Publicidade

«Fazer a diferença todos os dias» – Entrevista a André Ramos

Ricardo Vaz · 6 min

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

O Bola na Rede teve a oportunidade de entrevistar André Ramos, um jovem atleta de alto rendimento na modalidade de Boccia e que celebrou recentemente os vinte e três anos de idade. O rapaz, natural de Almada, é um dos exemplos de que a Paralisia Cerebral (PC) não é impedimento para ambicionar e concretizar sonhos de vida. Este atleta paralímpico e técnico de informática na Associação de Paralisia Cerebral de Almada Seixal (APCAS) mostrou-nos a importância do Boccia na sua vida – modalidade paralímpica criada para atletas com PC – mas que pode ser praticado por todas as pessoas, com e sem deficiência.

Bola na Rede (BnR): Antes de nos direcionarmos para o Boccia, que outras modalidades desportivas já vivenciou?

André Ramos (AR): Quando era muito pequeno fiz natação e mais tarde pratiquei equitação adaptada.

BnR: Como descobriu o Boccia? Quando e onde iniciou a prática da modalidade?

AR: A minha médica falou-me da Associação de Paralisia Cerebral Almada Seixal (APCAS) como uma forma de encontrar possíveis respostas aos problemas e desafios que um jovem como eu poderia necessitar. Nessa sequência, passei a frequentar a associação e as atividades nela realizadas. Foi nesse âmbito que fiquei a conhecer o boccia, tendo ingressado na escola de boccia da associação aos 13 anos.

BnR: Foi difícil encontrar um clube que respondesse às suas necessidades? Qual a importância do desporto na sua vida?

AR: Acho que foi o boccia que me encontrou a mim e não o inverso. Desde essa altura que jogo e represento a APCAS, e tenho feito um percurso natural e crescente com o apoio da instituição. O boccia tem-me permitido concorrer ao mais alto nível e com os melhores, e representa uma grande fatia de todos os meus sonhos e objectivos pessoais.

Fonte: Ricardo Vaz/Bola na Rede

BnR: Depois de experimentar várias modalidades desportivas, porquê o Boccia? Tendo em conta as suas características, foi necessário algum tipo de adaptações?

AR: Para um jovem com deficiência motora nem todas as modalidades, mesmo que adaptadas, são praticáveis. No meu caso em concreto, não existem muitos desportos que possa fazer. O boccia permite-me praticar desporto, ser ativo e concorrer com os melhores a nível nacional e internacional, coisa que não encontrei noutras modalidades. O boccia está subdividido em cinco classes, iniciei-me como jogador na classe bc2 e atualmente, devido a perdas de motricidade fina nos membros superiores, fui reavaliado e concorro na classe bc1, sendo dos poucos jogadores que joga com o pé, com o auxilio de um sapato fabricado especialmente para mim.

BnR: Nos últimos anos conseguiu ganhar algum destaque na modalidade. Fale-nos sobre o seu percurso até ao momento.

AR: Fundamentalmente atribuo o meu crescendo desportivo ao meu trabalho diário (treinos). Luto diariamente para me tornar num melhor jogador, intensificando os treinos e a qualidade dos mesmos. Claro que sem o apoio da minha família e do meu clube nada disto seria possível. Foi esse árduo trabalho que me permitiu, desde há dois anos para cá, representar as cores do nosso país na Seleção Nacional de Boccia e que me fez alcançar o primeiro lugar no campeonato regional de Boccia e o terceiro lugar na fase final do campeonato nacional.

BnR: Representar a Seleção Nacional é certamente um motivo de orgulho para qualquer atleta, seja em que modalidade for, concorda? Como tem sido essa experiência? Como é ser atleta paralímpico?

AR: Sim. Como todos os desportistas quero ganhar e jogar com e contra os melhores. Tive sempre este objetivo e estou orgulhoso do que alcancei até aqui. Tem sido uma experiência enriquecedora mas ainda tenho muito para aprender e melhorar enquanto atleta. Não posso baixar os braços, tenho que continuar a trabalhar diariamente para mostrar o meu valor e a mais valia que posso trazer para a Seleção de Boccia.

Ser atleta paralímpico/de alto rendimento, significa também fazer alguns sacrifícios a nível pessoal. Por vezes temos de nos privar de certas coisas, com vista a alcançar aquilo que pretendemos. Por exemplo, alguns dos estágios da selecção, competições nacionais e internacionais, decorrem em datas marcantes para mim. No entanto, o esforço acaba por ser sempre recompensado.

