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Com a eliminatória frente ao SL Benfica à porta, o Bola na Rede conseguiu chegar à fala com Luís Castro. Numa grande entrevista exclusiva para o nosso site, o técnico do Shakhtar FC abre o jogo e fala sobre o encontro da Liga Europa, a sua carreira e sobre a experiência inesquecível de jogar a Liga dos Campeões, uma prova que de competência e de sorte, em que poderás apostar no bet bonus. Esta é a primeira de duas partes desta grande entrevista exclusiva com um dos melhores treinadores portugueses do mundo.
– A saída de Portugal e a experiência na Ucrânia –
«Senti que estava na altura de partir de Portugal».
Bola na RedeLuís, muito boa tarde e obrigado por ter aceitado o nosso convite. Começamos, obviamente, por esta sua experiência no FC Shakhtar, até porque disse há bem pouco tempo que não se via a sair de Portugal. O que mudou para ter escolhido este clube?
Luís Castro: Boa tarde. As propostas que nos aparecem são sempre analisadas de forma profunda. Houve várias de sair para o estrangeiro, mas depois de analisar o convite do Shakhtar senti que estava na altura de partir. E por vários motivos. Já tinha feito de tudo em Portugal enquanto treinador, já tinha sido diretor-técnico e passado por todos os escalões de formação. Agora, sinto-me estável, confortável e dominador, e não tive dúvidas sobre agarrar este trabalho no Shakhtar.
BnR: Chega à Ucrânia para substituir um treinador português. Paulo Fonseca deixou uma herança pesada no FC Shakhtar ou sente que vai ser capaz de prosseguir o seu bom trabalho na Ucrânia?
LC: O Paulo esteve bem, como já tinha estado noutros momentos da sua carreira e como está na AS Roma. Quando chegamos a um clube, aquilo que mais queremos que esse clube tenha é um rasto de vitória. Ao contrário do que as pessoas dizem sobre ser mais fácil ganhar num clube que ganhe poucas vezes, porque a pressão é menor, do que num clube que ganhe muitas e onde não há margem para errar: eu sou de opinião que é muito melhor pegar num clube com rasto de vitória, porque já existem pessoas habituadas a ganhar e com competências para ganhar. E quem chegar ao clube, se tiver competência, também vai ganhar. Felizmente, é o que está a acontecer aqui. O campeonato é o objetivo número um da época e há a sensação de que temos de ser campeões e isso sente-se em cada campo onde entramos. Estamos a fazer um bom percurso, nada está ganho, mas sente-se a alegria por irmos na frente. E isto também é fruto do trabalho do Paulo e do mister Lucescu, que projetaram o clube para um patamar ótimo. E eu sinto-me bem com essa herança.
BnR: O FC Shakhtar joga fora da sua cidade devido ao conflito na Crimeia. Como foi lidar com essa mudança? E que dificuldade é que coloca esse fator na preparação de jogos?
LC: O maior peso vai para o lado da logística, que é pesadíssima. Treinamos em Kiev e jogamos em Kharkiv, o que, como podem imaginar, acarreta muitos problemas a esse nível. Enquanto treinador, as coisas são feitas de forma muito natural, temos de ir preparando e pensando no que é a proposta diária de treino e de jogo. É aí que está todo o nosso foco. O clube ajusta-se ao que queremos fazer todos os dias. Têm sido fantásticos. O clube está habituado a trabalhar e a servir-nos da melhor maneira, como aconteceu com o Paulo e com o mister Lucescu. Tudo normal e tudo natural. Eles estão habituados a esta mudança e tudo corre de forma normal.

Fonte: FC Shakhtar
BnR: Ou seja, e pegando no que diz sobre a qualidade da sua equipa, diria que o Shakhtar, em Portugal, seria candidato ao título?
LC: Sim, claramente. Aliás, o percurso de Champions mostra isso. Uma equipa como a nossa, que perde dois jogos em casa, com o Manchester City e a Atalanta… Mas estamos a falar de uma Atalanta de Gasperini, que pode fazer um percurso interessante na Liga dos Campeões. De resto, não perdemos com o Zagreb, empatámos em Manchester e na Atalanta… Os jogadores que temos jogam na seleção ucraniana, seleção essa que ficou à frente de Portugal no apuramento para o Europeu, portanto isto tudo mostra o nosso nível enquanto equipa.
