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«No início do Belenenses SAD X SL Benfica vieram-me as lágrimas aos olhos» – Entrevista BnR com Tomás Ribeiro

Francisco Grácio Martins · 12 min

Foto: Grasshopper Club Zürich

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Professor Neca entrevista À BnR

Da Liga Revelação veio um defesa-central esquerdino que a Primeira Liga conheceu no Belenenses SAD. Aos 22 anos, Tomás Ribeiro era já capitão dos azuis, mas deixou a braçadeira em Lisboa e foi contribuir para o aumento da diáspora portuguesa na Suíça. Os interessados na sua contratação, falava-se, eram muitos, entre eles o Sporting CP, de quem diz nunca ter recebido qualquer abordagem. Fala-nos sobre a adaptação a partir das instalações do novo clube, o Grasshoppers, onde sente que está há mais tempo do que apenas desde janeiro, ainda com o dia em que o Belenenses SAD entrou em campo com nove jogadores na memória.

– Nova casa –

«Tempo útil de jogo? Na Suíça é sempre a andar»

Bola na RedeAssinaste pelo Grasshoppers até 2026. Já estás a aprender a falar alemão?

Tomás Ribeiro: Sem dúvida que é uma das coisas que, assim que cá cheguei, pensei que fosse importante fazer. Não porque o pessoal de cá não fale inglês, mas obviamente que o alemão é a língua-mãe aqui. O próprio clube proporciona isso. Têm um professor ao dispor e temos aulas de alemão. Como houve alguns jogadores que já estavam mais avançados, teve que se perceber aqui como é que íamos fazer. Mesmo eu, que sou muito curioso, tenho tentado usar algumas aplicações que eles me deram e dar uns toquezinhos, mas não é fácil. Prometo que estou afincadamente a trabalhar nisso.

Bola na RedeO português também deve funcionar aí no balneário.

Tomás Ribeiro: Funciona muito e funciona bem.

Bola na RedeQue papel têm tido os portugueses na tua integração?

Tomás Ribeiro: Estaria a mentir se dissesse que não foram muito importantes. No entanto, temos um balneário muito aberto. Ninguém chega ao Grasshoppers e tem dificuldade em entrar no grupo. Sinto-me como se estivesse aqui há mais tempo do que só desde janeiro.

Bola na RedeEstás aí a morar sozinho?

Tomás Ribeiro: Já tive cá a minha namorada, já tive cá os meus pais, mas estou cá a viver sozinho.

Bola na RedeÉs natural de Lisboa e jogaste sempre por aqui. Nesta tua primeira experiência fora, do que é que tens sentido mais falta?

Tomás Ribeiro: Vou sentindo falta de algumas coisas, mas por haverem muito portugueses aqui e por a Suíça ser um país muito multicultural, consegue-se arranjar sempre muitas coisinhas tipicamente portuguesas. Tenho alguma independência ao nível de cozinhar e, às vezes, gosto de inventar, mas falta sempre aquela ida àquele restaurante, aquele prato da avó e do avô. Essas coisas, de vez em quando, apetece. Uma pessoa parece que está a fazer aquele prato que está a imaginar, do restaurante ou da avó, e aquilo sai completamente ao lado.

Bola na RedeFala-me da tua adaptação. Já te perdeste a ir para o centro de treinos?

Tomás Ribeiro: Não, não. Isto aqui é espetacular. Estamos aqui a 15 minutos do aeroporto e a 20 do centro da cidade. Assim como eu cheguei, chegaram mais jogadores, inclusivamente, o Bruno Jordão, que também é português. Eles são muito preocupados em arranjar-nos logo casa, o que não é uma coisa fácil aqui, ainda que, como tinha saído um jogador, acabei por ficar com a casa dele. Preocupam-se muito que os jogadores tenham as condições básicas como casa, carro ou mesmo tarifário. Portanto, nada disso foi muito difícil. Foram tudo coisas tratadas na primeira semana de trabalho e coisas feitas em dias.

Bola na RedeDepois de todos os rumores em que estiveste envolvido, aterraste no contexto que esperavas?

