«O futebol é visto como uma indústria e um clube é visto como uma empresa e isso requer resultados imediatos» – Entrevista Bola na Rede a Filipe Martins

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Filipe Martins é um nome incontornável no que ao futebol português diz respeito. Depois de uma carreira como jogador, iniciou o caminho nos treinos nas distritais de Lisboa, no futebol de formação, tendo escalado a pirâmide até ao topo da Primeira Liga. Do Casa Pia ao Estrela da Amadora, do futebol chinês à mais recente experiência do Chaves, o treinador fala em exclusivo com o Bola na Rede. Dos métodos ao balneário, das decisões difíceis às razões para o insucesso, Filipe Martins é o mais recente entrevistado, numa conversa que tem o futebol no círculo central.

Entrevista conduzida por Diogo Ribeiro e Mário Cagica Oliveira

«Há jogadores que trazem vícios que muitas vezes nos dão dores de cabeça, porque nós gostamos que as coisas sejam assim, mas também nos abrem algumas ideias em que nós nem tínhamos pensado».

Filipe Martins

Bola na Rede: Muito obrigado por este bocadinho. É uma estreia aqui, no nosso estúdio, e para nós também. É um gosto ter-te aqui conosco. Nas nossas entrevistas vamos ter uma abordagem um bocadinho diferente, conhecer um bocadinho do teu percurso, das tuas ideias e esse é o ponto fundamental. Vamos sempre arrancar as entrevistas de forma rápida e impactante, ou seja, com pergunta rápida e resposta ainda mais rápida. Vamos a isso?

Filipe Martins: Vamos lá.

Bola na Rede: Ganhar 1-0 ou ganhar 5-4?

Filipe Martins: Ganhar 1-0.

Bola na Rede: Balneário em silêncio ou balneário com energia?

Filipe Martins: Balneário com energia.

Bola na Rede: Treinar em Portugal ou treinar no estrangeiro?

Filipe Martins: Treinar em Portugal.

Bola na Rede: Uma equipa perfeita em posse ou uma equipa perfeita em transições rápidas?

Filipe Martins: Em transições rápidas.

Bola na Rede: Jogar em casa ou jogar fora?

Filipe Martins: Jogar em casa.

Bola na Rede: Defender bloco baixo ou defender bloco alto?

Filipe Martins: Gostava que fosse bloco alto sempre, mas nem sempre é possível e tenho defendido muitas vezes em bloco baixo. 

Bola na Rede: Finalmente, jogar a 3 ou jogar a 4?

Filipe Martins: A 3.

«É muito importante também, mais do que querermos logo impor as nossas ideias, adaptarmo-nos um bocadinho à realidade do clube».

Filipe Martins
Filipe Martins Casa Pia
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Bola na Rede: E são esses os princípios básicos do seu jogo?

Filipe Martins: Acho que acima de tudo temos que nos adaptar àquilo que temos, à nossa disposição. É óbvio que é sempre mais confortável quando temos a possibilidade de montar um plantel como nós queremos, mas isso nem sempre é possível, às vezes, pela ausência de pré-época ou de entrarmos num clube a meio de uma época. É muito importante também, mais do que querermos logo impor as nossas ideias, adaptarmo-nos um bocadinho à realidade do clube. Há clubes que têm isso bem definido, até mesmo como projeto, um sistema tático pré-definido. Até hoje, nunca ninguém me impôs um sistema tático. Já joguei a 4, já joguei a 3. Sinto-me muito confortável a jogar a 3. Mas qualquer que seja o sistema, os sistemas são um bocadinho híbridos, porque não há nenhum sistema que seja estanque. Ou seja, muitas vezes uma linha de 4, com a descida de um extremo passa para uma linha de 5, se acompanhar o lateral adversário ou se fechar. Hoje em dia, há muitas nuances táticas. Dentro do próprio jogo há uma base, mas mesmo numa linha de 3, quando o nosso lateral ou o nosso central de fora vai fazer a dobra ao lateral e sobe na pressão ao lateral adversário, passa a ser uma linha de 4. Acaba por haver muitas nuances dentro do próprio jogo. Agora, gosto bastante do 3-4-3. 

Bola na Rede: Há algo inegociável na tua ideia? 

Filipe Martins: Costumo dizer que o modelo de jogo é uma coisa aberta. Acho que há jogadores com os seus vícios. Há jogadores que trazem vícios que muitas vezes nos dão dores de cabeça, porque nós gostamos que as coisas sejam assim, mas também nos abrem algumas ideias em que nós nem tínhamos pensado, principalmente com bola. Há características nos nossos jogadores, até de vícios que vêm de trás, de outros treinadores, que muitas das vezes nos abrem novas ideias para o modelo de jogo. Acho que o modelo de jogo é uma coisa que está muito aberta a novas ideias. É óbvio que temos de ter uma base bem definida daquilo que queremos, mas depois também temos que ter essa abertura. O meu modelo de jogo, ao longo dos anos, evoluiu. Acho que há uma evolução na minha forma de pensar o jogo e acho que isso é transversal a todos os treinadores. Todos os treinadores vão sempre tentando melhorar e as ideias vão sempre fluindo.

«Acho que se criou muito essa identidade do 3-4-3 no Casa Pia, que até hoje está lá bem evidente e bem patente».

Filipe Martins
Filipe Martins Casa Pia
Fonte: Cláudia Figueiredo / Bola na Rede

Bola na Rede: Quando aceitas um projeto, normalmente vais adaptar-te e vais ver um bocadinho sobre a equipa. Há algum exemplo ou algum momento que te lembres em que chegaste à equipa, viste os jogadores tens à tua disposição e tiveste uma ideia completamente diferente e percebeste que o modelo de jogo que tinhas idealizado não era esse e que te tinhas de adaptar rapidamente. Já te aconteceu, de forma muito radical, teres de te adaptar a um contexto que não estavas à espera em termos de jogo? 

Filipe Martins: Se calhar a situação mais vincada, provavelmente, é a minha passagem de uma linha de 4 para uma linha de 5 no Casa Pia. Nós, no Casa Pia, no primeiro ano, jogámos com uma linha de 4. Depois no segundo ano, no ano da subida, passámos para uma linha de 5 derivado a algumas debilidades que estávamos a ter, principalmente na bola parada. Estávamos com dois centrais muito competentes e o Zach Muscat estava a complicar-nos bastante a vida, porque ele trabalhava muito. Os outros dois centrais também estavam muito bem. Na altura tínhamos um Leonardo Lelo que ainda vinha de um contexto um bocadinho diferente e ainda estava com algumas dificuldades de fechar uma linha de 4. O próprio Lucas Soares, que está agora no Santa Clara, também era um extremo adaptado. Aliás, começou a época como extremo e nós sentimos que poderia também ser um bom lateral. Ou seja, houve ali uma série de nuances que nos fizeram mudar para uma linha de 5. Outro fator que achei que poderia trazer também uma evolução à equipa era a questão da bola parada. Nós estávamos a sofrer muitos gols de bola parada e optámos pela inclusão de um elemento não tão alto, porque o Zach até nem é um central muito alto, mas é um jogador que tem capacidade no jogo aéreo, é fiável defensivamente e também ofensivamente na bola parada. Acabámos por achar que essa mudança poderia fazer um upgrade à equipa. Isso tem muito a ver com o facto de termos algumas debilidades na equipa, mas também termos um jogador que quase nos estava a obrigar a repensar as coisas. Acho que nesse ano foi um fator decisivo e que depois ficou.