BnR: Ainda tem um certo amargo pela derrota com a Atalanta?
LC: Sim, são momentos difíceis de viver, mas não nos fere de morte. Nós sabemos que na Champions tudo pode acontecer. A 25 minutos do fim estávamos apurados para os oitavos e no final perdemos por 3-0. Assim como o Dínamo Zagreb, a duas jornadas do fim, estava a ganhar contra nós por 2-1 aos 95 minutos, e estava apurado, e chega ao final da fase de grupos em último lugar. Em quatro minutos tudo mudou. Temos de aceitar de forma natural.
BnR: Na Liga dos Campeões teve duas boas exibições perante o Manchester City de Pep Guardiola. O treinador espanhol disse-lhe alguma coisa, após o final do encontro?
LC: Cumprimentámo-nos e desejámos felicidades para o futuro dele na prova, e ele desejou-nos o mesmo. Foi tudo muito cordial. No jogo de Kharkiv, não tivemos um desempenho tão bom como tivemos no Ethiad. E ele deu-nos os parabéns pela boa exibição.
– A evolução como treinador e as equipas ucranianas –
«Há coisas que estão a mudar na minha cabeça».
BnR: Luís, nesta sua nova aventura na Ucrânia, houve alguma coisa que mudou na sua forma de pensar o jogo e de comunicar com os atletas?
LC: Sim, há coisas que estão a mudar na minha cabeça, como a forma como vejo a saída de bola por trás e como deve haver variabilidade nesse momento. O futebol passou por momentos em que as equipas construíam por trás e onde as equipas que não eram tão poderosas guardavam um bloco atrás, permitindo que a equipa saísse com maior conforto. Depois começaram a aparecer equipas que começaram a pressionar mais alto e isso faz com que as equipas que gostam de sair por trás tenham de encontrar soluções diferentes e linhas de passe mais longas para fugir aos blocos mais altos. Tudo isto e a forma como temos de analisar de forma mais profunda adversários tão complexos como o City ou a Atalanta faz-nos refletir e mudar um pouco a nossa cabeça.
BnR: Deduzo pelo que diz que esta experiência no Shakhtar parece estar a ser a mais enriquecedora até ao momento?
LC: A experiência mais enriquecedora em termos de conhecimento foi a vivência ao longo de dez anos com o professor Vitor Frade, por causa da forma como ele coloca problemas e nos obriga a refletir sobre eles e a adquirir conhecimentos para os resolver. No Shakhtar, fomos obrigados a ir buscar skills das quais não achávamos que íamos precisar, para já. E falo também da minha equipa técnica: ela é muito heterogénea nas suas competências, como a análise de jogo e dos sistemas de vídeo-análise. E este desafio está a ser muito exigente no que diz respeito à estratégia e ao plano de jogo, porque jogamos sábado e depois terça para a Champions e só podemos estar uma vez a treinar no terreno do jogo, o que nos coloca em vivências diferentes. É um momento que nos obriga a dar o melhor de nós.

Fonte: FC Shakhtar
BnR: Que diferenças encontra entre o futebol português e o ucraniano, dentro e fora do relvado?
LC: Dentro do relvado não anda muito longe do futebol português. Há um conjunto de cinco equipas que estão no topo superior da tabela, como Zorya, Desna, Dínamo Kiev e Oleksandriya, que juntamente connosco formam o topo da tabela. Depois há outro conjunto que luta pelo meio da tabela e, depois, as outras mais do fundo da tabela; portanto, muito semelhante a Portugal. A única diferença neste momento é que não temos o Dínamo ou o Zorya colados a nós porque conseguimos uma margem num momento em que estivemos muito bem no campeonato. É por isto que estamos na frente. Pela capacidade que tivemos para abordar a liga de forma forte, ao contrário do que os nossos adversários fizeram na altura. Vamos tentar manter distâncias até ao final. Mas, quanto às equipas, temos equipas que pressionam alto, outras com bloco mais baixo, outras com ataque rápido, outras que tentam atacar instalando-se no meio-campo adversário, como é o caso do Zorya, que é uma equipa com uma ideia de jogo muito boa. Temos também o Desna e o Oleksandriya a jogarem mais em ataque rápido e o Dínamo com duas versões e a jogar consoante o seu adversário. Já nós tentamos jogar com o ataque mais instalado no meio-campo adversário e com mais tempos e maior número de ataques. Portanto, sim, não há uma grande diferença; apenas existe uma maior visibilidade do campeonato português por Portugal ser campeão da Europa, e ter Cristiano Ronaldo e Fernando Santos, o melhor treinador do mundo.
