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Alma e coração, assim se faz um campeão – Entrevista a Vítor Alves

Raquel Roque · 10 min

Foto: Bola na Rede

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Intempestivo, explosivo, temperamental, mas acima de tudo um campeão. Vítor Alves continua a dar cartas no futebol português. O homem que começou a carreira no FC Porto e que foi treinado por Leonardo Jardim, Vítor Pereira e Carlos Pinto é, por estes dias, uma das referências da boa época do CD Santa Clara na Segunda Liga. Ao contrário do que mostra dentro do campo, mostrou-se bem disposto e mostrou que há um sonho que lhe corre, mais nas veias que no pensamento: a subida de divisão. Com alma e coração assim se faz Vítor Alves, assim se faz um campeão.

Bola na Rede: Já conta com 32 anos, passou por diversos clubes do futebol português e encontra-se agora ao serviço do CD Santa Clara. Como é que teve início esta aventura pelo mundo do futebol?

Vítor Alves: Quando comecei era novo. Comecei a jogar futebol nas aulas de educação física. E depois às quartas-feiras tinha o desporto escolar e os professores diziam para experimentarmos o futebol. Nós experimentávamos, mas o que queríamos mesmo era poder faltar às aulas (risos). Comecei por experimentar o desporto escolar e depois na nossa aldeia acabou por surgir um clube: “As Águias”. Como o professor das aulas era treinador neste clube, chamou-me para ir lá. E foi crescendo.

Atualmente joga no CD Santa Clara Fonte: Facebook CD Santa Clara
Atualmente joga no CD Santa Clara
Fonte: Facebook CD Santa Clara

BnR: E a família sempre esteve presente?

V.A.: Sempre estiveram muito presentes. O meu pai jogava lá na aldeia com os amigos, foi federado na Inatel e como ele gostava de futebol, eu também gostava e andava sempre com ele de um lado para o outro, acompanhava-o quando ia para os jogos.

BnR: Depois acaba por surgir o FC Porto, onde acabou por fazer formação e onde se deu a transição para o futebol sénior. Foi o maior desafio da sua carreira?

V.A.: Foi. Eu lembro-me e fica-me bem gravado na memória. Foi no dia em que o meu Padrinho me levou ao Porto pela primeira vez. Ao iniciar o campeonato e a pré-época, pensei: “Quais são os objetivos que tenho para este ano?”. Venho de uma aldeia, de um campeonato diferente. Então o meu objetivo foi ser convocado, porque pensando que não os jogadores quando estão juntos há mais tempo já têm outra forma de jogar, é diferente passar de um contexto rural para um contexto citadino.

BnR: E acabou por sentir dificuldades?

V.A.: Senti algumas dificuldades. Aliás, no primeiro mês e meio parecia que nem sabia jogar. A maior parte do plantel já tinha 7 ou 8 anos de clube. Já viviam na cidade há mais tempo. E acabava por se notar a diferença.

BnR: Acaba por se fixar no eixo defensivo do campo, jogando como central ou lateral direito. Agradava-lhe a ideia de ser um anti-herói, de evitar golos em vez de os marcar?

V.A.: É curioso porque quando foi para começar a jogar lá no clube da aldeia tinha doze anos e o escalão era de iniciados e eu ainda era infantil. E para jogar vi que não tinha defesa esquerdo. Então se é para jogar, vou para ali. Não tem ninguém naquela posição, pode ser que eu jogue.

BnR: Entretanto, acaba por participar no Torneio de Toulon. Mais do que isso, conquistou o troféu.

V.A.: Sim, foi muito bom. Porque eu lembro-me, quando era mais novo via os jogos da seleção. Via o Fernando Meira e pensava: «Eu gostava de estar aí. Vou trabalhar para estar aí»: É um torneio diferente visto por milhões e milhões de pessoas. É quase um mini mundial e é bom porque passamos a ser nós a estar ali, a ser vistos na televisão, por exemplo, quando antes éramos nós a ver as nossas referências a jogar. É uma sensação fantástica.

BnR: Voltando ao norte. O que correu mal no FC Porto B?

V.A.: Na altura eu estava mal orientado. Os empresários que dirigiam a minha carreira não me orientaram da melhor forma. Nessa altura precisava de mais de um suporte. De alguém que fosse mais forte no mundo do futebol, não aconteceu. Lembro-me na altura que saí do  Torneio de Toulon, em conjunto com o Vieirinha, o Paulo Machado, fomos chamados à SAD e tinha um acordo. Na altura tinha várias propostas para poder sair, uma por empréstimo, outra por venda. Não sei o que aconteceu, mas o negócio acabou por não se concretizar. Ainda assim, acho que não correu mal. Fui muito utilizado, fui chamado para a equipa principal, tive inscrito na Liga dos Campeões, inclusive. E dizer que correu mal seria estar a por culpa noutras pessoas. Foi uma gestão que não foi bem orientada.