Bola na Rede: Criaste uma identidade no Casa Pia, porque a verdade é que a equipa adaptou-se muito a essa forma de jogar.

Filipe Martins: Eu acho que sim. Não gosto muito de estar a falar muito do meu passado relacionado com o presente, posso estar a querer confundir as coisas. Parece que me estou a vangloriar, mas acho que sim. Acho que até mesmo a base no Casa Pia foi sempre o 3-4-3, à exceção, salvo erro, do Pedro Moreira, que tentou implementar a linha de 4. Mesmo o próprio Álvaro [Pacheco] não estava muito habituado. Não me lembro do Álvaro jogar com linha de 5, sinceramente. Não me lembro assim de cabeça, mas acho que isso também tem a ver um bocadinho com aquilo que foi a fundação do Casa Pia. Este projeto foi feito de raiz, e algumas pessoas que me ajudaram a desenvolver esse processo na altura ainda estão dentro do clube. Acho que se criou muito essa identidade do 3-4-3, que até hoje está lá bem evidente e bem patente. 

«Também cometi alguns erros porque não respeitei tanto a cultura do futebol chinês». 

Filipe Martins
Filipe Martins Wuhan Three Towns
Fonte: Wuhan Three Towns

Bola na Rede: Nesta fase em que não há clube, o que é que o treinador faz? Vai procurando estudar mais o jogo? Vai procurando adaptar-se? O que é que tens procurado fazer? Onde é que tens ido beber? Jogos, equipas, livros? Onde é que estás a procurar agora aperfeiçoar-te como treinador?

Filipe Martins: Tenho aproveitado para ler, um pouco, não só de futebol, mas também. Vejo jogos de campeonatos em que, acima de tudo, sinto que posso ter alguma entrada no mercado. Tenho continuado a acompanhar muito o futebol chinês, até porque os jogos dão sempre a uma hora que me permite. 

Bola na Rede: A porta ficou aberta?

Filipe Martins: Sim, ficou. Curiosamente ficou, apesar da passagem ter sido muito curta. Ficou uma porta bem aberta e falo ainda muito com os dirigentes e com algumas pessoas do próprio clube [Wuhan Three Towns]. Acima de tudo acho que houve mais um choque de mentalidade da minha parte, porque também foi a minha primeira experiência no estrangeiro. Eu não ia muito bem preparado para aquilo que ia encontrar e fui português 100%, ou seja, tentei incutir uma mentalidade que acho que é aquilo que nos faz grandes. Não digo só eu, o treinador português, muito pela sua exigência, o seu conhecimento do jogo, o seu profissionalismo, faz a diferença. Não fui completamente compreendido nos primeiros tempos. Apontei na altura à administração que tínhamos claramente que mudar a mentalidades, porque senão a equipa iria ter muitas dificuldades. Tinha sido uma equipa que tinha sido há uns anos, em 2020 salvo erro, campeã chinesa, só que os jogadores vão ficando mais velhos e há vícios que se criam dentro dos clubes que muitas das vezes não são bem aceitos quando são apontados. O que é curioso é que passado algumas semanas, alguns meses, o feedback era exatamente o contrário. “Mister, você é que tinha razão, você apontou-nos os problemas nós não quisemos muito não quisemos muito aceitar, achámos que era exigência a mais ou que estávamos a ser um bocadinho cobrados de forma injusta”. O que é certo é que, infelizmente, esta época revelou que era preciso fazer uma transformação radical para o clube dar um passo em frente. Se calhar naquele momento não foram bem recebidas as minhas críticas em relação à atitude, principalmente dos jogadores mais velhos, os jogadores que viveram a Superliga Chinesa no seu auge. Sentia que estavam muito acomodados para as minhas ideias e a minha intensidade do treino. Mas também cometi alguns erros porque não respeitei tanto a cultura do futebol chinês e vou dar um exemplo. Fui alertado que não deveria treinar de manhã porque eles não estão habituados a treinar de manhã. Não gostam de se levantar cedo para treinar e preferem treinar à tarde e eu fui um bocadinho inflexível nas minhas ideias.

Bola na Rede: Hoje farias diferente?

Filipe Martins: Faria. Não digo uma guerra, mas acho que foi uma coisa em que eu podia ter-me moldado, apesar de acreditar muito que o treino de manhã é muito mais produtivo. Porque é que iria arranjar uma guerra por causa de uma situação dessas? Se é cultural e se os jogadores se sentem mais confortáveis, eu acho que também faz parte do treinador e do ser humano adaptar-se e eu se calhar podia ter-me adaptado. Havia muito trânsito na cidade, é uma cidade que a nível de de ambiente ou é muito quente ou é muito frio, ou seja, ao final da tarde é sempre um bocadinho… Mas foram decisões que eu tomei na altura, que tomei de consciência, mas que se calhar hoje faria as coisas um bocadinho diferentes. Acho que, quando nós vamos para fora, temos de ser muito fiéis às nossas ideias, mas também temos de nos habituar e temos que nos adaptar rapidamente ao ambiente à nossa volta porque não conseguimos mudar as coisas de um dia para o outro e, no futebol, muitas das vezes não temos tempo para mudar as coisas como queremos.

«Quando há mais do que uma pessoa a investir nos clubes, também há mais pressão para que o treinador caia». 

Filipe Martins
Filipe Martins
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Bola na Rede: Muito se fala na adaptação dos jogadores. Quando chega ao treinador, quais são os maiores desafios na adaptação a um projeto diferente e onde é que há espaço para o erro num futebol que cada vez exige mais resultados?

Filipe Martins: O futebol não não é fácil hoje em dia. Há muito investimento por parte de várias pessoas. Antigamente vivia-se muito do mecenato, ou seja, as pessoas da cidade que gostavam do clube e que apoiavam o clube, injetavam dinheiro no clube e eram um pouco mais emocionais, o que nem sempre é mau. Hoje em dia, o futebol é claramente visto como uma indústria e um clube é visto como uma empresa e isso requer que haja resultados imediatos. É óbvio que ainda há projetos, e eu felizmente estive num onde havia claramente uma estrutura bem pensada daquilo que queriam. Felizmente acabou bem.

Bola na Rede: Casa Pia?