– As soluções no FC Shakhtar e o caso “Fernando” –
«O futebol português vive-se de forma agressiva».
BnR: E fora de campo?
LC: Fora do campo, vive-se de forma mais agressiva em Portugal; aqui o ambiente é mais leve e há mais respeito pelos profissionais. Aquelas dúvidas que existem em alguns jogos porque jogamos com Benfica, Sporting ou FC Porto, em que quando se perde é porque determinado jogador já passou por este ou aquele clube, aqui não existem. As pessoas respeitam-nos muito e são fantásticas. Vamos embora quando perdermos, mas vai ser um sair diferente e com diferentes sensações. Não será certamente tão amargo porque há mais respeito e menos agressividade do que em Portugal.
BnR: Fazendo agora a “ponte” também para o futebol português, temos de falar de Fernando, que foi recentemente “devolvido” pelo Sporting. Por que motivo é que não vingou em Alvalade?
LC: Há pouco falávamos do lado mais agressivo do futebol em Portugal… Vou antes responder de forma direta. É melhor e pode haver más interpretações, e eu não quero criar um foco de instabilidade com as minhas palavras. Talvez o jogador não estivesse preparado para abordar um desafio destes. É a resposta politicamente correta. Ok, nós vamos trabalhá-lo e apontamos para nós e para o mercado. Mas houve claramente interesse do Sporting e nós achávamos que seria bom para ele. Nós tínhamos o Solomon, o Tetê, o Konoplyanka, o Taison e o Marlos, que também pode jogar pelo corredor. Portanto, cinco alas; mais o Fernando, seriam seis. Era complicado.

Fonte: Sporting CP
BnR: Mas conta com ele, correto?
LC: Vai trabalhar connosco agora, sim, claro. Ele pode fazer as posições 9, 7 e 11, e vai trabalhar connosco.
A análise de Luís Castro ao SL Benfica de bruno lage PODE SER LIDA AQUI
– Portugal: O possível regresso e a cultura desportiva –
«O que interessa a muita gente é o resultado
e não discutir o porquê do resultado».
BnR: A sua postura no futebol português sempre foi muito elogiada. De onde vem essa forma de estar?
LC: Sou um ser humano. Às vezes apetecia-me ir para cima de muita gente quando falava, principalmente quando diziam que, por ter trabalhado no FC Porto, quando os defrontava não dava o máximo de mim. E apeteceu-me muitas vezes falar. Mas sempre fui aconselhado pelos meus pais para viver com a minha consciência e esquecer o que se dizia à minha volta. A minha consciência dizia que estava a dar o melhor de mim dentro de todos os princípios e valores que me foram ensinados. E foi sempre nesses valores que me resguardei. Aprendi, ainda no futebol de formação, graças a treinadores fantásticos que tive, a respeitar os árbitros, adversários, colegas que querem estar no teu lugar, e o treinador. E isso entrou em mim muito cedo. Sempre que tenho essa tentação, lembro-me dos meus pais, dos meus treinadores e de respeitar os outros, pois eles têm direito à sua opinião. O 25 de Abril, na minha cabeça, chegou muito cedo, para perceber que os outros são livres de dizerem o que querem e eu tenho de ouvir e calar, mesmo que muitas vezes não sejam tão respeitosos para comigo. Mas não ligar e não descer ao nível de quem nos está a tentar puxar é a melhor forma de respondermos. Estar calado é a melhor resposta. Não há nada pior para quem nos quer agredir do que ficarmos calado, pois eles perguntam-nos por aquilo em que estamos a pensar e o melhor é não responder. Fiz bem em seguir este caminho pois não tenho nenhuma má relação pessoal. E aproveito, agora que falo convosco, para realçar a forma respeitosa como a imprensa me tratou e sempre me obrigou a ter muito cuidado e a ser também muito respeitoso com as pessoas da imprensa. Porque muitas vezes falamos da imprensa e parece que é uma coisa vaga, mas a imprensa são as pessoas que trabalham lá. E sempre tivemos uma boa relação com a imprensa portuguesa. Foi muito gratificante trabalhar com a imprensa aí em Portugal ao longo dos anos em que estive ao serviço do futebol português.

