Andrés Weiss é uma das figuras em crescendo dentro do jornalismo espanhol, especializando-se no futebol inglês e no alemão, de onde parte da sua família é natural. Ficou conhecido pelo público geral a partir do canal ‘La Media Inglesa’ e consolidou-se no seu projeto a solo ‘Andrés Weiss – El Germarradar‘. Conhecedor nato do desporto rei na Alemanha, sendo que habitualmente comenta partidas da Bundesliga na DAZN España, o jornalista concedeu uma pequena entrevista ao Bola na Rede, para abordar a eliminatória entre o Friburgo e o Braga.
Bola na Rede: Olá, Andrés. Um gosto estar a falar contigo. Agradeço-te teres aceitado o nosso convite.
Andrés Weiss: Olá! O prazer é todo meu!
Bola na Rede: Gostaria que fizesses uma análise de como joga este Friburgo.
Andrés Weiss: É uma equipa quiçá ‘contracultural’ em relação ao que estamos habituados a ver no futebol alemão. Vimos o Estugarda e o FC Porto esta época frente a frente na Europa League, o Bayern Munique e o Sporting a jogarem para a Champions League e acho que é uma equipa que não, salvando as distâncias ao nível de plantel, é o usual na Alemanha. Quando tem que pressionar, certo que pressiona, fez isso muito bem contra o Celta e ao Bayern Munique fez uma pressão muito bem sucedida durante a primeira meia hora. Contudo, se tiver que baixar o ritmo, fá-lo sem problema. Se tiver que travar os jogos, faz isso igualmente. Tem jogadores com muito bom toque de bola, mas não necessariamente aposta sempre por um jogo de posse muito exagerada. A equipa pressiona quando tem que pressionar, joga com a bola no pé quando tem que fazer. O Friburgo é muito maleável e pode adaptar-se bastante bem ao que o resto da equipa necessita e ao que a partida em concreto está a pedir.
Bola na Rede: Num podcast, relacionado com a eliminatória entre o Friburgo e o Celta de Vigo, fizeste uma comparação entre os alemães e o Getafe, ao ser questionado sobre qual a equipa da La Liga que seria mais comparável ao Friburgo. Pedia-te que fizesses o mesmo comparativo, mas com um emblema mais conhecido.
Andrés Weiss: É uma equipa muito difícil de comparar. A comparativa com o Getafe merece uma explicação: acredito que não se valoriza suficientemente o trabalho que está a realizar a turma de Madrid. Acho que José Bordalás é um grande treinador e imaginamos o Getafe como uma equipa que perde tempo constantemente, um emblema muito duro e intenso. O Friburgo quando tem que colocar o jogo com um ritmo mais lento, mais parado, com menos jogo efetivo, é capaz de o fazer. Mas, tal como Getafe, tem armas para realizar uma transição e ‘matar-te’ no espaço, procurar o contra-ataque. A mim recorda-me em alguma ocasião, sem ter visto tanto assim, o estilo de jogo que Ruben Amorim colocava em campo nos jogos do Sporting em Champions League. Recordo-me do encontro frente ao Manchester City, de 2024/25, que acaba com um 4-1 para os leões. O Sporting era uma equipa que também tinha muito bola, no futebol português principalmente, mas quando jogava na Europa propunha um jogo mais vertical, com uma maior contenção. Era uma equipa muito potente na busca do espaço e que sabia pressionar. Podemos comparar por aí, mas acho que não existe a possibilidade de fazer uma comparação direta. O Friburgo faz as coisas de uma forma única e essa é uma das razões para o sucesso.
«O Friburgo recorda-me recorda-me em alguma ocasião, sem ter visto tanto assim, o estilo de jogo que Ruben Amorim colocava em campo nos jogos do Sporting em Champions League».
Bola na Rede: Que nomes temos que ter em conta neste Friburgo?