Filipe Martins: Casa Pia. Quando entrei no Casa Pia havia um projeto a três anos para meter o Casa Pia na Primeira Liga. Foi isso que me foi apresentado. No primeiro ano começámos muito atrasados em relação aos outros, até porque o Casa Pia foi repescado, começou-se a treinar dia 1 de setembro e começou-se o campeonato a 12 de setembro, já com o mercado já muito escolhido. A ideia naquele ano era nos safarmo-nos da descida de divisão e preparar as bases para o segundo ano. No segundo ano já havia uma ambição interna que não foi passada para fora, mas desde o primeiro dia na segunda época do Casa Pia que o objetivo interno era subirmos de visão. Felizmente, acabou por acontecer, mas o projeto a nível de comunicação para fora acho que foi muito bem feito. Curiosamente, este ano no Desportivo de Chaves não foi assim tão feliz a nível de comunicação de objetivos. É óbvio que também são coisas diferentes e o Chaves é um clube que está habituadíssimo a estar na Primeira Liga. Entre mim, direção desportiva a direção, estávamos bem cientes que num campeonato tão competitivo como a Segunda Liga era importante fazermos a gestão de expectativas. É óbvio que ninguém pode dizer que um projeto como o Desportivo de Chaves não é para subir. É óbvio que tem que ser pela sua história, por tudo aquilo que foi o passado recente e mesmo o passado mais distante do Desportivo de Chaves. Agora, houve ali uma falha de comunicação que, na minha opinião, não foi profícua para o clube. Havia claramente uma mensagem, e é óbvio que era uma mensagem que não era bem real, mas que podia ter dado alguma tranquilidade àquela equipa para ter feito as coisas de maneira diferente e não lidar com tanta pressão desde o início. É óbvio que havia a pressão interna, mas muitas das vezes quando há pressão interna e externa acaba por ser um pouco mais difícil e não se conseguiu gerir tão bem. Fazia  40 anos que o Desportivo de Chaves tinha subido à Primeira Liga e ficou uma decisão de passarmos uma mensagem que era para fazer melhor do que o ano passado e se conseguíssemos subir… Mas depois quando se mete um logótipo de 40 anos nos equipamentos é um bocadinho mais difícil de gerir porque eu não podia depois ir contra a mensagem oficiosa do clube. Quando se começa a falar de subir de subida, de subida, de subida já não se pode andar para trás. Isto para chegar ao que me perguntaste no início, que tem a ver cada vez com mais exigência e cada vez mais pessoas. O futebol hoje em dia vive de mais do que uma pessoa. Quando há mais do que uma pessoa a investir nos clubes, também há mais pressão para que o treinador caia. Quando as coisas não acontecem, há sempre a escapatória mais fácil que é mudar de treinador. Umas vezes resulta e outras vezes não tanto.

Bola na Rede: Vemos cada vez equipas que, em desespero, quando faltam três ou quatro jogos mudam de treinador. Aqui a ideia é impacto? O que é que um treinador pensa nestes casos, em que chega a um projeto quando faltam três ou quatro jogos?

Filipe Martins: Acho que esse é um sinal revelador de quando não há projeto. É óbvio que não vamos  dizer que o treinador tem sempre razão, mas acho que isso é um sinal de desespero por parte das administrações. Volto a dizer que há casos e casos. Há casos em que o próprio treinador está um pouco desgastado, está a passar uma mensagem negativa e quem manda tem que tomar decisões porque também é quem paga. Não estou a dizer que está sempre errada uma decisão dessas, mas se não foi tomada antes, não faz muito sentido na minha opinião. Isso depois tem muito a ver com questões mentais, de poder entrar ou não na cabeça dos jogadores, porque acabam sempre os jogadores que vão resolver esses problemas ou não. Está muito associado à escapatória mais fácil. “Temos de tentar mudar a cara do líder para ver se a mentalidade muda ou se as coisas mudam”. Há quem acredite na sorte e no azar. Isso muitas das vezes, na minha opinião e na maioria dos casos, são sinais de desespero.

«No Chaves, houve alguns jogos em que era preciso darmos um bocadinho mais e nem sempre a equipa teve essa capacidade e essa resiliência». 

Filipe Martins
Filipe Martins
Fonte: Edmilson Monteiro / Bola na Rede

Bola na Rede: Vamos voltar um bocadinho ao Chaves até para perceber um bocadinho o contexto. O Chaves estava num ano em que se calhar havia aquela ambição e pode não ter sido passada para ti da melhor forma. A Segunda Liga hoje em dia é um contexto muito duro, vemos equipas que do nada disparam, do nada caem muito rapidamente. Como é que um treinador consegue chegar a um plantel e confrontar adeptos e passar-lhes a mensagem de que está num projeto de subida onde estão mais sete ou oito equipas. Chegando aos Chaves, que é um histórico, como se tenta passar esta mensagem?

Filipe Martins: Acho que foi isso mesmo que eu tentei passar. Essa tinha sido a nossa estratégia inicial. É óbvio que não vamos mandar areia para os olhos dos adeptos, mas foi muito isso que eu tentei e toda a gente estava de acordo. Mas depois houve ali uma estratégia de marketing que eu acho que resultou completamente ao contrário.

Bola na Rede: E os jogadores?

Filipe Martins: Dentro do balneário, desde o primeiro dia que foi sempre o objetivo. Nunca em momento algum, e nem eu iria para o Desportivo de Chaves se não fosse com o objetivo de subir. Eu sabia que o Desportivo de Chaves ia mudar de administração e até me podiam dizer que iam dar mais ênfase a infraestruturas e no ano seguinte acelerar as coisas para a subida novamente, mas não. Claramente não foi esse não foi esse o objetivo. Eu acho que o Chaves é um clube que tem um orçamento que na minha opinião dá perfeitamente para subir divisão, e nós tínhamos uma equipa bastante competente. Aliás acabamos a primeira volta do campeonato em lugar de playoff e eu continuo a acreditar que o Chaves tinha quase tudo para poder lutar pela subida da divisão. Agora, não éramos nem de perto nem de longe dos melhores orçamentos e também já subi divisão sem o melhor orçamento. Acho que há fatores que eu acho que nos faltaram um bocadinho e que, na minha opinião, são tão importantes como um orçamento acima dos outros. Acho que foi um bocadinho isso que nos faltou ali. Faltaram-nos coisas que muitas das vezes colmatam essa falta de dinheiro. O Desportivo de Chaves tem boas condições de trabalho e não é por aí que as coisas não andam para a frente. Tem um microclima que não é muito fácil de trabalhar. Tal como eu disse é muito de extremos. O inverno é muito rigoroso e tem levado algumas lesões que já vêm do passado. Não sei se está só associado a isso, mas muita gente se questiona e foi uma coisa que me fez um pouco de confusão e ainda hoje não consigo explicar algumas coisas que se passaram nesta época. Puxando um bocadinho atrás, quando me perguntaram o que é que eu tinha feito [sem clube], a primeira coisa que eu fiz foi uma análise muito profunda daquilo que foi a época e o que é que correu bem e o que é que ficou mal. Fiz inclusive a mim próprio essa autocrítica ou essa análise. Acho que houve coisas que nos faltaram. Um balneário mais forte, um balneário mais resiliente. Tinha qualidade mas…

Bola na Rede: Liderança?

Filipe Martins: Eu não gosto de falar de liderança porque posso tocar em pontos que não são justos. Até tínhamos jogadores com perfil de líder, mas muitas das vezes não chega só teres um ou outro jogador com perfil de líder. Houve alguns jogos em que era preciso darmos um bocadinho mais e nem sempre a equipa teve essa capacidade e essa resiliência para ir buscar forças ou ir lá mais ao fundo.

«Não sei se tenho que olhar para a época do Desportivo de Chaves como um fracasso ou se tenho de achar que a primeira volta é que foi um engano». 

Filipe Martins
Filipe Martins no Chaves
Fonte: Edmilson Monteiro / Bola na Rede

Bola na Rede: Aquela garra extra.

