O FC Porto está a menos de nada de se sagrar campeão. Não haverá, no final da época, assim tantas exibições memoráveis dos dragões. Por outro lado, também não haverá, no final da época, nenhuma exibição que marcará de tal forma negativamente a época que seja lembrada de maneira determinante. Nesta consistência, explica-se a principal força dos dragões.
Não houve, em 2025/26, nenhuma equipa tão regular, consistente e competente em todos os momentos como o FC Porto. A exibição na 31.ª jornada, na vitória pela margem mínima diante do Estrela da Amadora, é mais um dos vários triunfos que pode ser usado para explicar a superioridade azul e branca nesta época, talvez não tão sobranceira como a evidenciada por campeões noutros anos, mas evidente de tal maneira que, a três jornadas do fim, o clube de Francesco Farioli se pode sagrar campeão.


Contra o Estrela da Amadora há, acima de tudo, uma primeira parte dominante e repleta de méritos individuais e coletivos. O Estrela da Amadora montou um 4-4-2 defensivo que, depois de uns primeiros momentos de estudo, rapidamente se desmoronou. Robinho ia para a direita bater de frente com Alberto Costa, Ianis Stoica e Rodrigo Pinho dividiam-se entre os centrais e Pablo Rosario e Marcus Abraham encaixava em Jakub Kiwior. Teoricamente, os encaixes limitavam a construção do FC Porto, mas, na prática, havia duas soluções para os dragões conseguirem sair a jogar desde trás.
Em primeiro lugar, Pablo Rosario voltou a aparecer nos momentos certos. Não será o nome mais valorizado do mercado de verão do FC Porto nem da época azul e branca, mas o crescimento em 2025/26 é por demais evidente. Mais do que a polivalência, também ela assinalável, o médio é capaz de dotar os dragões de criatividade a partir de trás no passe. Procura sempre levar a equipa para a frente, descobre linhas de passe que quebrem linhas e força a última linha adversária com facilidade. Soube fugir à marcação do Estrela e, de frente para o jogo, meter o FC Porto mais perto da área adversária.


Mais coletiva foi a forma como o FC Porto conseguiu, à esquerda, criar perigo. Por características individuais, Jakub Kiwior é um lateral esquerdo que funciona melhor mais baixo em campo, sem responsabilidade de incorporar os ataques – embora também o tenha feito uma ou outra vez – e conseguiu atrair Marcus Abraham, mais alto até para o Estrela ter uma opção para a transição. Entre o posicionamento base e alguma passividade aqui ou ali do ponto de vista defensivo, esta característica permitia a Oskar Pietuszewski, quase sempre, encarar o defesa adversário, Max Scholze.
A partir daí, não foi preciso muito para ver o polaco começar a desfilar por tudo o que era terreno. Posto em constantes 1X1, Oskar Pietuszewski começou a driblar e a conquistar metros, superando o alemão (um lateral, por sinal, bastante consistente defensivamente) e chegando a posições de definição. Quando escapava ao duelo individual, procurava vir mais dentro, em zonas de ninguém, para definir em terrenos mais centrais, a pé trocado. Aos 17 anos, é um diamante em bruto com um potencial poucas vezes visto e com uma capacidade de definição já consolidada. Ainda tem arestas a limar e a desenvolver, naturalmente, mas foi o principal fator de desequilíbrio do FC Porto no jogo. A forma recusa a inibição e abraça o jogo, com uma intimidade desproporcional à idade, evidencia o tipo de extremo que o polaco é. Chegou como um nome complicado de dizer e terminará a época a um patamar distante ao pensado originalmente. Não só de futuro se escreve Pietuszewski, mas também de um presente bem evidente aos olhos.
Importa também destacar a forma como Deniz Gul quebrou um longo jejum. Há quatro meses que o turco procurava regressar aos golos, uma busca mais incessante com o papel reforçado na equipa após a lesão de Samu Aghehowa. Na Reboleira, tanta fome até permitiu repetir o festejo e a música que abraça o turco como um lugar de conforto. A repetição do seu nome ao ritmo certo surge como um sussurro apertado. Aliás, se no momento do penálti – cuja vontade em bater só permitiria um desfecho – os gritos de “Deniz, Deniz Gul” só surgiram depois da explosão do golo, certamente nos ouvidos do avançado já ecoavam como um incentivo.