Fonte: Vitória SC
BnR: Gostava de voltar a Portugal ou não passa pelos seus horizontes?
LC: Quando damos tudo, quando nos entregamos por completo e as coisas não aparecem, nós percebemos as coisas. Não podemos fechar os olhos e fazer de conta que as coisas não estão a acontecer. E eu nunca me deixei iludir com nada; vivi sempre o meu dia-a-dia. Neste momento sei qual é o caminho e o que me poderá esperar e é difícil olhar e ver que me espera o mercado português.
BnR: Batemos na questão da cultura desportiva. Há, ou não, falta de cultura desportiva em Portugal?
LC: Há um aspeto que fere muito a forma como se vive o futebol em Portugal. É muito resultadista. O que interessa a muita gente é o resultado e não discutir o porquê do resultado. Se formos ao porquê percebemos por que razão os planteis estão assim, por que razão alguns jogadores não recuperam rápido das lesões, por que é que há jogadores a levar muitos cartões amarelos ou vermelhos. Se vamos aos porquês, dentro daquilo que é a razão de um resultado percebemos que há outros agentes que também são culpados. Mas interessa que seja apenas o resultado porque só há um culpado que é o treinador e mais ninguém. Se analisarmos o porquê do resultado, vamos chegar à conclusão de que se podia ter reforçado mais o plantel ou os jogadores podiam estar mais equilibrados emocionalmente, dando melhores condições. Há vários agentes mas só interessa o treinador e isso é muito redutor, pensar o futebol a este nível de organização. O futebol vai muito além do que é a ação de um treinador, é muito mais organizacional e estrutural, há pilares que têm de ser muito fortes para que não se exponha tanto o treinador. Isso é fundamental acontecer e se os clubes tivessem essas estruturas estariam mais protegidos, poderiam falar o que falassem que lá dentro nada mexia. Logo, os clubes mais protegidos têm melhores caminhadas.
BnR: É esse o ponto a melhorar no futebol português? A proteção ao treinador português?
LC: Respondo com uma pergunta, quantos treinadores foram despedidos na primeira volta? Basta ver. Que critério preside a escolha do treinador? Não há uma análise antes da escolha do treinador? Parece que não se sabe o porquê de se contratar determinado treinador. A estatística mundial diz que a troca de treinadores na sua maior percentagem não resulta, só cria instabilidade nas equipas porque o problema é estrutural, como disse há pouco, não é do treinador. Se eu algum dia fosse presidente de um clube, seria firme na escolha de um treinador e, apesar de compreender a insatisfação da massa associativa, a melhor forma de responder à pressão é confiar em quem lidera.
– O Futebol de Formação –
«O problema é que há clubes que querem a mensalidade do miúdo e não querem criar regras para os pais».
BnR: Luís, falar da sua carreira é também falar da sua passagem pelo FC Porto. Esteve em vários escalões de formação dos dragões e foi inclusivamente campeão no FC Porto B. Será esta a melhor fase da equipa azul e branca, ao nível da formação?
LC: Não quero vincular as minhas palavras a um clube. Quero falar de forma geral. Os clubes de maior dimensão devem sempre formar a tentar ganhar. Não é formar a ganhar porque se dissermos isso, pensa-se que é para ganhar a qualquer custo e isso não é assim. O jogador tem de criar condições para ganhar e nós temos de ajudar a fazer o mesmo. Alguns clubes em Portugal, como FC Porto ou SL Benfica, conseguiram alguns títulos interessantes e que dão maior sentido à sua formação. O que quer dizer que as vitórias são conquistadas com qualidade. Ninguém ganha uma Champions, uma Liga Europa ou um campeonato sem qualidade. Tem qualidade os seus treinadores, a sua administração, os seus jogadores, os seus adeptos conseguiram dar conforto à equipa… Toda a gente tem qualidade quando há vitórias.