Filipe Martins: Há uma bipolaridade que eu senti e tive alguma dificuldade em lidar com ela. Muitas vezes na minha cabeça, até mesmo em relação a mim próprio, questionei-me sobre o que é que tinha faltado. O tempo é um barómetro muito grande. O tempo diz-nos muita coisa e muitas das vezes nós damos voltas e voltas e voltas – e é óbvio que nós como líderes e como treinadores temos sempre de nos autoculpabilizar -, mas depois vi o resto da época e senti sempre uma discrepância muito grande em relação ao comportamento da equipa. Muitas vezes fazíamos exibições muito boas e o Desportivo de Chaves continua a fazer boas exibições como a seguir… Aliás, depois da minha saída, o máximo que se conseguiu fazer foi duas vitórias seguidas e eu senti os meus Aliás, depois da minha saída, o máximo que se conseguiu fazer foi duas vitórias seguidas. E eu senti os mesmos sinais. Nós falamos, e acho que os treinadores portugueses têm uma relação muito aberta uns com os outros, e eu acho que os sinais foram exatamente os mesmos, o que nos levou a tirar as nossas ilações. E eu também, como treinador, tenho que tirar as minhas ilações. É óbvio que temos que fazer uma autocrítica a nós próprios, mas também temos que fazer uma autoanálise ao nosso redor. E eu, sinceramente, não sei se tenho que olhar para a época do Desportivo de Chaves como um fracasso ou se tenho de achar que a primeira volta é que foi um engano. Andámos lá em cima, fomos muitas vezes considerados como um claro candidato à subida da divisão. Acho que houve um fator que é muito importante também de referir, que foi o número de lesões. Em 21 jogos que fiz no Desportivo de Chaves fiz duas ou três convocatórias em que deixei dois ou três jogadores fora da convocatória, onde não foram todos à convocatória. Por exemplo, nós na pré-época não tivemos nenhuma lesão. Enquanto não começou a chover, enquanto não começaram os campos a ficarem enlameados, não tivemos lesões e de um momento para o outro começámos a ter lesões em catadupa. Levou-nos a contratar mais jogadores para colmatar essas lesões e quando demos por nós tínhamos 30 jogadores dentro de um balneário.

Bola na Rede: É cada vez mais a tendência do futebol moderno

Filipe Martins:  E quando tens 30 jogadores dentro de um balneário, às vezes com cinco ou seis jogadores que nem têm a ambição de jogar porque estão lesionados, e contam para o Totobola, como eu costumo dizer… Parece que não, mas é muita gente. Por isso é que eu gosto muito dos planteis curtos e comprometidos, onde toda a gente tem o objetivo bem ligado. Esse número de lesões levou-nos a ter um plantel mais extenso e, na minha opinião, foram-se desligando da equipa ao longo do tempo. Muita gente, muito pouco compromisso uns com os outros e isso muitas das vezes já fez diferença entre os meus balneários para o positivo. Tínhamos um grupo mais pequeno e se calhar com menos opções, mas que se uniu. E ali, eu não sinto que fosse um balneário mau, mas também não era um balneário que cheirava a vitória e onde havia aquela ambição desmedida de subir de divisão. Isso custou-me um bocadinho, foi o que me custou mais. Foi achar que, se calhar, havia possibilidade de fazermos melhor e por um motivo ou outro não conseguimos atingir os objetivos. Mas também acho que houve muita coisa que deu sinais que o trabalho estava a ser bem feito, como o facto de termos sido a equipa que mais tarde sofreu o sabor da derrota. Neste campeonato muito competitivo, fomos a equipa que foi derrotada mais tarde. Acabámos de fazer, tal como eu disse, uma primeira volta que não diria excelente, mas dentro dos objetivos do clube. E depois apareceu uma série de lesões, e sentimos principalmente quando começámos a ter lesões no setor atacante, onde precisávamos de ter mais talento. Enquanto fomos tendo cá atrás, com organização conseguíamos resolver, e éramos a segunda equipa menos batida atrás do Marítimo. Fomos sempre colmatando as coisas enquanto as lesões nos fustigaram cá atrás. Quando começámos a ter alguns jogos com castigos, também tivemos alguns jogos a jogar com 10, tivemos mais dificuldade. Não conseguimos ter a mesma capacidade de colmatar essas lesões à frente que tivemos na defesa. E depois levou ali a uma sequência de seis jogos onde a vitória não apareceu. E acho que foi uma saída muito em consonância entre mim e a administração. Sentimos que estávamos num momento em que era importante tentarmos outras coisas. 

«A minha ideia era sair do Chaves três, quatro semanas antes». 

Filipe Martins
Filipe Martins
Fonte: GD Chaves

Bola na Rede: Já estavam mentalizados de que isso ia acontecer?

Filipe Martins: Agora posso falar disto à vontade porque os diretores sabem disto, a minha ideia era sair três, quatro semanas antes. Pelo menos três semanas antes. Porque eu já não estava a sentir, até mesmo de fora para dentro. Depois houve um fator que, inconscientemente ou não, também começou a afetar um bocadinho o grupo, o clube, e os adeptos. Nós, em novembro, mudamos de administração. Passámos de administração local, pessoas que estão ligadas à cidade de Chaves, como é a família de Carvalho e que tem um passado de sucesso, para um grupo mexicano que vinha, claramente, com muito boas intenções. E, na minha opinião, vem. Não tenho minimamente nada a apontar, pelo contrário. Acho que o presidente Dante [Elizalde] sempre passou uma mensagem muito positiva e, na minha opinião, no futuro, se conseguirem transportar as ideias que trazem, podem, claramente, voltar à Primeira Liga. Agora, Chaves é uma cidade pequena e sente-se muita coisa. Há muita pressão e é fácil passar para dentro de um balneário, porque os jogadores moram todos em Chaves. Não se abstraem daquilo e não podem passar a vida em casa. E eu próprio, como treinador, foi o clube em que eu senti mais pressão em cima da equipa, desde a primeira jornada em casa.

Bola na Rede: Já falou do ciclo de seis jogos que levou à saída. Antes desse ciclo, há um ciclo de cinco jogos sem perder, quatro vitórias e um empate, antecedido por quatro derrotas consecutivas, a que antecedem, por sinal, oito jogos consecutivos sem perder, a maior marca no arranque da Segunda Liga. Esta inconstância da equipa tem alguma explicação? Depois daquele ciclo de quatro vitórias e um empate, já no meio da temporada, sentes que algo mudou, ou que poderia mudar? 

Filipe Martins: Aquilo que disseste foi o retrato da época. Começamos com oito jogos sem perder, com muitos empates ali pelo meio. Depois temos uma boa sequência de quatro vitórias e um empate pelo meio, que nos cola lá em cima. Depois há aqui um fator que cheguei a falar com o Nélson [Lenho], o diretor desportivo. Tivemos ali depois uma pausa de três ou quatro semanas, porque antecipámos um jogo e adiámos outro, alguma coisa do género, para deixar que os jogadores fossem a casa no Natal. Pode ter sido uma coincidência ou não. Começámos essa sequência no jogo antes de irmos de férias, até fizemos um plano motivacional para os jogadores. Íamos ter quatro ou cinco jogos antes da paragem do Natal e até dissemos que por cada jogo que conseguissem ganhar, dávamos um dia extra. Depois demos quase uma semana nessa altura. No último jogo perdemos em casa com o Portimonense, mas senti que também foi um fator que, se nós pensávamos que podia ser motivador, o que é certo é que a ausência de competição, se calhar retirou-nos um bocadinho aquela ambição que nós estávamos a conseguir ganhar.

«Comparei muito o Desportivo de Chaves a um Vitória de Guimarães, seja a cultura da região, seja a do clube».

Filipe Martins
Filipe Martins
Fonte: GD Chaves

Bola na Rede: Rotina também, se calhar. 