Há histórias engraças na vida. Se em tantos jogos, talvez o no Estádio da Luz o mais evidente, faltou o golo a Deniz Gul, desta feita foi precisamente o inverso. Já houve exibições bem mais conseguidas do turco do ponto de vista associativo e combinativo do que a da Reboleira; ainda assim, por muito que sejam assinaláveis todas as mais-valias de um avançado, este estará sempre julgado e condenado pelo golo. E, esta tarde, Deniz Gul teve o golo.
Haverá outras exibições a reter, principalmente dos primeiros 45 minutos: Alberto Costa vem em crescendo e conseguiu fugir a Robinho e Ianis Stoica – já depois da alteração na disposição das peças na pressão – e funcionou com maior acerto no passe; foram poucos os duelos perdidos por Jan Bednarek e Thiago Silva; Gabri Veiga foi conseguindo aparecer e, quando o fez, o FC Porto cresceu, ao lado de um Victor Froholdt cujos pulmões de alcance infinito que nem precisou de se desmembrar em cinco para dominar o meio-campo.
É certo que a segunda parte do Estrela da Amadora foi mais atrevida. Jefferson Encada ajudou a conter todo o ímpeto de Oskar Pietuszewski, dando músculo ao que o cérebro estava incapaz de travar, Paulo Moreira reteve mais tempo a bola na posse do Estrela da Amadora e Jovane Cabral, nas costas de Rodrigo Pinho, foi dando ordem e sentido ao ataque do Tricolor da Reboleira.


Com Jovane Cabral a prender atenções, as coberturas passaram a ficar mais distantes e os extremos do FC Porto foram mais vezes acionados no 1X1. Por aí se explicam as situações de cruzamento e de finalização que o clube da Reboleira teve ao longo do jogo. Em muitos jogos se falou de sorte no clube azul e branco e de azar no adversário. Sendo esta uma componente inevitável no jogo, é justo dizer que o FC Porto permitiu muito menos situações de golo que os rivais. Se há menos oportunidades, também haverá menos golos. E menos haverá se Diogo Costa estiver na baliza.
Depois do 2-1, surgiu a alteração-chave no jogo. Até então, o banco pouco tinha oferecido a Francesco Farioli e, numa última análise, o FC Porto ficou pior do que melhor. Seko Fofana, nome incontornável na segunda metade da época azul e branca, foi a peça-chave. Passou para a posição mais recuada do meio-campo e, ao invés dos momentos de condução, de transporte, de definição no último terço, deu calma e pausa ao jogo. Pela capacidade atlética por demais evidente, tem nos atributos técnicos e mentais características demasiado subvalorizadas. Guardou a bola, fez o FC Porto defender com bola e, depois do sufoco, permitiu aos azuis e brancos respirar. Só serão precisos mais 90 minutos de sofrimento q.b ao FC Porto antes do título que só a matemática teima em dizer que ainda não está nas mãos azuis e brancas.


BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: O Pietuszewski tem um jogo de grande impacto, principalmente na primeira parte, quer por fora, quer por dentro e conquista o penálti por exemplo. Do ponto de vista tático e individual, onde considera que o extremo mais tem evoluído e em que é que a presença do Kiwior nas suas costas mais o pode ajudar a crescer?
Francesco Farioli: O Oksar teve um impacto muito grande. Pela ação no penálti, mas também… Eu não contei, mas seria interessante ver o número de dribles. O poder que ele trás para campo a cada momento é importante. É um grande jogador, que está a desenvolver-se muito rápido e com o espírito certo. Vamos continuar a trabalhar. É definitivamente um jogador que será importante para o presente do FC Porto e também para o futuro.
Bola na Rede: Ao intervalo faz três alterações e no meio-campo inverte o triângulo. O que pretendia com estas alterações ao intervalo e em que é que a entrada do Jovane para o vértice do triângulo mais ajudou a melhorar a performance ofensiva do Estrela na segunda parte?
João Nuno: Alteraram essencialmente as características dos jogadores, a nossa forma de jogar manteve-se muito semelhante. Começámos com o Ianis e o Pinho na frente, um deles a ir aos centrais e o outro ao Rosario, com o Robinho a fechar por dentro porque sabíamos que o Alberto ia entrar muitas vezes por dentro e que o Kiwior, no outro lado, não ia subir tanto e ia permitir ao Marcus estar pronto para sair em transições. Mais do que o plano e a alteração, foram as características dos jogadores. O Jovane consegue-nos segurar a bola num momento em que o FC Porto vem pressionar, e consegue sair. Nesse momento começámos a conseguir também atacar e jogar. Tivemos oportunidades claras, três bolas ao poste, bolas com a baliza aberta e que conseguimos falhar. É difícil neste momento não fazermos golos destes, mas acho que a segunda parte foi de uma grande atitude e uma demonstração da qualidade que temos aqui no Estrela.

