«Figo e Rui Costa saíram em minha defesa no caso do doping» – Entrevista BnR com Kenedy

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– Doping na antecâmara do Mundial 2002 –

BnR: Onde é que estás quando sabes que és convocado para o Mundial 2002?

K: Estava na Madeira. O Marítimo tinha ido para uma digressão em Macau e eu não fui porque havia a possibilidade remota de eu ser convocado. Eles foram e eu fiquei três ou quatro dias à espera na Madeira. Nesses dias acho que não dormi nenhuma noite, dormi sempre mal. Lembro-me perfeitamente que era 13 de maio ao meio-dia que se sabia os convocados, eu de manhã fui tratar dumas coisas porque tinha que estar preparado na eventualidade de ser convocado. Depois sentei-me na sala a ver a convocatória, a tremer, nervoso. Acho que não foi preciso dizer o meu nome, quando ele diz “Club Sport Marítimo” eu percebi logo. Foi um dia que eu não esquecerei nunca.

BnR: Acusaste positivo no controlo antidoping feito no início do estágio. A substância que te acusaram de tomar foi-te prescrita por quem?

K: Eu sempre disse isso, eu tomava comprimidos para emagrecer e sempre me foram dados pelo Dr. Fernando Póvoas. Nunca na minha vida me passou pela cabeça que os comprimidos tinham alguma substância que fosse proibida. Eu tomava aquilo para emagrecer porque cheguei ao Marítimo com peso a mais e ia controlando o meu peso regularmente, com essa dieta que tinha que fazer tinha que ter cuidado com a alimentação. Os comprimidos ajudavam-me a manter aquele que era o peso ideal para eu poder jogar.

Kenedy acabou por ficar de fora do Mundial 2002
Fonte: FPF

BnR: O que é que sentes no momento em que te informam dos resultados do teste?

K: No primeiro dia em que me confrontam com isso, furosenida era o nome da substância, eu nunca tinha ouvido falar nisso na minha vida. Até hoje é difícil de compreender. Nunca imaginei, porque quem toma alguma coisa sabe que pode ser apanhado, tem que correr esse risco, mas eu nunca. Quando me foram acordar, lembro-me perfeitamente que foi o prof. Rui Caçador que veio ter comigo ao quarto e falou comigo. Quando me contou eu não queria acreditar no que se estava passar.

BnR: O que passa a seguir?

K: Temos uma reunião com os jogadores todos e falou-se daquilo. Vários jogadores saíram em minha defesa, lembro-me perfeitamente do Rui Costa e do Figo. Porque aquelas análises eram feitas para nós, para a Federação e os médicos saberem como é que nós estávamos, não eram para ser tornadas públicas. Eu tenho a certeza que se fosse outro jogador eles não iriam pôr essas análises cá fora. Da mesma maneira que se calhar outros jogadores acusaram substâncias que eram proibidas ou que se calhar não devem ser tomadas, tinha-se um espaço enorme de um mês até à competição. Por isso é o que o Figo disse, e até hoje estou-lhe agradecido, “Mas isto foi feito por nós. Se tinham problemas com o que dava, nós íamos fazer a Madrid ou outro sítio. Isto foi feito por nós para vocês saberem como nós estamos no final da época”. Tudo aquilo sempre me pareceu o elo mais fraco…

BnR: Sentes que houve interesses por de trás do teu afastamento? Empresários…

K: Também, também. Senti um bocado de tudo. Qualquer um que tivesse passado o mesmo que eu pensaria a mesma coisa porque há várias coisas que acontecem logo de seguida, tudo muito estranho.

BnR: Que género de coisas?

K: Não senti um apoio da Federação. Dou-te um exemplo, lembro-me perfeitamente que dois anos depois o Rui Jorge acusou qualquer coisa e o treinador foi o primeiro a dizer “Eu não quero saber o que se vai passar, eu quero contar com o jogador para o Europeu”. Houve muita coisa ali que falhou, ou que podia ter sido feito de outra maneira.

BnR: Era algo que ainda era remediável?

K: Havia um mês inteiro ainda, como os meus próprios colegas disseram. Eu praticamente só chorava e não queria acreditar no que se estava a passar. Jogadores com mais experiência como o Figo e o Rui Costa saíram em minha defesa e explicaram que aquilo tinha sido feito para a Federação saber como é que nós estávamos. Estávamos a um mês ou três semanas do Mundial, dava para ser resolvido até lá. É uma mágoa que eu vou guardar para o resto da minha vida. Uma pessoa quando faz algo sabe que pode ser apanhada, agora quando não se faz nada, não se sabe o que é que se passou e ainda por cima sai da Seleção e do Mundial e fica um ano castigado…

BnR: Como é que se recupera de uma situação como esta?

K: Não se recupera [Kenedy sorri tristemente]. Tive um grande apoio da família, dos amigos, do Marítimo, foram fantásticos. O Presidente, os meus colegas, o mister Nelo Vingada, todos fantásticos. Foi um ano muito difícil, só treinar, treinar e a coisa que mais me fazia confusão era treinar e chegar ao dia de convocatória. Quando saía a convocatória, eu saía do balneário, pegava no carro e ia dar uma volta antes de ir para casa. É uma sensação horrível.

BnR: Quais as consequências disto na tua vida?

K: Foi uma altura difícil, prejudicou-me bastante a nível psicológico, familiar, a vários níveis. A partir daí mudou a minha vida em vários aspetos.

BnR: O Dr. Fernando Póvoas nunca assumiu o erro ou explicou o lado dele?

K: Ele lá saberá no íntimo dele o que se passou. Nós nunca mais falámos, falámos só na altura em que isso se passou, quando eu estava ainda em Macau e depois quando eu voltei falámos um bocado disso. Mas eu às vezes sou um bocadinho atrasado mental, acho que acabei por o defender… se calhar devia ter feito as coisas de outra maneira também com ele mas pronto. Espero que ele tenha a consciência tranquila. Eu tenho a minha consciência tranquila, ele não sei se tem a dele.

Frederico Seruya
Frederico Seruya
"It's not who I am underneath, but what I do, that defines me" - Bruce Wayne/Batman.                                                                                                                                                O O Frederico escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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