Filipe Martins: Sim, uma rotina de competição, acima de tudo. Pode ter sido, pode não ter sido, mas, acima de tudo, acho que tudo o que vinha para trás demonstrou aquilo que era um bocadinho a equipa. Era uma equipa que, quando ganhava, conseguia galvanizar-se muito e depois, quando perdia, começava a perder muita crença naquilo que era preciso fazer. Isso fez-me pensar muito, porque, como sempre, a primeira coisa que eu tento perceber é se estou a fazer as coisas bem, mas eu sentia que era um bocadinho mais o coletivo e não apenas a mensagem. E a minha saída leva um bocadinho a isso. Sai à 21.ª jornada, salvo erro, numa fase em que, claramente, se podia chegar acima, mas que era preciso uma sequência de vitórias, como nós já tínhamos tido. Disse claramente isto, mas o Chaves nunca foi capaz de fazer essa sequência de vitórias. O máximo que conseguiu fazer foi duas vitórias seguidas. Foi ganhando em casa, ou seja, até nisso houve alguma bipolaridade. Nós em casa estávamos com muita dificuldade de ganhar e fora éramos a segunda melhor equipa, atrás do Marítimo. O Vítor Martins [sucessor no Chaves] conseguiu que aquela equipa fizesse exatamente o contrário, ou seja, que ganhasse os jogos em casa e que depois, fora, salvo erro só ganhou ao Sporting B. Levou a ter uma média de pontos que não é suficiente para subir de divisão. Agora, acho que houve alguns fatores que fizeram a equipa também não ter a estabilidade necessária, desde as lesões, desde a urgência de subir à Primeira Liga e eu diria até que a troca de administração antes do mercado de inverno também pode ter mexido um bocadinho com a cabeça dos jogadores. Vem um investidor novo, e não estou dentro da cabeça dos jogadores, mas podem ter pensado em muitas mudanças no mercado, apesar de nunca ter sido essa a mensagem que eu passei. Aliás, nós só tivemos um jogador, que foi o André Rodrigues, que entrou no mercado de inverno. Eu sempre tentei, e a própria administração estava com essa ideia, estiveram sempre muito alinhados com aquilo que eram as minhas ideias, mas na cabeça dos jogadores, pode ter passado a ideia de que “agora vem o grupo mexicano e vão meter aqui oito ou jogadores e vão trazer os jogadores do México”. Pode ter mexido um bocadinho também com a equipa, porque é o mês de Janeiro que mata a época do Chaves. 

Bola na Rede: Entre um marketing demasiado ousado, entre uma mudança de administração, entre a pressão por parte dos adeptos, tudo coisas de fora. Onde é que o treinador se posiciona perante isto, quando o foco deveria estar exclusivamente no campo?

Filipe Martins: Foi isso que eu tentei fazer ao longo dos meses que eu lá estive. Foi organizar. Também houve algumas rotinas que, e não digo que os treinadores anteriores não o tivessem já pensado, mas se calhar só naquele ano é que conseguimos mudar. Eu achava, e toda a gente achava, que era importante, mas que ainda não tinha havido a possibilidade. Por exemplo, começámos a tomar o pequeno-almoço no estádio e finalmente conseguimos arranjar uma sala para nós passarmos o máximo tempo dentro do estádio. Há coisas que estão identificadas e que eu deixei identificadas e que também já estavam. Óbvio que as pessoas que lá estavam já sabiam as necessidades que há e, espero que dentro de em breve, e há essa ideia, pelo menos passaram-me a ideia de que as coisas iriam ser feitas, mas tudo demora algum tempo. Menos para os adeptos, como é óbvio. Naquela cidade, e o Estrela da Amadora também tem muito essa identidade também de adepto-clube e de relação, mas em Chaves eu senti muito isso. Comparei muito o Desportivo de Chaves a um Vitória de Guimarães, seja a cultura da região, seja a do clube. Via muita gente, muitas crianças a ir para a escola com a camisola do Desportivo de Chaves. Isso dava-nos uma responsabilidade também, é óbvio que tínhamos de estar preparados para ela, mas acho que a nível desportivo, como equipa, não revelámos as competências que deveríamos ter revelado para subir de divisão.

«Acho que nunca tive o plantel na melhor versão, mas sempre que tivemos a equipa a 80% das suas possibilidades, fomos muito competitivos e podíamos ter tido uma palavra a dizer». 

Filipe Martins
Filipe Martins no Chaves
Fonte: GD Chaves

Bola na Rede: Neste caminho, a primeira derrota acaba por ser na Taça de Portugal contra o Benfica, onde tinha acabado de jogar José Mourinho. A apresentação de primeira derrota acaba por afetar a equipa de alguma maneira? Até tendo em conta o jogo que é, contra o adversário que é, numa competição diferente à Segunda Liga?

Filipe Martins: Curiosamente, foi o início de  um ciclo de quatro jogos sem ganharmos no campeonato. Depois foi sucedido da melhor sequência da época a nível pontual. 

Bola na Rede: Nesse jogo mexe um bocadinho na equipa, para ver se não perde a dinâmica com alguns jogadores. Foi isso que lhe passou pela cabeça? 

Filipe Martins: Até na baliza. Foi uma situação que me custou muito. O Vozinha na altura, acredito que possa ter até ficado surpreendido, porque eu sei que ele ficou surpreendido. Ele vem da seleção e perde a titularidade, muito pelos sinais que o Marco Gudzulic tinha dado, tanto nos jogos da Taça como num jogo que antecipámos para a paragem das seleções para termos uma paragem maior no Natal. O Marco também fez esse jogo contra o Leixões e contra o Benfica é o único jogo em que sofre golos. O Vozinha não estava a ter rendimento negativo, não foi isso que o fez ir para o banco, mas a resposta que o Marco estava a ter. O que é certo é que teve ali uma sequência muito boa sem sofrer, de clean sheets, que levaram essas mudanças. O próprio Zach também foi à seleção, e também foi um bocadinho isso que aconteceu, apesar de ter um retorno mais rápido. Salvo erro, nesse primeiro jogo, até há logo uma lesão no início e ele voltou novamente à equipa. Eu acreditava muito no plantel. Sempre que tivemos as opções do plantel, eu não digo na sua melhor versão, porque acho que nunca tive o plantel na melhor versão, mas sempre que tivemos a equipa a 80% das suas possibilidades, fomos muito competitivos e podíamos ter tido uma palavra a dizer nesse campeonato. Foram realmente muitas semanas a termos sete, oito jogadores, sete, oito jogadores de fora. Se os clubes grandes se queixam disso, nós também. Apesar de sermos um clube grande na Segunda Liga, numa liga tão competitiva e tão equilibrada como é a segunda liga, faz mossa.

«Assim que o meu empresário me falou que havia a possibilidade de ir para o Estrela da Amadora, eu não discuti o meu contrato. O dinheiro que o presidente do Estrela me ofereceu foi o dinheiro que eu aceitei». 

Filipe Martins
Filipe Martins Estrela Amadora Jogadores
Fonte: Ana Beles / Bola na Rede

Bola na Rede: Já falámos do Chaves, já falámos do Casa Pia, já falámos da experiência na China, não podemos deixar de falar do Estrela Amadora. Acredito que, para ti, se calhar fica aquele amargo de boca, porque é um clube que te diz muito. Objetivamente, o que é que sentes, passado muito tempo, que não correu bem?

Filipe Martins: Não gosto de dizer isso, mas acho que o Estrela da Amadora foi um erro. Foi um erro porque pela primeira vez tomei uma decisão… 

Bola na Rede: De coração? 

Filipe Martins: De coração. Não foi cerebral. Eu tinha uma proposta muito, muito, muito boa para ir para o Petro de Luanda. Mas quando digo muito boa, muito boa mesmo. 

Bola na Rede: Tem tido um percurso de vários treinadores portugueses o Petro de Luanda.