Andrés Weiss: Há vários nomes interessantes. O primeiro é uma lenda absoluta do Friburgo e da última década do futebol alemão: Vincenzo Grifo, germano-italiano que atua a médio ofensivo, que pode jogar nos lados, tem bom toque de bola, é ótimo a bater bolas paradas. Fez um golaço contra o Celta de fora da área. Há mais um par de futebolistas a ter que se citar do meio campo para a frente. Johan Manzambi, que posso já adiantar que este verão vai custar muitos milhões. O Nápoles, o Bayern Munique e o Manchester United estão interessados. Já se colocou uma fasquia acima dos 40 milhões de euros. É um futebolista com muita chegada, é um médio completo, comparado com Ballack na Alemanha, devido à sua capacidade nos duelos no meio campo, além de aparecer no ataque, procurando contribuir. Depois existe um médio ofensivo, que conta com o estilo alemão, sendo mais um segundo avançado capaz de cair nas alas: Yuito Suzuki, japonês que vive um bom momento. Também tenho que citar o guarda-redes e um dos centrais. Noah Atubolu é mais um jogador que vai ser colocado na órbita de várias equipas, foi recentemente apontado ao Atlético Madrid, também se fala do Manchester United, também do Borussia Dortmund, do Bayer Leverkusen, do Inter… há mesmo muitos interessados. Acho que é um guarda-redes que vai lutar pela titularidade da seleção da Alemanha na próxima década. Matthias Ginter é um experiente central que as pessoas devem-se recordar dele pelas passagens pelo Borussia Monchengladbach e Borussia Dortmund, além de ter representado a Alemanha. Está a consolidar-se como um vencedor de duelos nesta fase da carreira, conseguindo disputar lutas corpo a corpo com rivais. É igualmente forte na bola parada ofensiva. É importante destacar que o Friburgo é uma das melhores equipas que melhor ataca a bola parada na Europa. O Braga pode sofrer um pouco por aí.
Bola na Rede: Atubolu é um absoluto expert nas grandes penalidades. Achas que a eliminatória pode ser resolvida por este fator?
Andrés Weiss: Mentiria se não te dissesse que numas meias-finais da Europa League tudo é possível. O próprio Friburgo esteve perto de disputar as grandes penalidades agora nas meias-finais da Taça da Alemanha, foi a prolongamento contra o Estugarda e acabaram por perder no último minuto. Não estava o Atubolu em campo, mas sim o Florian Muller, o guarda-redes suplente, que fez um jogo muito bom. A minha aposta é que a eliminatória não vai ter nem prolongamento nem penáltis, é a minha intuição. Acredito que nesta fase final da época, com as equipas já no limite de reservas, acho mais difícil que existam prolongamentos, acho que em janeiro/fevereiro/março faz sentido, onde as equipas estão num melhor ponto físico, capazes de responder e reagir. Digo isto depois de um prolongamento na Taça da Alemanha, mas acho que estão num ponto físico distinto e o Friburgo e o Braga podem sofrer com isso. Claro que isto é uma intuição minha, completamente pessoal.


Bola na Rede: Acreditas que esses 30 minutos a mais frente ao Estugarda podem ser fatais para o estado físico do Friburgo? Vimos algumas dificuldades na partida seguinte, contra o Borussia Dortmund…
Andrés Weiss: Temos que ter em conta que contra o Borussia Dortmund, Julian Schuster optou por realizar uma grande rotação, jogou o Kubler, o Hofler, o Holer… acho que seis titulares ficaram no banco a descansar. Eles assumiram que os jogos importantes contra Estugarda e Braga eram os importantes, não o do Borussia Dortmund, tendo em conta que já é impossível lutar pelo top 6, mas que dependem de si mesmos para jogar Champions League, caso vençam a Europa League. Colocaram todos os ovos na cesta das competições a eliminar. Não acho que cheguem cansados devido à rotação, devido ao descanso, mas é claro que os 30 minutos pesam muito no nível anímico. Se te eliminam nos penáltis, embora não seja uma lotaria, eliminaram-te quando tens a mesma probabilidade de passar ou ser eliminado, sensivelmente. Já quando lutas no prolongamento e procuras chegar aos penáltis, mas cais no último minuto, pode influenciar o teu estado anímico.