Tomás Ribeiro: Entendi que era um projeto que me interessava muito, porque senão tinha ficado no Belenenses SAD, a quem devo imenso por me ter lançado na Primeira Liga e por me ter deixado usar a braçadeira de capitão. Estou num contexto que me vai permitir evoluir muito. É um futebol muito diferente do português, ainda que não seja, de todo, inferior. Vê-se que é um clube que não tem medo de apostar. Só posso agradecer pela oportunidade.

Bola na RedeQuão perto estiveste de ser reforço do Sporting CP?

Tomás Ribeiro: Nunca soube de nada. O meu foco estava mesmo no Belenenses SAD. Todos os dias saíam notícias diferentes. Sempre relativizei as coisas e soube organizá-las. Por isso, é que tenho um empresário. Estive em contacto com ele, mas não estava preocupado se ia ser reforço daqui ou dali. Até ao momento em que ele me ligasse, ia ser um rumor. A partir do momento em que ele me ligasse sobre o que quer que fosse, pensar-se-ia nisso. Sobre o Sporting CP eu nunca tive nenhuma abordagem.

Bola na RedeMudaste de uma equipa que lutava para não descer em Portugal para uma equipa que luta por não descer na Suíça. Apesar de tudo, sentes que evoluíste no patamar competitivo?

Tomás Ribeiro: Muito. Não estamos na melhor situação agora. O clube sabe, o grupo sabe. temos tido umas exibições melhores, outras piores, o que é normal num grupo jovem como o nosso, mas não tenho dúvidas nenhumas que mais tarde ou mais cedo os resultados vão aparecer.

Bola na RedeAs condições do clube são muito diferentes do que tinhas em Portugal?

Tomás Ribeiro: Sim, bastante. Aqui é muito, muito bom.

Bola na RedeEm que aspetos é que melhorou?

Tomás Ribeiro: A capacidade de termos três campos relvados e dois sintéticos. Aqui, equipas como o BSC Young Boys ou FC Lausanne-Sport têm campos sintéticos. É importante nessas semanas trabalhar no sintético, porque é completamente diferente jogar num sintético ou jogar num relvado. Já não sabia o que era treinar num sintético há muito tempo. O Grasshoppers tem muitas condições de ginásio, mesmo a parte do spa é espetacular. Temos um complexo muito bem equipado.

Bola na RedeSe estabelecêssemos um paralelo com o futebol português, estaríamos a falar dos de condições ao nível dos clubes que ocupam os primeiros lugares?

Tomás Ribeiro: Sim. Top-5, provavelmente.

Bola na RedeQuais são as principais diferenças que destacas entre o futebol português e o futebol suíço?

Tomás Ribeiro: No futebol português fala-se imenso do tempo útil. Eles aqui é sempre a andar. O futebol aqui é sempre jogado. As equipas procuram sempre jogar para a vitória. Não há a procura pelo pontinho, as equipas tentam sempre vencer. É um futebol extremamente competitivo. Diria também que é um bocadinho mais físico.

Bola na RedeQuem é que achas que são os principais responsáveis por esse tempo útil de jogo?

Tomás Ribeiro: Toda a gente tem um papel importante nisso. Os jogadores porque não procuram aquele tipo de faltas fraquinhas, os árbitros por não darem esse à-vontade aos jogadores e mesmo a cultura que já está imposta na Suíça que é a de deixar andar. Se o árbitro errar, que é humanamente possível, tem a oportunidade de ir ao VAR, em algumas situações, obviamente, e voltar atrás na sua decisão.

– Passado Azul –

«No início do Belenenses SAD X SL Benfica vieram-me as lágrimas aos olhos»

Bola na RedeAcabaste por ser um dos primeiros grandes produtos da Liga Revelação. Que importância teve a competição para ti?

Tomás Ribeiro: Imensa. A Liga Revelação foi uma das melhores coisas que já criaram em Portugal. O jogador português é muito bom a nível técnico e tático e, ao mesmo tempo, é muito trabalhador. A Liga Revelação vai continuar um papel muito importante no que toca a jovens que possam, ao fim e ao cabo, ver facilitada a transição de júnior para sénior.

Bola na RedeAcontece também que na formação não participaste com regularidade, por exemplo, em fases finais dos campeonatos nacionais ou na Youth League, como acontece com outros jogadores.