Filipe Martins:  Sim, agora com o João Pedro Sousa. Ofereceram-me um contrato fabuloso porque queriam ser campeões africanos. O meu empresário disse-me que havia o Estrela da Amadora, e eu próprio tinha também uma proposta da Segunda Liga, a ganhar muito mais dinheiro do que fui ganhar para o Estrela da Amadora. Assim que ele me falou que havia a possibilidade de ir para o Estrela da Amadora, eu não discuti o meu contrato. Eu só discuti o contrato dos adjuntos. O dinheiro que o presidente do Estrela me ofereceu foi o dinheiro que eu aceitei. Foi muito rápido. E contra a vontade da minha mulher e da minha família, que nunca quiseram que eu fosse para o Estrela.

«Não quero estar a falar mal do presidente Paulo Lopo como pessoa. Só fiquei magoado com ele porque ele não foi capaz de me despedir olhos nos olhos».

Filipe Martins Estrela da Amadora
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

Bola na Rede: Por acharem que era melhor o Petro ou era mesmo por ser o Estrela? 

Filipe Martins: Não tem a ver com o Petro, tem a ver com ser o Estrela. Sabiam que eu já sou um fanático de exigências, que sou, apesar de não o parecer. Cobro muito, principalmente a mim, e muito mais cobrei no Estrela. Agora, olhando para o que eu fiz no Estrela, acho que deixei algumas coisas positivas e espero ter deixado. A entrada do Sr. Paulo Moreira como diretor de scouting, salvo erro, uma pessoa que eu conheço o passado, foi uma das coisas que eu deixei, bem como algumas ideias que o Estrela deveria melhorar. Depois acho que também tive algumas coisas interessantes. Ter lançado o Tiago Gabriel, que depois no mercado de inverno deu dinheiro ao Estrela. O próprio Danilo [Veiga] também, que já tinha estado aqui no Felgueiras e Gil Vicente, estava na Croácia e foi também vendido, infelizmente. E até mesmo a nível desportivo, agora posso falar disso. Primeira jornada vou ao Braga, e estamos a falar de uma equipa que mudou mais de 20 jogadores. Foi uma das coisas que me propuseram, queriam renovar a equipa. Saíram 20 jogadores e foram chegando jogadores a conta gotas. Vamos a Braga, empatamos 1-1. A seguir temos um jogo contra o Famalicão, uma equipa fortíssima. O Famalicão marca o 1-0 e marca o 2 e o 3-0 já a acabar o jogo. Depois vamos à Luz. Depois jogamos com o Casa-Pia, que faz um excelente campeonato nesse ano e tem uma equipa completamente estruturada. E depois Santa Clara.O único jogo que se calhar tínhamos mais obrigação de ganhar foi com o Boavista, e é um jogo completamente atípico. São dois erros, um deles do Tiago Gabriel. Um jogo onde cada vez que o Boavista ia à nossa baliza era golo, e nós falhámos muitos golos e empatámos o jogo. De resto chegámos contra equipas que fizeram campeonatos e tinham outros objetivos. Quero crer que esse episódio foi um erro de escolha da minha parte. Não por ser o Estrela, porque claramente foi um orgulho para mim e vou morrer a dizer que fui jogador e treinador do Estrela, que é claramente o clube do meu coração. Acredito também que tenha sido um erro de casting para o presidente do Estrela, para ter mudado tão depressa de treinador.  Acredito que ou não era eu que ele queria, ou achou que não era o treinador ideal. Sinceramente, preocupei-me ao início e fiquei um bocadinho sentido. É óbvio que fiquei. Principalmente, e nunca falei disso publicamente, e vou falar. Não quero minimamente estar a falar mal do presidente Paulo Lopo, como pessoa, seja o que for. Eu só fiquei magoado com ele, e vou dizê-lo publicamente, porque ele não foi capaz de me despedir olhos nos olhos. Foi com uma conversa por uma terceira pessoa, que é o meu empresário, e eu acho que merecia esse respeito, de me chamarem a um gabinete e claramente, olhos nos olhos, me despedirem. Até porque foi isso que ficou acordado entre nós. Quando digo nós, eu, presidente e até mesmo o filho do presidente, também administrador. Já tinham saído notícias na semana anterior de que eu estava de saída do Estrela. Disseram-me que, quando houvesse alguma coisa, falávamos diretamente. E eu só fiquei ressentido com a pessoa do Sr. Presidente Paulo Lopo por isso mesmo. Se ele me tem chamado, tinha toda a razão para isso. Toda a razão a nível dos resultados, tinha todo o direito de chegar e dizer. “Filipe, fizemos seis jogos, temos dois pontos, um em Braga, outro em casa com o Boavista, e eu sinto que tenho que mudar as coisas”. 

«A noite mais mal dormida que eu dormi até hoje, no futebol, foi quando perdemos esse jogo em casa com o Famalicão por 3-0. eu não sentia só a equipa que eu estava a treinar». 

Filipe Martins
Danilo Veiga Samuel Lobato Filipe Martins Estrela da Amadora Famalicão
Fonte: Ana Beles / Bola na Rede

Bola na Rede: E nunca falaram contigo, posteriormente?

Filipe Martins: Nunca, nunca. 

Bola na Rede: Percebes porquê?

Filipe Martins: Eu só posso perceber por uma gestão que ela possa ter feito. Eu tinha o balneário do meu lado. Tínhamos um balneário bom, os próprios jogadores ficaram muito surpreendidos com a minha saída, até porque estávamos a renovar. Estávamos a renovar uma equipa, vinte e tal jogadores a entrar, feedbacks positivos, até por parte da administração, de que estavam a gostar. De um momento para o outro decidiram que queriam mudar, a seguir ao jogo contra o Santa Clara. Até fazemos uma primeira parte muito boa, a segunda parte não tão boa, e acabamos por perder o jogo 1-0. Mas volto a dizer, eu acho que ele tinha todo o direito de querer mudar. A única coisa que eu fiquei foi muito magoado com a pessoa, até porque sou uma pessoa muito fácil de lidar. Agora, se houve alguns episódios até lá que se calhar levaram a ter esta decisão mais temporânea da parte dele, pode ter havido um outro episódio em que, se calhar, a minha forma de estar precipitou esta decisão dele. Mas há princípios da minha vida que eu não mudo, e ele sabia desde o primeiro dia que eu não ia mudar. Por isso é que estou a dizer que pode ter sido um erro, um erro de decisão da minha parte, como também pode ter sido um erro de casting dele. Ter contratado uma pessoa que se calhar achava que eu era um treinador diferente, ou que tinha um perfil diferente, ou que tinha princípios diferentes. Eu tenho os meus princípios e deles não abdico.

Bola na Rede: E num clube com uma ligação emocional tão vincada, a ausência de explicações torna mais difícil a reflexão e avaliação do trabalho feita nos dias seguintes? 

Filipe Martins: Sim, é óbvio que não vou dizer que não. Se calhar a noite mais mal dormida que eu dormi até hoje, no futebol, foi quando perdemos esse jogo em casa com o Famalicão por 3-0. Porque eu não sentia só a equipa que eu estava a treinar. Aquilo para mim era uma responsabilidade muito grande. Ninguém naquele clube queria mais ganhar do que eu. Portanto, custou-me bastante essa passagem, mas também foi uma aprendizagem. De pensar um bocadinho mais antes de dizer que sim, porque nem pensei. Quando a minha mulher deu por mim, já era treinador do Estrela. Já tinha apertado a mão e, curiosamente, passado um dia, liga-me outro clube da Primeira Liga, no meu dia de anos.

Bola na Rede: Depois de fechares?

