«Pela primeira vez na minha carreira, consegui procurar e contratar jogadores com o perfil certo para cada posição» – Entrevista Bola na Rede a César Peixoto

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César Peixoto é o mais recente vencedor do prémio de “Revelação do Mês” do Bola na Rede. O treinador do Gil Vicente deu uma entrevista exclusiva ao nosso site no momento de receber o prémio.

Vencedor do Prémio Revelação Bola na Rede relativo ao mês de agosto e setembro de 2025, César Peixoto deu uma entrevista ao nosso site. O técnico de 45 anos destacou o inicio de temporada da equipa gilista e explicou a importância do planeamento feito para esta nova época na Primeira Liga 2025/26.

Bola na Rede: Antes de mais, parabéns por esta distinção mister. Qual é o sentimento por receber este prémio revelação Bola na Rede?

César Peixoto: Para mim é muito satisfatório. É o primeiro prémio que recebo enquanto treinador e vai ser sempre o primeiro (risos). É sinal de um trabalho bem conseguido, não só meu, mas de toda a equipa técnica, dos jogadores e de toda a estrutura, porque sozinho não consigo nada. Há toda uma estrutura por trás que nos proporciona um dia a dia feliz e todas as condições de trabalho. Os jogadores acreditam muito na ideia de jogo e no que nós propomos, e depois conseguem colocá-lo em prática. A minha equipa técnica também é muito importante, cada um na sua função, para que nos jogos consigamos ser competitivos, ganhar mais vezes, mas, acima de tudo, saber como ganhamos e como chegar à vitória, acho que isso é fundamental. Este prémio deixa-nos com um sentimento de orgulho, mas, como costumo dizer, não serve para nos deslumbrarmos. É bom, sim, mas temos de continuar.

Bola na Rede: Já desde a temporada 2013/14 que o Gil Vicente não tinha um arranque tão bom na Primeira Liga. Na altura, o mister fazia parte do plantel. O que é que este início de temporada representa para si?

César Peixoto: Para mim, representa um bom planeamento de época, acho que isso é crucial. O trabalho que tivemos, eu, o presidente e o Flávio, na construção do plantel, foi bem elaborado. Tive poucas férias, mas acabámos por ganhar muito com este início de época forte. Criámos um grupo coeso, o que nos mostra que estamos no caminho certo. O que temos feito tem tido um impacto positivo, seja nos resultados, seja na forma como a equipa, defensiva e ofensivamente, aborda os jogos. Pela qualidade de jogo que a equipa tem apresentado, isso também nos traz mais responsabilidade, porque, hoje em dia, e faz parte do fenómeno do futebol, as equipas olham agora para o Gil Vicente e querem-nos derrotar. Por isso, precisamos de estar cada vez mais fortes. A exigência de estarmos em 4.º lugar é boa, mas não nos pode levar a facilitar, porque há muitas equipas com qualidade. Estamos no início do campeonato e há quem nos queira destronar, digamos assim, mas temos de nos manter humildes e fiéis ao que acreditamos, para continuarmos a ter este desempenho, independentemente do adversário. Temos de impor o nosso ADN, o ADN Gil Vicente, o ADN dos jogadores que trouxemos, dos que criámos e a nossa forma de jogar. Seja contra Porto, Benfica ou Sporting, tem de ser sempre da mesma forma. Podemos ajustar estrategicamente, mas nunca abdicar daquilo em que acreditamos.

César Peixoto Gil Vicente
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Bola na Rede: No ano passado, o mister chegou já perto do final da temporada e o Gil Vicente acabou por garantir o objetivo da manutenção. Desta vez, teve a oportunidade de começar a pré-época e delinear os objetivos com mais tempo. Nota-se que a equipa está bem trabalhada, não só pelos resultados, mas também pela forma como os jogadores se encaixam na dinâmica que quis implementar. Quão importante foi começar a pré-temporada e o que sente que mudou desses últimos meses da época passada para este arranque?

César Peixoto: O ano passado cheguei cá numa fase muito complicada. Tivemos tempo para conseguir o objetivo da manutenção, que era o mais importante, mas também para perceber melhor o clube por dentro. Eu, obviamente, já o conhecia enquanto jogador, mas, passados muitos anos, regressei e foi importante perceber o que precisávamos de melhorar em termos de clube, de infraestruturas, de criar departamentos que não existiam. Isso deu-nos também a oportunidade de conhecer o plantel a fundo, perceber quais os jogadores que queríamos manter para a época seguinte e quais teriam de sair. Permitiu-nos perceber o que era necessário mudar em termos de ADN, de mentalidade dos jogadores, da equipa e do próprio clube. E deu-nos a possibilidade de construir um plantel mais de acordo com aquilo que queríamos para o Gil Vicente do futuro. Depois, na transição de época e no mercado, pela primeira vez na minha carreira, consegui, dentro das limitações orçamentais do clube, procurar e contratar jogadores com o perfil certo para cada posição, dentro da minha ideia de jogo. E acho que isso faz toda a diferença para que as coisas se encaixem de melhor forma. O plantel foi construído por mim, pelo Flávio e pelo presidente. Não ficou nem veio nenhum jogador sem passar pelo nosso crivo de escolha, sempre em função da nossa ideia de jogo. As características de cada jogador são muito importantes para que possamos passar essa ideia e para que eles a entendam e acho que isso foi bem conseguido. São só oito jornadas, temos de continuar humildes e a trabalhar, mas, pela primeira vez na minha carreira, senti que tive muita influência na construção do plantel. Como conheço a minha ideia de jogo como ninguém, consegui, com muito trabalho e muitas horas nas férias a ver jogadores, encontrar atletas com o perfil certo para cada posição: física, mental, tática e tecnicamente. O objetivo era sermos uma equipa com e sem bola muito intensa, agressiva, com alma, com organização, e, com bola, termos a qualidade de jogo que temos mostrado, que tem sido boa e ainda pode melhorar. Mas sim, faz toda a diferença conseguir montar uma equipa mais à minha imagem. Felizmente, isso traduz-se em resultados. Às vezes as coisas podem não correr bem, mas acho que se vê um caminho, uma ideia bem vincada. Não vamos ganhar todos os jogos, mas vamos jogar todos com a nossa ideia vincada e isso deixa-me muito feliz.