BnR: Continuando ainda a falar sobre o futebol de formação em Portugal, um dos grandes problemas desta área continua a ser o facto de alguns pais de jogadores serem mais adeptos do próprio filho do que da equipa que ele representa. Como é que se lida com esse problema?
LC: Isso é um facto. Mas, quando há factos e essas realidades existem, tem de se criar regras para esses factos. Não se consegue a mente. O telefone existe. Quer-se retirar o telefone da mão dos miúdos? Não. O computador existe. Quer-se retirar o computador da mão dos miúdos? Não. Temos é de criar regras para que a existência desta tecnologia coabite diariamente com eles. Isto é como os pais. Alguns pais têm estas características agressivas. E reforço, alguns, porque coabitei com pais enquanto estive no FC Porto e alguns deles eram deliciosos na forma como entendiam o jogo dentro do clube. Depois, há outros que não entendem. E como existe isto, vamos criar regras para que eles não influenciem de forma direta a vida do clube. E isso é fácil de criar. O problema é que os clubes, como querem a mensalidade do miúdo, não querem criar regras que vão contra a vivência dos pais nos clubes. E então, pronto, nunca vamos ter uma boa formação. Porque existem sempre estes problemas. Os clubes de maior dimensão não têm esses problemas por isto mesmo: os pais não vêem os treinos. Têm um conjunto de regras instituídas e transpiram “saúde” no seio dos clubes. É só isto. Mas vamos querer o quê? Educar os pais? Eles já estão educados, têm 30 e tal ou 40 anos. Quem é que os vai querer educar? Agora, criar regras é o melhor a fazer.

Fonte: FC Porto
BnR: Falando ainda do seu feito ao serviço do FC Porto B, quais é que foram os segredos para conquistar esse título e quais é que foram os maiores obstáculos nessa caminhada?
LC: Competência e qualidade. Embora muita gente não quisesse dizer isso. Aliás, vou-lhe dizer mais: dentro da formação do FC Porto trabalhava Vítor Severino, João Brandão, Vítor Matos e Luís Castro, que estiveram este ano na Champions. Portanto, um clube que tem cinco recursos humanos que agora estão na Champions League claramente tinha de ter qualidade. E as coisas não acontecem por acaso. Além destes de que falei, havia um conjunto de jogadores do FC Porto que tinham uma qualidade fantástica, que cresceram e desenvolveram as suas competências, e muitos deles agora estão no futebol com carreiras profissionais muito interessantes. Para mim, é uma satisfação muito grande vê-los a jogar.
BnR: Falando aí pela sua passagem pelo FC Porto, o Luís substituía, curiosamente, o Paulo Fonseca. Na altura, falou-se muito de que tinha feito um bom trabalho, mas acabou por não ficar como técnico principal e voltou à equipa B. Acha que tinha capacidade para ficar como treinador principal?
LC: Se eu tivesse feito bons resultados e conquistado títulos, naturalmente a vida seguiria. Vou contextualizar: tudo tem timings e isso também tem um timing. Eu tinha estado fora do futebol e do treino durante sete anos. Eu tinha nesse ano voltado ao futebol e estava com a equipa B. Com sete, oito meses de trabalho, não foi o melhor timing. Para o FC Porto, a missão foi cumprida e houve ali a transição para a época seguinte. Desenvolvi o trabalho como podia desenvolver, mas tenho a consciência de que o timing não foi o melhor para eu ter essa oportunidade.
– O Futebol de Formação –
«Jogar Champions é fantástico e não há nada melhor».
BnR: Luís, falando um pouco mais da sua carreira. Frequentou a faculdade de Física, em Coimbra. Como é que o futebol acaba por surgir na sua vida?