Filipe Martins: Depois, não tinha assinado. Aliás, o presidente esteve em minha casa e voou para o Brasil com o diretor desportivo, na altura o José Faria, e só mais tarde é que assinámos. Poderia ter ido para outro clube, que eu sabia que era um projeto onde iria ter outro tipo de condições. E não fui, porque já tinha dado a minha palavra e não iria romper a corda. Claramente, o Estrela da Amadora foi basicamente isso. Decisão mal pensada da minha parte e eventualmente até da parte do presidente do Estrela, só ele é que o pode responder. A minha única grande mágoa que fica com o presidente do Estrela foi ele não ter sido capaz de me chamar e dizer “Filipe, fizeste o teu melhor ou podias ter feito melhor”. Tinha todo o direito de o fazer. Mas eu queria uma conversa direta comigo e não uma conversa paralela.

«Se eu olhar para trás, para todos os jogadores que eu ajudei a evoluir, aquele que teve uma evolução maior foi o Jota Silva. Todos os jogos, todas as semanas, eu via o Jota a fazer coisas diferentes». 

Filipe Martins
Filipe Martins Casa Pia
Fonte: Fernando Silva / Bola na Rede

Bola na Rede: Vamos ainda tentar recapitular em termos de jogadores. Falámos muito de clubes e já agora de jogadores. Falamos aqui já do Tiago Gabriel, há o exemplo do Jota Silva, vários jogadores que passaram pelas tuas mãos e cresceram contigo. Quais são os casos de jogadores que olhas para trás e pensas “Fiz um bom trabalho, evoluiu, e hoje estou super orgulhoso de ver o patamar em que ele está, e a forma como cresceu enquanto jogador”? Quais achas que foram aqueles que influenciaste de boa maneira e que sentes que estão num bom caminho? 

Filipe Martins: Acho que eu tentei influenciar todos da mesma forma. Há uns que evoluíram mais do que outros, outros destacaram-se mais. Óbvio que há alguns exemplos que são mais flagrantes. Por exemplo, o Carlos Vinícius no Real [Massamá]. O João Basso no Real. Na terceira divisão. Eu acho que em Mafra também houve jogadores que evoluíram bastante. O Pedro Ferreira que está no Santa Clara, hoje em dia, e estava dispensado do Sporting. O Guilherme Ramos que hoje em dia está no Beijing Guan, na China. Já esteve no Hamburgo e também evoluiu bastante nesse ano. Depois a seguir vai comigo para o Feirense. No Feirense, o Tiago Silva. Na altura uma equipa que estava em dificuldades, o Tiago Silva faz uma boa segunda volta e vai para o Vitória de Guimarães. No Casa Pia há bastantes. Desde logo, acho que o retomar de carreira do Ricardo Batista. Posso dizer que fui uma pessoa importante, como o Ricardo Batista também foi muito importante na subida do Casa Pia. Na carreira do Ricardo, há um amigo em comum que tem também muita responsabilidade nisso, que é o Gonçalo Costa. É um amigo nosso, uma pessoa que eu conheço há bastantes anos e tenho muita confiança naquilo que ele me diz. Fala-me de muitos jogadores, que ele conhece muito bem no mercado, e até trabalha para um clube. Mas quando ele me fala duas ou três semanas, sempre no mesmo jogador, ele está realmente a querer e acredita mesmo. E o Ricardo foi se calhar a situação mais engraçada que eu tenho. Falava-me do Ricardo e dizia “Esquece, esse gajo é maluco, não quero esse gajo na minha equipa”. “Mas ele é bom guarda-redes, vai-te ajudar. Tem uma conversa com ele, tem uma conversa com ele. Até que passado uns dias, ele lá me convenceu.

Bola na Rede: Ganhou-te pelo cansaço.

Filipe Martins: Eu disse “Traz lá o Ricardo que eu tenho uma conversa”. Foi no café por baixo do meu prédio. Tivemos uma conversa, e eu tenho uma relação muito boa com o Ricardo, posso falar à vontade disso. Eu disse “Ricardo, toda a gente diz que tu és maluco. Tu és um grande guarda-redes, foste um grande guarda-redes. Eu preciso de alguém que me ajude”. E o Ricardo disse uma coisa “Mister, ninguém acredita em mim, preciso de alguém que acredite em mim”. Eu disse “Ricardo, primeira vez que me lixares, eu vou-te mandar embora”. E ele “Mister, dê-me uma oportunidade que eu não vou falhar”. E não falhou, não falhou em nada naquilo que é a essência dele. Eu adaptei-me ao que sabia que esperava dele e acho que ele também percebeu que tinha alguém que o queria ajudar e correspondeu com o rendimento e ajudou muito o Casa Pia, inclusive este ano. Depois o [Leonardo] Lelo, que veio de um contexto de Terceira Liga e evoluiu bastante. Aliás, até vinha da Liga Revelação,na altura do Portimonense. O Jota Silva é um jogador que, quando vou para o projeto Casa Pia, tinha feito o meu scout na Liga 3 e no Campeonato de Portugal, e ele era um jogador que estava referenciado no Espinho. Na altura, começámos mais tarde no Casa Pia, ele já tinha sido contratado pelo Leixões. No entanto, ele estava a ter muito pouca utilização no Leixões, inclusive estava na equipa de sub-23 do Leixões, e no mercado de inverno houve essa possibilidade de o recrutarmos em janeiro. Não olhei para trás duas vezes. Acima de tudo, aquilo que me fez apaixonar pelo Jota era a vontade que ele tinha de ser jogador. Tinha algumas limitações? Tinha. Evoluiu muito na minha opinião, principalmente no jogo entre linhas. Era um jogador que tinha alguma dificuldade, até porque melhorou bastante a técnica individual, de recepções orientadas, do espaço entre linhas, ou seja, tinha muita dificuldade em jogar nesses espaços. Melhorou bastante. Acho que se eu olhar para trás, para todos os jogadores que eu ajudei a evoluir, aquele que teve uma evolução maior foi o Jota. Todos os jogos, todas as semanas, eu via o Jota a fazer coisas diferentes. A gente dizia “Este gajo está a evoluir, está a evoluir”. Depois tinha uma vontade enorme de singrar no futebol. Ficava com uma azia desgraçada quando não jogava, tinha um tique e abanava a cabeça. Uma vez, no Estádio Nacional, disse “Jota, eu sei que estás na azia, mas não abanes a cabeça”, e ele dizia, “Mister, mas eu não abano a cabeça”, e eu disse, “Tu já nem dás é pelo abanar da cabeça. Tu abanas a cabeça, mal vês que não vais jogar, ficas todo cego”. Mas ele melhorou e evoluiu bastante. O Godwin a mesma coisa, e houve muita gente que evoluiu. Depois mais tarde chegou o Clayton, o Felippe Cardoso. Tive a felicidade de treinar muito bons jogadores na minha carreira. Acho que fiz o trabalho que é aquele que todos os treinadores devem fazer, que é dar o seu melhor a eles. É óbvio que a parte mental dos jogadores também tem muita influência, e às vezes há conversas que mudam a cabeça dos jogadores, a confiança que um treinador passa ao seu jogador às vezes também tem que ser reconhecido. Curiosamente o jogador mais talentoso que eu treinei é um jogador que se calhar ninguém se lembra. Infelizmente no ano passado faleceu. Suicidou-se na China, que era o Aaron Boupendza, que eu trouxe para o Feirense na altura. Um jogador do Gabão, que tinha um pé esquerdo fabuloso, mas que tinha muitos problemas a nível de orientação e infelizmente não acabou da melhor forma. Voltou a ser chamado à seleção do Gabão passado três anos, já não ia há três anos à seleção do Gabão e no Feirense foi chamado. Depois teve um excelente retomar de carreira, foi o melhor marcador na Turquia, vai para os Estados Unidos e é campeão na MLS no Cincinnati. Vai para o Al-Shabaab na Arábia e estava muito bem na China e infelizmente suicidou-se. Quando me falavam do Carlos Vinícius, que foi um jogador que quando chegou aqui, foi uma benção para mim, estava no Real, quando ele chegou e também foi um jogador que teve uma evolução brutal e que tinha muitas condições, mas o Aaron Boupendza era diferente. Tinha um pé esquerdo que era mágico, uma coisa absurda, uma elevação. Só que também tinha alguns problemas, que eu acho que também o ajudei até certo ponto, mas depois muitas das vezes não é fácil manter a estabilidade emocional e as coisas não acabaram bem. 