BnR: Como é do conhecimento, os atletas de Boccia são classificados tendo em conta o seu perfil funcional. Em que classe está inserido? Quais as características dessa classe?

AR: Como já referi em respostas anteriores, sou jogador da classe BC1. Nesta classe, os jogadores têm direito a um auxiliar de jogo. Podem jogar com a mão ou com o pé, sendo que só podem jogar com uma parte do corpo. A função do auxiliar é dar as bolas ao jogador e segurar a cadeira de rodas no ato de lançamento das bolas. Qualquer conversa entre mim e o meu auxiliar, José Pedro, é penalizada com uma bola extra para o adversário.

Fonte: Ricardo Vaz/Bola na Rede

BnR: Depois de ter marcado presença em algumas competições internacionais em representação de Portugal, como avalia essa experiência?

AR: O Boccia tem vindo a crescer muito nos últimos anos. Neste momento, todas os aspetos são relevantes, como por exemplo o tipo de bolas de cada jogador. Os países do Continente Asiático, são neste momento os melhores do mundo. Portugal continua a ser dos poucos países europeus a chegar às fases finais das competições. Na classe BC1, a Tailândia é claramente a melhor do mundo. É sempre bom poder representar o nosso país ao mais alto nível e conseguir ter resultados aceitáveis para um jogador que entrou à pouco tempo na Selecção.

BnR: Sendo um atleta com uma boa margem de progressão, quais as expetativas/ambições para o futuro?

AR: Sou uma pessoa que estabelece objetivos a curto prazo. Acho que assim consigo aquilo que realmente pretendo. Em termos gerais ambiciono o primeiro lugar no campeonato regional e nacional. Exijo sempre o máximo de mim. Alcançando o primeiro lugar a nível nacional mais portas se abrirão para continuar a ser convocado para representar o nosso país lá fora, tendo sempre como meta vencer.

BnR: Nos dias que correm, é importante para a carreira de qualquer atleta ter apoios. Qual a sua opinião sobre este tema? Tem apoios? O que mudaria na promoção do desporto para pessoas com deficiência?

AR: Os atletas paralímpicos infelizmente têm menos visibilidade e como tal menos apoios quer do estado quer de potenciais patrocinadores, esta é a realidade. Foi-me recentemente atribuída a bolsa de atleta paralímpico, sendo o único apoio que recebo. Infelizmente, os valores atribuídos a atletas paralímpicos é inferior aos oferecidos a atletas olímpicos e insuficiente para todas as despesas relacionadas com a pratica da modalidade.

Existe outra dificuldade no que diz respeito aos auxiliares de jogo. É extremamente difícil encontrar uma pessoa com disponibilidade e que tenha capacidade para desempenhar as funções de um auxiliar de jogo. Neste momento, o José Pedro é o meu auxiliar, mas a vida académica/profissional dele pode mudar, e se isso acontecer, pode deixar de ter disponibilidade para me acompanhar a estágios e competições internacionais.

Numa era da tecnologia e redes sociais, penso que o caminho passará por uma maior divulgação da prática desportiva adaptada para captar uma maior atenção da sociedade e de investidores.

BnR: Sabemos que para além de ser atleta paralímpico, o André é também técnico de informática. Como concilia a prática desportiva com o trabalho?

AR: Antes de mais tenho que agradecer à minha equipa de trabalho na APCAS que sempre me apoiou e permite que concilie o meu trabalho com a prática desportiva. Sem eles nada disto seria possível. Tento sempre desempenhar as minhas tarefas profissionais com a maior antecedência possível. Em alturas de sobrecarga, tentamos sempre ultrapassar os problemas, no caso de ser necessário, faço umas horas extra.

BnR: Queremos desde já agradecer a sua disponibilidade e desejar o maior sucesso no futuro. E para terminar, desafiamo-lo a deixar uma mensagem para todos os jovens com deficiência.

AR: Em tudo na vida tento encarar as coisas com positividade e visão no futuro. É fácil ser revoltado e negativo, o difícil é fazer a diferença todos os dias. Sempre que me levanto encaro o dia como uma nova oportunidade de fazer a diferença por mim e pelos meus. Encaro a vida e os desafios como coisas positivas que me façam superar a mim próprio. A vida é demasiado importante para a desperdiçarmos com lamúrias e queixas. Todos nós, por muito difícil que seja, e as vezes é, podemos fazer qualquer coisa que nos motive, faça feliz e nos realize. Só temos que acreditar e fazer por isso.

Foto de Capa: Dubai Club for People of Determination

Ricardo Vaz

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.