LC: Aparece porque tenho uma grande paixão pelo futebol desde muito novo. Comecei a jogar aos onze anos e acabei aos 35. Nunca parei, tirando aos doze anos, quando tive um percalço de saúde que me tirou dos jogos durante um ano. Mas foi sempre a andar até hoje. Eu só estudava porque os meus pais gostavam de que eu estudasse, porque eu nunca tive prazer nenhum em estudar, confesso. Mas a minha mãe era professora e o meu pai era militar e gostavam de que tirasse um curso, e eu estudava por obrigação. Saí da UD Leiria com 21 anos, onde era capitão, e o Dr. Pimenta Machado contratou-me para o Vitória SC, mas nunca joguei ao longo de dois anos. Mas aí larguei a faculdade de Coimbra e pedi a transferência para a de Braga; no entanto, não me deram autorização e eu acabei. Foi a melhor notícia que tive. “Mãe, tentei de tudo, mas não me deram.” (risos). Depois agarrei-me com tudo ao futebol. Não tinha as melhores capacidades como jogador e senti dificuldades como treinador. Vi tudo um bocado escuro e montanhas muito altas para serem escaladas. Sabe, era complicado estar num clube de Distrital, olhar e pensar como é que um dia poderia vir a jogar na Champions, que era mesmo o que eu queria. As coisas não ficam fáceis, mas agarrei-me ao trabalho.
A entrevista do BnR a Luís Castro foi comentada e divulgada no Bola na Rede TV
BnR: Falámos muito de futebol, mas ainda não sabemos como é o Luís Castro fora das quatro linhas…
LC: Adoro música, gosto de ler, gosto de fazer as minhas propostas de treino, gosto de elaborar os meus exercícios, gosto de trocar umas mensagens com uns amigos, gosto de ir a um restaurante, embora não possa comer muito por causa de problemas no estômago e tal (risos). Gosto de ir ao supermercado comprar as minhas coisas e não gosto de que o futebol me prive da minha vida normal. Não gosto de viver com estatutos; gosto de viver como eu sou, enquanto pessoa e enquanto ser-humano. Sou tranquilo, não gosto de agressividades e não gosto de me dar mal com ninguém. Se um de vocês me disser: “Epá, tu isto e aquilo” eu fico logo um bocado ao contrário porque eu não fiz nada de mal e estou no meu canto. Por mim, o mundo não acabava e eu ficava tranquilo.
PASSES CURTOS
BnR: Clube que mais gozo lhe deu treinar?
LC: Epá, não consigo dizer numa palavra. Jogar Champions é fantástico e não há nada melhor… Portanto, que clube é que acha?
BnR: FC Shakhtar.
LC: Vocês é que disseram, não fui eu (risos).
BnR: Melhor jogador que treinou?
LC: Treinei tantos de qualidade. O Fernando era uma coisa incrível… O Jackson Martínez, naquela altura, também era uma coisa incrível… O Quaresma era um fantasista tremendo. Hoje, aqui no Shakhtar, o Marlos, o Taison, o Júnior Moraes, o Stepanenko, o Matvienko… São jogadores fantásticos! O futebol está-me a proporcionar trabalhar com seres-humanos fantásticos que são também grandes profissionais.
BnR: Melhor momento da carreira?
LC: Primeiro jogo na Champions.
BnR: E o pior?
LC: Meia-final da Taça de Portugal, perdida na Luz, contra o SL Benfica. E eliminação contra a Atalanta BC na Champions.
BnR: Um ídolo no futebol ou alguém que o inspire?
LC: Senhor Graça e Orlando Rousseau, os meus treinadores de formação. Fantásticas pessoas e fantásticos seres-humanos. Ainda hoje me lembro deles.
BnR: Episódio mais caricato da carreira?
LC: Tivemos de desmontar um palco onde os GNR estiveram a atuar em Águeda para jogar uma eliminatória da Taça de Portugal frente à Oliveirense. O jogo começou atrasado dez minutos e o presidente disse que não íamos jogar. Mas nós, jogadores, dissemos que ajudávamos a desmontar o palco e que íamos a jogo. Jogámos e passámos a eliminatória!
BnR: Por fim, quem vai ganhar o campeonato em Portugal e na Ucrânia?
LC: Em Portugal, o SL Benfica tem sete pontos de avanço. Na Ucrânia nós temos catorze… Mas o futebol ensinou-me a respeitar muito o tempo; portanto, não vou responder.
2.ª PARTE DA ENTREVISTA DISPONÍVEL AQUI
Entrevista realizada por Mário Cagica Oliveira e André Conde
Foto de Capa: FC Shakhtar
Revisto por: Jorge Neves













