, trazer um ar menos profissional a uma marca, é importante perceber que é difícil readaptar o logótipo de 1945 e, sem perder parte da história, fazer uma mudança drástica à fonte usada na coroa do emblema.
Salta à vista a ligeira curva na fonte, fazendo da sigla SCP, já bastante conhecida, uma verdadeira coroa. Segundo os novos posts do Sporting e algumas mockups que disponibilizou no final do vídeo de apresentação, o clube leonino conta com uma segunda fonte de apoio, fonte condensada sem serifas que irá ser utilizada para textos, enquanto a Sporting Sans será a fonte principal para títulos impactantes nos meios de comunicação digital. Uma coisa é certa, gostemos ou não, a Sporting Sans veio para ficar.
Outra alteração que passou despercebida foi a nuance na cor verde em comparação ao logotipo antigo. Já é característica do clube alterar suavemente o tom de verde utilizado em cada emblema para simbolizar o seu desenvolvimento. Este tom de verde é mais escuro e mais impactante do que o último, traz força e modernidade à readaptação do logotipo dos anos 40.


O elemento sagrado do universo Leonino, a Porta 10A, foi um dos símbolos mais importantes para esta alteração. Usaram a forma da porta para fazer um padrão que veremos bastantes vezes utilizado durante os próximos anos. É importante perceber que a Porta 10A é um dos mais importantes símbolos do Sporting, visto que é a porta que se mantém de pé desde a construção do Estádio José Alvalade, inaugurado em 1956. Já o escudo e as listas foram apenas readaptadas para a realidade do modernismo de hoje em dia e não houve uma grande alteração.
De uma perspectiva de design, a JKR, agência de branding contratada para o rebranding do Sporting, fez o que a maior parte dos clubes não anda a conseguir replicar. Trazer modernidade a um logotipo sem deixar para trás anos e anos de história que moldam os valores da instituição. Numa era tão minimalista que vivemos nos dias de hoje, é difícil inovar sem perder dezenas, senão centenas de anos de história das empresas.
Percebemos que um branding destes é desenvolvido através de 120 anos de muita história do Sporting Clube de Portugal. Desenvolver um branding nunca é pelo flat design em si, mas sim o sentimento que este traz para quem o vê.