Tomás Ribeiro: Fez-me crescer a outros níveis. Nunca tive o peso de jogar em equipas ditas grandes em Portugal, mas creio que ter jogado no CAC, no Clube de Futebol “Os Belenenses”, cresci mentalmente como atleta. Aprende-se muito. Como em tudo na vida, seja nas situações positivas, seja nas situações não tão positivas, há sempre algo de bom a tirar. Mesmo nas próprias lesões. No futebol há uma coisa boa: no dia a seguir, temos sempre mais uma oportunidade. Portanto, se as coisas não estão a correr bem e deitarmos a toalha ao chão, aí é que as coisas não vão mudar.

Bola na RedeNa maior parte do tempo, enquanto sénior, estiveste com o mister Petit. Ele soube espremer ao máximo as tuas capacidades?

Tomás Ribeiro: Para um jovem como eu, tive que trabalhar e ouvir muito para garantir um lugar a titular. Muito lhe devo a ele. Uma das características que tive que mudar foi o responder e ser teimoso. O próprio mister trabalhou isso comigo. Bebi muito de todos os treinadores, mesmo os da formação. Tive treinadores que, até agora, sempre quiseram retirar o melhor de mim.

Bola na RedeA braçadeira pesou no braço de um jovem de 22 anos?

Tomás Ribeiro: A braçadeira é um símbolo de orgulho e responsabilidade. Não tem a ver com privilégios e benefícios. Em onze jogadores de campo, há um que tem que usar a braçadeira, mas há onze que têm que ter um papel determinante no jogo, no treino ou no balneário. No Belenenses SAD, até podia ser o capitão e usar a braçadeira, mas há um capitão dentro do balneário, um capitão que põe a música. Cada um de nós é diferente e, por ser diferente, há de ser mais forte nuns aspetos do que noutros. Foi um orgulho tremendo usar a braçadeira este ano no Belenenses SAD, mas cada jogador deve tentar tirar o capitão que tem dentro de si.

Bola na RedeComo capitão, o que é que disseste aos nove jogadores que foram para dentro do campo no jogo frente ao SL Benfica?

Tomás Ribeiro: Disse-lhes que a vergonha estava a acontecer e que ia ser um dia negro para o futebol português, mas que entrassem dentro de campo e honrassem o símbolo que tinham ao peito. Estava a imagem de todos em causa. Essa situação não foi fácil. Lembro-me de estar a assistir àquilo tudo e não parecia real. Não tenho palavras para descrever. Foi muito mais do que estranho. Pesou. No momento do apito inicial, vieram-me as lágrimas aos olhos. Na altura, estava com a minha família em casa em isolamento. Aquilo custou-me muito. Viram-se tantos jogos de outros campeonatos serem adiados. Por que não o Belenenses SAD X SL Benfica ser adiado? Não o foi. Ainda tentei falar com eles no intervalo e falámos depois do jogo. Não é fácil retirar coisas positivas daí, mas há.

Bola na RedeComo por exemplo…

Tomás Ribeiro: É um assunto delicado. A forma como nos manifestámos no Instagram mostrou o espírito de grupo. O quão longe isso chegou mostra o dia negro que foi para o futebol português.

– Canivete suíço –

“O trabalho de apoios e a comunicação são os dois aspetos fundamentais para trabalhos mais defensivos”

Bola na RedeE quanto ao estilo de jogo da equipa? Sentiste que também aí te integraste bem no Grasshoppers?

Tomás Ribeiro: Bastante. O mister [Giorgio Contini] dá-me muita liberdade para falar com ele e dentro do próprio jogo. É engraçado que vim de uma equipa que jogava numa linha de cinco para uma equipa que joga maioritariamente com uma linha de cinco também. A adaptação tem sido espetacular, porque os meus colegas também o proporcionam assim.

Bola na RedeSentes-te um jogador talhado para jogar numa linha de cinco?

Tomás Ribeiro: Gosto bastante de jogar numa linha de cinco. Não digo se prefiro ou não prefiro, porque quero é jogar.

