«Vivemos um futebol onde se cobram demasiados favores» – Entrevista Bola na Rede com Romeu Ribeiro

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«Faltam dirigentes de qualidade em Portugal».

Bola na Rede: Um dos temas recorrentes, parece-me, é a sua perceção de que mais do que os clubes ou as estruturas, de uma forma abstrata, interessam as pessoas. Estarem as pessoas certas nos lugares certos faz toda a diferença, quer na carreira dos jogadores, quer nos clubes. Falta em Portugal essa capacidade de os clubes perceberem de que, se calhar, mais do que ter uma estrutura ou ter infraestruturas, é preciso ter as pessoas certas nos lugares certos, pessoas que sabem o que fazem e que fazem o sabem? Falta isto a mais clubes, mesmo na Primeira Liga?

Romeu Ribeiro: Sem dúvida nenhuma, concordo a 100%. Faz falta ter as pessoas certas nos lugares certos. E acho que em Portugal temos uma falta de dirigentes de qualidade, sinceramente. Acho que vivemos um futebol onde se cobram demasiados favores. Depois, favor aqui, favor acolá, acaba por prejudicar os clubes. Às vezes, temos pessoas em lugares em que não têm capacidade para estar, porque, talvez, tenhamos que pagar o favor. E quando assim é, os clubes não andam para a frente. Eu costumo falar muito disto com pessoas ligadas ao futebol. Faltam dirigentes de qualidade. Falta muito, muito mesmo. Quer em clubes de Segunda Liga, quer em clubes de Primeira Liga.

Bola na Rede: Quem é que precisa de abrir os olhos, os sócios e adeptos?

Romeu Ribeiro: Ah, sem dúvida, sem dúvida! Os próprios sócios e adeptos que, às vezes, olham… Antigamente olhavam mais para os resultados, agora também procuram saber o que se passa dentro do clube. Mas acho que é muito por aí, as estruturas não são equilibradas. Como jogador, no CD Aves, tinha um colega chamado Ricardo Nascimento e ele tinha uma frase muito engraçada, que usava muitas vezes. Guarde essa frase para o resto da minha carreira, que era “o futebol é para todos, mas nem todos são para o futebol”. E isso é claramente verdade! E, hoje em dia, há muita gente que não é para o futebol.

Bola na Rede: Muito mais haveria a dizer sobre este tema, mas pegava agora na palavra decisão – pessoas certas nos lugares certos tomam decisões certas, como falávamos – para perguntar (até porque tenho curiosidade em saber) em que momento é que um jogador, em período de formação, decide (se é que é o jogador a decidir) qual a posição em que quer tirar a especialidade? No seu caso, quando percebeu: “a minha vocação é para médio-defensivo e vou trabalhar para ser um jogador de excelência nesta função”? Quando começou a pensar “bom, se calhar vou deixar de ver vídeos do Ronaldo, porque não vou ter tanta bola, e vou acompanhar outros jogadores, porque percebo que a minha posição é esta”?

Romeu Ribeiro: Acho que isso é um trabalho dos treinadores. Tentar chegar ao pé do jogador e tentar explicar-lhe isso mesmo. Eu, felizmente, tive excelentes treinadores na formação e treinadores que nos chamavam a atenção para isso mesmo, que nem toda a gente podia ser o Cristiano Ronaldo, tinha que haver alguém que, como se costuma dizer no futebol, tocasse bombo [risos]. E isso é um trabalho fundamental dos treinadores, eles é que têm que chegar ao pé dos jogadores e dizer “olha, eu acho que as tuas características são estas o que tu deves fazer é olhar mais para este tipo de jogador, que se enquadra mais com a posição em que vais estar”. Na minha posição de médio-defensivo, na altura, quem jogava no SL Benfica era o Petit e os treinadores diziam-me “olha muito para o Petit”; no FC Porto, jogava o Costinha, diziam para olhar para o Costinha. Há uma história muito curiosa em relação a isso. Quando estava no SL Benfica, na formação, nós costumávamos ir ver os jogos da equipa principal. Um dia, o SL Benfica jogou em casa para a Liga dos Campeões contra o Manchester United FC, na altura com o Cristiano Ronaldo. Lembro-me que, da equipa de juniores, estávamos ali todos juntos e recebemos todos uma mensagem no telemóvel ao mesmo tempo. Tinha sido o treinador – na altura, o Bruno Lage – que nos tinha enviado uma mensagem, nunca mais me vou esquecer. “Hoje, vocês vão estar a olhar para o jogo, mas vão fazer o exercício de cada um estar a olhar para o jogador da sua posição e tentar perceber o que é que ele faz de melhor e de pior. Vejam o jogo como treinadores e não como adeptos”. E foi muito engraçado e vai muito ao encontro do que estava a dizer de quem é que nos deve guiar para nos mostrar qual o nosso tipo de características para determinadas posições. Acho que são os treinadores.

Márcio Francisco Paiva
Márcio Francisco Paivahttp://www.bolanarede.pt
O desporto bem praticado fascina-o, o jornalismo bem feito extasia-o. É apaixonado (ou doente, se quiserem, é quase igual – um apaixonado apenas comete mais loucuras) pelo SL Benfica e por tudo o que envolve o clube: modalidades, futebol de formação, futebol sénior. Por ser fascinado por desporto bem praticado, segue com especial atenção a NBA, a Premier League, os majors de Snooker, os Grand Slams de ténis, o campeonato espanhol de futsal e diversas competições europeias e mundiais de futebol e futsal. Quando está aborrecido, vê qualquer desporto. Quando está mesmo, mesmo aborrecido, pratica desporto. Sozinho. E perde.

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