Cesár Peixoto Gil Vicente
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Bola na Rede: O Gil Vicente tem-se destacado pela solidez defensiva. Como é que explica essa consistência que a equipa vem demonstrando?

César Peixoto: Primeiro, é a organização. Todos os jogadores, com ou sem bola, neste caso, sem bola, sabem o que têm de fazer. Depois, tem muito a ver com as características dos jogadores que fomos buscar: jogadores rápidos, agressivos, fortes nos duelos, principalmente atrás, porque queremos jogar com as linhas subidas e pressionar alto. Para isso, precisamos de jogadores defensivos com velocidade e essa agressividade nos duelos, que não tenham medo de arriscar e de subir, para depois controlar a profundidade que as equipas adversárias possam explorar. E depois, é a humildade. O que vejo e sinto é que os jogadores se divertem com bola, mas também se divertem a pressionar. Todos juntos conseguem ser fortes nesse momento, recuperam muitas bolas altas e percebem que, dessa forma, correm muito menos se reagirem forte à perda da bola, se tiverem uma transição defensiva muito forte. São muito organizados, intensos, agressivos, ganhadores dos duelos, acho que isso tem a ver com a organização, a intensidade, a agressividade e a humildade de, quando não temos bola, sabermos que temos de correr todos juntos e organizados, para sermos uma equipa muito compacta. Se repararem, o ponta de lança e o médio mais ofensivo são os primeiros dois homens a defender. Correm muito. Depois vêm os extremos, os médios e, só no fim, a linha defensiva. Até costumo dizer que eles vêm a “cambalear” (risos) e depois a linha defensiva acaba por fazer o resto do trabalho. É nisto que acreditamos. Agora, esperamos dar continuidade a isto. Com certeza vamos sofrer golos, espero que não, mas isso vai acontecer de certeza. Mas não é por isso que vamos deixar de acreditar, nem de pensar que somos uma equipa bem organizada.

Bola na Rede: Várias equipas da Primeira Liga têm utilizado uma organização defensiva semelhante à que o Gil Vicente tem adotado na sua ideia de jogo. Como olha para o facto da sua equipa servir de referência e de que forma isso valoriza o trabalho que tem vindo a ser feito?

César Peixoto: Da mesma forma que os outros treinadores olham para a nossa equipa, nós também olhamos para as outras. Também analisamos ao pormenor os nossos adversários. Eu vejo muito futebol, seja Primeira Liga, Segunda Liga, Liga 3 e futebol internacional. Nós, treinadores, somos um bocadinho ladrões de ideias também. Agora, eu tenho a minha ideia de jogo muito bem vincada, é aquilo em que acredito. E quando vejo alguma coisa parecida, fico mais atento, para perceber se é realmente igual, se funciona ou não funciona. É sempre um motivo de orgulho, é sinal de que estamos a fazer bem as coisas. Claro que cada treinador tem a sua ideia, a sua forma de trabalhar, a sua organização defensiva e ofensiva. Eu acredito nesta, e temos tido sucesso. Já no ano passado, no Moreirense, era desta forma. Este ano, as características dos jogadores individualmente potenciam ainda mais o que nós fazemos e está mais à vista em comparação à temporada passada. No geral, o facto de outros treinadores olharem para o que nós fazemos, para o facto de sofrermos poucos golos e sermos uma equipa compacta, e irem adaptando estrategicamente em função dos adversários é bom sinal. Acima de tudo, é bom ver que somos analisados e seguidos também.

Bola na Rede: Tem algum objetivo delineado para o que resta da temporada que possa partilhar?

César Peixoto: Eu quero continuar desta forma, com esta ideia, seja defensiva ou ofensiva, bem vincada: uma equipa corajosa, que valoriza o espetáculo, que não dá uma bola nem um jogo por perdido. Se está 0-0, quer fazer 1-0; se está 1-0, quer fazer 2-0. Não se fecha. Estrategicamente, às vezes, quando jogamos contra clubes grandes, eles empurram-nos para trás, mas conseguimos ter sempre um ADN de olhar olhos nos olhos e lutar pelos três pontos, seja onde for e acho que isso é crucial para o sucesso. Colocar metas ainda me parece muito prematuro e não faz muito sentido. O principal objetivo do clube é sempre a manutenção, e terá de continuar a ser assim. Agora, eu costumo dizer que cada jogo é uma história diferente, e tento envolver muito a equipa e os jogadores nisso. O nosso objetivo é, a cada semana, criar uma história, sermos melhores e competitivos em cada jogo, e, no final, fazemos as contas.

Bola na Rede: Mister, muito obrigado.

César Peixoto: Obrigado eu.

Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

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