«Há erros que se podem cometer na formação e não se podem cometer no futebol profissional». 

Filipe Martins
Filipe Martins Casa Pia
Fonte: Cláudia Figueiredo / Bola na Rede

Bola na Rede: Olhando para a carreira, começas por baixo, na formação e nos distritais, e acabas na Primeira Liga, em contextos muito mais elevados e profissionais. Em que é que teres começado tão de baixo e teres estado em contextos que exigiam que o treinador fosse muito mais do que um treinador, te ajudou a construir esta carreira e te ajudou mais à frente? 

Filipe Martins: Tenho-me esforçado às vezes no meu tempo livre, e eu não me lembro de nenhum treinador que tenha tido um trajeto igual ao meu, sinceramente. Há treinadores que começaram por baixo, o Bernardo Lage começou a treinar na formação, o próprio Vasco Botelho da Costa já tem muitos anos, mas não me lembro de nenhum treinador que tenha feito carreira profissional, depois tenha começado a treinar na formação e tenha chegado à Primeira Liga. Eu acho que tenho um percurso realmente peculiar e essa passagem pela formação, tem coisas boas. Para já temos uma margem de erro para irmos crescendo. Há erros que se podem cometer na formação e não se podem cometer no futebol profissional, mas acho que também há muitas coisas que nós aprendemos na formação e que podemos transformar para o futebol profissional. Quer numa situação quer noutra, estamos a falar de seres humanos. Às vezes há um bocadinho de falta de sensibilidade de quem só treinou competição. Acaba por pensar que o futebol é uma perfeição. Muitas das vezes temos que cair um bocadinho na real, vir de baixo e perceber que nem tudo é fácil, nem tudo está pronto. Demorou a ficar pronto e a formação dos jogadores acho que é isso. É um cozinhado em que nós temos que ter muita paciência, temos que deixar crescer, temos que ir à procura da receita ideal para depois fazer um bom produto final, que é o jogador. Muitas das vezes os treinadores que não passam na formação não sabem o que é que aquilo custa. Têm jogadores formados, mas muitas das vezes não conseguem perceber se a formação desse jogador foi boa ou má. Apenas analisam o rendimento. A nível da parte humana, a parte psicológica de lidar com os jovens também nos dá uma bagagem, que depois mais tarde a gente pode utilizar. Tal como eu disse, são seres humanos, na mesma. Só que são um bocadinho mais crescidos, apesar de alguns parece que ainda pararam no tempo e precisam ainda daquele carinho que às vezes temos que dar aos miúdos de 15 a 16 anos, quando estão naquela fase de escolher os caminhos certos. 

Bola na Rede: Tens uma carreira ainda relativamente curta, ou seja, ainda há muita margem para fazer coisas. Quais os objetivos e ambições que guardas para os próximos tempos?

Filipe Martins: Na minha cabeça acho que o melhor ainda está para vir, claramente. Quero voltar a treinar na Primeira Liga em Portugal. Acho que é o meu objetivo, considero-me treinador da Primeira Liga, apesar de achar que, hoje em dia, a nível competitivo, treinarmos as melhores equipas da Segunda Liga, ou treinarmos as equipas do meio da tabela para baixo na Primeira Liga, a exigência acaba por ser a mesma. Até mesmo de recursos humanos, não vejo muita diferença. Aliás o play-off acaba por ser um reflexo disso. A nível de ambições pessoais quero voltar à Primeira Liga, como também não fecho a porta de voltar ao estrangeiro. Felizmente, o telefone já tocou. Coisas que senti que ainda não é o que eu quero ou que não é o timing certo para assumir esses clubes, mas acredito que, mais tarde ou mais cedo voltar a trabalhar. Espero que seja já agora no início da época, até porque quero começar uma época logo desde o início. Sinto que estou de consciência tranquila e fiz o meu melhor. O futebol é mesmo assim, muitas das vezes a bola entra e temos mais reconhecimento, quando a bola não entra não temos tanto reconhecimento. Mas nunca virei a cara à luta. Cheguei onde cheguei através do meu trabalho, e é com o meu trabalho, e também com a confiança das pessoas que estão à minha volta, que vou voltar a ter sucesso no futebol, porque acho que o sucesso não é só resultados. É óbvio que é a base para o barómetro do treinador, mas acho que, mesmo nestes projetos mais recentes, tenho deixado muita a minha marca dentro dos clubes e também muita coisa boa nas equipas, nas estruturas. A nível desportivo e de carreira, claramente é voltar a treinar na Primeira Liga.

«Óbvio que cometo erros, mas quando cometo os erros tenho que estar bem ciente que foram feitos sem segundas intenções, sem maldade». 

Filipe Martins
Filipe Martins Casa Pia adeptos
Fonte: Fernando Silva / Bola na Rede

Bola na Rede: O que é mais importante para ti antes da bola entrar na rede?

Filipe Martins: Acima de tudo, é sentir-me bem comigo próprio. Não quero ter o sentimento de estar-me a olhar ao espelho e não reconhecer o reflexo que lá está espelhado. Quero continuar a ser eu próprio. Eu acredito que tenho um bom fundo, que tenho uma boa índole pessoal, uma boa personalidade. Acima de tudo quero continuar a ser reconhecido pelos meus amigos e pelas pessoas que trabalham comigo como um bom profissional. Óbvio que tenho a minha personalidade, não sou nenhum santo, nem quero ser o homem perfeito. Não é isso que ninguém procura, mas acima de tudo quero-me sentir-me bem comigo próprio e quero estar de consciência tranquila. Óbvio que cometo erros, mas quando cometo os erros tenho que estar bem ciente que foram feitos sem segundas intenções, sem maldade. Fiz aquilo que achava que era melhor para mim, para as minhas equipas, para a minha vida, acima de tudo é aquilo que eu quero. Sempre ter essa paz de espírito. Eu costumo ter uma frase que é o sentimento que eu gosto de ter. Eu vou neste passeio e não tenho que mudar de passeio para o lado contrário, só porque deste lado vem alguém com quem eu não me quero cruzar. Se não me quiserem falar, isso é outra história, mas não tenho que me desviar porque não quero falar com aquele. Há pessoas com quem não falo, mas não há ninguém de que eu tenha que fugir. Há pessoas com quem, se calhar, não tenho tanto gosto em falar, mas também não tenho que me desviar delas porque não devo nada a ninguém. Felizmente estou de consciência tranquila na minha vida, na minha carreira, e sinto-me bem comigo próprio. É esse o sentimento que eu quero continuar a ter.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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