Bola na RedeOs centrais de fora, posição que costumas ocupar, nestes sistemas de cinco defesas, até costuma ser bastante exigente. Dependendo da abordagem da equipa, se o lateral salta no lateral contrário ou não, há ajustes que são necessários fazer.

Tomás Ribeiro: Os centrais de fora acabam muitas vezes por fazer de laterais quando a bola está nesse corredor. É uma posição que, muitas vezes, é mais exigente. Depende também do tipo de pressão. Se consegues fazer uma pressão eficaz, acaba por ser muito fácil.

Bola na RedeDe onde vem a tua capacidade de, mesmo sendo central, teres bola, a colocares no chão e seres protagonista com ela?

Tomás Ribeiro: É algo que sempre me deu prazer ver e que me dá prazer de fazer também. O meu papel principal é defender, mas procurei sempre trabalhar um pouco mais à frente. Não perdendo a capacidade de defender, tentei explorar a capacidade de ter a bola no pé, seja através do passe mais curto ou do passe mais longo.

Bola na RedeAlguma vez tiveste algum treinador que te castigasse se apostasses no chutão na frente?

Tomás Ribeiro: Não. Tive foi um treinador que me ensinou a tentar fazer com que uma interceção se tornasse num passe que possibilite uma transição rápida ou ficar com bola. Hoje, tenho essa preocupação.

Bola na RedeAtualmente, o momento de pressão está muito desenvolvido e é um aspeto em que as equipas apostam bastante em termos estratégicos. Tu, como central, és exposto muitas vezes a saídas de jogo em zonas baixas do campo. Sentes-te confortável em jogar contra pressões altas? Consideras que tens que dar mais uso à criatividade por teres que jogar muito com aquilo que o adversário te dá?

Tomás Ribeiro: Sem dúvida. Há cada vez mais a preocupação de se pressionar bem e de se pressionar, principalmente, no momento certo. Não sei quantas equipas há no mundo, se é que há alguma, que consigam pressionar alto durante 90 minutos. A pressão alta tem que ser feita com cabeça, tronco e membros. Tive um treinador que nos dizia para pressionarmos muito forte durante os primeiros dez minutos. A partir daí, abrandávamos um pouco. Nos últimos dez minutos da primeira parte, voltávamos. Ou seja, acaba por ser um pouco estratégico. Se me sinto capaz de lidar com pressões altas? Sinto, mas isso é algo que acaba por ser muito coletivo. Mesmo que eu me sinta capaz, se a equipa não se sentir capaz, acaba por não funcionar. Gosto de sair por trás, sinto-me confortável, ainda que, às vezes, essa pressão alta possa criar espaço nas costas da defesa, da linha média ou da linha avançada do adversário. Por isso é que o pressionar alto pode criar muitas dificuldades à equipa que tem bola, mas, se não for feita como deve ser, pode criar muitas dificuldades à equipa que está a pressionar e ser mais fácil de a desmontar.

Bola na RedeUma das características que tu também tens é o jogo de apoios. Valorizas esse aspeto?

Tomás Ribeiro: Muito. Tenho que agradecer muito aos treinadores que tive, porque foi um aspeto que foi sempre alvo de trabalho em treino. Esses pequenos detalhes acabam por se tornar muito importantes ao nível de jogo. Os apoios são uma das coisas mais importantes, ainda para mais numa equipa que queira, por exemplo, pressionar alto.

Bola na RedeIsso é sempre complementado por outros aspetos como os alinhamentos e os ajustes.

Tomás Ribeiro: Diria que o trabalho de apoios, que é algo mais técnico, e a comunicação são os dois aspetos fundamentais para trabalhos mais defensivos. Por exemplo, quando cheguei cá, dois, três dias depois, estreei-me pelo Grasshoppers em Sion. A comunicação era toda feita em inglês. Para me virar para a esquerda, para a direita, para a frente, para a última linha de pressão, tinha que falar inglês, inglês, inglês. Nem sempre o consegui fazer com sucesso. Ora às vezes me saía em português, ora às vezes pensava em português e quando me saía em inglês já era tarde. Foi algo muito desafiante. É nesses pequenos aspetos que vou crescer bastante.

Francisco Grácio Martins

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