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Natural de Vila de Conde, Vítor Bruno transporta para dentro das quatro linhas o caráter destemido que caracteriza as gentes de uma cidade pródiga em produzir talento. Formado no FC Porto, foi em Penafiel que deu o salto para a estreia na Primeira Liga. Seguiu-se uma experiência no estrangeiro, onde conquistou a Taça da Roménia, ao serviço do Cluj. Com a camisola do Feirense, consagrou-se como um dos defesas mais estóicos do campeonato português. Em exclusivo ao Bola na Rede, o defesa de 29 anos revisitou o passado, lembrou que tem mais um ano de contrato com o Feirense e lançou o futuro no qual, palavras do próprio, se vê como treinador.

– Os primórdios e a importância da formação –

“Vivemos numa sociedade em que os pais almejam mais a carreira futebolística para os seus filhos do que as próprias crianças.”

Bola na Rede: “As memórias não são apenas sobre o passado, elas determinam o nosso futuro.” Consegues relacionar esta frase do filme The Giver com o teu primeiro contacto com o futebol ao serviço do Fajozes e do Unidos ao Varzim?

Vítor Bruno: Antes de mais, quero agradecer o convite e elogiar a vossa página, a qual, com muito agrado e entusiasmo, acompanho regularmente. Revejo-me muito nessa citação, até porque todos nós temos um começo, um início, por mais modesto que seja. Cresci a jogar onde nasci, com os meus amigos de rua e de escola. São momentos que acabam por nos acompanhar no nosso crescimento. Tudo o que vamos vivendo nessa fase são bases e alicerces para o futuro. Ainda hoje, já com 29 anos, quando há uma folga ou um tempo livre, procuro essas raízes, essas vivências. Não no contexto de jogo, mas sim num contexto de conforto familiar. Portanto, e sintetizando, esses momentos foram importantes e inesquecíveis.

BnR: A próxima época assinala o regresso do FC Famalicão ao primeiro escalão do futebol português. Há 17 anos, ingressavas nos infantis deste clube para, no ano seguinte, rumares ao FC Porto, por onde ficaste até aos juniores. Qual a importância que atribuis à formação de um jovem atleta?

VB: [A formação é] Muito importante, crucial até, diria; ainda que hoje vivamos numa sociedade em que os pais almejam mais a carreira futebolística para os seus filhos do que as próprias crianças. Li, há tempos, uma entrevista fantástica do Luís Castro, que fala exatamente disso: um pai fica insatisfeito pelo filho não jogar e é capaz de ir pedir explicações ao treinador; porém, se tiver más notas na escola ou um comportamento incorreto, é provável que isso lhe passe completamente ao lado. Por aqui, percebemos que a prioridade passa por que os filhos sejam jogadores profissionais e não boas pessoas.

Acredito que isto é um problema cultural que tem de ser combatido. Como? Os clubes têm de criar formas de “castigarem” os pais e não os filhos. Creio, até, que já existem, em certos clubes de formação, regras e normas de funcionamento nesse sentido. Temos de criar desde início, desde a base, a noção do fair-play e respeito pelo adversário. Temos o exemplo de La Masia, que forma inúmeros talentos mas, acima de tudo, grandes homens, como o Xavi já teve oportunidade de referir num artigo que li há tempos. Para exemplificar, eu costumava acompanhar o meu cunhado há uns bons anos, que jogava na formação do Penafiel, e ficava estupefacto com o comportamento e atitudes dos pais. Desde insultos a árbitros, a adversários e indicações aos filhos.

Um filho que esta lá dentro, a tentar dar o seu melhor e cumprir com a estratégia, conseguirá jogar no seu máximo? No final de cada jogo, o importante é perguntar: “divertiste-te filho?”. Convém não perdermos a noção de que os miúdos que jogam e assistem a isto tudo hoje serão os adeptos ou os jogadores de amanhã.

Fonte: Facebook de Vitor Bruno

BnR: Seguiram-se CD Candal e GD Ribeirão, antes de atingires a glória em Penafiel. Quais foram as principais dificuldades que sentiste na transição para sénior?

VB: Sempre tive na minha cabeça que ia lá chegar. Porém, nesta fase, foi quase como ter de voltar ao início. Saí dos juniores do FC Porto, onde até tinha dado um contributo importante para ganharmos a Liga Intercalar, e acabei por cair na terceira divisão, desamparado. Os meus colegas – todos eles – arranjaram melhores destinos que eu. Quantas vezes me perguntei se valia a pena? Quantas vezes pensei em desistir?

Trabalhava e ajudava no restaurante do meu irmão até à hora do almoço e, depois, fazia a viagem de Fajozes até Gaia para treinar ao fim de tarde. Ganhava uns míseros 50 euros, que nem dava para as ajudas de custo. Então, coloquei um objetivo bem presente na minha cabeça e nunca mais me esqueço. Estava na terceira divisão, mas, no ano seguinte, tinha de subir um patamar e assim sucessivamente até chegar a profissional. Assim foi. Em relação ao futebol, em concreto, dificuldades foi ter de lidar e treinar com homens que não fazem da modalidade a sua principal atividade e com objetivos diferentes. As próprias condições e infraestruturas… foi aí que caí na realidade. Porém, isso também te dá uma bagagem enorme. Foi absolutamente importante aprender com tudo o que vivi.

Fonte: Facebook de Vitor Bruno
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