BnR: E acha que atualmente esta má gestão ainda acontece?

V.A.: Sim, o futebol hoje em dia é mais negócio do que futebol. Existe o empresário que quer ver o jogador a dar o salto porque vê uma grande quantia de dinheiro à volta dele e há outro que vê a longo prazo esse dinheiro a entrar e vê mais o aspeto desportivo, a evolução na carreira do jogador. Isso depende muito de quem está a gerir a carreira em termos desportivos ou em termos financeiros. Temos o exemplo do Paím que foi um exemplo desportivo falhado.

BnR: Acha que há uma diferença significativa entre a equipa B que representou e a realidade em que vivemos?

V.A.: A diferença é brutal. Na altura, a equipa B era para ter alguns jogadores que vinham dos juniores e para se poder contratar o jogador estrangeiro. Não havia uma aposta forte nos jogadores da formação como há agora. Os exemplos estão à vista.

BnR: Acaba por sair do Norte para as ilhas, neste caso a Madeira. Porquê a escolha do União da Madeira?

V.A.: Quando saí do torneio estava com o pensamento de jogar numa primeira liga, tinha feito um bom torneio. Pensava que não ia surgir nada por causa da falta do apoio dos empresários. Quando surgiu a oportunidade achei que era o melhor para mim.

Chaves foi onde Vitor Alves e Carlos Pinto se cruzaram pela primeira vez Fonte: CD Santa Clara
Chaves foi onde Vitor Alves e Carlos Pinto se cruzaram pela primeira vez
Fonte: CD Santa Clara

BnR: Depois do União acabou por surgir o Chaves. Lá encontra Carlos Pinto, agora seu treinador. Como era a sua relação com o Carlos Pinto jogador?

V.A.: Eu era muito jovem, era um bocado casmurro, tinha as minhas ideias e queria seguir em frente contra tudo e contra todos. Vejo que não deveria ter sido assim, mas fez com que crescesse um bocado. Sei que, se na altura tivesse feito as coisas de forma diferente tinha tido mais aproveitamento. O Carlos era um bom colega. Tenho histórias fantásticas com ele. Dentro de campo ele era um líder. Ele era o capitão e tudo o que ele dizia era uma ordem.

BnR: Anos mais tarde acaba por ingressar no Santa Clara. Porquê esta passagem pelos Açores?

V.A.: Eu vinha de um projeto diferente. Tinha acabado de subir de divisão com o Chaves e o presidente não tinha nada concreto, nada ambicioso.  Na altura, ele chamou-me para renovar.  Naquela época tinha sido um jogador bastante utilizado, mesmo assim o presidente do Chaves queria reduzir-me o ordenado. Não achei respeitoso, além de querer reduzir-me o ordenado, percebi que a mensagem que ele queria passar era um “Vai embora” e acabei por ir.

Depois surgiu o Santa Clara. O Vítor Pereira (treinador do CD Santa Clara na época) já me conhecia dos tempos do Porto. Não tinha sido diretamente treinado por ele, mas ele estava sempre inteirado dos jogadores que tinha no Porto e depois surgiu. E em dois dias tive de decidir fazer as malas e vir para cá. E pensei que seria um passo importante na medida em que termos de ensinamentos e partilha de conhecimentos foi uma pessoa fabulosa.

BnR: Partilha de conhecimento em que sentido?

V.A.: Em termos táticos e técnicos. Conhecimentos do jogo, anulação do adversário, criar espaços, criar oportunidades. Foi um bom professor.

BnR: Entretanto acabou por ser campeão no Tondela e no Freamunde. É uma espécie de Vítor Oliveira das subidas, enquanto jogador.

V.A.: Acima de tudo, senti que tinha dever cumprido. Cheguei com esse objetivo inicial tanto no Freamunde e no Tondela. Foram experiências fabulosas. Foi muito marcante para mim, tanto é que foi no Freamunde que concebi o meu filho. Nasceu como campeão. Foi mesmo muito bom para mim.

Vítor Alves no SC Freamunde como campeão Fonte: Fieldoo
Vítor Alves no SC Freamunde como campeão
Fonte: Fieldoo

BnR: Depois das subidas, das conquistas, acaba por ingressar no Pedras Salgadas, clube que militava em divisões mais modestas.