Bola na Rede: Jan-Niklas Beste passou por Portugal, mais precisamente pelo Benfica, ainda que sem grande sucesso. Pergunto-te qual a tua opinião sobre ele e qual o momento que vive?
Andrés Weiss: A verdade é que o passo pelo Beste pelo Benfica custa-me a entender. A carreira do Beste é muito curiosa. Ele é formado no Borussia Dortmund, depois vai para o Heidenheim, onde explode, ajuda-os a classificar para a Conference League. A passagem pelo Benfica é atípica, não sei se existia algum tema de agentes. Ele cruza-se com o Roger Schmidt durante pouco tempo. Possivelmente foi o Roger Schmidt que o contratou, mas com o despedimento do treinador, viu-se numa situação distinta. Em janeiro assina pelo Friburgo e o ano passado custou-lhe um pouco. Esta temporada está a um nível tremendo. A eliminatória que ele fez contra o Celta foi uma barbaridade. Faz centros, parte para o 1×1, é ótimo a bater pontapés de canto, cruza bem. Associado a tudo isto, ajuda muito na defesa. Na partida de ida contra o Celta, os galegos podem aparecer com muito perigo na área e ele salva esse lance, quando ainda estava 0-0. Se o Celta tivesse feito o golo, a eliminatória podia ter mudado bastante. Está a um nível muito bom, um jogador que Nagelsmann deveria ter em conta para o Mundial 2026.
«Jan-Niklas Beste Está a um nível muito bom, um jogador que Nagelsmann deveria ter em conta para o Mundial 2026».
Bola na Rede: Esperavas esta evolução do Friburgo enquanto instituição?
Andrés Weiss: É uma equipa que tem estado a trabalhar muito bem nos últimos anos. Uma equipa que está a crescer muito, com uma estrutura muito fiável, muito sólida, com um estádio novo e adeptos fiéis. O Friburgo também trabalha muito bem a formação, já disputaram a final da Taça. Estão habituados a ficar na parte elevada da Bundesliga. A mim surpreende que na primeira vez que estiveram nos quartos de final, conseguissem passar de uma forma tão rotunda para as suas primeiras meias-finais de Europa League. É uma equipa sem experiência nestas fases finais e não está a acusar qualquer tipo de pressão. Não acusou frente ao Celta de Vigo, vamos ver no total da eliminatória contra o Braga. A verdade é que está a ser uma das surpresas agradáveis desta prova. A estrutura é muito sólida, constituída na última década. O seu treinador foi eleito na época passada o melhor do futebol alemão, à frente de Vincent Kompany e Hansi Flick.
Bola na Rede: Para terminarmos, que conselhos dás aos portugueses que estarão em Friburgo durante a segunda-mão?
Andrés Weiss: Espero que desfrutem, é uma cidade maravilhosa. Os adeptos do Friburgo são muito amigáveis. Os adeptos do Celta não passaram por qualquer problema. A somar a isto, se disserem que são de perto de Vigo, os adeptos do Friburgo vão receber-vos de braços abertos. Eles estavam em Vigo e se merecia a pena ficar duas semanas e descer até Braga, já que está perto (risos). Têm que ir à Praça da Catedral, que tem um mercado todos os dias e existe muito ambiente. O Europa Park é um estádio super bonito, gosto muito de ir lá. É muito ecológico e está pensado para sustentabilidade. Claro que tem que existir cuidado. A minha principal recomendação é que não gravem os adeptos do Friburgo, ainda que a maioria seja tudo pessoas normais, pacíficas. Nas visitas ao estrangeiro é diferente. Dentro da cultura do futebol alemão não está bem visto que te filmem e isso pode gerar um tipo de fricção. Claro que isto não significa que vai acontecer algo. Vão pedir-te para parar de gravar. Aconselho a evitar ou gravar algo mais de longe.