V.A.: Na época anterior ao Pedras tive uma lesão no joelho. Estava um bocado descrente do que podia acontecer. Um jogador fica com uma lesão, as pessoas começam a ficar com o pé atrás e têm medo de arriscar. Eu ponderei deixar o futebol profissional e jogar apenas por prazer. Quando comecei a jogar no Pedras Salgadas fui logo muito bem tratado. O presidente era uma jóia de pessoa, recebeu-me muito bem, deu-me todas as condições para estar lá. Fiz lá muitos amigos e foi outra aprendizagem num campeonato muito difícil.  As condições não são as ideias para a prática de futebol. Apesar disso, foi mais uma aprendizagem pelas dificuldades que foram surgindo.

BnR: O bom filho a casa torna. Regressa aos Açores na temporada passada. Em relação à sua primeira passagem no clube quais são as principais mudanças que consegue identificar?

V.A.:  O modelo competitivo da segunda liga mudou. Agora existem equipas B que trazem muita qualidade e competição, qualidade técnica. Isso faz com que tenhamos de nos superar a cada jogo, a cada treino para aumentar os nossos níveis de competição e exibicionais. Julgo que agora existe uma maior vontade de jogar o jogo pelo jogo. Na altura também tínhamos esses princípios de jogo, mas a qualidade de agora é superior, uma vez que a qualidade dos adversários aumentou, a qualidade dos jogadores aumentou igualmente. Temos jogadores muitos jovens que têm muita experiência e que conseguem encarar os jogos e as dificuldades com outros olhos. Estão mais bem preparados.

BnR: Centrando-nos agora na presente temporada. O que é que acha que é necessário para o Santa Clara poder alcançar a subida?

V.A.: Subir de divisão não é fácil. É uma caminhada enorme. Julgo que seja a consistência. Uma equipa que é consistente e que demonstra domingo após domingo que é merecedor de ganhar e que transforma em resultado aquilo que traduz em campo, ou seja, a qualidade. O nível de qualidade está muito semelhante, apesar de achar que somos uma equipa com qualidade individual e coletiva acima de tudo. Existem sete ou oito equipas que vão lutar pela subida de divisão. Depois a que tiver mais astúcia, qualidade de jogo e experiência vai acabar por subir.

BnR: Enquanto jogador mostra um perfil explosivo, intempestivo, temperamental.

V.A.: Sou um jogador de raça, determinação e quando estou a ver que é preciso dar um abalo no jogo eu dou. Quando vejo que é preciso dar um palavrão ao colega, digo. se precisar de dar porrada a alguém dou. É a minha forma de estar. Sou um bocado duro. É difícil quando não estás a ganhar. Há jogadores que não são fortes mentalmente, é preciso picares esse jogador, dar-lhe um abanão para ele sentir qualquer coisa.

BnR: Quem tem como referência na sua carreira?

V.A.: Sempre gostei de jogadores de qualidade e agressivos que querem vencer. Gostei muito do Fabio Cannavaro.

BnR: E daqueles com quem partilhou balneário?

V.A.: Tive tantos. Seria injusto para com os outros falar só sobre um. Tenho alguns colegas que fiz uma amizade enorme e adoro a forma de jogar, neste momento o que mais me marcou no futebol foi o Edu Machado. Pela sua simplicidade, amizade. Teve comigo no Tondela, no Freamunde. Teve comigo quando ele era ainda júnior. Ele ia para la treinar com os seniores no chaves. Na altura até dei-lhe umas botas e disse agora podes me chamar pai (risos).

Vitor Alves com Edu Machado, uma das amizades que criou no futebol Fonte: Facebook Vítor Alves
Vítor Alves com Edu Machado, uma das amizades que criou no futebol
Fonte: Facebook Vítor Alves

BnR: E treinadores?

V.A.: Houve muitos que me marcaram. Desde o primeiro que me treinou nos distritais até ao Carlos. Marcaram-me todos. Quando cheguei ao Porto, o João Pinto invocou o espírito de vitoria, de luta, de raça mesmo à Porto. O Vítor Pereira fez-me ver outras questões ligadas ao jogo. O Carlos fez-me ver, em certa altura, que não estava a seguir o caminho que devia. O Leonardo jardim foi o primeiro que me deu a subida. Foram todos importantes e contribuíram para aquilo que sou hoje e seria chato dizer que um é mais importante que o outro.

BnR: Agora com 32 anos quais as expetativas de futuro?

V.A.: Neste momento estou focado com um objetivo. Saí do continente com um objetivo claro: quero subir. Se não fosse para isso, não tinha deixado a minha mulher e o meu filho no continente. Quero subir e ser campeão.  Depois seguir para outro lado e seguir o mesmo objetivo: subir de divisão ou ser campeão. A longo prazo existem duas vertentes no futebol que gosto: o treino e a observação de jogadores. São duas opções a ter em conta. Apesar disso, não tenho pressa de acabar.

Foto de capa: Bola na Rede

artigo revisto por: Ana Ferreira

Raquel Roque

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